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Wednesday, 20 February 2019

Sé de Lisboa: Fachada

A igreja da Sé — orago de N. Senhora da Assunção — é o único monumento sacro, de fundamento românico, existente em Lisboa, e, com exclusão do Castelo, o mais antigo documento monumental da cidade.


Estamos diante da , Dilecto companheiro, monumento nacional por excelência, e, certamente, o mais antigo de Lisboa.
Esta fachada, com o seu ar vetusto, o seu semblante romântico, a sua patine desigual, sinal dos restauros e das transformações — é só por si um interessante documento de arquitectura religiosa, medieval, e ajusta-se à índole portuguesa "forte, rude, crente e sem requinte", no dizer de Reinaldo dos Santos.

Sé de Lisboa [1893]
Largo da Sé
A fachada da Sé antes das intervenções de Augusto Fuschini e António do Couto Abreu: em comparação com a actual, note-se a ausência de ameias e a diferença drástica da rosácea e do pórtico.
António Novais, 
in Lisboa de Antigamente

Até há meia dúzia de anos [c. 1932] esta fachada não era bem como hoje a vês. Deves talvez lembrar-te ainda do pórtico gradeado avançado ao nível do corpo do edifício; do adro mais elevado do que o de hoje, guarnecido por uma cortina [e gradeamento]; do corpo central entre torres, na frente do terraço onde hoje avulta uma bela rosácea recuada, e que constituía o fundo do coro alto da Igreja, com um grande óculo em caixilho de ferro envidraçado e duas desgraciosas janelas também envidraçadas; das janelas mesquinhas nos corpos laterais onde assentam as torres, janelas hoje substituídas por outras românicas geminadas, uma de cada lado. Aquela fachada anterior à actual foi obra dos restauros desassisados do fim do século XVII que tiraram ao monumento a sua importância e até o seu carácter. E deves recordar-te também de uma pirâmide de cimento armado que até há poucos anos existiu sobre o eirado da torre Norte [vd. 2ª foto], que é esta que faz esquina para a Rua do Arco do Limoeiro.

Sé de Lisboa, vista da Rua Pedras Negras [1929]
Largo da Sé; Capela de São Bartolomeu Joanes sobre a  Rua Augusto Rosa
«Naquela torre do Norte, já no período das obras deste século [XX], colocou-se uma guarita 
oitavada
, de cimento armado, e que há poucos anos foi, como disse, demolida.»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Este é, companheiro Dilecto, o templo fundado pelo Rei Afonso Henriques em 1147, logo depois da tomada de Lisboa.
Se ele assenta, como muitos supõem, sobre a antiga mesquita moura, não o sei eu, pois nem um vestígio único aparece que o indique. E muito menos se pode saber se essa mesquita, a existir, teria assentado sobre algum templo cristão visigodo, do período que antecedeu a dominação muçulmana. Fiquemos no seguro: em que a Sé é de Afonso Henriques, templo começado logo em 1147, e cujas obras se prolongaram por outros reinados. Embora o nosso primeiro rei tivesse vivido até 1185, não é muito de crer que dentro do seu tempo o templo se tivesse concluído, “em definitivo", preocupados como andavam o monarca e os homens bons com as guerras militares e políticas.
A mesquita moura, que seguramente existia, era a do Castelo. depois Igreja de Santa Cruz, logo entregue ao primeiro bispo de Lisboa, o inglês D. Gilberto de Hastings.

Sé de Lisboa [c. 1895]
Largo da Sé
Note-se o  adro mais elevado guarnecido por uma cortina [e gradeamento]
«O adro antigo desapareceu, no seu aspecto do século passado, pclas necessidades do 
trânsito e até porque se verificou, nos estudos de reconstituição e escavações, que o seu 
pavimento ficava a um nível mais baixo, cerca de um metro e meio.»
Imagem anónima, in Lisboa de Antigamente

Deu-se o Terramoto de 1755. Apesar da ruína exterior não ter sido tão grande como alguns escritores podem fazer crer, caiu a altiva tôrre sineira — magestosa indicação do espírito religioso dominante, com a sua dupla ordem de pavimentos janeladose na sua queda provocou irreparáveis estragos.
A planta da Sé, levantada em 1882, demonstrava bem que o «monumento nacional» — classificação de 10 de Janeiro de 1907 e 16 de Junho de 1910 — era um caos. O engenheiro Augusto Fuschini, mais artista que arqueólogo da arquitectura, foi o primeiro impulsionador do restauro da Sé (1899-1911), seguindo-se na direcção das obras, quási imediatamente à morte de A. Fuschini, o arquitecto António do Couto [Abreu] (Agosto de 1911 à actualidade), cuja cultura técnica firme e probidade, orientadas superiormente pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, lograram a conclusão das obras (1939-1940), na reintegração do monumento, no seu possível semblante romântico e gótico, ·reaparecendo a Sé, quer no exterior quer no interior, nas suas nobres linhas arquitectónicas da fábrica primitiva (apenas a Capela-mor, e a Capela do Santíssimo se conservam no gosto setecentista do restauro).

