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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Palácio Geraz do Lima (Condes da Folgosa)

Sobre a origem do topónimo «Rua da Palma», refere o olisipógrafo Norberto de Araújo o seguinte: 
«Esta Rua, desafogada, hoje constituindo uma única artéria, das traseiras de S. Domingos ao Intendente, divide-se em dois troços. O primeiro chega só à Guia [Martim Moniz] e é muito antigo, havendo sido nos séculos velhos arruamento dos comerciantes alemães que cultivavam religiosamente a lenda da palma que florira na sepultura do cavaleiro cruzado Henrique, sacrificado na Tomada de Lisboa, em 1147; [...]
O segundo troço, «Rua Nova da Palma», data de 1862, e chegava até aqui ao Socorro, começando gradualmente a prolongar-se até ao Intendente; a Câmara começara a comprar terrenos de hortas e campos, que por aqui existiam, desde o ano de 1776.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 24-25)

Palácio Geraz do Lima (Condes da Folgosa) [1930]
Rua da Palma
Anterior à demolição parcial
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Sobre o sítio do Socorro e o palácio que aqui existiu no século XIX, citamos o olisipógrafo Júlio de Castilho, que, por volta de 1900, afirmava o seguinte:
« (...) O palácio dos Porcilles, Porsili, ou Possilli (que assim, por estas variadas formas, se escrevia e pronunciava no publico esse apelido) ficava na freguesia do Socorro. (...) É o actual palácio que pertenceu ao Barão de Folgosa, depois a sua filha a snrª. Condessa de Geraz do Lima, e hoje [1903] ao 3º. viúvo d'esta senhora. Para este palácio, cuja entrada era por um portão defronte da igreja paroquial do Socorro, antes da abertura do 2º. lanço da rua Nova da Palma foi transferido em 1813 o Colégio de Miguel Bourdiec, francês (...) O Colégio francês mudou-se em Julho de 1819 para a rua direita de S. Paulo, n.º 5, e o palácio do Socorro alugava-se ou inteiro, ou em quartos separados.»
(CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga, 1903, vol. III, p. 15)

Palácio Geraz do Lima (Condes da Folgosa) [1932]
Rua da Palma
Anterior à demolição parcial
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O palácio Folgosa foi mandado construir, em 1891, por António de Sousa e Sá, Conde da Folgosa. Após a sua morte, o Palacete foi adquirido pela Câmara Municipal, que mandou demolir parte do edifício para rectificação e alinhamento da Rua da Palma, cerca de 1930.

Palácio (dos Condes da) Folgosa [1939]
Rua da Palma
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente




domingo, 20 de agosto de 2023

Palácio da Ega (Pátio Saldanha)

Chegamos ao Hospital Colonial , erguido em terrenos que foram dos Condes da Ega, com seu palácio faz parte da história autêntica da Junqueira, difícil, até, de sintetizar. São do começo urbanizado do sítio, pois advêm dos Saldanhas, do século XVI.


Sem grande esforço — recorda Norberto de Araújo — tu, Dilecto, vais apreender a situação da antiga casa nobre dos Saldanhas e Egas, e um pouco, quase nada, da sua história. Á direita, subindo pela Calçada da Boa Hora, levanta-se o antigo Palácio da Ega, onde está, desde 1931, o Arquivo Colonial, com o seu «Pátio do Saldanha», que antes daquela data era uma ruína; os terrenos anexos e dependentes do Palácio prolongavam-se para norte, até à Boa Hora, e para Sul sobre a Junqueira; foi nos terrenos do Sul, estes que vês, ajardinados, defendidos da Rua por uma cortina de gradeamento [vd. duas primeiras imagens], que se instalou em 1925 o Hospital Colonial [em 1974 recebe a designação de Hospital de Egas Moniz].

