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domingo, 13 de agosto de 2017

Palacete Sabrosa

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constitui o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fêz demorar. (...) Quando em 1898 se celebrou o Centenário da Índia, (...) já então a Praça estava desenhada em rotunda, mas erguiam-se então apenas dois prédios-palacetes: aquele da esquina poente da Avenida, onde começa, para acabar na esquina da Rua Braamcamp [Palacete Lara e futuro Clube Militar], o arco de circulo da «Rotunda», e o que, com área de jardins, pertenceu ao Conde de Sabrosa, à esquina da Avenida Fontes Pereira de Melo (que não existia, é claro), demolido o ano passado [em 1938] pela Companhia do Gaz [actual EDP]. (...)


Em 1910, (...) a Praça Marquês de Pombal estava edificada como hoje. É entre a década de 1899-1909 que se pode colocar a data da edificação formal da Praça.

Palacete do Conde de Sabrosa, entrada principal [1930]
Avenida Fostes Pereira de Melo tornejando com a
Praça do Marquês de Pombal
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O Palacete Sabrosa impressionava pela área da sua implantação distribuída por um quarteirão inteiro: Rotunda do Marquês, Avenida Fontes Pereira de Melo, Rua Camilo Castelo Branco e Avenida Duque de Loulé.
Perfilava-se a residência no gaveto do Marquês com a Fontes Pereira de Melo com duas fachadas extensas, mas a principal projectava-se nesta avenida ou, como se dizia na altura, gozava de vista para o Parque. Na esquina com a Duque de Loulé via-se uma grande construção de apoio à habitação e que serviu durante a revolta republicana do 5 de Outubro de 1910, como hospital de sangue [vd. 3ª foto]. Escala que denota a grande dimensão da residência, onde o arvoredo dos seus jardins se destacava dos restantes parques dos palacetes da cidade de Lisboa, que veio a ser semeado de pequenas construções.
Confirma-se que no final do século XIX a residência principal estava construída e isso poderá explicar a opção por colocar a fachada principal na Fontes Pereira de Melo, que no fundo constituía como que a primeira pedra neste novo eixo, o arrastamento da definição urbana da praça era assim pragmaticamente ultrapassado. Assim, já em 1889, o proprietário Frederico Davidson apresenta um projecto para a reedificação da moradia, o que faz pressupor um imóvel pré-existente.

Fotografia aérea da Praça Marquês de Pombal [1934]
Implantação urbana do Palacete Sabrosa, parque e cavalariças (vermelho)

Pinheiro Correia, in Lisboa de Antigamente

Logo em 1903 a Construção Moderna (26.06.2003, n.º 99) publica o que designa de construções rústicas, executadas pelo arquitecto Norte Júnior. Tratava-se de uma cavalariça e aposentos para pessoal, um galinheiro e um pombal [vd. foto acima], em versão cottage popularizada e alguma robustez neo-românica. Constituíam adições pontuais a uma habitação de edificação já consolidada de anos. Reportando a alguns traços estilísticos, terá sido este arquitecto o autor do risco da residência principal ou pelo menos das adaptações promovidas pelo Conde de Sabrosa em 1901. A instalação provisória do já referido hospital de sangue no palácio durante o 5 de Outubro mereceu um louvor do Ministro da Guerra do governo provisório ao seu proprietário, o 1º Conde de Sabrosa (1855-1937), que é quem o mandou reconstruir no final do século XX.

Palacete do Conde de Sabrosa, cavalariças [1910] 
Praça do Marquês de Pombal com a Avenida Duque de Loulé
 As cavalariças funcionaram como hospital de sangue durante o 5 de Outubro
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

A fachada denota uma influência de gramática neo-maneirista com os seus cunhais, pseudo-pilastras, embasamento rusticado e o friso na cirnalha muito pronunciado, que é produto desta adaptação. No interior, socorrendo-nos da magnífica descrição de Santos Tavares e do conjunto de fotografias publicadas na Ilustração Portuguesa (25 de Janeiro de 1904), confirma-se aquela opção de linguagem artística. Vêem-se arcos de volta abatida, colunas jónicas e tectos de caixotões rectangulares na casa de jantar e no escritório do proprietário. Uma das salas, designada de Luís XVI, era toda mobilada com as aquisições obtidas pelo senhor Conde de Sabrosa, considerado um grande coleccionador na época, no leilão do Marquês da Foz oriunda do Palácio dos Restauradores. Pintura e objectos da colecção Daupiás, outros da colecção Fernando Palha recheavam a grande diversidade de salas, num ecletismo fim de século, que tipificava o ambiente das grandes moradas deste período, por influência do gosto que as colecções Foz e outras espalhavam no meio alfacinha.

