Wednesday, 5 August 2015

Travessa da Boa-Hora, ao Bairro Alto

Esta artéria do seiscentista Bairro Alto de S. Roque, conforme conta Luís Pastor de Macedo («Lisboa de Lés-a-Lés»), «Nos meados do século XVI, esta (com mais probabilidades) ou a Travessa da Água-da- Flor seria a 'traveça q vay da portaria de san roq pª a rua d'atalaia'. Em 1649 aparece pela primeira vez a Travessa da Boa-Hora e o Sítio de Nossa Senhora da Boa-Hora (...) Depois, até hoje, a travessa manteve sempre o mesmo nome.» 

Travessa da Boa-Hora com a Rua da Atalaia [c. 1900]
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 4 August 2015

Rua Saraiva de Carvalho, 242-246

O edifício situado no gaveto da Rua Saraiva de Carvalho com a Rua Ferreira Borges, em Campo de Ourique, foi o primeiro prédio de rendimento desenhado, em Lisboa, por Ernesto Korrodi. Propriedade de João Leal e irmãos, o conhecido edifício da pastelaria «A Tentadora» foi concebido em 1912, integrando-se na nova tendência que então se fazia sentir em Lisboa, onde as mais recentes casas de habitação procuravam adaptar-se à vida moderna.
Das três fachadas, destaca-se a de gaveto, sobre a qual se projecta uma bow-window de cantaria, com um painel de azulejos Arte Nova entre as janelas do primeiro e segundo piso. A composição de cantaria engloba as janelas que ladeiam a porta principal, em aparelho rusticado, e prolonga-se até ao corpo que se eleva já sobre a linha do telhado. Todos os vãos são decorados por elementos florais, que realçam as formas estruturais geométricas, integrando-se no desenho de conjunto. O mesmo acontece relativamente às fachadas laterais, com janelas e portas de molduras profusamente decoradas, tal como as mísulas que suportam a cimalha.
Apesar da depuração, este é uma dos prédios de Korrodi que apresenta maior ornamentação, regendo-se, esta, pela linguagem Arte Nova, naturalista e de linhas curvas, cuja influência se propaga até ao próprio desenho dos vãos, parte dos quais de traçado mais orgânico. A qualidade da escultura e a sua integração no todo arquitectónico constituem uma das mais importantes marcas de Korrodi que, neste prédio, atinge uma expressão maior. [in DGPC]

Rua Saraiva de Carvalho, 242-246, [1941]
Prédio de «A Tentadora»
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Largo de Santa Bárbara

Era [para] os lados de Arroios, adiante do Largo de Santa Bárbara; lembrava-se vagamente que havia ali uma correnteza de casas velhas... [...] num terceiro andar [...]
«[Luísa] para não parar à porta do Paraíso com espalhafato de tipóia, apeava-se ao Largo de Santa Bárbara; e fazendo-se pequenina, cosida com a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso de prazer.
(in Eça de Queirós, O Primo Basílio, 1878)

Largo de Santa Bárbara [c. 1900]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Monday, 3 August 2015

Elevador Estrela-Camões (actualizado)

«A Morte do Maximbombo». Era este o título da Ilustração Portuguesa revista semanal editada pelo jornal O Século em 14 de Julho de 1913 — que pode ser lida na íntegra aqui — e continuava: «Morreu o Maximbombo da Estrela! Há mais tempo ele se tivesse  sumido, o monstrengo, para dar logar a coisa mais moderna, mais decente. Aquilo era mesmo um monstrengo: pesado, incomodo, infecto e amaldiçoado como um assassino.»

Elevador Estrela-Camões  [1913]
Calçada do Combro; Igreja de Santa Catarina
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O engenheiro Mesnier du Ponsard ganhou a concessão do troço do Camões – Estrela – Rua de São João dos Bem-Casados [actual Rua Silva Carvalho] em 1882, mas acabou por passá-la para a Companhia dos Elevadores. Em 14 de Agosto de 1890 entrou em funcionamento a linha do Camões à Estrela, a cargo da Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, a mesma mas com novo nome desde 23 de Outubro de 1884.
Era um sistema de transporte público de passageiros em carros fraccionados por cabo sem-fim subterrâneo, rodando sobre carris-ranhura encastrados na via pública.

