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Friday, 27 June 2025

Palácio de São Bento: Estátua de José Estêvão Coelho de Magalhães

Inaugurada em 1876 no então designado Largo das Cortes — até à construção da escadaria monumental na década de 1930 — esteve posteriormente implantada no Vestíbulo do Palácio de São Bento, tendo sido reinaugurada, em 15 de Outubro de 1984, no jardim da Praça de São Bento. A estátua de corpo inteiro e cadeira fundidas em bronze e modeladas, em 1870, por Vítor Bastos, assentam sobre uma base de pedra.
  
Estátua de José Estêvão Coelho de Magalhães |Início séc. XX|
Palácio de São Bento, antigo Largo das Cortes
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

N.B. José Estêvão Coelho de Magalhães (1809-1862), destacou-se pela sua contínua luta a favor da liberdade, denominador comum que moveu tanto a sua carreira como a sua vida. Foi soldado, jornalista, professor da Escola Politécnica, advogado, político, parlamentar e grande orador, tendo ficado célebres os seus empolgantes discursos parlamentares, em particular as suas discussões com Almeida Garrett. Em sua homenagem, a Câmara Municipal de Lisboa consagrou-lhe uma rua com o nome de José Estêvão, pelo qual ele era mais conhecido.

Palácio de São Bento, galilé escadaria monumental |1938-11-08|
Rua de S. Bento
A fachada principal, remodelada durante a primeira metade do século XX, projecto do arqº Ventura Terra.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 4 August 2024

Praça do Duque de Saldanha: Avenidas Novas

Com esta bela Praça do Duque de Saldanha, que data da última década do século passado [XIX], se deu testa à grande artéria mãe das Avenidas Novas, em correspondência paisagista com a Praça Mousinho de Albuquerque, que vimos já, no começo do Parque do Campo 28 de Maio (Campo Grande). 

Na praça em rotunda, estrela de cinco pontas — diz Norberto de Araújo, a quem vamos sempre seguindo — , confluem as Avenidas Fontes Pereira de. Melo, Casal Ribeiro e Praia da Vitória, estas duas já deste século- e da República e confluirá dentro de um ano a Rua António Enes, que se está prolongando já através de um talhão da da muito velha Rua das Picôas. Desaparecerá esse oitocentista Palácio, a sudoeste, que foi da Condessa de Camarido [depois Cine Teatro Monumental - 1ª imagem à esq.].¹

Praça Duque de Saldanha e Av. da República |194-|
À esq. nota-se o muro do Palácio Camarido demolido para dar lugar ao Cine Teatro Monumental
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

 

Avenida de Fontes Pereira de Melo termina na rotunda da Praça do Duque de Saldanha, cercada de heterogéneas edificações, e a meio da qual se ergue o monumento ao Duque de Saldanha. A pedra fundamental do monumento, cuja parte escultural é de Tomás Costa e a arquitectónica de Ventura Terra, foi lançada em 1904, tendo-se inaugurado em 1909. A estátua, que representa o marechal de pé, com a mão direita apontando na direcção do S., assenta sobre um pedestal dórico de base quadrangular flanqueado de colunas com capitéis canelados. À frente da estátua, na base, a figura alegórica da Vitória, de bronze, nas outras faces panóplias ornamentais pendem da boca de leões, tudo de bronze.²

Praça Duque de Saldanha e Av. Fontes Pereira de Melo |1952|
Em cartaz no Cine-Teatro Monumental o filme "A Paz Voltou à Cidade" com a participação de  Gary Cooper - no original "Dallas" - e a peça de teatro "Lisboa Nova" com a actriz Laura Alves, ambos estreados em 1952.
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto d, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 79-80, 1939.
² PROENÇA, Raul, Guia de Portugal, Generalidades: Lisboa e arredores, Biblioteca Nacional, 1924.

Sunday, 21 April 2024

Hotel Aviz (Palacete Silva Graça)

Já agora, anotemos o luxuoso Hotel Aviz, que se contém no quarteirão que segue para Sul — sugere o ilustre Norberto de Araújo.