Palácio da Ega (Pátio Saldanha) |c. 1940|
Perspectiva tomada da Rua da Junqueira
Fachada Sul, sobre jardim, adornada de onze janelas de sacada. Note-se os terrenos defendidos da Rua por uma cortina de gradeamento.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Palácio da Ega (Pátio Saldanha), gradeamento da Quinta do Saldanha |1911|
Rua da Junqueira
Inscrição no original: Na Rua da Junqueira, nos extremos da antiga cerca do Palácio da Ega encontram-se dois pavilhões neogóticos, de construção igual e simétrica, de calcário branco e planta quadrada. 
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Como disse atrás, quando resumi o que foi o sítio da Junqueira, os Saldanhas — cujo primeiro foi D. António, companheiro de Albuquerque — , possuíam os terrenos todos de Santo Amaro a Belém, e que começaram a retalhar em 1701. Mas a sua casa, antepassado do Palácio Ega, datava aproximada---mente de 1582, e, com acrescentamentos, melhorias e feição palaciana cada vez mais acentuada, nos descendentes se conservou. Um deles, D. Manuel de Saldanha e Albuquerque, Vice-Rei da Índia, recebeu em 1758 o título de Conde da Ega.
Aqui fica explicado o enxerto dos Egas nos Saldanhas, a mesma família, afinal. A Quinta chamava-se «das Caldas», desde o seu começo; a designação foi amortecendo subordinada ao apelido dos Saldanhas. O 2.º Conde da Ega, Aires José Maria de Albuquerque, era o proprietário do Palácio quando Junot se instalou em Lisboa; tomou o partido do Marechal francês, que se instalou no velho Palácio dos Saldanhas, e se fez amante da segunda mulher do Conde, a linda Juliana Maria Luíza Sofia de Oyenhausen de Almeida, filha da insigne Marquesa de Alorna. Expulsos os franceses, o Conde emigrou, e a Condessa foi atrás do amante.

Palácio da Ega, onde se encontra instalado o Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) |1966|
Calçada da Boa-Hora
Frontaria, voltada a Poente, sobre um jardim, este acortinado de gradeamento que corre ao longo da Calçada da Boa Hora, e nela o corpo central, no qual, em baixo se rasga o portal, sobrepujado no fecho do arco pela pedra de armas dos Albuquerques, e ladeado por duas janelas, emolduradas de vistosa composição arquitectónica; na altura do andar nobre, e único, abrem-se duas janelas de sacada.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Palácio da Ega |194-|
Calçada da Boa-Hora
Os corpos laterais, recuados só no andar nobre, constituindo assim um terraço de cada lado, guarnecido de varanda de varões seiscentistas; em baixo, em cada corpo notam-se três vãos gradeados entre quatro colunas, constituindo os vãos centrais portas, rematadas em arco.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
  
O Estado condenou à morte o Ega, e tomou-lhe conta dos bens (com o Palácio e Quinta à cabeça), mas o Morgado foi mais tarde restituído aos Egas, o que não impediu que o general Beresford durante largos períodos o habitasse, enquanto andou por Portugal.
Na primeira metade do século passado [XIX] o Palácio da Ega ou do Saldanha, veio às mãos de particulares; o último, que foi a Conde da Folgosa, vendeu-o há poucos anos[c. 1930] ao Estado.
Os terrenos rústicos da Quinta já há muito que andavam alienados, desintegrados da antigo conjunto da propriedade dos Saldanhas dos séculos XVI a XVIII.

Palácio da Ega |1940|
Calçada da Boa-Hora
Fachada lateral Sul voltada ao jardim, provido de grande tanque de rebordo curvilíneo, com acesso por passadiço elevado com conversadeiras, três portas e um alpendre. Possui dois corpos alinhados e separados por pilastra: o da esquerda, extenso, com dois pisos, e o da direita, mais estreito, correspondente à sala Pompeia, que possui mais um piso.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Palácio da EgaPalácio da Ega (Pátio Saldanha) |1940|
Calçada da Boa-Hora
Fachada lateral Sul possui dois corpos alinhados e separados por pilastra: o da esquerda, extenso, com dois pisos, e o da direita, mais estreito, correspondente à sala Pompeia, que possui mais um piso.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Dilecto: o velho Palácio «da Ega» — como muito vulgarmente se lhe chama, certamente em memória da formosa Condessa — está ainda hoje [1939] apresentável de aparência, como vês, ao fundo do Pátio, que foi limpo e acortinado. 
Interiormente possuí, digna de referência, e salva da ruína quase absoluta que caía há umas dezenas de anos sobre a Casa, uma «Sala dos Marechais», também chamada «de Apolo» (porque nela existiu uma estátua de Apolo) e a de «Pompeia» (porque algumas pinturas se caracterizam por esse estilo) , sala decorativa que ostenta colunatas de madeira, tecto pintado, e silhares de azulejos magníficos, com vistas de Veneza.

