Friday, 30 August 2019

Rua de Arroios

Era para os lados de Arroios, adiante do Largo de Santa Bárbara; lembrava-se vagamente que havia ali uma correnteza de casas velhas... Desejaria antes que fosse numa quinta, com arvoredos murmurosos e relvas fofas; passeariam as mãos enlaçadas, num silêncio poético; e depois o som da água que cai nas bacias de pedra daria um ritmo lânguido aos sonhos amorosos... Mas era num terceiro andar — quem sabe como seria dentro?

(QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio,  1878)


Rua de Arroios  [1961]
Perspectiva tirada junto ao nº 120 na direcção do Largo de Santa Bárbara
Arnaldo Madureira,
in Lisboa de Antigamente
 
Antiga Rua Direita de Arroios, antes troço da Rua Direita dos Anjos e Rua Direita de Arroios. A Calçada de Arroios tal como a Rua de Arroios perpetuam na memória de Lisboa a ligação ao antigo sítio de Arroios, que indica regato e indica um local de hortas verdejantes. [cm-lisboa.pt]

Rua de Arroios  [entre 1901 e 1908]
Perspectiva tirada junto ao nº 1oo na direcção do Largo de Arroios
Machado & Souza,
in Lisboa de Antigamente

— É verdade, onde ias tu a Arroios?

Luísa passou devagar as mãos sobre o rosto para lhe cobrir a alteração. Disse, bocejando ligeiramente:

— A Arroios?

— Sim. O Saavedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que te via passar todos os dias para lá, de trem e a pé.

(QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878)

Wednesday, 28 August 2019

Calçada (Nova da Bica) do Desterro

O topónimo antigo evoca o Convento do Desterro e uma velhinha bica que aqui corria, como descreve Norberto de Araújo nas suas «Peregrinações»:
Deves notar nesta artéria a mistura urbanista das edificações: prédios modernos de há cinco e seis anos¹ brigando com casebres de há cento e cinquenta. [...] eis outra curiosidade, esta delicada: a Bica do Destêrro, que foi fio de água corrente. 

Calçada do Desterro [1951]  
Perspectiva tirada da Rua de São Lázaro; ao fundo a Bica do Desterro (esq.) e o Hospital do Desterro.
Antiga Calçada Nova da Bica do Desterro
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Notam-se, ladeando a bica, que já não corre há anos, duas janelas ou frestas entaipadas, e com lindas colunas decorativas, de capitéis trabalhados [retirados para o Museu de Lisboa], vindas talvez de outro sítio, graça de arte que deve datar do século XVI. Sôbre êste conjunto ostenta-se uma grande caravela, em pedra, de alto relêvo, das maiores, que neste género, e para modéstia da bica, se topam em Lisboa.
Por cima de tudo — o muro florido de um quintal. A Bica do Desterro é anterior às primeiras edificações, ou delas coeva.

Calçada do Desterro [1951]  
Bica do Desterro
Antiga Calçada Nova da Bica do Desterro
Eduardo Portugal,
in Lisboa de Antigamente

Bica do Desterro [1930]  
Calçada do Desterro
Eduardo Portugal, in LdA














Pelo que deixa perceber a gravura acima. a Bica N.º 3 teria inicialmente duas bicas  e um tanque. Na foto à direita, datada de 1930, ainda se observam as colunas decorativas, de capitéis trabalhados (hoje no Museu de Lisboa) e o respectivo tanque.
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 67.68, 1938.

Sunday, 25 August 2019

Palácio Praia

O Palácio dos Marqueses da Praia, no Largo do Rato — entre a Rua das Amoreiras e a Calçada Bento da Rocha Cabral — , é uma edificação de 1784, ou de pouco antes. Ergueu-o, em primeira traça, Luís José de Brito, contador do Real Erário, e tesoureiro das contribuições para a superintendência das Obras das Aguas Livres, sobre chão rústico e casas que pertenceram à famosa fábrica da louça do Rato.