Foi aqui o palacete que o director de «O Século», José Joaquim da Silva Graça, fez levantar em 1904 (desenhado para habitação pelo arq.º Ventura Terra), para sua moradia particular. Em 1919 José Rugeroni, genro de Silva Graça, adquiriu este palacete ao mesmo tempo que comprava «O Século»; em 1931 decidiu José Rugeroni converter o palacete, com seus jardins e anexos, num hotel de luxo.
O edifício foi então radicalmente transformado, segundo a orientação do seu proprietário, com o qual colaborou o arquitecto Vasco Regaleira
O Hotel, cujo levantamento só foi possível com o auxilio financeiro da Caixa Geral de Depósitos, foi inaugurado em 24 de Outubro de 1933.


Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
Av. Cinco de Outubro com a Av. Fontes Pereira de Melo
Na fachada destaque para a enorme águia de asas abertas.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
 O palacete do antigo jornalista Silva Graça situava-se entre as ruas de Tomás Ribeiro,
Viriato, Latino Coelho e Avenida de Fontes Pereira de Melo.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

O Hotel está recamado de arte na construção e decoração de sentido histórico no seu ambiente; é possível que pareça pretensioso, mas resultou bem o risco, até pela solução de vários problemas, nos quais a intenção e o bom gosto se poderiam chocar.

Um «hall» vistoso introduz num salão «Renascença» — grande vestíbulo — no qual se vê, à direita, um fogão, tipo de lareira portuguesa, com ricas colunas de madeira lavrada, peça que adveio da Vila de Santo António, à Junqueira, que pertenceu aos Burnays; sobre ele se colocou um brasão da Casa de Aviz. Do lado oposta vê-se um belo armário « Renascença», exemplar seiscentista que estava no Convento das Trinas; anota aquela formosa porta monumental ao fundo, e a balaustrada de ferrageria portuguesa antiga, peça que pertenceu à capela do Convento de Sacavém. Evidentemente todos estes exemplares beneficiaram de restauro. As sobreportas ostentam as armas e as divisas dos infantes da Ínclita Geração.

Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
 Vestíbulo no qual se vê, à direita, um fogão, tipo de lareira portuguesa e balaustrada de ferrageria portuguesa antiga.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
 Salão «Renascença».
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

A Sala de Leitura, com mobiliário de estilo alentejanos, o «bar», no qual se notam baixos relevos históricos de Diogo de Macedo, e um sentido original no mobiliário, os terraços decorados com azulejos de tipo hispano- -árabe - definem já o « carácter e a fisionomia do Hotel.
As dependências e quartos, no primeiro pavimento, designam-se por «Suites», ou melhor — por correntezas — , que tomaram os nomes dos reis e príncipes da Casa de Aviz: D. João I, D. Filipa de Lencastre, D. Duarte, D. Pedro «Regente», Infante D. Henrique, Infante Santo e Infante D. João. As guarnições interiores dos aposentos são ricas, como arte aplicada. 
A Sala de Jantar situa-se no primeiro pavimento, abrindo dos jardins; há que destacar nela um grande painel de azulejos (Leopoldo Batistini) que reproduz uma das tapeçarias portuguesas de Pastraña (Espanha), além de outras decorações artísticas, de sentido histórico e etnográfico.
 
Como viste, o Hotel Aviz não está mal; este, e o Palace do Bussaco, constituem os dois únicos espécimes de hotel de luxo em Portugal.¹