Palácio da Ega no Páteo do Saldanha |c. 1850|
Sala Pompeia e nela doze colimas, de madeira, imitando mármore verde e amarelo, de traçado salomónico resultante do engrinaldado que as envolve.
O tecto, recurvado em doze tramos, oval, no qual se abre, em altura, uma cúpula oval também, um e outra revestidos de pintura a têmpera sobre estuque, com ornatos e medalhões, ao estilo pompeiano do fim do século XVIII.
Oito silhares de azulejo em tapeçaria, de tipo holandês do século XVIII, representando portos e cidades europeias, nem todos identificáveis.
Litografia por Legrand
, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1946.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 53-54, 1939.
acasasenhoria.org

terça-feira, 25 de abril de 2017

Lisboa Vista do Cimo dos Montes

Do Castelo, da Graça, do Alto de Santa Catarina, vista do cimo dos montes, das colinas, dos miradouros, Lisboa «enfia os olhos pelo Oceano». «Poucas vezes no mundo verá o viajante, como em Lisboa, tanta magnificencia de espectaculos naturaes, e tamanha variedade de scenario!», diz-nos o olisipógrafo Júlio de Castilho, para quem Lisboa «apresenta panoramas estonteadores, pela grandeza das linhas, e pelo variegado das minucias».


É de Francesco Rocchini (1822-1895)  esta  «vista tomada do Castelo de S. Jorge» que Norberto de Araújo descreve: «O encanto de Lisboa não se procura: encontra-se. Não reside num único sítio: dir-se-ia móvel, deambulatório. Vadio — passeando por onde lhe apetece. 
Aconselha-se o romeiro a que o não rebusque. Será a melhor maneira de dar com ele. 
Os mil motivos de interesse, de sedução, de êxtase — espraiam-se, perdem-se, ocultam-se e mostram-se pelas colinas e pelas planícies ribeirinhas. 
Num parque fecundado pelo sol, poetizado pelo luar, nascido espontâneo, enobrecido pelas idades — não é possível encontrar dispostos para nossos olhos os loureiros que coroam heróis e as rosas que engrinaldam vestais. Nem os rouxinóis têm moita certa. 
As colinas de Lisboa há que trepá-las para bem as conhecer. 
Os vinte miradouros suspensos de pérgolas e de torres, dão-nos o panorama objectivo, familiar: apontam-se as coisas, sabe-se-lhes a idade e a história. As colinas — não. Rugadas de congostas [*], quelhas, linhas de desfiladeiros, planos indecisos, são subjectivas. O seu encantamento é de sonho. 

Panorâmica de Lisboa tirada do Castelo S. Jorge  |c. 1870|
Panorâmica de Lisboa tirada da Sra do Monte
Francesco Rocchini (1822-1895), in Lisboa de Antigamente
 Legenda (clicar para ampliar):


Edifícios/Monumentos:
1—Igreja do Socorro (demolida c. 1940)  2—Palácio Folgosa (Propriedade Geraz de Lima)  3—Convento (Hospital) do Desterro  4—Hospital de S. José  5—Primitiva Igreja dos Anjos (demolida em 1908)  6—Campo de Sant'Ana  7—Convento de Santo António dos Capuchos  8—Palácio Mitelo  9—Palácio da Bemposta (Academia Militar) Paço da Rainha  10—Observatório Astronómico do Paço da Bemposta  11—Hospital de D. Estefânia  12—Palácio Pombeiro  13—Chafariz do Intendente  14—Hospital Miguel Bombarda (Antigo Rilhafoles)  15—Escola Superior de Medicina Veterinária (Antigo Instituto de Agronomia e Veterinária (Actual edifício da Policia Judiciária)
Arruamentos:
A—Rua de S. Lázaro  B—Rua da Palma  C—Rua do Benformoso  D—Largo (Sítio) do Intendente  E—Largo de Santa Bárbara  F—Arroios  G—Antigo Largo do Matadouro hoje Escola Municipal n.º 1 e, logo acima deste, o Largo do Mastro e o Beco (hoje Rua) do Saco