No começo de oitocentos era da viúva Brito, andou depois alugado, e foi mais tarde comprado pelo Barão de Quintela, do qual passou por herança ao Conde da Cunha e deste ao Marquês de Viana, que já o possuía em 1828, e cuja esposa era neta do Barão de Quintela.
Em 1876 o palácio foi vendido ao Visconde de Monforte, Luiz Coutinho de Albergaria Freire, deste passou a sua sobrinha, D. Maria José, que casou com o Conde da Praia, depois Marquês, António Borges de Medeiros Dias da Câmara e Sousa; deste transitou a seus filhos, 2.º Marquês da Praia e Monforte, D. Duarte, e Condessa de Cuba. Presentemente [em 1939] o Palácio do Rato pertence, em partes iguais, à Senhora Condessa de Cuba, que ocupa a parte sobre a Calçada da Louça [hoje de Bento da Rocha Cabral], e ao 3.° Marquês, D. António, filho de D. Duarte, que detém a parte sobre a Praça.

Palácio do Marquês da Praia e Monforte |1945|
Largo do Rato, 2; Calçada Bento da Rocha Cabral, 1
André Salgado, 
in Lisboa de Antigamente

Foram famosas no meado do século passado [XIX] as festas no Palácio do Rato, do tempo dos Marqueses de Viana, constituindo deliciosos motivos de crónicas lisboetas, tais as dos Condes de Farrobo, de Penafiel, do Carvalhal, paradas de aristocracia, cheias de beleza e opulência, bom gosto e aprumo; deram-se aqui deslumbrantes bailes de máscaras, a um dos quais pelo menos (1855) assistiram D. Pedro V, D. Fernando, e os infantes. 

Palácio do Marquês da Praia e Monforte [1950]
Largo do Rato, 2; Calçada Bento da Rocha Cabral, 1
Horácio Novais, 
in Lisboa de Antigamente

A Capela da Casa é fundação do Marquês de Viana, 1839, sendo o risco do arquitecto da Casa do Infantado Joaquim de Sousa; o pequeno templo da Calçada da Louça [hoje Calçada Bento da Rocha Cabra], propriedade da Condessa de Cuba, é dedicado hoje a N. Senhora da Bonança. Possue esta Igreja duas capelas laterais além da principal.

N.B. Este belo edifício, cedido em 1975 e depois arrendado, foi mais tarde adquirido pelo Partido Socialista (31 de Dezembro de 1986) aos descendentes do 4.º Marquês da Praia e Monforte, e passou a integrar, desde então, o seu património.

Palácio do Marquês da Praia e Monforte [1910]
Largo do Rato, 2; Calçada Bento da Rocha Cabral, 1
Legenda de arquivo: Bando precatório a favor das vítimas da revolução republicana.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, Fasc. VIII, Lisboa, 1950.

Friday, 23 August 2019

Theatro Moderno

O «Teatro Moderno», ampla sala de espectáculos, sito na antiga Rua de Nossa Senhora do Resgate, hoje Rua Álvaro Coutinho, foi inaugurado a 12 de Dezembro de 1907. Também designado por «Teatro dos Anjos» — a que o público chamava da «preta» — , por ser a  proprietária uma senhora de cor, aluiu parcialmente em 1918 tendo sido logo demolido
Hoje é lá um prédio de rendimento.

Theatro Moderno [c. 1907]
Rua Álvaro Coutinho, 15, na direcção da Rua Francisco Lázaro

 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Theatro Moderno, ruínas [1918]
Rua Álvaro Coutinho, 15; ao fundo vêem-se alguns prédios na Avenida Almirante Reis

José Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

N.B. Na Travessa do Borralho — actual Rua Francisco Lázaro, dístico de 1924 — houve outro, depois cinema, o Cine-Teatro Salão dos Anjos comummente Teatro do Borralho, onde hoje é  o Lisboa Ginásio Clube (1923). 
Francisco Lázaro foi o primeiro desportista a ficar consagrado na toponímia de Lisboa, pelo Edital municipal de 09.12.1924, com a legenda «Pedestrianista Falecido em Estocolmo em 1912».

Rua Francisco Lázaro [1964]
Local onde funcionou o  Cine-Teatro Salão dos Anjos ou Teatro do Borralho, vendo-se os candeeiros que iluminavam a entrada; ao fundo a Rua Álvaro Coutinho no cruzamento com a Rua dos Anjos

João Goulart, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", vol.13, 1950.