Palacete Silva Graça depois Hotel Aviz  |c. 1905|
Perspectiva tirada do cruzamento da Av. Cinco de Outubro com a Rua Pinheiro Chagas na direcção da Av. Fontes Pereira de Melo. Do lado esq. nota-se o muro da Casa-Museu Doutor Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Palacete Silva Graça depois Hotel Aviz |c. 1908|
Perspectiva sobre os jardins do Palacete Silva Graça vendo-se a Av. Cinco de Outubro à dir. e a Rua Viriato à à esq...
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. O quarto número 72, com uma casa de banho extraordinária, ficou conhecido pelo Quarto Eva Perón; noutras épocas recebeu também Cecil B. DeMille. Além destes, passaram por lá Mastroianni, Sinatra, Ava Gardner, Maria Callas e outros. Calouste Gulbenkian viveu e morreu neste Hotel.
Durante a Grande Guerra também espiões alemães foram frequentemente instalados no Aviz, como o famoso Dusko Popov, e membros de famílias reais, como Humberto II de Itália, o futuro rei Juan Carlos de Espanha e o ex-rei da Roménia, Carol. Este último tinha abdicado do trono romeno sob pressão alemã, em 1940. Como estava sempre a ser seguido por membros da Gestapo durante a sua estadia no Aviz, nunca deixou o hotel antes de se mudar para a Casa Mar e Sol, no Estoril.
Hotel Aviz foi também o local do lendário jantar do duque de Windsor − antigo rei Eduardo VIII de Inglaterra − e da sua esposa Wallis Simpson. O jantar teve lugar a 30 de Julho de 1940, no dia anterior à sua partida a bordo do Excalibur para as Bahamas, onde lhe foi atribuído o cargo de governador por Winston Churchill. Os serviços secretos alemães planeavam raptar o duque, que simpatizava fortemente com a Alemanha nazi, nessa mesma noite. Mas os serviços secretos britânicos descobriram a Operação Willi e a trama nazi falhou.²
Demolido em 1962 erguem.se no seu lugar o “Edifício Aviz e o “Hotel Sheraton”.
_________________________________________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 81-82, 1939.
² LANGENS, Joke, Lisboa em 10 Histórias, 2022.

Sunday, 5 February 2023

Sítio do Vale de Pereiro

Em cima — refere Norberto de Araújo — corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 38, 1939)

A primitiva Rua  do abarracamento de Vale de Pereiro (1859) que hoje liga as Ruas Alexandre Herculano e do Salitre, passava a S. do Parque do Parque Eduardo VII (onde hoje se encontra a Praça Marquês de Pombal), e findava no Largo de Andaluz/São Sebastião da Pedreira (vd. mapa abaixo). 

Rua do Vale de Pereiro |c. 1903|
Demolição do muro do antigo Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2); o troço que se vê na imagem corresponde actualmente à Rua Braamcamp (1887) rasgada na viragem do séc. XX; ao fundo, à direita, a «Casa Ventura Terra, Prémio Valmor de 1903» sita na Rua Alexandre Herculano, 57.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nesta rua que foi "do abarracamento" de Vale do Pereiro — diz o olisipógrafo Matos Sequeira — , em frente do quartel, ficava em 1819 a afamada Casa de Pasto do Freixo, uma das hortas mais concorridas pela boémia popular desse tempo e, é de crer, pela tropa que transbordava do quartel.

Carta topográfica de 1888 [fragmento]
Legenda:
A vermelho a Rua do Vale de Pereiro
A amarelo a Rua Braamcamp
A verde a Rua Alexandre Herculano
A azul Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2)
in Lisboa de Antigamente

Sunday, 15 January 2023

Sinagoga Shaaré Tikva (Portas da Esperança)

A sinagoga Shaaré Tikvá (“Portas da Esperança"), na Rua Alexandre Herculano, abrira em 1904 longe da vista pública, porque a Carta Constitucional proibia templos não-católicos. Desde Outubro de 1910, com a República laica, o gregarismo hebraico tendeu a aumentar, embora a aprovação dos estatutos da CIL , submetidos ao Parlamento em Junho de 1911, levasse quase um ano, até Maio de 1912. Vigorava já a Lei da Separação das Igrejas do Estado (1911) e proclamara-se a liberdade dos cultos. [Edeline: 2002]


Existiam em Lisboa, desde 1810, várias casas de oração, mas dificilmente reuniam as condições necessárias ao culto, pois situavam-se em modestos andares. Assim apesar das dificuldades ocasionadas pela falta de reconhecimento oficial, a Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) consegue comprar, em nome de particulares, um terreno para a construção de um edifício de raiz, próprio e condigno.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra, Prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O projecto da sinagoga foi da autoria de um dos maiores arquitectos da época, Miguel Ventura Terra. Situada no n.º 59 da Rua Alexandre Herculano, teve de ser construída dentro de um quintal murado (contigua à Casa Ventura Terra, atelier do arquitecto), dado que não era permitida a construção com fachada para a via pública de um templo que não fosse de religião católica, então religião oficial do estado.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra, prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Lançada a Primeira Pedra em 1902, a Sinagoga Shaaré Tikvá é finalmente inaugurada em 1904, culminando um esforço de mais de 50 anos dos judeus de Lisboa.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra,
Prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 20 June 2021