A penha do Castelo, abarcada desde o Largo do Caldas — é uma fantasmagoria. Do Rossio — uma maravilha. De Santana — um deslumbramento. 
Vista deste lado — a colina é um santuário; adivinha-se a torrinha sineira de uma ermida. Contemplada deste outro sítio — é uma muralha. Tomada do lado do mar — é um museu; alveja o perfil manuelino de uma janela. 
Em todas as colinas, subindo, acavalgando-se, amparando-se, tocando-se nos beirais, as casas, os tugúrios, os palácios, os monumentos, os aglomerados indistintos, cinzentos ou violetas, conforme lhes dá a luz — são cenários do presépio lisboeta. 
As Colinas de Lisboa — eis o panorama sagrado de uma cidade Olimpo, que enfia os olhos pelo Oceano. Os longes mandam na alma. Nas cidades e nos homens — as distâncias ganham em saudade o que perdem em nitidez. Castelo, Graça, Penha, Estrela, S. Francisco, — ascensão ideal... » 1

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 28-29, 1943.

* Nota(s): O Dicionário Houaiss e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam cangosta, mas remetem para congosta, portanto, o termo preferível. Trata-se de «caminho estreito e comprido, mais ou menos declivoso» (in Dicionário da Porto Editora) e «estrada estreita, rústica, entre muros ou sebes, na região periférica de uma povoação, aldeia, vila etc.; azinhaga» (in Houaiss). A palavra vem do latim hispânico 'congusta (via)', por 'coangusta (via)', «caminho estreito», de 'coangustare', «apertar».

domingo, 11 de junho de 2023

Sítio da Esperança: Convento e Quartel dos Bombeiros

De regresso à Avenida D. Carlos, uma curta paragem no Quartel dos Bombeiros, construído no sítio do antigo Convento da Esperança, entre 1891-1892, e do qual foi primeiro comandante o capitão Augusto Gomes Ferreira. Após a morte deste comandante, a Câmara deliberou, em 1901, designar a até então denominada «Caserna da Esperança» por «Caserna Augusto Ferreira». Data dos primeiros anos da segunda metade do século XIX a reorganização do Serviço de Incêndios e a designação de Corpo de Bombeiros Municipais de Lisboa; esta designação manteve-se até ao segundo quartel do século XX, quando da constituição do Batalhão de Sapadores de Bombeiros.

Ora agora peço-te que repares neste recanto irregular, inestético, que se situa à direita do Chafariz [da Esperança], contíguo aos terrenos do Quartel n.º 1 dos Bombeiros Municipais. Era ali o pórtico de entrada do Mosteiro da Esperança — recorda Norberto de Araújo.
Foi este Mosteiro de que nada resta, senão a memória — que deu origem às designações toponímicas «Esperança», que subsistem. Mas da Esperança — tão lindo nome — porquê?

Em 1530 D. Izabel de Mendanha — apelido de família castelhana que veio para Portugal em tempo de D. Afonso V — fundos neste sito um Convento de Nossa Senhora da Piedade, «para senhoras sobres», e que foi dos mais formosos e celebrados da capital.
Chamava-se como digo, a Casa religiosa, «da Piedade», ou mais rigorosamente, de Nossa Senhora da Piedade, a que se acrescentava «da Boa Vista», porque ficava neste sítio. Pertencia o Mosteiro à regra de S. Francisco; era rico e de grande qualidade, recheado interiormente de preciosidades de arte, assim Igreja como aposentos, embora seu exterior fosse trivial.
O Terramoto pouco o sacrificou, mas pronto fot restaurada, e até 1834 continuou a ser Casa religiosa. Depois entrou, como todos na posse do Estado.

 

Sítio da Esperança: Convento e Quartel dos Bombeiros |1930|
Avenida Dom Carlos I 
Só em 1881 começaram a ser demolidas as antigas Casas conventuais, e outros prédios vizinhos, para se rasgar a Avenida actual, e inaugurada, como te disse acima, em Dezembro de 1889. Mas parte da Casa religiosa foi durando até à última década do século passado [XX].

