quarta-feira, 19 de abril de 2017

Largo dos Caminhos de Ferro: antiga Praia dos Algarves

Onde vemos o largo em frente da fachada nobre do edifício (a do relogio) [da Estação de Santa Apolónia], era ainda então, como disse, uma pequena praia chamada dos Algarves. Convinha acabar com ella, e substituil-a pela projectada praça.1


Este Largo dos Caminhos de Ferro — recorda Norberto de Araújo —, em cuja orla superior de casario, do nosso lado esquerdo, ao norte, avulta a silhueta das «Obras de Santa Engrácia», foi terraplanado em 1865. Era até então a «Praia dos Algarves» naturalmente porque aqui chegavam as mercadorias do Sul do país. O mar recuou um pouco, mas ainda no fim do século passado [séc. XIX] estava muito mais próximo do que está hoje; a obra da construção do cais de navegação e dos entrepostos levou-lhe boa faixa, como ainda sucede, mês a mês, em Santa Apolónia, em Xabregas e Poço do Bispo.  
O que a terra tem roubado ao rio em cem anos, desde Algés ao Poço do Bispo! E o Tejo —  contente!2

Largo dos Caminhos de Ferro: antiga Praia dos Algarves [ant. 1888]
À direita, o antigo Arsenal do Exército depois Museu de Artilharia; Cais da Fundição depois Rua Teixeira Lopes (1903).
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

O Largo em frente da Estação principal da então designada Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses passou por edital de 12 de Novembro de 1880 a denominar-se Largo dos Caminhos de Ferro. Também a Rua do Cais dos Soldados pelo mesmo edital passou a ser a Rua dos Caminhos de Ferro.

Largo dos Caminhos de Ferro [c. 1900]
Ao fundo, o cais da Empreza Nacional de Navegação a Vapor para a Africa Portugueza (fund. 1871) depois Companhia Nacional de Navegação (1918); a dir. o antigo Arsenal do Exército depois Museu de Artilharia.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Este topónimo deriva da proximidade à Estação de comboios de Santa Apolónia, meio de transporte que em Portugal havia sido iniciado apenas 24 anos antes, com a viagem inaugural em 28 de Outubro de 1856, na qual o comboio baptizado D. Pedro V, partindo da Estação de Santa Apolónia ligou pela primeira vez Lisboa ao Carregado, a primeira linha de Caminho-de-ferro nacional.

Largo dos Caminhos de Ferro [Início do séc. XX]
Ao fundo, a Estação de Santa Apolónia; ardinas
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1 CASTILHO, Júlio de, A Ribeira de Lisboa, p. 123, 1893.
2 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, p. 17, 1939.

domingo, 16 de abril de 2017

Torre da Pólvora: Palácio da Cova da Moura

Como já preconizava Norberto de Araújo, em 1938, nas suas Peregrinações «a Rua da Tôrre da Pólvora que tende a desaparecer, pela urbanização que já nela começou no seu começo, esteve ligada às tradições polvoreiras de Alcântara».1 De facto, esta antiga artéria seria extinta e, mais tarde, integrada na novíssima Avenida Infante  Santo, cujo topónimo viria a ser atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Torre da Pólvora. 


Espreitemos a Rua da Torre da Pólvora - prossegue Norberto de Araújo -, urbanizada e rectificada no seu troço inicial, sob a Pampulha, há dois anos [1936]. Na parte antiga vemos, à esquerda, uns casebres decrépitos, e os restos de fornos de cal, pois muitos por aqui houve. O sítio foi chamado, no século XVI, «Lapa da Moura», em virtude da existência de uma lapa entre as pedreiras que afloram ainda na raiz das construções. De Lapa da Moura se passou a Cova da Moura, nome que esta área entre Alcântara e Pampulha ainda mantém.
A designação de Torre da Pólvora nesta serventia nasce da circunstância de, no fundo da rua, ter sido construída, de 1670 a 1696, uma torre, depósito ou paiol de pólvora defendida per seu guarda fogo, num recinto relativamente largo.