Banco de Lisboa & Açores

O Banco de Lisboa & Açores, que temos à vista, é na sua fachada o mais imponente edifício moderno da Baixa; não é obra trivial — risco de Ventura Terra — , com suas quatro colunas, nas quais, acima de placas de mármore , assentam cabeças de leão; três largas varandas, muito decorativas, sobre pianhas em concha regular, enobrecem a frontaria.

Banco de Lisboa & Açores |12 de Maio de 1911|
Rua Áurea, 82-92
Ornamentações por ocasião do IV Congresso Internacional de Turismo de Lisboa.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O Banco Lisboa & Açores foi fundado em 1875, e transferiu-se para este local, deixando a sua sede na Rua do Comércio (passada ao Banco de Portugal) em 1907; o edifício novo fora concluído em 1906.

O vastíssimo hall, circular é precedido de um pequeno vestíbulo com pinturas e pormenores de arte; toda a construção, na parte aberta ao público, é nobre de materiais.

Banco de Lisboa e Açores |1928|
Rua Áurea, 82-92 (N→S)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. No período de 1968-1969, além da sede, em Lisboa, e de filiais no Funchal, Ponta Delgada e no Porto, o banco possuía 14 dependências e 29 agências espalhadas pelo País.
Entretanto, na sequência da tendência crescente de concentração de capitais e de fusão de instituições, constituindo organismos mais sólidos e credíveis, também o Banco Lisboa & Açores negociou a sua integração com o recém-criado Banco Totta-Aliança. A Portaria de 14 de Novembro de 1969 autorizou a fusão dos dois bancos, ficando a nova instituição com a denominação de Banco Totta & Açores, entidade que iniciou funções a 01 de Janeiro de 1970.

Banco de Lisboa & Açores |c. 1900|
Fachada sobre a Rua dos Sapateiros, 21
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 55, 1939.

Friday, 22 May 2020

Avenida da República, 45

Moradia construída em 1905 e apeada no final da década de 1960 e inicio da década de 1970, altura em que ocorreram boa parte das demolições de edifícios erguidos no principio do século XX na então denominada Avenida Ressano Garcia. Na esquina diametralmente oposta encontra-se o Palacete Valmor, risco do arqº. Ventura Terra galardoado com o Prémio Valmor de 1906.

Avenida da República, 45 |1964|
Gaveto com a Avenida Visconde Valmor. demolida.
João Goulart, 
in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 18 September 2019

Colégio Valsassina / Palácio Lousã

À época — por volta dos anos 30 do século passado — existiam em Lisboa vários locais onde os filhos de gente abastada estudavam: o Colégio Vasco da Gama, que viria da Travessa das Freiras a Arroios à actual Alameda; a Escola Académica, situada na quinta de S. João de Monte Agudo, à Penha de França, cuja publicidade elogiava os seus vastos jardins e os campos de jogos escolares e desportivos; a Escola Valsassina, instalada no antigo Palácio Lousã.

Colégio Valsassina / Palácio Lousã [1934]
Avenida António Augusto de Aguiar, 148
Palácio Lousã; à dir. a Casa José Joaquim Miguéis, projectada pelo arq. Miguel Ventura Terra (1902).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
As origens do Colégio remontam a 1898, altura em que a Professora Susana Duarte fundou uma pequena escola primária na Rua de Santa Marinha, na parte antiga da cidade de Lisboa. Tendo casado com o Professor Frederico César de Valsassina em 12/12/1907, a então Escola Primária foi alargada ao Ensino Liceal para a preparação individual de alguns alunos.
Em Outubro de 1934 a então "Escola Valsassina", transferiu-se para o Palácio Lousã sito na Avenida António Augusto de Aguiar, 148, onde começou a verdadeira existência do Colégio Valsassina. Dispondo de magníficas instalações para a altura, permitiu o lançamento de um projecto educativo inovador, com todos os tipos de Ensino - Infantil, Primário e Liceal – para cerca de 300 alunos e com regime de internato para cerca de 80 alunos a partir dos finais dos anos 40 e até Setembro de 1959.
O Palácio Lousã foi demolido na década de 1960.