Palacete Sabrosa [c. 1910]
Perspectiva tirada do Parque Eduardo VII, vendo-se, ao centro, o Palácio Sabrosa; à esquerda, um esboço da Rua Camilo Castelo Branco; atrás a Av. Duque de Loulé; à direita a «Rotunda», hoje «do Marquês» e a Av. da Liberdade

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1929 o prédio viria a ser alienado «ao activo e confiado industrial hoteleiro», Alexandre Almeida, dono da Companhia dos Grandes Hotéis de Portugal, que já possuía nos Restauradores, o superlativo Hotel Avenida Palace (1890-92) projectado pelo arquitecto José Luís Monteiro (1849--1942). O Concelho de Arte e Arquitectura deu mesmo um parecer positivo e incentivou a construção de um Palace Hotel. Esta ideia não veio a ser concretizada e, em 1937, o hoteleiro vendeu--a com todos os seus terrenos à Companhia do Gás (Araújo, 1939).
E vai iniciar-se um novo ciclo na vida deste espaço com a abertura da sua demolição dois anos depois que se concretiza em 1940.2

Palacete Sabrosa [ant. 1940]
Avenida Duque de Loulé com a Rua Camilo Castelo Branco; Praça do Marquês de Pombal

Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 43-44, 1939.
2 TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível).

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Praça Marquês de Pombal, 1-2: Palacete de António de Sousa Carneiro Lara / Clube Militar Naval

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constitue o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fêz demorar. [Araújo: 1939]


Logo no final do século XIX (1894), acompanhando o impulso construtivo da avenida e da rotunda é projectada uma residência unifamiliar, tipo palacete, que pertencia ao homem de negócios António de Souza Carneiro Lara.

Praça Marquês de Pombal, 1-2: Palacete de António de Sousa Carneiro Lara  [1899]
Clube Militar Naval a partir de 1935
Fachada sobre a Praça Marquês de Pombal e Av. Liberdade, 261 (esq.)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O Clube Militar Naval esteve instalado no nº. 1-2 da Praça Marquês de Pombal cerca de cinquenta anos. O palacete foi adquirido em 1935 ao conde de Castelo Mendo, que por sua vez aqui passara a residir em 1929. Naquela data o proprietário passou a ser o Crédito Predial Português, que o arrendou à Marinha. Em 1989 foi demolido após uma violenta polémica entremeada com um pedido de classificação ao Instituto Português do Património Cultural. O clube veio a ser transferido, aproveitando alguns elementos decorativos, para a Avenida Defensores de Chaves, nº. 3.

Praça Marquês de Pombal, 1-2: Palacete de António de Sousa Carneiro Lara  [1899]
Clube Militar Naval a partir de 1935

Fachada virada à Rua Braamcamp
 Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O palacete terá sido o primeiro prédio a ser construído, na recém-criada Praça Marquês de Pombal, logo em 1894. Já que a construção do que vem a ser o Palacete Sabrosa se projectava na Fontes Pereira de Mello, em 1886 abre-se oficialmente a avenida e o desfile de casamento de D. Carlos (1857-1945) efectua-se também aqui. O Dr. António de Lencastre (1857-1945) era o médico dos príncipes e a escolha do lugar para vir a construir a sua residência não deve estar desligada desta ocorrência, onde a expansão da cidade se desenha e a oportunidade de novos espaços necessariamente surge.

Enquadramento do Clube Militar Naval na Praça Marquês de Pombal, 1-2 [1934]
Esquina com a Rua Braamcamp
Pinheiro Correia,in Lisboa de Antigamente

O edifício exteriormente ecoava um equilíbrio francês na linha do gosto Luís XVI, em combinação com pormenores vernaculares como sejam as pequenas aletas do óculo sobrepujante da entrada principal, obviamente tributária da arquitectura chã. No interior, pelas fotografias publicadas no suplemento do Diário de Notícias, 2 de Junho de 1985, por certo produto de enriquecimentos artísticos posteriores vemos alguns ornatos manuelinos muito carregados e uns vitrais de tema mitológico encomendados em 1894 na Suíça, Zurique, a Adolf Kreuzer.