Panorâmica sobre a zona da Pampulha e a antiga Rua da Torre da Pólvora {c. 1940]
 O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Tôrre da Pólvora
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Legenda:
1 - Palácio da Cova da Moura - Prémio Valmor, 1921, (Restauro), arq,º Tertuliano Marques   2 - Rua da Torre da Pólvora (extinta e integrada na Av. Infante Santo)   3 - Rua da Cova da Moura   4 - Hospital da    CUF Infante Santo (Tv. do Castro)   5 - Prédio, de 1938, «ao estilo moderno e desafogado» referido por Norberto de Araújo nas suas «Peregrinações em   Lisboa»   6 - Dispensário de Alcântara, sito na Rua Tenente Valadim, edifício de relevância histórica, foi mandado erigir por iniciativa da Rainha Dona Amélia. Inaugurado em 1893   7 - Rua do Sacramento a Alcântara

O casarão foi depois presídio (1843), já há muito o depósito de pólvora havia desaparecido do local. Mais tarde, nas casas anexas reconstruidas e ampliadas, instalou-se o regimento de Infantaria n.° 7; ainda depois, em 1899, vários serviços de Administração Militar, e em 1928 uma Companhia de Trem Hipomóvel. É êste o bairrista quartel da Cova da Moura. (...)

Abertura da Avenida Infante Santo (Viaduto da Pampulha) [c. 1949]
Ao fundo o Palácio da Cova da Moura (jardins)
O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Torre da Pólvora.

Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Ora tornemos ao começo da Rua. Este palacete, do estilo de D. João V, à esquina da Cova da Moura, por onde tem a entrada principal, é do século passado [séc XIX]; pertencia ao Dr. João Ulrich, e foi adquirido pelo Ministério da Guerra em Agosto de 1935, para sede do Conselho Superior de Defesa Nacional e do Conselho Superior do Exército. Como contraste, olha-me este prédio, de 1938, ao estilo moderno e desafogado, e esse outro, em gaveto, estreito como uma cunha, entre as Rua e Travessa da Cova da Moura, do século passado. O urbanismo em Lisboa tem muito deste desequilíbrio estético.2

Palácio da Cova da Moura [ant. 1950]
Avenida Infante Santo
O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Torre da Pólvora.
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Em 1921, o Prémio Valmor foi o restauro do Palácio (setecentista) da Cova da Moura sito na Rua Cova da Moura; Avenida Infante Santo,; Travessa do Castro, projectado por Tertuliano Marques (1883-1942) e pertencente a João Ulrich. Até à data tinha sido o único caso de atribuição do prémio a um restauro, considerado significativo “por se desenvolver dentro de uma arquitectura tradicionalista portuguesa das mais belas”.
Apesar de ainda existir, foi profundamente modificado e acrescentado em 1950 e adaptado para ali funcionar uma dependência do Ministério da Defesa.
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Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 56, 1938.
2 idem, vol. IX, p. 13.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Teatro República, ex—Dona Amélia e futuro São Luiz

O Teatro S. Luiz tem mais história. Foi edificado em 1893 por iniciativa de Guilherme da Silveira, em terrenos cedidos pela Casa de Bragança. Era então o Teatro de D. Amélia. O risco do Teatro de D. Amélia foi de Luiz Ernesto Reynaud, com decorações de Manini e Rossi.


Fundado por Guilherme da Silveira, Celestino da Silva, António Ramos e Visconde de São Luíz de Braga, inaugurou-se em 22 de Maio de 1894 — com a presença do Rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia —, o Teatro D.Amélia. Foi apresentada a opereta de Offenbach «A Filha do Tambor-Mor», com uma sala completamente cheia. Posteriormente as maiores figuras da cena mundial, como Sarah Bernhardt Eleanora Duse, pisaram o seu palco e, com maior frequência, os inesquecíveis João e Augusto Rosa, Eduardo Brasão, Ângela Pinto e tantos outros. 