A Sé vista de avião [1938]
Largo da Sé e Rua Pedras Negras (à esq. em baixo), Rua Augusto Rosa (antiga do Arco do Limoeiro); Cruzes da Sé (à dir.); no primeiro plano vê-se a Igreja de Santo António de Lisboa; no edifício da Sé distinguem-se ao fundo o Claustro, e ao centro a base da desaparecida torre sineira.
«[...] Estas torres [Sé], primitivamente, não tiveram sinos, os quais se situavam na tôrre sineira, sôbre a cúpula do cruzeiro, e que o terramoto arrazou. [...]»
Pinheiro Correia, 
in Lisboa de Antigamente
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1944.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 31-35, 1938.

Friday, 31 January 2025

Cruzes da Sé

Do Largo [do Marquês do Lavradio, à dir.] sai a Travessa dos Machados [que foi beco até 1911] que leva à Travessa do Almargem [que foi Beco do Albuquerque até 1878], defronte do Beco do Quebra Costas. Estamos nas traseiras da Sé!¹


Constitui a Sé de Lisboa — diz Castilho — um recinto isolado entre quatro ruas: de Augusto Rosa, antiga Rua do Arco do Limoeiro, ao norte; as Cruzes da Sé, ao sul; o Beco do Quebra Costas, em escadaria, ao nascente; e o Largo da Sé, ao poente.
 está classificada monumento nacional (decretos de 10 de Janeiro de 1907 e de 16 de Junho de 1910), e, excluindo os troços que ainda restam da muralha ou cerca moura, é incontestavelmente o edifício mais antigo da cidade²

Cruzes da Sé |1901|
Prédio com frentes sobre a Travessa dos Machados (esq.), a Rua de São João da Praça e Cruzes da Sé (traseiras da Sé). Tv. do Almargem.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Agora quero mais uma vez chamar-te a atenção para este monumento nacional — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , cuja muralha, do lado das Cruzes da Sé, foi há poucos anos reintegrada na sua maneira primitiva; oferece um digno aspecto arqueológico, do tipo religioso-militar romano.




Cruzes da Sé |1939|
Sé de Lisboa
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente



Cruzes da Sé |1943|
Muralha da Sé de Lisboa
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente





Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 40, 1939
² CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga, 1835.

Sunday, 19 June 2016

Igreja de Santo António da Sé — a Casa de Santo António

   Eis-nos diante da Igreja de Santo António da Sé — a Casa de Santo António da Câmara de Lisboa, e que sempre pertenceu ao povo. É, como vês — afirma Norberto de Araújo — , um edifício de certo interesse arquitectónico, num estilo barroco vulgar, reconstruido pelo arquitecto Mateus Vicente — o que fez a Basílica da Estrela — depois do Terramoto, quase à custa dos "cinco rèizinhos" que as crianças pediam nas ruas para o Santo António, costumeira que ainda hoje perdura durante todo o mês de Junho.
   Foi sagrada em 15 de Maio de 1787, mas as obras só se concluíram vinte e cinco anos depois [1812]. 
  A primitiva Igreja e Casa de Santo António — talvez uma simples capela — data de 1431, embora haja quem afirme que existia já em 1321.

Igreja de Santo António da Sé, Gravura de madeira, desenho de Nogueira da Silva, gravura de Alberto
    
A razão da Igreja e Casa é, em síntese, a que te vou relatar. Em 15 de Agosto de 1195, isto é: pouco menos de meio século depois da tomada de Lisboa, nasceu numas casas que havia neste lugar um menino que recebeu o nome de Fernando no baptismo realizado seis dias depois, ali na Sé episcopal; era filho de Martim de Bulhões e de D. Maria Teresa Taveira, gente de bom sangue. O pequeno veio a ser o nosso popular Santo António, que dos dez aos quinze anos tomou estudos na , e dos quinze aos dezassete esteve em S. Vicente, no Mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, onde professou em Agosto de 1211[...] 
 