António Novais, 
in Lisboa de Antigamente


Mas, Dilecto, dirás tu: se o Mosteiro era de Nossa Senhora da Piedade porque passou a ser, e ainda é hoje, na sua memória, «da Esperança»? Pois sempre te quero contar e vale a pena.
Este sítio era, à borda do rio, muito de marítimos. E os homens do mar foram sempre dados a devoção, tão singela quanto sincera. Constituíram uma irmandade de pilotos e mestres náuticos intitulada de Nossa Senhora da Esperança. Prosperou de tal que se tornou o fulcro devoto do Convento, a gente plebeia em seu prestígio a classe nobre à que o Mosteiro estava ligado.
Fenómeno bem edificante! E o Mosteiro deixou de ser chamado da Piedade — da nobreza que o fundara — , para passar a ser da Esperança — dos marinheiros que a ele se chegaram.

Convento de Nossa Senhora da Piedade da Esperança e Cruzeiro da Esperança
Pormenor da Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755
Museu de Lisboa, CML

No Mosteiro da Esperança se recolheu em 21 de Novembro de 1667 a Rainha D. Maria Francisca de Sabóia, mulher de D. Afonso VI, e nele se conservou até que à triste contenda entre irmãos, filhos de D. João IV, se resolveu a favor do que veio a ser D, Pedro II,
O Mosteiro era rico de materiais e de recheio. Uma parte do que tinha mérito artístico integrou-se na Academia de Belas Artes, hoje no Museu Nacional de Arte Antiga,
No sítio do Convento fez-se erguer o Quartel dos Bombeiros Municipais n.º 1, em 1891-1892, ocupando a área da casa religiosa, igreja e quási a totalidade da Cerca, O primeiro comandante foi o capitão Gomes Ferreira, ao qual se deve o incremento que tomou o edifício municipal, ainda que com prejuízo da arqueologia local, Parte dos materiais do Convento, pedras, colunas, arcos, guarnições, foi aproveitado na construção de pavilhões, obra dirigida pelo venerando arquitecto José Luiz Monteiro; os azulejos do pavilhão com face ao pátio, as janelas geminadas e os balaústres correnteza da galeria, são do século XVII. Mas tudo isto, que é pouco, passa despercebida à vista.[...]
Várias obras têm sido levadas a efeito no Quartel de 1892 à actualidade; as reminiscências arquitectónicas da casa monasteiral são poucas à vista: colunas, arcarias de volta perfeita, capitéis de mármore pintado em policromia. No chão da actual serralharia foram encontradas em 1930 algumas ossadas, que voltaram a ser cobertas de lagedo, dormindo o sono no local onde baixaram há séculos.
Na parte poente do Quartel elevou-se em 1912 uma muralha de suporte dos prédios da Rua da Esperança, que ameaçavam cair sobre a parada do Quartel; vê-se da rua.
Na parada de entrada, ao fundo, na face do muro que ampara a Cerca superior — pedaço rústico — há uns azulejos ali colocados há meia dúzia de anos [c. 1930], e que vieram do Palácio Folgosa da Rua da Palma, quando este foi encurtado para rectificação da rua, e passou à Câmara, As carrancas que aqui se vêem provieram do Palácio Silva Amado, ao Campo de Sant'Ana.

 

Sítio da Esperança: Convento e Quartel dos Bombeiros, lado da parada |1935|
Avenida Dom Carlos I 
Muitos dos belos panos de azulejos que adornavam o Convento foram doados às escolas industriais de Lisboa e do Porto, e boas pinturas passaram ao Museu das Belas Artes.
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente
Sítio da Esperança: Convento e Quartel dos Bombeiros, lado da parada |1930|
Avenida Dom Carlos I 
Bombeiros Voluntários Lisbonenses em exercícios.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente
 
E para terminar este passo da jornada, ocorre-me dizer-te que era defronte do Chafariz que se erguia o Cruzeiro da Esperança, telheiro colocado sobre pilares de ferro, com vidraças, e rodeado por duas escadas circulares de cantaria,
Era um monumento ingénuo da piedade popular, sem a beleza do Cruzeiro de Arroios, mas respeitável.
A urbanização do local investiu com ele. Numa bela noite de Janeiro de 1835, a Câmara, de surpresa, desmanchou aquele conjunto, e removeu a Cruz, a imagem de N. Senhora da Piedade, e outros adereços, para o Mosteiro, acabado de expropriar às freiras — mas que desde logo não perdeu o carácter religioso, mantendo-se o culto durante algum tempo.

