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Thursday, 3 September 2015

Casa Ventura Terra

O Prémio Valmor de Arquitectura de 1903 coube a um edifício, a Casa Ventura Terra, na Rua Alexandre Herculano, 57, do qual Miguel Ventura Terra (1866-1916) foi o arquitecto e proprietário.
Edifício com decoração sóbria, vãos esguios com persianas articuladas de recolha lateral, elementos que o distinguiram dos edifícios da altura.
Destaque ainda para o friso superior de azulejos pintados no estilo Arte Nova. Mantém a função original, habitação para rendimento.

Casa Ventura Terra |c. 1903-1904|
Rua Alexandre Herculano, 57;
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Miguel Ventura Terra nasceu em Seixas do Minho, Caminha, a 14 de Julho de 1866. Frequentou o curso de Arquitectura da Academia Portuense de Belas Artes entre 1881 e 1886. Nesse ano, viajou até Paris como pensionista do Estado, na classe de Arquitectura Civil. Na capital francesa estudou na École Nationale et Speciale des Beaux-Arts e no atelier de Victor Laloux. Regressou a Portugal em 1896 e foi nomeado arquitecto da Direcção de Edifícios Públicos e Faróis. Nessa altura, triunfou no concurso para a reconversão do edifício das Cortes na Câmara dos Deputados e Parlamento, em Lisboa. Foi autor de palacetes, de habitações de rendimento mais qualificadas, essencialmente na capital portuguesa, construções eclécticas, cosmopolitas e utilitárias, mas também de importantes equipamentos urbanos como a primeira creche lisboeta (1901), da Associação de Protecção à primeira Infância; a Maternidade Dr. Alfredo da Costa (1908) e os liceus Camões (1907), Pedro Nunes (1909) e Maria Amália Vaz de Carvalho (1913). Projectou, igualmente, dois pavilhões da representação portuguesa na Exposição de Paris, de 1900, bem como o pedestal do monumento ao Marechal Saldanha (em Lisboa), com o escultor Tomás Costa (1900); a Basílica de Santa Luzia, de Viana do Castelo (1903); a Sinagoga de Lisboa (Shaaré Tikvá ou Portas da Esperança, vd. imagem acima) inaugurada em 1904 na Rua Alexandre Herculano; o edifício do Banco Lisboa & Açores, na Rua do Ouro, Lisboa (1906); o Teatro Politeama, Lisboa (1912-1913), representativo da Arte do Ferro; e o Palace Hotel de Vidago. Alcançou quatro vezes o Prémio Valmor de Arquitectura (1903, 1906, 1909 e 1911) e uma Menção Honrosa, no mesmo concurso (1913).

Casa Ventura Terra |c. 1903-1904|
Rua Alexandre Herculano, 57
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Também trabalhou na área do urbanismo, nomeadamente com projectos para o Parque Eduardo VII (em Lisboa), planos para a zona ribeirinha da capital (1908) e o plano de urbanização do Funchal (1915). Ventura Terra foi um dos grandes responsáveis pela criação da Sociedade dos Arquitectos Portugueses, em actividade desde 1903, e da qual foi o primeiro presidente. Exerceu o cargo de vogal do Conselho dos Monumentos Nacionais e foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa até 1913. Morreu em Lisboa a 30 de Abril de 1919.

Sunday, 15 January 2023

Sinagoga Shaaré Tikva (Portas da Esperança)

A sinagoga Shaaré Tikvá (“Portas da Esperança"), na Rua Alexandre Herculano, abrira em 1904 longe da vista pública, porque a Carta Constitucional proibia templos não-católicos. Desde Outubro de 1910, com a República laica, o gregarismo hebraico tendeu a aumentar, embora a aprovação dos estatutos da CIL , submetidos ao Parlamento em Junho de 1911, levasse quase um ano, até Maio de 1912. Vigorava já a Lei da Separação das Igrejas do Estado (1911) e proclamara-se a liberdade dos cultos. [Edeline: 2002]