Igreja de Santo António da Sé |ant. 1890|
Largo de Santo António da Sé
Arnaldo Fonseca, in Lisboa de Antigamente
Igreja de Santo António da Sé |ant. 1900|
Largo de Santo António da Sé
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Ora a casa de moradia da família do Santo, e que alguns dizem que foi solar, pertenceu ao município de Lisboa, ouo que é mais aceitávelestava situada cerca da casa do Município. A verdade é que a capela de Santo António,  erecta neste local onde estamos, fazia parte do edifício camarário no qual o Senado reunia pelo menos desde o começo do século XIV até ao meado do século XVIII, e onde se efectuavam eleições para cargos importantes da cidade.
   [...] Mas deu-se o Terramoto grande; destruiu tudo com excepção de parte da capela-mor e do quarto ou câmara, a um nível mais baixo, onde é tradição ter nascido o Santo, o que foi considerado milagre. O Provedor da Casa de Santo António, vereador Paulo de Carvalho, irmão do Marquês de Pombal, mandou em 1767 abrir os alicerces desta nova Igreja, concluída em 1812, e nela fez colocar interiormente um padrão comemorativo.
    Casa da Câmara — único templo de Lisboa nestas condições — a Igreja de Santo António esteve encerrada quase desde a proclamação da República, Maio de 1911, até 14 de Março de 1931.1

Igreja de Santo António da Sé |Início séc XX|
Largo de Santo António da Sé
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Monumento Nacional, é um edifício tardo-barroco de linhas sinuosas marcadas no desenho do frontão e da escadaria. Com planta longitudinal, em cruz latina, apresenta nave única, coberta por abóbada de berço, recorrendo à utilização abundante dos mármores.
Do recheio da igreja destacam-se: as telas de Pedro Alexandrino de Carvalho, localizadas no transepto; as grades neo-medievais do arq.º Vasco Regaleira a imitar a célebre grade da Sé de Lisboa; o programa azulezar da sacristia, da 2ª metade do séc. XVIII; a imagem de Santo António recuperada do templo inicial; e a pequena cripta que simboliza, segundo a tradição, o local de nascimento do Santo. Tem em anexo um museu, Museu Antoniano, dedicado à iconografia do Santo.

Igreja de Santo António da Sé, fachadas principal e sul |ant. 1973|
Largo de Santo António da Sé
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 27-29, 1938.

Sunday, 15 March 2026

Sé Patriarcal (Igreja de Santa Maria Maior)

A Sé Patriarcal de Lisboa projectada pelo Mestre Roberto (séc. XII) é a única construção em estilo Românico e também a única do período de Dom Afonso Henriques que ainda existe na cidade, embora bastante alterada ao longo do tempo [vd. última imagem]. O Românico é um estilo caracterizado por formas compactas, transmitindo uma sensação de solidez e resistência.

 está classificada monumento nacional (decretos de 10 de Janeiro de 1907 e de 16 de Junho de 1910), e, excluindo os troços que ainda restam da muralha ou cerca moura — diz Mestre Castilho, a quem vamos sempre seguindo — , é incontestavelmente o edifício mais antigo da cidade.

Sé de Lisboa |1942-06-20|
Largo da Sé
Constitui a Sé de Lisboa um recinto isolado entre quatro ruas: de Augusto Rosa,
antiga Rua do Arco do Limoeiro, ao norte; as Cruzes da Sé, ao sul; o Beco do
Quebra-Costas, em escadaria, ao nascente; e o Largo da Sé (fachada principal), ao poente.
Legenda da foto no arquivo: «Os trabalhos de defesa da fachada da Sé de Lisboa, contra ataques
aéreos»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Não tem ele actualmente [em 1902], porém, o aspecto que apresentava na sua origem, porquanto, durante o volver dos séculos, foram-se-lhe fazendo acrescentamentos, modificações e sobreposições, que quási por completo lhe transformaram o facies primitivo, como se tem inferido do estudo consciencioso dos descobrimentos consequentes dos trabalhos de demolição e restauro a que no edifício se vem procedendo desde os últimos anos do século passado [XIX](Castilho: 1902)

Sé de Lisboa, obras de restauro |1913|
Sobre o eirado da torre norte (esq.) observa-se «uma pirâmide de cimento armado»;
quem assim no-lo diz é Norberto Araújo, que, mais adiante, acrescenta: «Naquela torre
do Norte, já no período das obras deste século [XX], colocou-se uma guarita oitavada,
de cimento armado, e que há poucos anos foi, como disse, demolida». [Araujo: 1938]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No monumento nada existe, nem parece ter existido, que leve a aceitar a versão de que o templo foi erigido sobre o fundamento de uma mesquita  — recorda o ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo.
Presume-se, aliás sem base documental, que o primeiro arqtiitecto houvesse sido um dos cavaleiros cruzados que tomaram parte no assédio à cidade sarracena, porventura «mestre» monge normando, companheiro do clérigo, cruzado inglês, Gilberto Hastings, que veio a ser (1150?} o primeiro bispo de Lisboa. Não há notícia da época da conclusão das obras do templo; não é, porém, arrojado suipôr-se que, ainda no período inicial, estivesse já dado ao culto e em parte coberto, constituindo desde logo sede de uma freguesia, cuja invocação é de Santa Maria Maior.==