Praça Marquês de Pombal, 1-2 com a Rua Braamcamp; Clube Militar Naval [1937]
Desfile da Mocidade Portuguesa durante as comemorações do 28 de Maio de 1926.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia 
MONTERROSO, José de, Rotunda do Marquês: «a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível, 2002.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Monumento ao Marquês de Pombal

Em 1910, poucos anos depois das comemorações das comemorações do Centenário da Índia, a Praça Marquês de Pombal estava edificada como hoje [em 1939].
Quedemo-nos uns momentos diante do monumento ao Marquês de Pombal. 


A ideia de se erguer um monumento ao estadista, reedificador de Lisboa, é antiga, mas só lhe foi dada expressão pública em 1882, ano em que o Parlamento autorizou o Estado a ceder o bronze necessário. Em Abril daquele ano — recorda o ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo — constituiu-se uma comissão encarregada de promover a subscrição nacional, presidida por Rodrigues Sampaio.
Os trabalhos não tiveram sequência, e só em 1905 se voltou a um plano prático, constituindo-se nova comissão, presidida pelo Conselheiro Veiga Beirão, havendo a subscrição pública sido iniciada a 6 de Maio. Contudo, ainda desta vez a iniciativa não foi coroada de êxito, talvez porque logo em 1906 começou a agitação política que dominava todos os pensamentos.
Proclamada a República, a ideia de dar realização séria à iniciativa de havia quarenta anos, ressurgiu. Em 1913 realizou-se o concurso para o monumento, sendo apresentados catorze projectos, e aprovados quatro; destes, acabou por ser preferido (5 de Abril de 1914) aquele que sob a legenda «Gloria Progressus - Delenda reactio» era assinado por Adães Bermudes, António Couto e Francisco Santos. A escolha, feita por um júri idóneo, ao qual presidia o professor e director da Escola de Belas Artes, José Luiz Monteiro, provocou enorme celeuma, havendo muitas personalidades de categoria artística e intelectual que preferiam o projecto do arquitecto José Marques da Silva e do escultor António Alves de Sousa (ambos artistas portuenses).
A primeira pedra para o Monumento foi colocada em 15 de Agosto de 1917, mas em 13 de Maio de 1926 a cerimónia repetiu-se, havendo discursado o Dr. Bernardino Machado, Presidente da República, e D. Tomaz de Vilhena, descendente do «Grande Marquês» qualificativo tradicional da família — , e ao tempo deputado monárquico.

Monumento ao Marquês de Pombal
Fundações da estátua |1927|
Fotógrafo não identificado, in LdA

Monumento ao Marquês de Pombal
Obras de desaterro |1924|
Fotógrafo não identificado, in LdA




















As obras vinham-se arrastando, por falta de verba, desde 1914. Em Março de 1924 foi nomeada uma nova comissão, à qual presidia o Dr. Magalhães Lima, estando na vice-presidência o general Vieira da Rocha; o rendimento dos selos emitidos em Dezembro de 1924 não satisfez, mas as obras de 1925 para diante entraram na fase definitiva da sua actividade. Em 13 de Maio de 1930 o Presidente da República, general Oscar Carmona, visitou as obras, já em vulto neste local. A grande estátua foi completamente assente sobre o alto fuste em 2 de Dezembro de 1933.
Finalmente em 13 de Maio de 1934 foi inaugurado o monumento, sem a solenidade que parecia de supor; assistiram o Ministro das Obras Públicas, engenheiro Duarte Pacheco, o presidente da Câmara Municipal, tenente-coronel Linhares de Lima, o governador civil, tenente-coronel João Luiz de Moura, e o presidente da Comissão, general Vieira da Rocha.
Estas anotações cronológicas, apesar de deficientes, reputo-as necessárias, pois andavam dispersas. Dêmos volta ao monumento.
Vejamos primeiramente o pedestal. Essa figura de mulher, constituída por dois blocos de pedra que pesam 17.250 quilos, na frente do monumento, representa «Lisboa reedificada»; tem cinco metros de altura — não o dirias. Sob o plinto em que ela assenta, vemos a proa de uma nau simbolizando a libertação da marinha mercante. Em baixo, dos lados, representa-se o cataclismo que assolou Lisboa na terra e no mar; destacam-se as esculturas de Plutão e Poseidon, este simbolizado num cavalo-marinho.