Existiam em Lisboa, desde 1810, várias casas de oração, mas dificilmente reuniam as condições necessárias ao culto, pois situavam-se em modestos andares. Assim apesar das dificuldades ocasionadas pela falta de reconhecimento oficial, a Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) consegue comprar, em nome de particulares, um terreno para a construção de um edifício de raiz, próprio e condigno.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra, Prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O projecto da sinagoga foi da autoria de um dos maiores arquitectos da época, Miguel Ventura Terra. Situada no n.º 59 da Rua Alexandre Herculano, teve de ser construída dentro de um quintal murado (contigua à Casa Ventura Terra, atelier do arquitecto), dado que não era permitida a construção com fachada para a via pública de um templo que não fosse de religião católica, então religião oficial do estado.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra, prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Lançada a Primeira Pedra em 1902, a Sinagoga Shaaré Tikvá é finalmente inaugurada em 1904, culminando um esforço de mais de 50 anos dos judeus de Lisboa.

Sinagoga Shaaré Tikvá («Portas da Esperança», do hebraico) |c. 1903|
Primeiro templo não católico em Portugal continental desde 1497; Casa Ventura Terra,
Prémio Valmor de 1903.
Rua Alexandre Herculano, 59
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 29 November 2016

Lactários da Associação Protectora da Primeira Infância

«Em Lisboa morrem por anno, em média, 9 mil  pessoas. N'este numero vao incluidas perto de 2 mil creanças com menos de um anno de edade. De 0 a 2 anos morrem de diarreias e enterites, em media por anno, 750 creanças na capital e mais de 8:000 em todo o reino.»afirmava em 1907, num jornal de carácter médicoo dr. Jorge Cid, director clínico do Lactario de Lisboa.


Foi fundada, logo no início do século (1901), uma instituição particular, a Associação Protectora da Primeira Infância, pelo Coronel Rodrigo António Aboim de Ascensão, com o apoio da rainha D. Amélia, após ter visitado, em Paris, uma Gota-de-Leite do Dr. Léon Dufour, em 1900, e ter estudado a sua organização. Deve-se igualmente à rainha D. Amélia a criação, em 1903, do primeiro lactário, situado no Largo do Museu da Artilharia.

Largo do Museu de Artilharia [c. 1902]
Lactário da Associação Protectora da Primeira Infância, risco do arquitecto Miguel Ventura Terra.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Largo do Museu de Artilharia [c. 1910]
Lactário da Associação Protectora da Primeira Infância, risco do arquitecto Miguel Ventura Terra.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Este lactário — sob projecto do arquitecto Miguel Ventura Terra (na altura vereador da Camara Municipal de Lisboa) — tinha uma vacaria em anexo, com capacidade para dezoito cabeças de gado. Além da vacaria, o edifício era  constituído por uma série de pequenos pavilhões, cada um deles destinado a uma actividade específica, como os serviços administrativos e os gabinetes médicos. O seu o primeiro director clínico foi o Dr. Gomes Resende.

Largo do Museu de Artilharia [c. 190-]
Vacaria do Lactário n.º 1, risco do arquitecto Miguel Ventura Terra
Ao fundo, a torre sineira da Ermida do Senhor Jesus da Boa Nova
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Obs.: local não identificado no aml
Largo do Museu de Artilharia [1927]
Crianças amamentadas a cargo da Associação Protectora da Primeira Infância.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Posteriormente, a Associação fundaria mais três lactários. O lactário nº 2, no Largo da Esperança, em Santos-o-Velho, inaugurado pela rainha D. Amélia em 29 de Dezembro de 1907. O lactário nº 3, no Largo do Calvário, em Alcântara, começou a distribuir leite a 30 de Julho de 1927. O lactário nº 4 foi implantado no bairro do Beato e terá iniciado funções em 1929.