Recriação da Sé de Lisboa por Alfredo Roque Gameiro (1864–1935) segundo pinturas existentes do século XVI
«[...] Estas torres [Sé], primitivamente, não tiveram sinos, os quais se situavam na torre sineira, sobre a cúpula do cruzeiro, e que o terramoto arrasou. [...]» [Araujo: 1938]
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1944.
idem, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, 1938.
CHAGAS, Manuel Pinheiro, História de Portugal, popular e ilustrada, 1899-1905

Thursday, 24 March 2016

Rua de Santo António, à Estrela

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo a Rua de Santo António, à Estrela é de «relativa antiguidade», acrescentando que: « É anterior ao Terramoto, e deve ter o seu começo no final do século XVII, em germe de póvoa rústica, embora só no meado do século XVIII entrasse a desenvolver-se; como iremos observando, edificações ingénuas de há quasi dois séculos de seu tipo, pintalgam ainda a artéria de um certo pitoresco. Do lado sul prolonga-se até uma extensão de cento e cinquenta metros o muro da antiga cerca do Convento de D. Maria I (hoje pavilhão do Hospital Militar) [vd. 1ª imagem]
 
Rua de Santo António, à Estrela [c. 1900]
Antiga de Santo António da Praça do Convento do Coração de Jesus
Vê-se o muro da antiga cerca do Convento de D. Maria I (hoje pavilhão do Hospital Militar).
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente
 
Do lado direito abrem-se a Travessa e a Rua do Jardim, cujos nomes derivam do Passeio da Estrela. Nesta área havia muitas casas foreiras à Irmandade de Santo Onofre —  não sei de que igreja — e datadas do princípio do século passado [XIX]: 1802, como esta Rua do Jardim, 1804 e 1805 como algumas mais adiante.» (...) ¹ 

Rua de Santo António, à Estrela [1939]
Antiga de Santo António da Praça do Convento do Coração de Jesus

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Este santo popular lisboeta cuja data de nascimento constitui o feriado municipal tem em sua homenagem 18 artérias na cidade, a saber: Travessa de Santo António a Belém, Rua de Santo António a Belém, Beco de Santo António (Stª Mª dos Olivais), Rua de Santo António da Sé (Madalena...), Largo de Santo António da Sé (Sé), Travessa de Santo António da Sé (Sé), Rua de Santo António da Glória (S. José), Alameda da Quinta de Santo António (Lumiar), Calçada de Santo António (Coração de Jesus e S. José), Travessa de Santo António (Ameixoeira), Travessa de Santo António à Graça (Graça), Rua do Vale de Santo António (S. Vicente de Fora, Stª Engrácia e Graça), Rua do Milagre de Santo António (Santiago), Travessa de Santo António a Santos (Prazeres), Rua de Santo António dos Capuchos (S. José e Pena), Travessa de Santo António à Junqueira (Santa Mª de Belém), Rua de Santo António à Estrela (Lapa) e Alameda de Santo António dos Capuchos (S. José e Pena). [cm-lisboa.pt]
 
Rua de Santo António, à Estrela, esquina com a Rua Domingos Sequeira [1939]
Antiga de Santo António da Praça do Convento do Coração de Jesus

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 60-61, 1939.

Saturday, 23 April 2016

A revolução de Sidónio Pais

A revolução de Sidónio Pais começa em 5 de Dezembro de 1917 quando as suas tropas acampam na Rotunda (hoje Pç. Marquês de Pombal) para derrubar o governo de Afonso Costa.
No período em que a participação de Portugal na I Guerra Mundial marcava a conjuntura política, económica e social do país, Sidónio Pais lidera a revolta militar triunfante, que se saldará na constituição de uma Junta Militar (a que preside), na dissolução do Parlamento, no derrube do governo de Afonso Costa e na destituição do Presidente da República Bernardino Machado. 
Faz a primeira proclamação ao País onde se propõe a criação de uma República Nova e suspende a Constituição de 1911, é eleito por sufrágio directo para a Presidência da República e cria um Senado profissional. O regime presidencialista de Sidónio Pais (1872—1918) não sobreviveria à sua morte.

Trincheiras na Rotunda [actual Praça Marquês de Pombal] construídas aquando da Revolução de Sidónio Pais a 5 de Dezembro de 1917
Parque Eduardo VII, antigo Vale de Pereiro, vendo-se ao fundo, a Cadeia Penitenciária de Lisboa na Rua Marquês de Fronteira.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Apesar de uma intensa actividade legislativa, a República Nova não possui um programa definido para contrapor ao regime anterior, nem quadros à altura para desempenhar a tarefa da governação. Num ano de ditadura dão-se três remodelações ministeriais, o que agrava a instabilidade governamental e introduz um princípio de caos na administração pública. A primeira, em Março de 1918, na sequência da demissão dos ministros unionistas, dá lugar ao segundo governo sidonista. A segunda, em Maio, empossa o terceiro governo de Sidónio. A terceira, em Outubro, dá posse ao quarto e último governo sidonista.