Wednesday, 21 August 2019

Teatro do Rato

No centro desse quarteirão sul [do Largo do Rato] referido — recorda Norberto de Araújo — chãos e casas que primitivamente foram da Real Fábrica de Sedasrasga-se um Arco, que leva a uns terrenos (antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari, o que julgo mais acertado) nos quais à esquerda está de pé a adega e casa de pasto conhecida pela designação de «Parreirinha», e ao fundo se construíram em 1907 uns barracões sólidos, que pertencem, como oficinas, à Sociedade Portuguesa. de Automóveis, com entrada pela Rua da Escola Politécnica; uns quintalórios denunciam ainda a antiga feição rústico-fabril do local.

Largo do Rato [195]
Ao centro vê-se o arco de acesso à antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari depois Teatro do Rato
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Aqui, precisamente no sítio dos barracões, assentou o Teatro do Rato, inaugurado em 27 de Março de 1880 e que ardeu em 1906, afinal também um grande barracão de zinco e tijolo, mas por cujo tablado passaram algumas notáveis figuras da cena portuguesa, entre as quais Adelina Abranches, felizmente ainda sobrevivente de uma geração de artistas eminentes.

Arco do Largo do Rato [1944]
Acesso à antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari e ao Teatro do Rato
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Comício republicano realizado no antigo recinto do Teatro do Rato [1907-05-01]
Largo do Rato
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 15, 1939.

Sunday, 18 August 2019

Rua Andrade

O Bairro Andrade — diz Norberto de Araújo — foi aqui a grande primeira nota de urbanismo, entre campos e lugares aprazíveis; fundou-o um proprietário de terrenos locais, o qual, concedida a autorização municipal, o rasgou em xadrez regular, pondo às ruas os nomes das senhoras de sua família; leva pouco mais que quarenta anos [finais séc. XIX].


A Rua Andrade foi atribuída por deliberação camarária de 10 de Novembro de 1892, confirmada pela presidência da Câmara em 30 de Janeiro de 1893, a qual atribuiu também na mesma área os seguintes topónimos: Rua Maria Andrade, Rua Maria, Rua Palmira e Rua Antónia Andrade, no arruamento que ligava o Caminho do Forno do Tijolo com a Rua Maria.

Rua Andrade [1960]
Esquina com a Av. Almirante Reis; em frente à 'Leitaria Bijou' — antiga Farmácia Bezelga; do lado esquerdo da foto ficava o antigo Cinema Lys.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Das actas das sessões da Comissão Municipal no ano de 1892, pode ler-se o seguinte sobre o dia 10 de Novembro de 1892:
«De Manuel Gonçalves Pereira d'Andrade, proprietário do 'Bairro Andrade', cujas ruas estão na posse da Câmara, pedindo que n'ellas sejam conservados os nomes que indica.
Deferido, com a alteração de Rua Antónia Andrade em vez de Rua Maria Antónia».
Daqui se pode inferir que a Rua Andrade recolhe a sua denominação do proprietário do Bairro Andrade e as restantes ruas do bairro, também indicadas pelo proprietário serão provavelmente de familiares — quiçá mulheres e filhas — do proprietário do Bairro Andrade.

Rua Andrade junto à Rua Palmira [1960]
Vendedeira de quinquilharia
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no amL.
Rua Andrade, 55 [1960]
Vendedor ambulante de fruta
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no amL.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 15, 1938.
cm-lisboa.pt.