Largo da Esperança, Av. D. Carlos I [post. 1907]
Lactário n.º 2
José Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Largo do Calvário [1930]
Ao centro, o Lactário n.º 3
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Associação Protectora da Primeira Infância (APPI) desenvolveu um serviço de distribuição diária de leite para bebés lactantes cujas mães não podiam amamentar. O leite era distribuído gratuitamente duas vezes por dia, em doses recomendadas pelo pediatra, sendo transportado em garrafas-biberão esterilizados em autoclave.
Consciente das principais causas da mortalidade infantil na primeira infância, a APPI direccionou os seus Serviços e recursos para o apoio alimentar e pediátrico, para a assistência das crianças no domicílio (0 aos 3 anos) e para o auxílio à maternidade e à família, numa actuação global no plano da assistência.
A inscrição na APPI era realizada em boletim próprio, onde se anotava toda a informação sobre o agregado familiar e, posteriormente, os registos das consultas de pediatria. Até 2011, a APPI contou com mais de 14 000 crianças auxiliadas.



Bibliografia
Lactário, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. XIV.
Ilustração Portuguesa, 1907.
(+ info: appinfancia.org)

Friday, 1 December 2017

Praça do Marquês de Pombal, 5 (Ventura Terra)

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constitue o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fêz demorar. [Araújo: 1939]


Datado de 1901 é o prédio, na altura considerado casa de aluguer, correspondente ao n.º 5 da Praça do Marquês de Pombal, e que foi demolido em 1998, depois de um lento processo de degradação patrimonial (vd. Fernandes, J. M., Lisboa em Obra(s), Lisboa, 1997, p. 98). O alto standard da construção fazia com que cada andar, com duas habitações, tivesse jardim de Inverno. Os inquilinos do rés-do-chão e do primeiro andar teriam além do mais jardim ao ar livre. A fachada, por seu turno, era revestida de mármore e azulejos numa elegante simetria servida pela estilização dos elementos arquitectónicos e frontão coroante. 

Praça do Marquês de Pombal, 5 [1970]
Ao centro, prédio do risco do arq.º Ventura Terra; Hotel Fénix (dir.)
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

O seu autor foi Ventura Terra (1866-1919) que um ano antes ganhou o concurso para o pavilhão de Exposição Universal de Paris de 1900 (França, J. A. A Arte em Portugal do séc. IX, vol. II, 1966, p. 143). Tornou-se um arquitecto muito solicitado e respondeu às encomendas mais diversas, com grande versatilidade, responsabilidade profissional e competência, que o seu treino parisiense de cinco anos junto de Victor Laloux ajudou a definir com esmero.

Enquadramento do prédio n.º 5 na Praça do Marquês de Pombal [1934]
(clicar para ampliar)
Pinheiro Corrêa, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível)

Friday, 16 March 2018

Liceu Camões ou «Lyceu de Camões»

Notável para a sua época de construção, e ainda hoje [em 1938] estabelecimento publico de primeira ordem, é êste outro edifício escolar, do Liceu Camões. Foi inaugurado em 1909, e pertence ao grupo destas edificações liceais que se deveram ao ilustre estadista João Franco. Possue condições pedagógicas modernas, grandes salas, aulas arejadas, galerias e corredores largos, pátios de recreio, e um admirável ginásio.¹


O Liceu Nacional de Lisboa, actual Escola Secundária de Camões, foi o segundo liceu de Lisboa, criado em 1902 por Carta de Lei, de 24 de Maio.
Inicialmente a funcionar no Palácio da Regaleira, no Largo de São Domingos, partilhava as suas instalações, no rés-do-chão, com uma leitaria e uma loja de mobílias. Dois anos mais tarde com a divisão de Lisboa em três zonas escolares, o Liceu Camões, ou «Lyceu de Camões» adopta a designação de Liceu Central e passa a ser o principal da zona onde fica situado — primeira zona.