Palácio Lousã [1960]
Avenida António Augusto de Aguiar, 148
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MADUREIRA, Arnaldo, Salazar e a Igreja (1928-1932), 2008.

cvalsassina.pt.

Sunday, 4 August 2019

Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 (actualizado)

Edifício para habitação destinado a Emílio Leguori, construído por Augusto Carlos da Cunha, a partir de um projecto do arquitecto Ventura Terra (1902).
Este edifício foi desenhado de uma forma simétrica, nos seus aspectos relacionados com a métrica de vãos e desenho de varandas. Duas faixas de azulejo, no topo e ao nível do piso térreo, conferem-lhe horizontalidade em contraponto com a verticalidade dos vãos. A zona de esquina é marcada exteriormente por três varandas sobrepostas, unidas por um pano de marquise em dois níveis na continuidade e largura do vão principal constituído pela entrada e respectivo desenho em pedra.

Edifício na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [c. 1910]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; ao fundo vê-se o palacete «Casa da Cerâmica».
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Uma proposta de 1940, tendo em vista retirar os envidraçados das marquises por se encontrarem em mau estado, não foi aceite por parte da Câmara, apesar de um primeiro parecer estar de acordo com a supressão dos mesmos, já que "em nada afectaria a expressão arquitectónica do edifício em questão, que segundo se julga só lucrará com essa circunstância", refere o texto da proposta. 
A necessidade de realizar obras por parte de um novo proprietário, a partir de 1940, levou a que o mesmo se dirigisse à Câmara solicitando a sua anulação relativamente ao interior das habitações. Curiosamente, refere o proprietário que "as rendas são antiquíssimas e de reduzido valor, para habitações de dezoito amplíssimas divisões, todas elas habitadas por gente rica. (...) Presentemente encontro-me exausto de recursos por muito tempo assim permanecerei, por os encargos dos empréstimos que contraí me absorverem todas as economias que venha fazer. Não seria justo que, para beneficiar inquilinos ricos, satisfeitos com a sua habitação, fosse obrigado a fazer obras desnecessárias, gastando nelas dinheiro que não tenho, forçando-me a usar novamente o crédito,aumentando mais os encargos, já neste momento preocupante, pelo seu montante". 

Edifício sito na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [1917]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; manifestação.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1946, foram substituídas as marquises de ferro, que se encontravam em ruína, para outras construídas em estrutura de betão [vd. última imagem]. Este projecto foi assinado pelo arquitecto Norte Júnior e pelo engenheiro Francisco Ventura Rego.
Em 1972, a Sojornal, proprietária do jornal Expresso, instala-se neste edifício, ocupando-o na totalidade. Em 1990, esta sociedade solicita uma remodelação do imóvel, com ampliação em altura, construção de 4 caves para estacionamento e conservação da fachada. O projecto foi reprovado pela Câmara Municipal em função dos planos urbanísticos em vigor para a zona e do estudo volumétrico do quarteirão, aprovado em 1980. Apesar do protesto do interessado, com base em pareceres jurídicos, a obra nunca se concretizou.

Rua Braamcamp vista da Praça do Marquês de Pombal [194-]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso».
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

N.B. Afonso Costa (1871-1937) foi Presidente do Conselho de Ministro, ministro, dirigente do Partido Republicano e do Partido Democrático.
Em Outubro de 1910, um levantamento popular conseguiu implantar a República, não tendo havido uma resposta determinada do Exército. Formou-se um Governo provisório chefiado por Teófilo Braga, tentando impor um regimento com apoios unicamente na população urbana num país rural. Afonso Costa ficou com a pasta da Justiça: fez uma revolução num ministério que primava pela discrição. Iniciou reformas claramente anti-clericais, que contribuíram para o aumento da impopularidade do novo regime junto da população e da ala conservadora do republicanismo. Mas o ministro da Justiça e dos Cultos não cedeu às pressões e continuou com a política de afirmação dos valores laicos da República e de separação do Estado das igrejas, instituindo também o registo civil obrigatório.  
 