Teatro República, ex—D. Amélia e futuro São Luiz [c. 1914]
Rua António Maria Cardoso, antiga do Tesouro Velho (até 1890); 
do lado direito nota-se o (novo) Chafariz do Loreto.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1911 o teatro alterou o seu nome para «República» e, três anos mais tarde, de 13 para 14 de Setembro de 1914, ardia totalmente. Apenas foi poupada parte do «Jardim de Inverno», onde António Ramos e o Visconde de São Luís de Braga (então únicos interessados no teatro) haviam organizado uma brilhante tertúlia literária e teatral. Contudo, graças ao entusiasmo e dedicação dos seus proprietários, o grande edifício foi reconstruido e reabriu as suas portas em 16 de Janeiro de 1916 com a peça «Os Postiços», de Eduardo Schwalbach, interpretada por Augusto Rosa, Chaby, Eduardo Brasão, Ângela Pinto e Lucinda Simões.

Jardim de Inverno do Teatro São Luiz [1928]
Rua António Maria Cardoso, antiga do Tesouro Velho (até 1890)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Companhia teatral à porta do Teatro Dona Amélia,
actual Teatro Municipal de São Luis [c. 1910]

Rua António Maria Cardoso
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 Até à morte do Visconde de São Luiz de Braga, a actividade teatral foi predominante e intensa, dando lugar, depois, à opereta, sob a direcção de Armando de Vasconcelos. 
Em 7 de Abril de 1928, nova e profunda alteração sofreu o mais elegante dos teatros de Lisboa, para permitir a introdução nas suas salas do espectáculo mais em voga, da novidade desse tempo: o cinema. Depois de algumas remodelações na decoração e estruturas e no nome (passou nessa data a chamar-se «São Luiz», em homenagem ao Visconde de São Luís de Braga) estreou-se o filme «Metropolis», de Fritz Lang, dos mais caros produzidos na época: cerca de 40 mil contos.

Chegada ao Teatro de São Luiz [s.d.]
Rua António Maria Cardoso
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A partir de 1934 assumiu a direcção do «São Luiz» João Ortigão Ramos, que iniciou uma nova actividade a que associou o seu cinema — a da produção de filmes, que viria a dar origem à Tobis Portuguesa. Todavia, o teatro regressou à acolhedora sala do Chiado, quer através dos festivais de Teatro Francês, quer pela apresentação de peças como «Um Eléctrico Chamado Desejo», de Tennessee Williams, pela Companhia do Teatro Nacional, ou «António, o Marinheiro», de Bernardo Santareno, com Eunice Muñoz, ou ainda com o desconhecido «Teatro Nô», trazido pela Fundação Gulbenkian. 


Simultaneamente, eram organizados concertos com grandes orquestras e solistas nacionais e estrangeiros. Adquirido pelo Município de Lisboa, em 6 de Maio de 1971, o «São Luiz» passou a ser o primeiro teatro Municipal de Lisboa, satisfazendo os anseios expressos de numerosas camadas da sua população.

Teatro Municipal de São Luís, sala de espectáculo [c. 1955]
Rua António Maria Cardoso

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Teatro Municipal de São Luís, foyer [c. 1900]
Rua António Maria Cardoso

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No tempo do Visconde de S. Luiz de Braga o «foyer» deste Teatro — recorda Norberto de Araújo — constituía uma tertúlia de artistas e escritores, o «cercle» literário de Lisboa; a tradição intelectual perdeu-se, ou sumiu-se. É, porém, ainda hoje [1939] um Salão de elite — tornado «Cinema S. Luiz». Sim; aqui, em referência à arte nobre do teatro, pode dizer-se: «tout passe...».

Foyer do antigo teatro Dona Amélia, depois, teatro Municipal de São Luís [c. 1910]
Jantar de homenagem a Leal da Câmara-
Rua António Maria Cardoso

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 13, 1939.
Revista municipal Lisboa, pp. 61-62, 1971.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Monumento(s) a Sousa Martins

Eis-nos,  Dilecto, de novo na rua. Já agora contempla a estátua do professor e notável homem de letras, Dr. Sousa Martins, grande figura moral e cientifica de português. Êste monumento foi inaugurado em 1907, e é obra de Costa Mota. Antes, nêste lugar, havia sido elevado um outro, da autoria do escultor Aleixo Queirós Ribeiro, e que não resistiu às criticas demolidoras, acabando por ser apeado.