Liceu Camões |1914|
Soberano senhor da Praça José Fontana
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1907, o Governo autoriza a aquisição de terreno, construção de um edifício e compra de mobiliário. O local escolhido, Largo do Matadouro Municipal [actual Praça José Fontana] foi alvo de fortes críticas por ser considerado ermo, de difícil acesso e distante para os alunos.
Projectado em 1907 pelo arquitecto Miguel Ventura Terra e edificado entre 1908 e 1909, foi o dos segundo liceu moderno da capital. A sua construção resulta de uma política de fomento do ensino superior, da qual fez parte a conclusão do Liceu Passos Manuel e o projecto do Liceu Pedro Nunes, também do risco de Ventura Terra. O edifício foi objecto de intervenções de ampliação e renovação em 1927, 1931, 1933, 1934, 1935 e 1940.

Liceu Camões |1928|
Praça José Fontana
O corpo central possui, no piso térreo, três arcos de volta perfeita dando um deles acesso ao interior. Em 1972 foi inaugurado à entrada do liceu, por ocasião do IV Centenário da Publicação de "Os Lusíadas", o busto de Camões, encomendado ao escultor Fernando Fernandes, para homenagear o grande poeta português.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Liceu Camões |1933|
Praça José Fontana
Os alunos do liceu Camões à saída daquele edifício, no dia de abertura de aulas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na sua construção recorreu-se aos novos materiais da época: ferro e tijolo. Neste novo edifício já havia uma cantina, papelaria, livraria e estava englobado um conjunto de infra-estruturas associadas à prática do exercício físico dos quais se destacam os espaços para ginástica e banhos. Os espaços destinados ao convívio, às disciplinas científicas e ao exercício físico eram uma novidade nas construções escolares da época.
No início de 1908 — Janeiro — iniciam-se as obras que surpreendentemente terminam vinte e um meses depois.
Em 1909, a 16 de Outubro, inaugura-se o novo Liceu que entretanto, em 9 de Setembro de 1908 muda oficialmente a sua designação para Lyceu de Camões.²

Liceu Camões |1928|
Praça José Fontana
Nas enjuntas observam-se medalhões cerâmicos em relevo com elementos vegetalistas; antecedem a cornija painéis de cerâmica com motivos zoomórficos e vegetalistas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Pelo Liceu Camões passaram grandes vultos da História e da Cultura do nosso país, quer como alunos quer como professores: Mário de Sá-Carneiro, Vergílio Ferreira, Aquilino Ribeiro entre outros.
___________________________________________________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 58, 1938.
² Almeida e Duarte Belo – Portugal Património: Lisboa, Vol. VII, 2007.

Wednesday, 10 February 2016

Lyceu Central de Pedro Nunes

O Liceu Central de Pedro Nunes teve a designação inicial de Lyceu Central de Lisboa, 3ª zona escolar. Em Janeiro de 1906 foi instalado provisoriamente no Liceu do Carmo, no Palácio Valadares. Três meses depois foi transferido para um edifício alugado na Rua do Sacramento à Lapa. 
 
É no quadro das preocupações higienistas e pedagógicas estabelecidas na reforma de Eduardo Coelho de 1905, que foram concebidos os edifícios liceais das primeiras décadas do século XX, em Portugal: os liceus de Lisboa da autoria do arquitecto Miguel Ventura Terra, e os liceus do Porto da autoria de José Marques da Silva. A par da influência dos modelos franceses dos lycées construídos a partir da segunda metade do século XIX, o processo de concepção destes edifícios acompanhou a época de transição que caracterizou o início do século em Portugal, em que os valores tradicionais da arquitectura são confrontados com os novos desafios na área da construção e da aplicação de novos materiais. Em termos urbanos, os edifícios liceais vão adaptar-se aos novos planos de urbanização e de melhoria da cidade então projectados.