Elevador Estrela-Camões  [1913]
Rua dos Poiais de S. Bento junto à Travessa do Oleiro
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Elevador Estrela-Camões [ant. 1913]
Calçada do Estrela
Elevador da Estrela com reboque, passando pela A.R.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Este elevador fora projectado com um troço mais longo, mas nunca foi completado, tendo funcionado somente entre o Camões e a Estrela até 1913. O arrastado machimbombo — como era  popularmente apodado — que aqui e lá, para mudar de direcção, rodava sobre placas giratórias, A Carris tomou conta daquilo tudo e instalou o eléctrico, tal como absorveu os elevadores da Bica, da Glória, do Lavra e Santa Justa, fazendo uma  desaparecer o da Biblioteca, que subia de S. Julião, poupando as canseiras da Calçada de S. Francisco, uma vez que o eléctrico passava por lá.
Os seus carros foram vendidos para barracas de banhos, para barracas de feiras e para casas de guarda no campo.

Elevador Estrela-Camões [c. 19--]
Praça de Luís de Camões; Igreja de N. S. da Encarnação
José Chaves Cruzl, in Lisboa de Antigamente
Elevador Estrela-Camões [1913]
Praça de Luís de Camões
O Ascensor da Estrela dando a volta na raquette da Praça Luís de Camões.
Joshua Benoliel, in Ilustração Portuguesa
Elevador Estrela-Camões [1913]
Praça da Estrela
Voltado à força de braços para mudar de linha.
Joshua Benoliel, in Ilustração Portuguesa

Sunday, 2 August 2015

Ermida de São Jerónimo

Edificada em 1514, dentro dos terrenos da cerca do Mosteiro de Santa Maria de Belém, foi concebida por Boitaca e concluída por Rodrigo Afonso. De planta quadrada, o corpo da capela é rematado superiormente por grosso cordão e pináculos torsos, com gárgulas nos cantos. Os cunhais estão reforçados por quatro gigantes com função estrutural, que apoiam a sustentação da cobertura, em abóbada polinervada, e dos panos murários. 

 Ermida de São Jerónimo |1905|
Avenida do Restelo
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A porta principal apresenta, na molduração, diversa emblemática manuelina. No interior destaca-se o arco triunfal polilobado, com decoração vegetalista, dando acesso à capela-mor, um corpo mais pequeno e baixo, igualmente quadrangular. Esta mesma capela-mor já teve três altares, recobertos de azulejos sevilhanos quinhentistas; aquele que existe actualmente é já do século XX, e nele foram usados azulejos originais. A Capela tem sido restaurada ao longo dos séculos, sendo o restauro mais recente aquele que foi feito a par das grandes obras levadas a cabo no final do séc. XIX no Mosteiro dos Jerónimos, como prova a inscrição gravada sobre a pequena porta lateral: restaurada em 1886. Esteve sepultado nesta capela Pina Manique, (1733-1805), fundador da Casa Pia de Lisboa. [in DGPC]

 Ermida de São Jerónimo |1945|
Avenida do Restelo
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Lojas de Antanho: Casa Verol

Casa Verol & Cª, livraria e papelaria, fundada em 1836.
Inscrição na montra: «Casa do Militar à Porta», não se vá dar o caso do incauto transeunte não reparar no boneco em tamanho real exposto na vitrina.
 
Casa Verol |c. 1910|
Rua Augusta, 134-136
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 1 August 2015

Palácio Barbacena, a Santa Clara

O Palácio Barbacena, no Campo de Santa Clara, na esquina Poente da Rua da Verónica, é uma construção nobre do final da primeira metade do século XVIII, cujo risco se deve a Manuel da Costa Negreiros, arquitecto da Casa do lnfantado, falecido em 1750. Mandou-o levantar Luís Xavier Furtado de Mendonça, 4.º Visconde de Barbacena, descendente de Leitão Vaz de Castro, rico homem, a cujo filho primogénito, D. Diogo, 1.º Senhor de Barbacena, doou a D. Sebastião a quinta e solar do Rio, a Sacavém, o que originou o apelido Castro do Rio; um seu filho casou com uma senhora da casa dos Furtados de Mendonça, e desta circunstância derivou a junção dos apelidos.