Edifício na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [1961]
Observam-se as novas marquises em betão construidas em 1946. Em 1972 albergou o semanário «Expresso».
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MANGORRINHA, Jorge, Arquitecturas de esquina em Lisboa, 2014.

Wednesday, 3 July 2019

Rua Alexandre Herculano, 25

Prémio Valmor em 1911


O Prémio Valmor, em 1911, foi atribuído a um edifício de habitação. Este situa-se no nº 25 da Rua Alexandre Herculano. O projecto é da autoria do arq. Miguel Ventura Terra (1866-1919) e o proprietário era António Tomás Quartim.

Rua Alexandre Herculano, 25 |c. 1911|
Prémio Valmor em 1911
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Considerado um excelente modelo de arquitectura urbana, este edifício apresentava um nobre estilo, incorporando diversos materiais e demonstrando uma notória influência parisiense.
Actualmente encontra-se em bom estado e funciona aqui uma Conservatória do Registo Civil.

Rua Alexandre Herculano, 25  |c. 1952|
Prémio Valmor em 1911
Gustavo de Matos Sequeira, in Lisboa de Antigamente

Friday, 21 December 2018

A Lapa aristocrática: palacete do Dr. Alfredo Bensaúde

Vamos buscar pelo caminho natural essa outra Lapa — a Lapa aristocrática, segundo Norberto de Araújo — pelo feitio e pelo isolamento, de toda a outra Lisboa tumultuosa ou palradora das coisas que foram ou começam a ser. [...]
De uma parte diste sitio vadio — não se sabe por que sentença do Destino — entrou a desenhar-se num burgo abastado, senhor de si, atracção dos ingleses, do negócio, da burguesia, do dinheiro, da nobreza escorraçada do Oriente da cidade, afastada que foi, ou reduzida a uma expressão episódica, a população marítima que subia das margens do rio, pela vereda de Santos: eis a Lapa da distinção, no semblante e nos costumes, a tal ponto criadora de um tipo seu que hoje se costuma dizer de uma pessoa ou de uma família que blasona «tom». — «É muito bairo da Lapa». [...]

Palacete do Dr. Alfredo Bensaúde  [post. 1961]
Rua de São Caetano, 4; Rua do Arco do Chafariz das Terras, 1
 Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Para norte corre ligando as Ruas Ribeiro Sanches e de Buenos Aires, a típica Rua de São Caetano, muito «Lapa», a qual, se pegassem nela e a transpusessem para outro bairro de Lisboa, continuaria a afirmar, só pela presença: «eu sou Lapa». Nela, entre outros, se encontra, no n.º 6, o palacete do Dr. Alfredo Bensaúde [o primeiro director do Instituto Superior Técnico] dos raros que não são impenetráveis, e recheados de boa arte.

N.B. O projecto d0 imóveltambém conhecido como Edifício Sandoz data de 1907 e é do risco do arqº. Ventura Terra.

Palacete do Dr. Alfredo Bensaúde  [post. 1961]
Rua do Arco do Chafariz das Terras, 1; Rua de São Caetano, 4
 Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 42-52, 1938.
monumentos.gov.pt.

Friday, 16 March 2018

Liceu Camões ou «Lyceu de Camões»

Notável para a sua época de construção, e ainda hoje [em 1938] estabelecimento publico de primeira ordem, é êste outro edifício escolar, do Liceu Camões. Foi inaugurado em 1909, e pertence ao grupo destas edificações liceais que se deveram ao ilustre estadista João Franco. Possue condições pedagógicas modernas, grandes salas, aulas arejadas, galerias e corredores largos, pátios de recreio, e um admirável ginásio.¹


O Liceu Nacional de Lisboa, actual Escola Secundária de Camões, foi o segundo liceu de Lisboa, criado em 1902 por Carta de Lei, de 24 de Maio.
Inicialmente a funcionar no Palácio da Regaleira, no Largo de São Domingos, partilhava as suas instalações, no rés-do-chão, com uma leitaria e uma loja de mobílias. Dois anos mais tarde com a divisão de Lisboa em três zonas escolares, o Liceu Camões, ou «Lyceu de Camões» adopta a designação de Liceu Central e passa a ser o principal da zona onde fica situado — primeira zona.