Lyceu Central de Pedro Nunes [c. 1911]
Avenida Álvares Cabral, antiga Avenida Pedro Álvares Cabral
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Como as instalações não eram as mais adequadas, foi adquirido um terreno na antiga Quinta da Bela Vista, com 36.000m², (actual Avenida de Álvares Cabral), e iniciada a construção de raiz, em 1909. A edificação deste liceu realizou-se segundo projecto elaborado pelo arquitecto Ventura Terra.

Lyceu Central de Pedro Nunes  em construção [c. 1909]
Avenida Álvares Cabral, antiga Avenida Pedro Álvares Cabral
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O liceu foi inaugurado no ano lectivo de 1911/1912 (17-11-1911) com a designação de Liceu Central de Pedro Nunes. Entre 1928 e 1930, Sá de Oliveira, o seu primeiro reitor e organizador, dedicou-se à difícil e árdua tarefa de reestruturar o Liceu para que nele passasse a funcionar a vertente de formação de professores, iniciando-se, assim, uma nova etapa da vida da Instituição, agora como Liceu Normal de Lisboa. Alterado em 1937 para Liceu Pedro Nunes.

Lyceu Central de Pedro Nunes, pátio, campo de jogos [c. 1911]
Avenida Álvares Cabral, antiga Avenida Pedro Álvares Cabral
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Em 1956 nova designação para Liceu Normal de Pedro Nunes. Por fim em 1978 adquire o nome que ainda mantém actualmente de Escola Secundária de Pedro Nunes.1

Lyceu Central de Pedro Nunes  [s.d. - post. 1911]
Avenida Álvares Cabral, antiga Avenida Pedro Álvares Cabral
Estúdio Mário Novais in Lisboa de Antigamente

O edificado, incluindo os jardins, os campos de jogos, o pavilhão gimnodesportivo e o refeitório está classificado, desde 2012, como Monumento de Interesse Público.

Lyceu Central de Pedro Nunes, campo Norte  [s.d. post. 1911]
Avenida Álvares Cabral, antiga Avenida Pedro Álvares Cabral; em segundo plano vêem-se as torres sineiras da Igreja de Santa Isabel
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Texto Fernanda Veiga Gomes in parque-escolar.pt.

Sunday, 4 August 2019

Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 (actualizado)

Edifício para habitação destinado a Emílio Leguori, construído por Augusto Carlos da Cunha, a partir de um projecto do arquitecto Ventura Terra (1902).
Este edifício foi desenhado de uma forma simétrica, nos seus aspectos relacionados com a métrica de vãos e desenho de varandas. Duas faixas de azulejo, no topo e ao nível do piso térreo, conferem-lhe horizontalidade em contraponto com a verticalidade dos vãos. A zona de esquina é marcada exteriormente por três varandas sobrepostas, unidas por um pano de marquise em dois níveis na continuidade e largura do vão principal constituído pela entrada e respectivo desenho em pedra.

Edifício na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [c. 1910]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; ao fundo vê-se o palacete «Casa da Cerâmica».
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Uma proposta de 1940, tendo em vista retirar os envidraçados das marquises por se encontrarem em mau estado, não foi aceite por parte da Câmara, apesar de um primeiro parecer estar de acordo com a supressão dos mesmos, já que "em nada afectaria a expressão arquitectónica do edifício em questão, que segundo se julga só lucrará com essa circunstância", refere o texto da proposta. 
A necessidade de realizar obras por parte de um novo proprietário, a partir de 1940, levou a que o mesmo se dirigisse à Câmara solicitando a sua anulação relativamente ao interior das habitações. Curiosamente, refere o proprietário que "as rendas são antiquíssimas e de reduzido valor, para habitações de dezoito amplíssimas divisões, todas elas habitadas por gente rica. (...) Presentemente encontro-me exausto de recursos por muito tempo assim permanecerei, por os encargos dos empréstimos que contraí me absorverem todas as economias que venha fazer. Não seria justo que, para beneficiar inquilinos ricos, satisfeitos com a sua habitação, fosse obrigado a fazer obras desnecessárias, gastando nelas dinheiro que não tenho, forçando-me a usar novamente o crédito,aumentando mais os encargos, já neste momento preocupante, pelo seu montante". 