Palácio Barbacena [c. 1900]
Campo de Santa Clara;
; Rua da Verónica; Mercado de Santa Clara
A Fachada Principal, muito decorativa, sobre o Campo de Santa Clara, constituída por um corpo central, com portal, andar nobre com duas janelas de varandas e quatro de peitos, e andar superior de sete janelas, e por corpos laterais, rasgados cada um por uma janela em cada andar e rematados por ventanas.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

O 1.º Visconde de Barbacena foi (1661) D. Afonso Furtado do Mendonça, e o último, 7.º Visconde e 2.º Conde, Francisco Furtado Castro do Rio de Mendonça e Faro, falecido no palácio de Santa Clara em 1854, extinguindo-se então a família. A propriedade passou a parentes muito afastados, fidalgos das Ilhas, e, anos depois, foi o palácio a leilão, sendo adquirido pelo Estado, com o produto da venda do Palácio da Mitra a Marvila (1864), com destino a palácio residencial dos prelados de Lisboa, ficando desde então conhecido por «Palácio da Mitra» — denominação esta menos própria e que ainda perdura. Habitou nele, transitoriamente, o 10.º Patriarca D. Manuel Bento Rodrigues, pois os prelados, até 1910, residiram nos Paços de S. Vicente.

Palácio Barbacena [1900]
Campo de Santa Clara esquina com a Rua da Verónica
A Fachada Nascente, sobre a Rua da Verónica, com duas ordens de oito janela divididas por três corpos, com a mesma uniformidade e tipo das janelas da fachada principal. e todas também coroadas de ática.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

No final do século passado [XIX] o palácio, que fora entregue ao Ministério da Guerra, serviu algum tempo de hospital militar de emergência, e, já no actual século, instalou-se nele a Manutenção Militar e a «Messe» dos Oficiais do Exército (1926), que ainda o ocupa.

Palácio Barbacena [1959]
Campo de Santa Clara
; Rua da Verónica
No intervalo das duas varandas centrais do andar nobre avulta o brasão 
dos Barbacenas, com as armas dos Castros do Rio, duas faixas de água ondeada 
entre nove arruelas, e o dos Mendonças, franchado com a legenda «Ave Maria».
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No interior, inteiramente desfigurado em relação ao que teria sido, destaca-se o Vestíbulo, revestido de silhares de azulejos setecentistas, monocromos, em painéis soltos, de tipo palaciano, e, ao fundo, com portal emoldurado abrindo para a escadaria com azulejos decorativos e alguns de figuras recortadas «de cumprimento» nos dois patamares, e com bons painéis revestindo as paredes cm todos os lanços (princípios do século XVIII).

Palácio Barbacena [1946]
Campo de Santa Clara; Rua da Verónica
Painel de azulejos com figura recortada «de cumprimento» ou «de convite».
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1946.

Bairro Grandella

Foi na antiga Quinta dos Loureiros que Francisco Grandella edificou a fábrica com o seu nome e ao mesmo tempo uma vila para alojar os empregados. com um total de 86 fogos, foi construído a partir de 1902. Em posição de destaque, os dois edifícios com fachadas de templo grego, onde Grandella mandou instalar a creche e a escola primária para a crianças do Bairro.
Este bairro operário tem uma frente superior a 80m, virada para a Estrada de Benfica, com duas fachadas em forma de pórticos neoclássicos, que rematam dois quarteirões com cerca de 90m de profundidade. As ruas exteriores destinavam-se às famílias dos empregados dos escalões mais baixos, enquanto que o acesso aos fogos dos empregados dos escalões mais elevados era feito a partir da rua central.

Junto à Estrada de Benfica, abrangendo as Ruas de Sta. Matilde, do Dr. Gregório, R. Fernandes e a Av. dos Empregados dos Armazéns do Grandella [c. 1910]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Esta configuração urbana assenta em memórias materiais e espirituais integradas no ideário de socialismo utópico, pela preocupação evidente com o bem-estar dos empregados. Incorpora também expressões de cariz maçónico, como bem expressam as fachadas, quer por símbolos, quer nomeadamente pelo lema -- Sempre por Bom Caminho e Segue --. Também por isso, o conjunto, apesar de ter sofrido, ao longo do tempo, alguma descaracterização em relação ao projecto inicial, foi classificado, em 1984, como Imóvel de Interesse Público.  
(fonte(s): igespar.pt; marcasdasciencias.fc.ul.pt)

Junto à Estrada de Benfica, abrangendo as Ruas de Sta. Matilde, do Dr. Gregório, R. Fernandes e a Av. dos Empregados dos Armazéns do Grandella [c. 1910]
Festejos de Santo António e São João
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
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