Em 1895, quatro anos depois de ter sido demolida a praça de touros, o planalto de Sant'Ana foi transformado num jardim, que se estende num hexágono irregular, entre o Largo do Mitelo e o Torel. Num dos extremos da praça, frente ao imponente edifício da antiga Escola Médico-Cirúrgica ergue-se o Monumento a Sousa Martins, de Costa Mota, tio, de 1907, na base do qual uma figura feminina, qual juventude estudiosa, como que escuta a lição do mestre. 

Primitivo Monumento a Sousa Martins concebido pelo escultor Aleixo Queirós Ribeiro [1907]
Campo os Mártires da Pátria, antigo Campo do Curral (séc. XVI); em segundo plano a antiga
Escola Médico-Cirúrgica em construção.
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

 
 
 Primitivo Monumento a Sousa Martins concebido pelo escultor Aleixo Queirós Ribeiro [1907]
Campo os Mártires da Pátria, antigo Campo do Curral (séc. XVI)
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente
(clicar para ampliar)




Esta obra veio substituir o primitivo monumento concebido pelo escultor Aleixo Queirós Ribeiro, muito criticado por representar o notável homem de letra sentado numa vulgar cadeira.
José Tomás de Sousa Martins (1843-1897), foi um distinto médico, cientista, investigador, professor e escritor da segunda metade do séc. XIX. A sua atitude humanista de não receber honorários dos mais desfavorecidos valeu-lhe o epíteto de «Pai dos Pobres», a ponto de ter sido alvo de verdadeiro culto popular, após o seu desaparecimento, culto esse, que ainda hoje se mantém.

Construção do Monumento a Sousa Martins concebido pelo escultor Costa Mota (tio) [c. 1907]
Campo os Mártires da Pátria, antigo Campo do Curral (séc. XVI)
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Monumento a Sousa Martins concebido pelo escultor Costa Mota (tio) [post. 1907]
Campo os Mártires da Pátria, antigo Campo do Curral (séc. XVI)
Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 34, 1938.

domingo, 9 de abril de 2017

Rua de São João da Praça, antigo Largo do Marquês de Angeja

Encontramo-nos no sítio que foi domínio do Marquês de Angeja —  diz Norberto de Araújo —, precisamente na antiga Rua do Tem-te-lâ, assim chamada até ao Terramoto, hoje prolongamento de S. João da Praça. Este pequeno largo natural foi até há pouco o Largo Marquês de Angeja, defronte do Beco da mesma designação, ainda subsistente. A clarabóia ao centro desse pequeno largo dá para uma das áreas ou nascentes do Chafariz de El-Rei, dependente hoje da Companhia das Águas.

Rua de São João da Praça [1944]
Antigo Largo do Marquês de Angeja
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia 

ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 41, 1939.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Calçada de Santo Amaro

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo, este topónimo está ligado ao culto de «Santo Amaro, bispo e abade, advogado dos braços e pernas partidas», vai um pouco esquecido; o seu culto, que principiou por ser dos naturais da Galiza, tornara-se alfacinha, mas os lisboetas já o perderam de vista.


Ainda segundo o mesmo autor «a Calçada de Santo Amaro, essa é a mais antiga artéria do sítio, a findar na Travessa dos Moinhos; (...)
À esquina da Calçada de Santo Amaro, junto às Escadinhas [1ª foto], aí tens esse enorme casarão — hoje [1939] todo de azul — com dois corpos altos divididos por um pátio, e ainda mostrando jardins, restos de melhor tempo. A primeira casa neste sitio foi erguida cerca de 1716 por D. José Saldanha em terrenos que eram do Morgado deste titulo. [...]