Edifício sito na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [1917]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; manifestação.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1946, foram substituídas as marquises de ferro, que se encontravam em ruína, para outras construídas em estrutura de betão [vd. última imagem]. Este projecto foi assinado pelo arquitecto Norte Júnior e pelo engenheiro Francisco Ventura Rego.
Em 1972, a Sojornal, proprietária do jornal Expresso, instala-se neste edifício, ocupando-o na totalidade. Em 1990, esta sociedade solicita uma remodelação do imóvel, com ampliação em altura, construção de 4 caves para estacionamento e conservação da fachada. O projecto foi reprovado pela Câmara Municipal em função dos planos urbanísticos em vigor para a zona e do estudo volumétrico do quarteirão, aprovado em 1980. Apesar do protesto do interessado, com base em pareceres jurídicos, a obra nunca se concretizou.

Rua Braamcamp vista da Praça do Marquês de Pombal [194-]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso».
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

N.B. Afonso Costa (1871-1937) foi Presidente do Conselho de Ministro, ministro, dirigente do Partido Republicano e do Partido Democrático.
Em Outubro de 1910, um levantamento popular conseguiu implantar a República, não tendo havido uma resposta determinada do Exército. Formou-se um Governo provisório chefiado por Teófilo Braga, tentando impor um regimento com apoios unicamente na população urbana num país rural. Afonso Costa ficou com a pasta da Justiça: fez uma revolução num ministério que primava pela discrição. Iniciou reformas claramente anti-clericais, que contribuíram para o aumento da impopularidade do novo regime junto da população e da ala conservadora do republicanismo. Mas o ministro da Justiça e dos Cultos não cedeu às pressões e continuou com a política de afirmação dos valores laicos da República e de separação do Estado das igrejas, instituindo também o registo civil obrigatório.  
 
Edifício na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [1961]
Observam-se as novas marquises em betão construidas em 1946. Em 1972 albergou o semanário «Expresso».
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MANGORRINHA, Jorge, Arquitecturas de esquina em Lisboa, 2014.

Thursday, 28 April 2016

Teatro Politeama

O Teatro Politeama foi construído a expensas de um «Brasileiro de torna-viagem», José António Pereira (à varanda na foto abaixo). Importa lembrar que nas primeiras décadas do século XX foi um teatro prestigiado e importante: Alfredo Cortez, Ramada Curto, D. João da Câmara, Raul Brandão, Júlio Dantas, Amélia Rey Colaço, Angela Pinto, Adelina e Aura Abranches, Palmira Bastos, Chaby, Vasco Santana, António Silva, Amália Rodrigues, Laura Alves, e tantos mais, foram nomes que aqui se afirmaram. Aliás, o Politeama começou a exibir cinema desde 1914 e fixou-se como sala popular de cinema e variedades de 1927 em diante. A partir de 1991, pela mão do encenador Filipe La Feria, recuperou uma presença sólida como sala de teatro e ao mesmo tempo, grande parte da traça primitiva e da decoração, incluindo o pano de boca primitivo.

Teatro Politeama |1912-1913|
Rua das Portas de Santo Antão; ao fundo, na esquina com a Rua dos Condes, vê-se a Drogaria Ferreira, casa fundada em 1755.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
O empresário Luís António Pereira, que era um homem apaixonado pelas artes do espectáculo, sonhou dar a Lisboa uma nova sala, onde a música e o teatro pudessem servir o público.
Assim, nuns terrenos que comprou na Rua das Portas de Santo Antão, frente ao Coliseu dos Recreios, lançou em 12 de Maio de 1912 a primeira pedra do que viria a ser o Theatro Politeama. A inauguração aconteceu a 6 de Dezembro de 1913 com a opereta Valsa de Amor.