General Barnardiston, chefe da missão militar inglesa e sua esposa, percorrendo o acampamento revolucionário acompanhados por Sidónio Pais a 5 de Dezembro de 1917
Parque Eduardo VII, antigo Vale do Pereiro, vendo-se ao fundo, a Cadeia Penitenciária de Lisboa na Rua Marquês de Fronteira; Palácio Mendonça.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Durante o ano em que permaneceu no poder Sidónio Pais altera a Lei de Separação entre as Igrejas e o Estado, numa tentativa de apaziguamento das relações com a Igreja (23 de Fevereiro de 1918), estabelece o sufrágio universal (11 de Março de 1918) e consegue reatamento das relações com a Santa Sé, através do envio do Monsenhor Aloísio Mazella que assume as funções de Encarregado de Negócios da Santa Sé em Lisboa (25 de Julho de 1918).

Durante o ano em que permaneceu no poder Sidónio Pais altera a Lei de Separação entre as Igrejas e o Estado, numa tentativa de apaziguamento das relações com a Igreja (23 de Fevereiro de 1918), estabelece o sufrágio universal (11 de Março de 1918) e consegue reatamento das relações com a Santa Sé, através do envio do Monsenhor Aloísio Mazella que assume as funções de Encarregado de Negócios da Santa Sé em Lisboa (25 de Julho de 1918)
Revolução de Sidónio Pais
«Inumeras granadas se crusaram por cima da casaria tremula da cidade, entre o acampamento revolucionarios em Campolide comandados pelo major sr. Sidonio Paes [...] caindo algumas granadas no trajeto, destruindo, matando e fazendo estremecer toda a população;[...]  in Ilustração Portuguesa, 17 Dez. 1917.
 Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

No dia 5 de Dezembro de 1918, durante as comemorações do golpe perpetrado por si, em 1917, Sidónio sofre o primeiro atentado mas sai ileso.
Poucos dias depois, a 14 de Dezembro de 1918, um novo atentado seria fatal. Sidónio deslocara-se à Estação do Rossio para apanhar o comboio para o Porto. É então que José Júlio da Costa, ex-sargento do exército, dispara contra o Presidente. Acaba por falecer na Sala do Banco do Hospital de S. José, em Lisboa.
O seu funeral realiza-se no dia 21 de Dezembro de 1918, no meio de enormes manifestações de pesar. O seu corpo veio a ser posteriormente a ser trasladado para o Panteão Nacional.

Revolução de Sidónio Pais, in Ilustração Portuguesa, 17 Dez. 1917
(clicar para ampliar)

Friday, 28 November 2025

Jardim Augusto Rosa (Largo da Sé)

Já agora, no Jardim do Largo [da Sé], admiremos o busto em bronze de Augusto Rosa, uma das mais belas figuras da cena portuguesa de todos os tempos; é escultura de Teixeira Lopes. Foi colocado aqui por uma vereação de 1925, ano em que à antiga Rua do Limoeiro, e antes Rua do Arco do Limoeiro, foi dado o nome do excelso artista. [Araújo, II, 1938]

Jardim Augusto Rosa (Largo da Sé) [entre 1926 e 1936]
Por edital de 8 de Janeiro de 1925 o jardim do Largo da Sé passa a denominar-se
Jardim Augusto Rosa.
António Passaporte (Colecção Loty), in Lisboa de Antigamente

Saturday, 29 July 2017

Igreja dos Freires da Conceição Velha ou Conceição Velha (antiga da Misericórdia)

Ora bem, Dilecto — expressão com que habitualmente Norberto de Araújo interpela o leitor — mais tem que ver a Rua dos Bacalhoeiros, em 1755 designada Rua de Cima da Misericórdia, e depois, e até à dos Arameiros, aberta depois do Terramoto, chamada dos Confeiteiros.
E da Misericórdia, porquê? Porque no chão onde se eleva hoje um quarteirão de propriedades sólidas, entre as Ruas dos Bacalhoeiros e da Alfândega, se ergueu no começo do século de quinhentos a Igreja do Recolhimento da Misericórdia.
Pois metamos já por esta transversal da Rua dos Arameiros, e vamos ver o que resta desse templo manuelino, chamando, desde a segunda metade do século XVIII, da Conceição Velha. Quedemo-nos sob o majestoso pórtico. Duas breves notícias de história, que é simples, afinal.
   A instituição das Misericórdias foi obra, como já disse quando passámos pela Sé, e por S. Roque, da Rainha D. Leonor. A primeira Confraria, instalou-se na Capela de N. Senhora da Piedade, vulgo da Terra Sôlta no claustro ogival da Sé, em 15 de Agôsto de 1498.
   Prosperou a Confraria, ou seja a Misericórdia de Lisboa, reconhecendo-se pouco depois que a capela claustral da Sé era mesquinha para sede da instituição. D. Manuel, irmão da Rainha fundadora, viúva de D. João II, projectou, não se sabe ao certo o ano, mas seguramente depois de 1510, erguer neste chão — que era ocupado por vários edifícios públicos, como o Paço do Trigo, a Portagem, o Paço da Madeira — um majestoso templo e Casa para Misericórdia, a obra querida de sua irmã, inspirada por freire Miguel Contreiras.
   Era o tempo opulento da Índia e do Brasil, caracterizado pela sumptuosidade na arquitectura religiosa. A obra — templo, Recolhimento das Orfãs e Casas da Misericórdia — só se concluiu em 1534, tempo de D. João III, já havia falecido (1525) D. Leonor. A Igreja ostentava-se de três naves, sendo a abóbada apoiada ao centro por seis colunas monolíticas (de mármore?) e por mais catorze laterais, pilares de sustentação da cobertura; as casas anexas ocupavam quatro pavimentos.
   Obra notável era, de precioso recheio. Orientada no sentido poente-nascente, a porta principal com seu adro rasgava-se, de começo, para o Largo da Portagem, prolongamento, então da Rua da Padaria; a sua porta travessa, a sul, é hoje o portal desta Conceição Velha (já vou dizer, porque se chama Conceição Velha).