Monumento ao Marquês de Pombal
Ao fundo nota.se o estaleiro de obra |1934|
Tomada da Braamcamp para a Av. Fontes.
Fotógrafo não identificado, in LdA
Monumento ao Marquês de Pombal
Cabeça da figura do Marquês |1934|
Ao fundo ve-se a R. Braamcamp.
Ferreira da Cunha, in LdA



























Analisemos agora os grupos escultóricos laterais do pedestal, em seu conjunto admiráveis, apesar de algum senão que lhes possas notar. No grupo da esquerda, lado nascente, simboliza-se a agricultura, com o trabalho da lavoura, através de uma junta de bois, e de figuras bem tratadas escultoricamente, e das quais sobressaem o homem que sustenta o arado e a mulher que transporta o cabaz com uvas. O grupo do lado oposto simboliza a indústria e a pesca: um cavalo arrasta as redes, e um operário sopra o vidro; eis um conjunto também de merecimento, não apenas pela disposição mas pelo lavor das várias figuras.
Os escultores, professor Simões de Almeida e Leopoldo Neves de Almeida, que já eram colaboradores do ilustre Francisco Santos, falecido em Abril de 1930, foram os realizadores destes trabalhos, como aliás de outros que valorizam o monumento.
Na face norte (posterior) do monumento construiu-se uma alegoria objectiva à reforma da Universidade de Coimbra [vd. imagem seguinte]. Destaca-se — nota — essa figura de Minerva, em bronze, sentada, adiante do pórtico da «Universitas Conimbricensis».


Monumento ao Marquês de Pombal, face norte (posterior) |1953|
Destaca com a presença, na fachada, de um edifício clássico que simboliza a Universidade de Coimbra, à frente do qual está uma estátua de Minerva, sentada, em bronze.
Em primeiro plano nota-se o Lago do Parque Eduardo VII.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

No fuste, de grande superfície, vêem-se nas suas quatro faces legendas que exaltam o estadista e reformador; na face principal lês, comigo: «Ao genial estadista Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal — a Pátria reconhecida — MCMXXXIV».
O capitel do obelisco ostenta quatro medalhões, enlaçados nos cunhais por quatro águias; no medalhão da frente enquadra-se  a efigie de Machado de Castro, no do poente as de D. Luiz da Cunha, Eugénio dos Santos e Manuel da Maia, no posterior a de Ribeiro Sanches, e no do lado nascente as de Luiz Verney, Serra da Silva e Conde de Lipe. Foram estes os principais colaboradores de Pombal.
Finalmente, ao alto, está o grupo fulcro do monumento — que mede, de alto abaixo, 36 metros: o Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força. Este grupo, de grandes dimensões (basta dizer que tem a altura de cinco homens) é de realização primorosa, prejudicada contudo na visão perspectival à distância, quando tomada do Norte e do Poente.

Monumento ao Marquês de Pombal (em obra) |1934-04-05|
No topo do monumento, sobressaem quatro medalhões que retratam os principais colaboradores de Pombal, incluindo Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Machado de Castro.
Perspectiva tomada da Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Também este grupo principal foi concluído por Simões de Almeida; a cabeça da figura do Marquês [vd. imagem acima], ainda em formação no barro, com 1,80 de altura , de enorme peso, ruíra no atelier de Francisco Santos no próprio dia em que o artista morrera (29 de Abril de 1930).
Quatro grandes colunas de mármore nobre , cada uma com quatro candelabros de braço, em bronze, decoradas com florões e laços — bom trabalho de «atelier» e de fábrica , mas de gosto discutível — guarnecem o monumento.
E aí tens num dos degraus da escadaria do sopé: «Autores: Adães Bermudes, arquitecto; António Couto, arquitecto; Francisco Santos, estatuário; colaboradores, Leopoldo de Almeida, estatuário; Simões de Almeida, estatuário».

 

Inauguração do monumento ao marquês de Pombal |1934-05-13|
 O Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E, Dilecto, com paz na consciência, e sem beliscadura de sectarismo, digamos adeus ao monumento a Pombal. Antes, porém, anota as legendas cronológicas da vida do Marquês, e que no empedrado à portuguesa ilustram as placas que compõem a Praça.