Teatro Politeama, sala de fumo |c. 1913|
 Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
(clicar para ampliar)

Teatro Politeama, palco, pano de boca |1914|
 Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Foi o primeiro teatro construído em Lisboa na República, com projecto do prestigiado arqº Miguel Ventura Terra, com destaque para a dimensão decorativa da sua imponente janela, quase desproporcionada face ao espaço viário em que se implanta.
Das decorações do teatro — tecto e pano de bocaocuparam-se o escultor Jorge Pereira e os pintores Benvindo Seia e Veloso Salgado.

Teatro Politeama |c. 1960|
Rua das Portas de Santo Antão
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Friday, 22 December 2017

Praça Marquês de Pombal, 3-4

O prédio da esquina da Rua Braamcamp, que aqui mostrava uma grande fachada era a construção de maior envergadura da rotunda. A cota regulava pelo anterior prédio de rendimento de Ventura Terra e pela sua monumentalidade e curvatura delicada do alçado principal, conferia uma marca urbana de presença discreta. Prédio de habitação tornou-se, com a evolução da cidade, em lugar de consultórios médicos e empresas de serviços. Sendo na prática uma justaposição de duas unidades, a sua impressiva extensão poderá ter introduzido a seriação repetitiva de fachadas que o projecto de Carlos Ramos vem a adoptar.
No rés-do-chão foi instalada, em 1963, uma loja da TAP, principal centro de vendas da Companhia Aérea Nacional num momento de prosperidade comercial da empresa.

Praça Marquês de Pombal, 3-4  [193-]
Prédio que tornejava para a Rua Braamcamp
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

Em 1989 entrou na Câmara Municipal de Lisboa um pedido de demolição do edifício e actualmente (2003) encontra-se em construção um novo prédio que ocupa gigantesca área da praça e segue uma vez mais o macro plano de Carlos Ramos. Como exercício de disciplina e de cumprimento de uma proposta unificadora com cinquenta anos não deixa de ser surpreendente.

Enquadram do prédio com o n-º 5 na Praça do  Marquês de Pombal [1934]
Monumento ao Marquês de Pombal em construção 
Pinheiro Corrêa, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível, 2002.

Friday, 27 June 2025

Palácio de São Bento: Estátua de José Estêvão Coelho de Magalhães

Inaugurada em 1876 no então designado Largo das Cortes — até à construção da escadaria monumental na década de 1930 — esteve posteriormente implantada no Vestíbulo do Palácio de São Bento, tendo sido reinaugurada, em 15 de Outubro de 1984, no jardim da Praça de São Bento. A estátua de corpo inteiro e cadeira fundidas em bronze e modeladas, em 1870, por Vítor Bastos, assentam sobre uma base de pedra.
  
Estátua de José Estêvão Coelho de Magalhães |Início séc. XX|
Palácio de São Bento, antigo Largo das Cortes
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

N.B. José Estêvão Coelho de Magalhães (1809-1862), destacou-se pela sua contínua luta a favor da liberdade, denominador comum que moveu tanto a sua carreira como a sua vida. Foi soldado, jornalista, professor da Escola Politécnica, advogado, político, parlamentar e grande orador, tendo ficado célebres os seus empolgantes discursos parlamentares, em particular as suas discussões com Almeida Garrett. Em sua homenagem, a Câmara Municipal de Lisboa consagrou-lhe uma rua com o nome de José Estêvão, pelo qual ele era mais conhecido.