Igreja da Conceição Velha [ant. 1900]
À esquerda, a Rua dos Arameiros em direcção ao Campo das Cebolas
Rua da Alfândega, 112-114 
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

   Veio o Terramoto. Aluiu e incendiou tudo. Do templo escaparam este pórtico magnífico, a Capela do Espírito Santo, hoje Capela-mor, e uma ou outra imagem.
   D. José ordenou que se reedificasse a Igreja, mas a Misericórdia andou de empréstimo por aqui e por ali, até que ocupou a Casa dos Jesuítas de S. Roque.
   A nova igreja, já num estilo bastardo da arquitectura religiosa, cujo risco é de Francisco António Ferreira, o «Cangalhas», foi entregue aos freires de Cristo de Nossa Senhora da Conceição, cuja Casa e templo haviam ardido também.
   Aquela Igreja da Conceição [vd. gravura] que ocupava uma antiga sinagoga dos judeus, situava-se próximo à Madalena, caindo sobre a actual Rua dos Fanqueiros junto ao quarteirão cujas traseiras são a Rua dos Douradores; fora N. Senhora da Conceição dada aos freires de Cristo em troca da Ermida do Restelo, derrubada para se erguer os Jerónimos, e chamava-se, por oposição, «a Velha» (paroquial em 1568), porque em 1698 se construíra outra sede paroquial de N. S. da Conceição «Nova» — desaparecida também pelo, Terramoto — e que se localizava onde passa hoje a Rua da Prata, segundo quarteirão do sul, então Rua Nova dos Ferros.
   E como foram os freires da Conceição Velha que para a antiga Misericórdia vieram em 1770, esta Igreja que temos à vista se passou também a chamar da Conceição Velha.
   Falta dizer que nunca estes chãos foram de sinagoga e de judeus, (como anda escrito), ou sítio de uma Vila Nova de Gibraltar, que nunca existiu, versão esta que corre derivada de um dos raros erros do grande Herculano, e que mestre Vieira da Silva teve a felicidade de poder desfazer, sem deixar qualquer espécie de dúvida.
Ficaste sumariamente a par do que isto foi, e como e porque foi.

Vista de Lisboa [1598?-1610?]
(clicar para  ampliar)
Olissippo quae nunc Lisboa, civitas amplissima Lusitaniae ad Tagum, totius orientis... emporium nobilissimum
Autores: Georg Braun, gravador (1542-1622) e Franz Hogenberg, geógrafo (1535-1590)
Esta gravura, colorida à mão e gravada em cobre, faz parte da colecção "Civitates Orbis Terrarum" publicada entre 1572 e 1618. Representa  a cidade de Lisboa com Armas Reais e as Armas de Lisboa ladeando uma rosa dos ventos e com os edifícios e espaços públicos numerados correspondente a uma legenda na parte inferior e superior..

Assinalados no mapa: 
Antiga Igreja da Misericórdia, actual Conceição Velha
Primitiva Igreja da Conceição
Terreiro do Paço, actual Praça do Comércio
Sé Patriarcal de Lisboa

Agora contempla o Pórtico — antiga porta travessa lateral —, obra de peregrinos lavrantes da pedra: ali tens, sobre a porta geminada, dentro do arco, o quadro escultórico, pormenor largo historiado desta bela peça arquitectónica, e que representa N. Senhora da Misericórdia, de manto aberto [sustido por dois anjos], tendo de joelhos, a seus pés, de um lado D. Manuel, D. Leonor, e alguns príncipes, e do outro o Pontífice Leão X, freire Miguel Contreiras — o inspirador das Misericórdias —, e algumas figuras da Igreja. Este quadro admirável esteve retirado deste seu lugar, desde 1818 a 1880, substituído por uma grade iluminante da Igreja, e colocado numa capela da nave, então de N. Senhora das Mercês.