Monumento ao Marquês de Pombal |1938-10-06|
Na base, várias figuras alegóricas dão vida à cena, como uma figura feminina que simboliza Lisboa reconstruída e três grupos escultóricos que representam as reformas de Pombal na agricultura, indústria e ensino.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa», vol. XIV, pp. 44-48, 1939.
BRITO, Francisco Nogueira de, Roteiro ilustrado de Lisboa e arredores, 1935.

domingo, 28 de maio de 2017

Estátua equestre d'el-rei D. José I na Praça do Cavalo Preto

A estatua equestre d'el-rei D. José I — noticiava o semanário illustrado Archivo Pittoresco em 1859 —, erigida na vasta praça do Commercio, é incontestavelmente, em que peze a estrangeiros e estrangeirados, um monumento de que Portugal se pôde ufanar, que poucos ou, talvez, nenhum rival, neste genero, tem no mundo, e que honra altamente o talento dos que a conceberam e executaram, acreditando os nossos progressos nas artes. 1


E surgiu então — relembra-nos Norberto de Araújo — um Terreiro do Paço novo. Espalmou-se aqui, no chão que fora o «espalmadeiro» dos séculos XIV e XV — a mão de Pombal. E Eugénio dos Santos delineou a praça nova, ordenada por decreto de 16 de Janeiro de 1758. (...)
A «Black Horse Square» (Praça do Cavalo Preto), como dizem os ingleses, é, talvez, a mais imponente praça pública da Europa. Quanto à Estátua Equestre data de 1775.
Estamos diante do mais belo monumento consecratório de todo o país — prossegue o ilustre olisipógrafo —, glória — não de D. José ou do Marquês de Pombal — mas de Joaquim Machado de Castro.

Estátua equestre d'el-rei D. José I  [c. 1870] 
Terreiro do Paço, actual Praça do Comércio; Castelo de S. Jorge e a Sé em fundo.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Joaquim Machado de Castro, lente de escultura e estatuária, que já tinha cinquenta anos quando realizou esta notável obra — ele, o barrista peregrino dos presépios — foi um artista de intuição, desenvolvido na escola de Mafra, onde, ajudante do escultor Alexandre Giusti, revigorou a sua cultura, preparando-se para maiores destinos.
O monumento não lhe saiu de um jacto, como o bronze liquido da Estátua; o artista estudou, duvidou, trabalhou, persistiu. O primeiro modelo fê-lo [em gesso] em fins de Dezembro de 1770, e, depois, mais dois em Março de 1771; foi encarregado da obra em Julho desse ano, e em Outubro lançou-se à empresa. Dois anos depois, precisamente, começaram os trabalhos de fundição, concluídos na manhã de 15 de Outubro de 1774; a Estátua fora fundida em oito minutos, nas oficinas da Fundição de Cima (antiga Fundição de Canhões).

 

Estátua equestre d'el-rei D. José I, face norte, baixo-relevo  [c. 1895] 
Grupo escultórico do lado direito do monumento, representa O Triunfo.
Praça do Comércio (Antigo Terreiro do Paço)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na madrugada de 22 de Maio de 1775 começou a condução da estátua colossal desde Santa Engrácia, pela Rua do Paraíso, pela Rua (aberta de propósito) do Museu de Artilharia e pela Rua da Alfândega até este Terreiro do Paço; organizou-se um imponente cortejo que desfilou entre alas de tropas de linha, cortejo que teve qualquer cousa de medieval pela grandeza, pelo brilho, até pela originalidade. A zorra conduzindo a Estátua chegou aqui no princípio da tarde de 25 — levou três dias e meio no trajecto —, e a admirável obra de Machado de Castro foi colocada, onde a estás vendo, na manhã do dia 27, ficando coberta por um invólucro de seda carmesim. A inauguração efectuou-se a 6 de Junho de 1775, e as solenidades, espectáculos e festas que se realizaram então foram das de maior esplendor da história de todos os tempos. 