Liceu Camões |1914|
Soberano senhor da Praça José Fontana
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1907, o Governo autoriza a aquisição de terreno, construção de um edifício e compra de mobiliário. O local escolhido, Largo do Matadouro Municipal [actual Praça José Fontana] foi alvo de fortes críticas por ser considerado ermo, de difícil acesso e distante para os alunos.
Projectado em 1907 pelo arquitecto Miguel Ventura Terra e edificado entre 1908 e 1909, foi o dos segundo liceu moderno da capital. A sua construção resulta de uma política de fomento do ensino superior, da qual fez parte a conclusão do Liceu Passos Manuel e o projecto do Liceu Pedro Nunes, também do risco de Ventura Terra. O edifício foi objecto de intervenções de ampliação e renovação em 1927, 1931, 1933, 1934, 1935 e 1940.

Liceu Camões |1928|
Praça José Fontana
O corpo central possui, no piso térreo, três arcos de volta perfeita dando um deles acesso ao interior. Em 1972 foi inaugurado à entrada do liceu, por ocasião do IV Centenário da Publicação de "Os Lusíadas", o busto de Camões, encomendado ao escultor Fernando Fernandes, para homenagear o grande poeta português.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Liceu Camões |1933|
Praça José Fontana
Os alunos do liceu Camões à saída daquele edifício, no dia de abertura de aulas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na sua construção recorreu-se aos novos materiais da época: ferro e tijolo. Neste novo edifício já havia uma cantina, papelaria, livraria e estava englobado um conjunto de infra-estruturas associadas à prática do exercício físico dos quais se destacam os espaços para ginástica e banhos. Os espaços destinados ao convívio, às disciplinas científicas e ao exercício físico eram uma novidade nas construções escolares da época.
No início de 1908 — Janeiro — iniciam-se as obras que surpreendentemente terminam vinte e um meses depois.
Em 1909, a 16 de Outubro, inaugura-se o novo Liceu que entretanto, em 9 de Setembro de 1908 muda oficialmente a sua designação para Lyceu de Camões.²

Liceu Camões |1928|
Praça José Fontana
Nas enjuntas observam-se medalhões cerâmicos em relevo com elementos vegetalistas; antecedem a cornija painéis de cerâmica com motivos zoomórficos e vegetalistas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Pelo Liceu Camões passaram grandes vultos da História e da Cultura do nosso país, quer como alunos quer como professores: Mário de Sá-Carneiro, Vergílio Ferreira, Aquilino Ribeiro entre outros.
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 58, 1938.
² Almeida e Duarte Belo – Portugal Património: Lisboa, Vol. VII, 2007.

Sunday, 18 February 2018

Av. Almirante Reis, 22: edifício Bezelga

As chamas devoraram há dias o prédio de gaveto da  Avenida Almirante com a Rua Andrade.  Construido nos alvores do século XX «é o único edifício cuja cantaria foi toda talhada para albergar uma farmácia, com símbolos como o caduceu, a cobra, a taça, etc. Único exemplar em Lisboa e, provavelmente, em todo o país. É uma maravilha lavrada em pedra.» (Dias;1998). Aqui estava estabelecida a antiga farmácia do Bezelga, um republicano propagandista e fundador de jornais, que viveria no terceiro andar do mesmo edifício João Bezelga, «que foi o maior farmacêutico da cidade», tinha também veia de poeta, como atesta este excerto de uma conferencia  feita pelo  Dr.  Eduardo da  Silva  Neves na  sede dos «Amigos de Lisboa», em  4  de  Março  de  1950:

Avenida Almirante Reis [1965]
Rua Andrade; os adornos do topo do prédio foram apeados e vendidos por volta da década de 1960/70; obras do Metropolitano.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Mais tarde, no cimo da subida, já na nova avenida, primeiro dos Anjos, depois de D. Amélia e agora Almirante Reis, o grande prédio, tendo uma enorme palmeira com urna cobra enrolada no tronco, emblema de farmácia, propriedade do farmacêutico João Bezelga, cujas excentricidades e anedotas ainda hoje são lembradas. Era este farmacêutico autor dum livro de versos «As canções da Arada», publicado em 1903 e dedicado ao Prof. Custódio Cabeça. Desse livro não resisto a reproduzir aqui os seus primeiros versos, de mais a mais porque têm sabor lisboeta, visto terem sido feitos a Santo António e para as festas da noite do mesmo Santo na demolida Praça da Figueira: 

Milagroso Santo António
Fazei-me o milagre a mim,
Trazei-me de lá dos Céus
Um bigodinho... sim?