Igreja da Conceição Velha, aguarela [s.d.]
Pórtico de estilo manuelino
Rua da Alfândega, 112-114 
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

De cada um dos lados do Pórtico rasga-se uma formosa e decorativa janela, avolumando a beleza deste conjunto plástico, que o frontão alto de remate avilta até à mesquinhez.
Como observas, esta peça solta de arte, encravada entre prédios vulgares do século passado [XIX], é de puro estilo manuelino, do tipo dos pórticos dos Jerónimos, posto que menos grandioso e exuberante.
A-pesar-de, aparte o pórtico, a Conceição Velha não ser famosa, ela merecia mais dilatada visita; se deste templo mais quiseres saber recomendo-te o livro «A Igreja da Conceição Velha», de Filipe Nery de Faria e Silva (1900).

Igreja da Conceição Velha [c. 1940]
Capela de Nossa Senhora do Restelo ou do Parto, quadro
oferecido pelo Infante D. Henrique aos freires.
Rua da Alfândega, 112-114 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Vejamos agora o templo no seu interior — prossegue o autor das Peregrinações — obra do final de setecentos, cuja torre sineira se encrava em propriedades particulares. (...)
À direita vemos a Capela de N. Senhora do Restelo  [vd. imagem acima], ou do Parto — pela circunstância de a Virgem, sentada numa cadeira (esta de madeira) ter o Menino Jesus nu sobre os joelhos. Esta imagem, em pedra pintada, é o venerando monumento dêste templo, relíquia da imaginária religiosa portuguesa; pertenceu à primitiva Ermida de N. Senhora do Restelo, doada em 1460 pelo Infante D. Henrique aos freires de Cristo, e adveio de Sagres onde o Infante teve sua Casa, sendo por consequência anterior à Ermida, podendo atribuír-se-lhe meio milhar de anos de idade (há receio de se lhe tocar por correr o perigo de se desfazer).
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 16-19, 1939.

Sunday, 13 October 2019

Cadeia do Aljube e o «Celeiro da Mitra»

Subindo, na linha dos carros eléctricos da Graça, a Rua do Arco do Limoeiro — pode ler-se no Guia de Portugal — vê-se, à esq., a cadeia do Aljube, que serve de prisão para mulheres. É um velho edifício de janelas gradeadas, em cujo pavimento térreo era o antigo celeiro da Mitra. Foi palácio do arcebispo de Lisboa D. Miguel de Castro (séc. XVI), tendo servido no séc. XVII de palácio arquiepiscopal.


O que teria sido o edifício actual do Aljube, situado na Rua de Augusto Rosa [antiga do Arco do Limoeiro], em frente da fachada norte da Sé, e quem o teria mandado erigir?
O edifício actual não oferece aspecto de haver servido de palácio ou paço episcopal, mas é natural que tenha havido nesse local alguma dependência do mesmo.
Que por ali foi uma dependência do paço mostra-o o escudo de armas do arcebispo D. Miguel de Castro (1668 a 1625) colocado sobre a porta principal do edifício [vd. 4ª foto], o que faz supor, se não a sua fundação, pelo menos obras na época deste prelado, ou remodelação do edifício que anteriormente tivesse existido nesse sítio.

Cadeia do Aljube [post. 1914]
Rua de Augusto Rosa, antiga do Arco do Limoeiro
Em cima, à esq., pode ver-se o topo da pirâmide que encimava a torre 

Norte da Sé Patriarcal antes das obras de restauro.
Charles Chusseau-Flaviens,  in Lisboa de Antigamente

A sua arquitectura exterior, assim como a sua estrutura interior, não revelam grande antiguidade, parecendo serem obra da segunda metade do século XVIII, não falando dos andares superiores, que são relativamente modernos.
Tem uma loja abobadada, um rés-do-chão, e mais quatro andares. O rés-do-chão é dividido em poucos compartimentos, todos abobadados, com abóbadas de aresta que tomam apoio nas paredes exteriores, em pilares centrais, e noutras paredes interiores; o primeiro andar tem alguns compartimentos cobertos com abóbada, e outros com tecto plano estucado; os andares superiores não apresentam cousa digna de menção.
No edifício se instalou, ignoramos desde quando, a prisão designada por Aljube.