Calçada de Santo Amaro |c. 1939|
Escadinhas de Santo Amaro; palácio Saldanha
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Neste palácio habitaram em 1868 o Duque de Montpensier, filho do Rei Luiz Filipe, e sua filha D. Mercedes, que foi depois Rainha de Espanha (primeira mulher de Afonso XII).
Este palácio que dos nobres, primeiros moradores, passou à burguesia industrial, teve tradições artísticas, um ambiente característico de Lisboa de oitocentos [...]

Calçada de Santo Amaro !1944|
Junto à Capela de Santo Amaro; fontanário
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Dos séculos XVI ao XIX — relembra Norberto de Araújo — desde a linha de Alcântara ao Alto de Santo Amaro — era um mundo de romeiros.
Pois, Dilecto, subamos as Escadinhas a caminho da velha e curiosíssima Igreja de Santo Amaro.(...)
Este adro, esta ladeira, este eirado que vês, as escadinhas com o seu pitoresco natural, eram lugar concorrido e festeiro em dia de Santo Amaro, prolongando-se a romaria de 15 de Janeiro a 2 de Fevereiro; o templo regurgitava de fiéis e as cercanias enchiam-se de foliões.
Era a romaria «dos pinhões» — grandes molhadas dêles em enfiadas fazendo colares —, a festa dos «galegos», muito devotos de Santo Amaro, com suas gaitas de foles, pandeiros, zabumbas, com uma alegria que extravasava de Alcântara ao cabo da Junqueira. A última festa desta natureza — aliás uma pálida sombra do que fora há um século — realizou-se em 1930.==

Calçada de Santo Amaro |c. 1903|
Vendedores ambulantes junto à Capela de Santo Amaro por alturas da Romaria de Santo Amaro ou «dos Pinhões».
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 43-46, 1939.
ARAÚJO, Norberto de,  Legendas de Lisboa, p. 113, 1943.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Palacete dos Navegantes, Casa de José Luciano de Castro

Nestas Ruas da Bela Vista e dos Navegantes, os prédios urbanos levam, em regra, 65 e 75 anos [o autor escreve em 1938]; alguns  remontarão  ao principio do século passado e só um outro, já desfigurado, ao final do século de setecentos. O magnifico palacete, construido pelo Conselheiro José Luciano de Castro na Rua dos Navegantes, com fundos de jardins, é do final do século passado.


Foi Aquilino Ribeiro a voz que mais se insurgiu, nos anos 50, contra a demolição (em 1956) deste palácio histórico, mandado edificar pelo Conselheiro José Luciano de Castro em 1890, no local onde se situara o antigo Palácio Sarmento, destruído por um incêndio em 1869. O palácio foi invadido pelo povo em 6 de Outubro de 1910. O velho político, apesar de muito doente, defrontou-se nobremente com os invasores.

Palácio dos Navegantes |ant. 1956|
Casa de José Luciano de Castro
Rua dos Navegantes
, 48; Rua de Buenos Aires
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Panorâmica de Lisboa tomada do zimbório da Basílica da Estrela |1904|
Palácio dos Navegantes
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda (clicar para ampliar):
 Edifícios/Monumentos:
1 — Palacete dos Navegantes; 2 — Igreja de Santos-o-Velho;  3 - Ermida do Senhor Jesus dos Navegantes
Arruamentos:
A — Travessa do . Pinheiro  B — Rua da Bela Vista à Lapa

José Luciano de Castro [1834-1914] foi um dos políticos mais representativos do liberalismo constitucional português. Estadista e jurisconsulto, chefe do partido progressista. Bacharel formado em Direito pela Universidade de Coimbra; advogado e jornalista. Antigo deputado da Nação, ministro de Estado honorário; do conselho de S. M.; par do reino; antigo presidente do Conselho de Ministros; conselheiro de Estado; ex-director geral dos Próprios Nacionais; vogal efectivo aposentado do Supremo Tribunal Administrativo; Governador da Companhia Geral de Crédito Predial Português, reeleito várias vezes.