Não quero com grandes barbas
Causar medo à namorada,
Não quero que me confundam
Com algum ladrão de estrada.

Não quero pêra comprida
Que me assemelhe a algum bode,
Não quero mosca atrevida,
O que eu quero... é um bigode.

Avenida Almirante Reis [1965]
Prédio da antiga Farmácia Bezelga depois transformada no bar As Palmeiras dos Anjos, como se pode ler na bandeira de porta no nº 22. Observe-se os símbolos como o caduceue a cobra.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Arada era a terra do Poeta, no concelho de Ovar. 
A farmácia foi primitivamente na Rua Andrade quase junto à Rua Maria da Fonte, onde se reunia curiosa tertúlia, que deu origem a alguns jornais charadísticos, humorísticos e literários, tendo sido um deles: «Economia», fundado pelo Dr. Forte de Lemos, que possuiu consultório por cima da Farmácia Bezelga, em que colaboraram Raimundo Alves, José Pedro do Carmo, José Gomes Ventura, João Bezelga, o poeta António Correia de Oliveira, etc. Promoveu vários concursos e campeonatos charadísticos, onde colaboraram os melhores charadistas do tempo. Foi morrer à Rua Pascoal de Melo, residência do fundador. Um outro foi o «Boémio», humorístico e teatral, onde Bezelga publicou uma quadra que deu larga polémica com «Caracoles» — Cruz Moreira — director de «Os Ridículos»:
Quem o seu fósforo requeira
Vá ao Bombarda a Rilhafoles
Que o não tem Cruz Moreira
Na caixa do... Caracoles.
Entre as numerosas anedotas verídicas, possíveis de contar, pois algumas são demasiado realistas, para se reproduzirem, conta-se a passada com um filho menor de um conhecido revolucionário do 5 de Outubro, então morador nas cercanias, e logo após a mudança do regime, e quando da passagem de réis para centavos
O pequeno apareceu na farmácia com urna moeda de cinco tostões, a pedir malvas, e trazia num papel escrito «40 de malvas», o vulgar pataco ou 40 réis. Bezelga, atendendo a que o remédio era para um adepto da República nascente, interpretou logo por 40 centavos e forneceu ao pequeno um enorme cartucho com um cruzado de malvas, e de tal se pagou.
Não tardou que o Pai, exasperado ante a quantidade das ervas e o exagerado do preço (um cruzado ao tempo era dinheiro) viesse vociferar ante o impassível farmacêutico, que, com os óculos a descerem pelo nariz e a olhar por cima dos vidros, ia dizendo: — Não se trocam medicamentos, quarenta só pode ser centavos, porque, segundo a lei, já não há réis». O freguês, exaltado, bate rio balcão com uma forte bengala e, dizendo uma frase sonora, atira para dentro do balcão o pacote das malvas. Na descida da rampa para o Intendente, ouvindo chamar, volta-se, e vê, sorridente, no portal, o nosso farmacêutico poeta, que curvando-se e acentuando as palavras, diz:«Obrigado, ficaram os. 40 centavos e ... mais as malvas !» 
Num dos seus versos disse algures, definindo um vate: «Poeta é dementeque sofre e que sente» ... E o infeliz, que poetou, veio a morrer louco, no Telhal. ==

Avenida D. Amélia, actual Av. Almirante Reis [c. 1900]
À direita na embocadura da Rua Andrade com Rua dos Anjos, vê-se o prédio da Farmácia Bezelga ainda em obra; do lado esquerdo ainda se observam os escombros da antiga Igreja dos Anjos.

Machado & Souza,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DIAS, M. Tavares, Lisboa Desaparecida, vol. 2, 1998.
Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", vol.13, 1950.

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