Palácio de São Bento, galilé escadaria monumental |1938-11-08|
Rua de S. Bento
A fachada principal, remodelada durante a primeira metade do século XX, projecto do arqº Ventura Terra.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 21 June 2015

Avenida Duque de Ávila

Nesta zona, a que se convencionou chamar «Avenidas Novas», ainda se podem ver alguns belíssimos exemplares ao gosto Arte Nova e Art Déco, que ilustram o ecletismo estilístico dos anos 20-30 do século XX. É o caso desta frente de quarteirão, entre os nºs 18 a 32, (últimos edifícios à esq.) da autoria do arquitecto Norte Júnior

Avenida Duque de Ávila |1927|
Cruzamento com a Av. da República; ao fundo, a Avenida Defensores de Chaves
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nas Avenidas Novas encontram-se obras dos arquitectos Pardal Monteiro, Norte Júnior, Álvaro Machado e Ventura Terra. Muitos são prémios Valmor, mas essa distinção nem sempre os tem poupado. e são cada vez menos, infelizmente.

Avenida Duque de Ávila |c. 196-|
Fotografia anónima in Lisboa de Antigamente

Sunday, 6 September 2015

Praça Duque de Saldanha e Avenida da República

A Praça Duque de Saldanha era designada de Rotunda das Picoas em 1897, passando nesta data a chamar-se Praça Mouzinho de Albuquerque. Em 1902, é aprovado o topónimo de "Duque de Saldanha". Por decisão da CML em 6 de Outubro de 1910, a Avenida Ressano Garcia passou a denominar-se Avenida da República.
O monumento ao Duque de Saldanha (João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun (1790-1876), 1º duque de Saldanha), é obra do escultor Tomás Costa e do arquitecto Ventura Terra, inaugurado a 13 de Fevereiro de 1909.

Praça Duque de Saldanha e Avenida da República |28 de Janeiro de 1934|
Cortejo histórico de viaturas, organizado pela Câmara Municipal de Lisboa
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente


Sunday, 4 August 2024

Praça do Duque de Saldanha: Avenidas Novas

Com esta bela Praça do Duque de Saldanha, que data da última década do século passado [XIX], se deu testa à grande artéria mãe das Avenidas Novas, em correspondência paisagista com a Praça Mousinho de Albuquerque, que vimos já, no começo do Parque do Campo 28 de Maio (Campo Grande). 

Na praça em rotunda, estrela de cinco pontas — diz Norberto de Araújo, a quem vamos sempre seguindo — , confluem as Avenidas Fontes Pereira de. Melo, Casal Ribeiro e Praia da Vitória, estas duas já deste século- e da República e confluirá dentro de um ano a Rua António Enes, que se está prolongando já através de um talhão da da muito velha Rua das Picôas. Desaparecerá esse oitocentista Palácio, a sudoeste, que foi da Condessa de Camarido [depois Cine Teatro Monumental - 1ª imagem à esq.].¹

Praça Duque de Saldanha e Av. da República |194-|
À esq. nota-se o muro do Palácio Camarido demolido para dar lugar ao Cine Teatro Monumental
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

 

Avenida de Fontes Pereira de Melo termina na rotunda da Praça do Duque de Saldanha, cercada de heterogéneas edificações, e a meio da qual se ergue o monumento ao Duque de Saldanha. A pedra fundamental do monumento, cuja parte escultural é de Tomás Costa e a arquitectónica de Ventura Terra, foi lançada em 1904, tendo-se inaugurado em 1909. A estátua, que representa o marechal de pé, com a mão direita apontando na direcção do S., assenta sobre um pedestal dórico de base quadrangular flanqueado de colunas com capitéis canelados. À frente da estátua, na base, a figura alegórica da Vitória, de bronze, nas outras faces panóplias ornamentais pendem da boca de leões, tudo de bronze.²

Praça Duque de Saldanha e Av. Fontes Pereira de Melo |1952|
Em cartaz no Cine-Teatro Monumental o filme "A Paz Voltou à Cidade" com a participação de  Gary Cooper - no original "Dallas" - e a peça de teatro "Lisboa Nova" com a actriz Laura Alves, ambos estreados em 1952.
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto d, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 79-80, 1939.
² PROENÇA, Raul, Guia de Portugal, Generalidades: Lisboa e arredores, Biblioteca Nacional, 1924.

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