Palácio dos Navegantes, 48 |ant. 1956|
Casa de José Luciano de Castro
Rua dos Navegantes; Rua de Buenos Aires
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Palácio dos Navegantes, 48, fachada para os jardins [ant. 1956]
Casa de José Luciano de Castro
Rua dos Navegantes; Rua de Buenos Aires
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, 1938.
arqnet.pt; Marina Tavares Dias.

domingo, 2 de abril de 2017

Travessa das Freiras a Arroios

Em 1910, esta Travessa das Freiras a Arroios — era ainda parte da Azinhaga das Freiras — e foi aqui, junto a uma antiga capela, que  foi encontrado o corpo do Almirante Cândido dos Reis, como relembra o olisipógrafo Norberto de Araújo nas suas Peregrinações:
«Já agora deixa-me lembrar-te que foi numa «Azinhaga das Freiras» que existiu nesta Rua Alves Torgo, na qual se abriu há anos uma rua — travessa nova, que em 4 de Outubro de 1910 se suicidou, convencido de que o movimento revolucionário republicano ia falhar, que um dos seus organizadores, homem íntegro e sincero, o Almirante Cândido dos Reis.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, p. 85)

Esta Travessa ganhou o seu topónimo pela proximidade à antiga Azinhaga das Freiras (talvez lembrando as religiosas que passaram pelo Convento de Arroios), que antes já fora a Azinhaga do Leão, e hoje o espaço dessa Azinhaga é o das Ruas Alves Torgo e Quirino da Fonseca.(cm-lisboa.pt)

Vista aérea da Alameda Dom Afonso Henriques [c. 1935]
 Legenda:
1 - Travessa das Freiras a Arroios, vendo-se o antigo  Colégio Vasco da Gama, hoje extinto e substituído pelo Colégio do Sagrado Coração de Maria, fundado em 1941 e a  Capela da Azinhaga das Freiras; 2 - Rua Quirino da Fonseca, antiga Estr. de Sacavém; 3 - Av. Manuel da Maia e Instituto Superior Técnico; 4 - Alameda Dom Afonso Henriques.
Pinheiro Corrêa, in Lisboa de Antigamente

À laia de curiosidade, refira-se que cerca de 1900, encostado a um muro da antiga Azinhaga das Freiras, hoje travessa, encontrava-se um modesto estabelecimento conhecido pela «Tasca do Barão do Nabo».
As carroças que então encravam na cidade. estacionavam por ali, aguardando a hora da abertura das portas e, ao alvorecer, os condutores desses transportes de hortaliça, cm que predominava o nabo, entravam na loja e tomavam uma caneca de café, de dois decilitros e meio, por dez réis, um quarto de pão simples por igual quantia, acrescida de vinte réis, se levava manteiga, e um cálice de aguardente, por dez réis.

Azinhaga das Freiras a Arroios [1911]
Local onde se suicidou Cândido dos Reis; capela
Joshua  Benoliel, in Lisboa de Antigamente

"Três tiros de canhão dariam o sinal a todos os revolucionários, civis e militares. Cândido dos Reis esperava-os no Cais da Viscondessa. (...) Ouviu o primeiro e esperou longo tempo o segundo. Minutos de extrema ansiedade, em que lhe apareceram em tropel o receio do malogro e o sentimento das maiores responsabilidades (...) Chegam dois oficiais, que o enchem de pavor com a notícia de que não há movimento algum a bordo, e que está eminente uma traição! (...) Que se passou nesse momento crudelíssimo? Sabe-se que ele esteve em casa de suas irmãs, em Arroios completamente desalentado, absorto num isolamento e silêncio trágico. Saiu, e pouco depois, ao romper da manhã, estava morto numa azinhaga [das Freiras] próximo da casa [das suas irmãs que residiam naquela zona] em que se refugiara alguns momentos." 
(5 de Outubro - 80 anos,, A Memória de Relvas, Pelouro da Cultura CML, 1990)

Azinhaga das Freiras a Arroios [1911]
Lápide colocada no local onde foi encontrado morto o almirante Cândido dos Reis
Joshua  Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Capela da Azinhaga das Freiras a Arroios [s.d.]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
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