Friday, 16 August 2019

Calçada do Conde de Pombeiro

Tem esta designação por aqui se situar o Palácio dos Condes de Pombeiro. A Rainha D. Catarina de Bragança para erguer o seu Paço da Bemposta, comprou neste sítio e em Santa Bárbara vários terrenos, dos quais, por lhe sobrarem, cedeu vários pedaços a pessoas amigas, e um deles, no actual Largo do Conde de Pombeiro, à sua camarista D. Luísa Ponce de Leão, para que esta pudesse ir viver para perto de si. D. Luísa era casada com o 1.º Conde de Pombeiro e foi um seu neto, o 3º conde deste título que veio a edificar aí um palácio conhecido pela Bempostinha e que o Terramoto de 1755 arruinou. [cm-lisboa.pt]

Calçada do Conde de Pombeiro com a Rua dos Anjos |1907|
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 14 August 2019

Grande Hotel d'Inglaterra

lnstalara-se o Grande Hotel de Inglaterra no vasto prédio a esquina da Rua do Jardim do Regedor para os Restauradores, com a sua sala de jantar de estilo D. João V, como o salão de visitas. Foi inaugurado em 15 de Abril de 1906, por ocasião do décimo quinto Congresso de Medicina, que se realizou na capital. Era proprietário do hotel o senhor Abel de Barros, também dono da Pension Hotel, da Rua da Glória, centro de hospedagem preferido pelos portugueses que regressavam do Brasil. No novo estabelecimento havia pessoal português, inglês, alemão e francês.

Grande Hotel de Inglaterra |1912|
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No prédio do lado oposto [da Rua 1.º de Dezembro], esquina da Rua do Jardim do Regedor — recorda Norberto de Araújo — , existiu até 1936 o Hotel de Inglaterra, que teve categoria. A Companhia, proprietária do Avenida Palace, comprou então o prédio para construir um grande Hotel, mas, como surgissem dificuldades, desfez-se do imóvel, o qual foi em 1937 adquirido pela «Ribatejana», sociedade de comércio agrícola; do Hotel novo, ou da reabertura do Hotel de Inglaterra, mais se não falou.

Grande Hotel de Inglaterra |1910|
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

«Funeral do almirante Cândido dos Reis e do doutor Miguel Bombarda (1910-10-16)»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 

GRANDE HOTEL DE INGLATERRA Praça dos Restauradores, 53 O mais central da capital Todo conforto, aquecimento central Agua corrente quente e fria, em todos os quartos Linda vista da Avenida da Liberdade PREÇOS MODERADOS Optimo serviço de cosinha.
(Roteiro ilustrado de Lisboa e arredores. Ed. do Guia de Portugal Artístico, Lisboa, 1935)

 



A parte decorativa das salas e dos quartos foi dirigida pelo sr. Augusto Pina, um consumado artista no Género como se pode pelo gosto com que decorou a sala de entrada como se pode ver pelo gosto com que decorou a sala de entrada em estylo Luiz XV e a sala de visitas no mesmo estylo, o gabinete de leitura, em estylo imperio, a grande sala de jantar que podemos classificar epoca. D. João V, onde se vêem lindos panneaux em tons suavissimos, pintura do sr Antonio Baeta, entre os apainelados de molduras em graciosos relevos, sobresaindo das paredes, classicas cariátides, obra do sr. Pina. Ao fundo d'esta sala ha uns bellos vitraes com pinturas, trabalho do atelier. Julio.
O quarto Luiz XV que se encontra no 3.º andar é tambem bellamente decorado, sendo digno de apreço o seu mobiliario e tapeçarias, assim como um outro quarto decorado em estylo Arte Nova.
Todos os pavimentos são cobertos por oleados ingleses de lindo gosto, vindos expressamente de Londres, assim como as tapeçarias vieram de Paris.
O estabelecimento do Grande Hotel d'Inglaterra sob os pontos de vista d'arte, hygiene e commodidade, é um grande melhoramento para a nossa capital. (O Occidente: 1906)

Grande Hotel de Inglaterra |1933|
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. A inauguração fez-se no dia 15 de Abril de 1906, tendo sido tomados todos os quartos para alojamento de uma parte dos congressistas estrangeiros, que em numero superior a dois mil vieram a Lisboa tomar parte no XV Congresso de Medicina.
O edifício onde se encontrava o Grande Hotel de Inglaterra foi demolido em 1952.

Grande Hotel de Inglaterra, demolição |1952|
Praça D. João da Câmara e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia

MARTINS, Rocha, Lisboa: História das suas Glórias e Catástrofes, 1947.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p.  15, 1939.

O Occidente: 1906.
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