Zorra, Museu Militar [1927] 
A zorra concebida por Bartolomeu da Costa que transportou para o Terreiro do Paço a estátua de D. José I.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Coloquemo-nos em frente do monumento, que muito se valoriza no ambiente da Praça. O fundo natural norte é-lhe dado pelo Arco Triunfal, num cenário a que o Castelo, no alto longínquo, e a Sé, na sua silhueta superior, imprimem semblante histórico; defronte desenrola-se o estuário azul do Tejo, desafogado e alegre. 
O monumento favorecido pela situação ganha assim imenso, orgulhoso na vastidão do Terreiro.
A proporção nos elementos é, como facilmente anotas, um dos méritos deste monumento. Não se dirá que o bloco de bronze de uma patina glauca que o enobrece, tem sete metros menos sete centímetros de altura e 29.371 quilos de bronze útil. Seria necessário colocarem-se quatro homens uns sobre os outros em vertical para darem o tamanho da Estátua. O monumento mede 14 metros de altura.

Estátua equestre d'el-rei D José I e o Arco da Rua Augusta [Início séc.. XX]
Praça do Comércio (Antigo Terreiro do Paço)
Grupo escultórico do lado esquerdo do monumento, representa A Fama.
Augusto Bobonee, in Lisboa de Antigamente

Na frente do fuste, e sob uma escultura com as armas reais de D. José, ali vês o medalhão do Marquês de Pombal, que foi retirado deste lugar logo em 1777 para só ser reposto novamente em 1833.
Por tal sinal conta-se-que o grande Marquês, ao darem-lhe a noticia, observou entre irónico e resignado: «Ainda bem; o retrato não se parecia nada comigo...». A inscrição latina na base do pedestal exalta as virtudes do Rei.
Agora dêmos volta ao monumento, pela direita; ali tens a alegoria escultórica «O Triunfo› representado num grupo, em vulto, no qual se marcam uma figura que conduz um cavalo pisando aos pés os inimigos, avançando outra que conduz a palma da vitória; a alegoria, em baixo relevo, na face norte do pedestal, em frente ao Arco da Praça, representa a «Generosidade Régia» erguendo a Cidade dos escombros do Terramoto, ou, segundo outras divisas, «Lisia desmaiada», ou seja Lisboa vencida pelo Terramoto, enquanto o governo da Nação a ajuda a erguer-se da ruína; o grupo escultórico da esquerda do monumento não é menos belo que os seus similares: dá-nos a «Fama», com a sua tuba sonora, vendo-se as figuras de um homem prostrado e de um elefante.²

Estátua equestre, em bronze, do rei D. José I
Gravura em cobre de Carneiro da Silva, 1774, executada antes da inauguração.
Na frente do fuste, as armas reais de D. José  e o medalhão do Marquês de Pombal
reposto em 1833 conforme se lê na inscrição abaixo do busto.
in Museu de Lisboa

Se, peça por peça, desde a figura do Rei a cavalo, até ao pedestal, com seus grupos e esculturas, o monumento realça como uma grande peça de arte-é o seu conjunto, equilíbrio e nobre simplicidade que constituem o seu mérito.3

Baixo relevo de Machado de Castro, que está colocado no monumento do lado Norte (2ª foto)
Gravura de: "Lucius sculps. Olisip." (José Lúcio da Costa, vulgo o 'Coxinho'), 1795

N.B. O monumento exibe na face oposta do pedestal (face Norte, vd. 2ª foto) uma alegoria de Machado de Castro em baixo-relevo à Generosidade régia (vd. Gravura, 1795), traduzindo o empenho do monarca na reconstrução da cidade destruída pela Terramoto.
Inclui a descrição feita pelo coleccionador: "Lisboa desfalecida despis do terremoto de 1755 é sustentada pelo seu antigo aliado, o deus Marte. A realeza acompanhada do génio da paz anima-a com o olhar e com o gesto. Ao lado entrevê-se o leão, símbolo da sua força. O comércio abre os seus cofres, e põe-os ao serviço da realeza; esta aponta para os edifícios nascentes da reconstruída Lisboa, Por trás da figura do comércio vê-se a navegação, que o auxilia. A diante as mós simbolizando a indústria agrícola. Junto à navegação vê-se a arquitectura ostentando a planta da cidade baixa."
Autor: "J.M.C. inv. delin." (Joaquim Machado de Castro)


Nota(s): Para saber mais sobre este magnifico monumento e o o seu autor, mestre Joaquim Machado de Castro, pode assistir a pequeno filme no n/ sítio do Facebook apresentado pelo escultor Lagoa Henriques e produzido pela RTP em 1971.
___________________________________
Bibliografia
1 Archivo Pittoresc: semanario illustrado, p. 41, 1859.
2 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 23-25, 1939.
3 cm-lisboa.pt.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Praça do Marquês de Pombal, 5 (Ventura Terra)