Cruzeiro da Esperança | sécs. XVI-XVII
Sítio da Esperança: Convento e Quartel dos Bombeiros 
Cruzeiro da Esperança - removido uma bela noite de Janeiro de 1835 - , esculpido de um lado a imagem de Cristo Crucificado, e do outro, uma Nossa Senhora da Piedade. 
Conservação e restauro da escultura do acervo do Museu Nacional de Arte Antiga em depósito no Museu de Lisboa. Trabalho realizado por Pedro Lino, escultor e técnico de conservação e restauro de materiais pétreos.

O sitio da Esperança!
As casas do Duque de Aveiro, o Mosteiro das donas nobres, & devoção dos mesteirais do mar, o Cruzeiro, a estrada antiga, à evocação da Quinta da Sizana e das hortas da Boa Vista...
Pois não podíamos ficar sempre nisto. Uma urbe tem as suas exigências; a evolução urbanista é um crescimento fisiológico nas cidades.
A Avenida Wilson [actual D. Carlos I], na sua ligação com o Aterro da Boa Vista — Avenida 24 de Julho — explica e justifica tudo.

Sítio da Esperança: Convento e Quartel dos Bombeiros |195-|
Avenida Dom Carlos I 
Antiga do Presidente Wilson, Avenida das Cortes, antes Rua Dom Carlos I (1889), antes Rua Duque de Terceira (1866), antes Rua dos Ferreiros à Esperança, antes Rua dos Ferreiros a Santa Catarina) e Travessa Nova da Esperança.
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia

ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 23-26, 1938..

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Paraíso de Lisboa

Inaugurado a 12 de Julho de 1907 — na cerca do Palácio Folgosa, à Rua da Palma, o famoso «Paraíso de Lisboa», era um parque de diversões, ornado de pequenas muralhas, situado na Rua da Palma paredes meias com o «Real Colyseu de Lisboa». 
 
É provável que o recinto, dirigido por Augusto Pina e por Mimon Anahory, que tinha sido responsável pelo parque de diversões que nos meses de Verão se instalava no Jardim de S. Pedro de Alcântara, correspondesse, segundo os dados de que dispomos, ao modo como a cidade tradicionalmente vivia os seus divertimentos. A quase espontaneidade formal dos seus dois «teatrinhos», onde se ofereciam espectáculos variados e animatógrafo, as barracas de jogos e os cafés que se levantavam ao ar livre tornam possível imaginarmos o ambiente e o uso efectivo que se dava às suas estruturas. Aliás, a simples nota registada na altura de que o espaço fazia lembrar a antiga Esplanada d.os Recreios Whittoyne, aos Restauradores, demolida em 1866.

Paraíso de Lisboa [ant. 1910]
 Rua da Palma, 273
Entrada 100 réis, lê-se no muro ameado.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Paraíso de Lisboa [1912]
 Rua da Palma, 273
Note-se o novo edifício do animatógrafo inaugurado em 1910.
Homenagem aos mortos da República. O Estado Maior da Armada e forças da Marinha passando na rua da Palma a caminho do cemitério do Alto de São João.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O recinto incluía um teatro, ringue de patinagem, carrossel, labirinto de espelhos, barracas de tiro, tômbolas,  de comidas e bebidas — divertimentos fáceis, ao ar livre — ligeiros, género Folies Bergères, jogos, cafés, etc..

Paraíso de Lisboa, recinto de diversões [ant. 1910]
Rua da Palma, 273
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Possuía um palco arte-nova instalado sobre um pequeno lago, e plateia ao ar livre. Não teve vida desafogada, acabando por encerrar no fim da década de 1910 sucumbindo à urbanização do lado poente da Rua da Palma.
 
Paraíso de Lisboa, palco de um dos «teatrinhos» [ant. 1920]
Rua da Palma, 273
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa, 2012

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