Cadeia do Aljube, Pátio do Aljube [c. 1900]
Rua de Augusto Rosa, antiga do Arco do Limoeiro

Escadaria de pedra entre os dois edifícios: o Aljube e o «Celeiro da Mitra»; do lado esq. vê.se a antiga entrada sobrepujada pelo escudo de armas do arcebispo D. Miguel de Castro (1568-1625)
 José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Era o Aljube a prisão dos delinquentes em matéria eclesiástica. Assim o diz Bluteau em 1712.
Este cárcere é porém muito antigo, pois já as constituições do arcebispado de Lisboa de 1536, publicadas em 1588, estabeleciam a pena de prisão dos ministros da igreja no Aljube.
O alvará de D. João III, de 16 de Janeiro de 1554, determinava que os presos no Aljube do arcebispado de Lisboa, condenados para o Brasil, ou para as galés, fossem recebidos na Cadeia da dita cidade, para serem embarcados quando houvesse leva de outros presos.
Não dizem porém os autores antigos onde era situada esta prisão. Antes de 1755, do lado esquerdo da Rua Nova do Almada, na sua base, ficava o Largo do Aljube, que devia o nome a umas casas, naquele ano pertencentes ao visconde de Barbacena, e que anteriormente serviram de aljube. Na prisão do Aljube estavam encarcerados, em 1848, os forçados a trabalhos públicos; mais tarde foi o cárcere privativo das mulheres; actualmente (1936) serve de prisão a presos políticos.

Cadeia do Aljube [1901]
O edifício apresentava apenas um andar sobre o térreo
Machado & Souza


Cadeia do Aljube, portão [1959]
Pedra de armas de D. Miguel de Castro
Machado & Souza


Noutros tempos era a passagem para o pátio do Aljube feita por uma escada com seu adro, defronte da porta travessa da Sé, que a Câmara Municipal mandou demolir em Junho de 1836 substituindo-a pela escadaria de pedra entre os dois edifícios, que lá está.
Apenas separado do Aljube pela escada de pedra citada, fica um outro edifício conhecido por celeiro da mitra [vd. foto abaixo], actualmente com rés-do-chão e dois andares. Sobre a porta principal vêm-se, em alto relevo, as armas do arcebispo D. Afonso Furtado de Mendoça, que governou a diocese de Lisboa de 1627 a 1630. Este emblema heráldico indica, se não a construção original, ao menos obras de reconstrução ou remodelação no 2.° quartel do século XVII, e, em qualquer dos casos, que o edifício era uma dependência do paço dos arcebispos, que lhe ficava fronteiro.

Cadeia do Aljube e o Celeiro da Mitra [1971]
Rua de Augusto Rosa, antiga do Arco do Limoeiro

À altura das janelas do 2º andar observa-se a Pedra de Armas do arcebispo D. Afonso Furtado de Mendoça, encimada
por um chapéu com 3 ordens de borlas pendentes.

 Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Por cima deste escudo existiu a seguinte inscrição, que o visconde de Castilho copiou, e deixou nos seus apontamentos para uma 2.ª edição da sua obra:
FOREIRO
AS CADEIRAS SU
PREMIDAS, HOJE
ENCORPORADAS
NO R SIMINARIO
DO PATRIARCA
DO EXIST.E NA V.ª
DE SANTARÉM
1....3
Já lá não está.
As paredes do rés-do-chão e primeiro andar são grossíssimas, e aquele só tinha originariamente um compartimento único, abobadado, sem apoios intermédios.
O rés-do-chão foi uma cavalariça, e ainda lá se conservam vinte e nove manjedouras, em frente de outros tantos nichos abertos nas paredes dianteira e posterior da casa, correspondentemente às quadras do gado [os tristemente célebres «curros»].
O edifício ainda em 1914 tinha apenas um andar sobre o térreo, o qual servia então de Teatro do Aljube. Sobre ele foi construído, há poucos anos, um 2.° andar, e nos dois está instalada actualmente (1936) uma oficina de maleiro.

Rua do Arco do Limoeiro, desde 1924 Rua Agusto Rosa [post. 1906]
Do lado esq.  — fronteiro à Cadeia do Aljube — observa-se o portão, do estilo de Renascença, que dava entrada para o antigo Paço dos Arcebispos.
Segundo Norberto de Araújo, este portão foi construido no tempo do arcebispo D. Luiz de Sousa. no final do século XVII; em último plano vê-se a torre Norte da Sé Patriarcal encimada por pirâmide derribada por volta de 1930.
 José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

N. B. A 25 de Abril de 2015 foi inaugurado neste edifício o Museu do Aljube, cumprindo o dever de gratidão e de memória da cidade de Lisboa e do país às vítimas da prisão e da tortura. A reabilitação e adaptação do imóvel a espaço museológico esteve a cargo do arq-º Graça Dias.
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Bibliografia
Guia de Portugal: v. Generalidades. Lisboa e arredores, p. 279, 1924.
CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antigs. Segunda Parte. Bairros Orientais, vol. VI, 2ª edição Revista e ampliada pelo autor e com anotações do Eng. Augusto Vieira da Silva, 1936.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, 1938.
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