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constitue o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fêz demorar. [Araújo: 1939]


Datado de 1901 é o prédio, na altura considerado casa de aluguer, correspondente ao n.º 5 da Praça do Marquês de Pombal, e que foi demolido em 1998, depois de um lento processo de degradação patrimonial (vd. Fernandes, J. M., Lisboa em Obra(s), Lisboa, 1997, p. 98). O alto standard da construção fazia com que cada andar, com duas habitações, tivesse jardim de Inverno. Os inquilinos do rés-do-chão e do primeiro andar teriam além do mais jardim ao ar livre. A fachada, por seu turno, era revestida de mármore e azulejos numa elegante simetria servida pela estilização dos elementos arquitectónicos e frontão coroante. 

Praça do Marquês de Pombal, 5 [1970]
Ao centro, prédio do risco do arq.º Ventura Terra; Hotel Fénix (dir.)
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

O seu autor foi Ventura Terra (1866-1919) que um ano antes ganhou o concurso para o pavilhão de Exposição Universal de Paris de 1900 (França, J. A. A Arte em Portugal do séc. IX, vol. II, 1966, p. 143). Tornou-se um arquitecto muito solicitado e respondeu às encomendas mais diversas, com grande versatilidade, responsabilidade profissional e competência, que o seu treino parisiense de cinco anos junto de Victor Laloux ajudou a definir com esmero.

Enquadramento do prédio n.º 5 na Praça do Marquês de Pombal [1934]
(clicar para ampliar)
Pinheiro Corrêa, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A Feira de Agosto no Parque Eduardo Vll

Noutros tempos, quando havia comício ou festa — a feira d'Agosto, encantos meus! —, as poucas árvores ramalhudas, centenárias (que é feito delas?) ficavam pretas de garotos como pardalada. E havia picnics pelas raras sombras.


Nos terrenos do que seria o Parque Eduardo VII, assim denominado após a visita do monarca inglês em 1903, «um belo espaço da natureza, com altos e baixos, velhas árvores, arbustos, ervaçal e mato», realizava-se, em Agosto, uma Feira. Raul Proença mostra-nos o parque, «ainda em construção, já com alguns lindos lagos», que embora «poucas curiosidades» ofereça, constitui «um cantinho de natureza luxuriante e pródiga». 

Vista aérea sobre o Parque Eduardo VII [c. 1934]
Feira de Agosto
Av. da Fontes Pereira de Melo; Praça do Marquês de Pombal: Rua Castilho; Av. António Augusto de Aguiar
Pinheiro Corrêa,in Lisboa de Antigamente

Era, para Aquilino, ainda antes de ser baptizado de Eduardo VII, esse «belo espaço da natureza», para onde ia sempre que lhe apetecia «um mimo rural». Datam de 1887 os primeiros projectos para o parque, então designado por Parque da Liberdade, sendo o Engenheiro Ressano Garcia o responsável pela proposta de abertura do concurso internacional, do qual sai aprovado o projecto do arquitecto paisagista Henri Lusseau.

Feira de Agosto, entrada  [Início séc. XX]
Praça do Marquês de Pombal Avenida da Fontes Pereira de Melo (Palacete Sabrosa)
Alexandre Cunha, in Lisboa de Antigamente
Feira de Agosto  [1911]
Praça do Marquês de Pombal Avenida da Fontes Pereira de Melo (Palacete Sabrosa)
Artur Benarus, in Lisboa de Antigamente
Feira de Agosto  [1911]
Praça do Marquês de Pombal Avenida da Fontes Pereira de Melo (Palacete Sabrosa)
Artur Benarus, in Lisboa de Antigamente

A vida alfacinha — relembra-nos Norberto de Araújo —, ingénua e pitoresca, essa teve no Parque um pouco de desafogo, com a episódica «Feira de Agôsto», que funcionava quando se proclamou a República; nela existiram os teatrinhos «Maria Vitória» e «Júlia Mendes» — nomes de duas actrizes populares, de mal fadado destino —, e se manteve a tradição das barracas das farturas e da Maria Botas, que vinham das velhas feiras de Belém e de Alcântara. Também a «estampa antiga» do sítio do Parque foi Parque foi desfigurada com o desaparecimento da «Torrinha», uma curiosa vivenda octogonal (Quinta da Torrinha, que deu nome à Estrada), situada um pouco acima do actual lago, e demolida em Abril de 1916.

Feira de Agosto, entrada [1910]
Teatro Júlia Mendes
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Feira de Agosto, entrada  [entre 1901 e 1910]
À esquerda a «vivenda octogonal» da Quinta da Torrinha
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MIGUÉIS, José Rodrigues. «Da Mania das Grandezas», in As Harmonias do Canelão.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, 1939.
JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Avenida Fontes Pereira de Melo: obras do Metropolitano de Lisboa

O primeiro projecto de um sistema de caminhos-de-ferro subterrâneo para Lisboa data de 1888, é da autoria do engenheiro militar Henrique de Lima e Cunha. Publicado na revista Obras Públicas e Minas, previa a um traçado que ligasse Santa Apolónia a Algés, com passagem pelo Rossio, São Bento, Janelas Verdes e Alcântara. O custo do empreendimento estava orçado em 500$000 réis por metro corrente de túnel. A proposta não avançou. 
Mais tarde, nos anos 20 do século XX, dão entrada na Câmara Municipal de Lisboa dois projectos, respectivamente, de Lanoel d’Aussenac e Abel Coelho (1923) e de José Manteca Roger e Juan Luque Argenti (1924), que não tiveram seguimento.

Avenida Fontes Pereira de Melo [entre 1955 e 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa; Palácio Sotto-Mayor
Judah Benoliel,in Lisboa de Antigamente

Somente a partir da 2ª Guerra Mundial com a retoma da economia e no seguimento das políticas de electrificação e aproveitamento dos fundos do Plano Marshall, surge com plena vitalidade a decisão de se construir um Metropolitano para Lisboa. A sociedade é constituída a 26 de Janeiro de 1948 e tinha como objectivo o estudo técnico e económico, em regime de exclusivo, de um sistema de transportes colectivos fundado no aproveitamento do subsolo da cidade. A concessão para a instalação e exploração do respectivo Serviço Público veio a ser outorgada em 1 de Julho de 1949.

Avenida Fontes Pereira de Melo [entre 1955 e 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

 Em Setembro de 1954, o Eng.º Francisco de Mello e Castro é nomeado presidente do Metro (cargo que desempenhou até ao final de Agosto de 1972). E no dia 18 é aberto o concurso para adjudicação das obras, material circulante e instalações fixas. As propostas são abertas em Dezembro e conduzem a um encargo total de 196 mil contos. 

Avenida Fontes Pereira de Melo [entre 1955 e 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Os trabalhos de construção iniciaram-se em 7 de Agosto de 1955 e, quatro anos depois, em 29 de Dezembro de 1959, o novo sistema de transporte foi inaugurado. No dia seguinte, por volta das três horas da manhã, existiam filas intermináveis à porta das estações para utilizar o novo meio de transporte. A afluência foi tanta que algumas estações foram obrigadas, por motivos de segurança, a cancelar temporariamente a venda de bilhetes de forma a que os passageiros não invadissem o cais. Entre as principais atracções estavam as escadas rolantes da estação do Parque. 
A rede aberta ao público consistia numa linha em Y, com uma extensão de 6,5 quilómetros, percorridos por 24 comboios, e 11 estações, com dois troços distintos, Sete Rios (actualmente, Jardim Zoológico) – Rotunda (actualmente, Marquês de Pombal) e Entrecampos – Rotunda (Marquês de Pombal), confluindo num troço comum, Rotunda (Marquês de Pombal) – Restauradores.

Avenida Fontes Pereira de Melo [c. 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa; Praça do Duque de Saldanha
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A estação Rotunda (Marquês de Pombal) permitia a correspondência entre os dois primeiros troços. Foi um importante acontecimento para a cidade e constituiu um enorme êxito, tendo-se elevado a 15,3 milhões o número de passageiros transportados no primeiro ano de exploração. O Metropolitano de Lisboa era, ao tempo da sua inauguração, o 14.º da Europa e o 25.º no mundo. O pioneiro fora o Metropolitano de Londres, em 1863, a partir da ideia de Charles Pearson, o inventor deste meio de transporte.

Avenida Fontes Pereira de Melo [c. 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa; Palacete  Gabriel José Ramires; Rotunda  Praça Marquês de Pombal
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
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