quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Monumento da Guerra Peninsular

O Monumento da Guerra Peninsular — um dos mais interessantes e emotivos de todo o país, a despeito do seu peso escultórico — assenta admiravelmente neste começo do Parque do Campo Grande ao centro da Praça Mouzinho de Albuquerque [hoje de Entrecampos]. É uma obra de arte capaz de ser entendida por toda a gente. O povo — quer-lhe bem.


A subscrição pública  iniciou-se logo nesse ano, sendo a primeira pedra colocada em 15 de Setembro O concurso foi ganho pelos artistas J. de Oliveira Ferreira, estatuário, e F. de Oliveira Ferreira, arquitecto, que deram por concluído  o seu magnifico trabalho em 29 de Novembro de 1932. O monumento, alguns meses coberto por umas sarapilheiras, foi descerrado naturalmente — e com gáudio geral — numa noite de temerosa tempestade. 
A inauguração oficial realizou-se em 8 de Janeiro de 1933, com a presença do Chefe do Estado, general Carmona, do Presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar, do general Teixeira Botelho, presidente da Comissão. e seu animador, e do presidente da Câmara Municipal, general Daniel de Sousa, que recebeu o monumento em nome da Cidade.
Esteve também presente o Embaixador da Inglaterra, Claude Russel, neto de Lord Russel que foi companheiro de Wellington na última fase da Guerra Peninsular.
Demos volta ao Monumento, que bem a merece.

Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular |entre 1940 e 1950|
Campo Grande (Entrecampos)
À direita, a embocadura da futura Avenida dos Estados Unidos da América
Judah Benoliel. in Lisboa de Antigamente

Na face principal do pedestal [S.] temos a legenda, expressão do pensamento nacional reconhecido: «Ao Povo e aos Heróis da Guerra Peninsular», e esta outra inscrição: «Levantamento popular pela Independência — Junho 1808».
O fulcro do Monumento é o seu grupo escultórico, ao alto, trabalhado em bronze, e no qual nove figuras, rodeiam a Pátria, que alça o duro gládio de Afonso Henriques, arrebatada que foi a bandeira às garras da águia napoleónica, que coroa o grupo e o monumento; os soldados e o povo da arraia miúda irmanam-se na mesma febre salvadora.

Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular em construção |c. 1932|
Campo Grande (Entrecampos)
À direita, a embocadura da futura Avenida dos Estados Unidos da América
António Passaporte. Colecção Loty, in Lisboa de Antigamente

O pedestal está todo ele guarnecido, nas quatro faces e ângulos, de grupos escultóricos, talhados em pedra. Num lado, o da frente [S.], aí temos três vigorosas figuras populares, em magníficas expressões: logo outro grupo, com seis figuras, onde se vê o general Silveira, que arrasta uma peça de artilharia; ainda, no outro ângulo, com um demasiado realismo, algumas figuras de crianças e de mulheres trucidadas, ou mortas de fome. Todas estas imagens, talhadas com vigor, no qual a tragédia e a glória de vencer se dão mãos— aformoseiam o monumento, no qual estão inscritos versos dos «Lusíadas» e se admira uma evocação, materializada numa alegoria, às glórias e relíquias do passado. ¹

Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular |entre 1940 e 1950|
Campo Grande (Entrecampos)
À esquerda, a embocadura da antiga Avenida 28 de Maio, depois de 1974, Avenida das Forças Armadas.
Estúdio Horácio Novais. in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 64-65, 1939.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Praça do Aeroporto, vulgo Rotunda do Relógio

O topónimo Praça do Aeroporto, vulgo Rotunda do Relógio, foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital datado de 17/02/1947, à «Praça existente no local em que se encontram a Avenida Alferes Malheiro (hoje Av. do Brasil), a Avenida do Aeroporto, a Estrada de Sacavém (hoje A. Gago Coutinho) e outros arruamentos».
A Comissão de Toponímia, na sua reunião de 3/02/1947, apreciou duas informações da Secção de Escrivania, nas quais se expunha a conveniência da atribuição de nomenclatura «ao troço de via pública situado no prolongamento da Avenida Almirante Reis e que termina em frente do edifício do Aeroporto da Portela».

Praça do Aeroporto [1961]
Aeroporto da Portela; Avenida do Cabo Ruivo, hoje Avenida Marechal Gomes da Costa (1966)
João Goulart, 
in Lisboa de Antigamente

Quando, nos anos 20 do século passado, se começou a sentir a necessidade da existência de um aeródromo em Lisboa, foi decidido em Março de 1928, por proposta do Comandante Quirino da Fonseca, construí-lo na Portela de Sacavém.
Esta era a localização “ideal, dada a ausência de aglomerados urbanos circundantes e, simultaneamente, a proximidade do centro da cidade (5km) e do porto fluvial”. Os trabalhos só se iniciaram passada uma década e o Aeroporto foi aberto ao tráfego em 15/10/1942. [cm-lisboa.pt]

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Praça do Marquês de Pombal, 5 (Ventura Terra)

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constitue o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fêz demorar. [Araújo: 1939]


Datado de 1901 é o prédio, na altura considerado casa de aluguer, correspondente ao n.º 5 da Praça do Marquês de Pombal, e que foi demolido em 1998, depois de um lento processo de degradação patrimonial (vd. Fernandes, J. M., Lisboa em Obra(s), Lisboa, 1997, p. 98). O alto standard da construção fazia com que cada andar, com duas habitações, tivesse jardim de Inverno. Os inquilinos do rés-do-chão e do primeiro andar teriam além do mais jardim ao ar livre. A fachada, por seu turno, era revestida de mármore e azulejos numa elegante simetria servida pela estilização dos elementos arquitectónicos e frontão coroante. 

Praça do Marquês de Pombal, 5 [1970]
Ao centro, prédio do risco do arq.º Ventura Terra; Hotel Fénix (dir.)
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

O seu autor foi Ventura Terra (1866-1919) que um ano antes ganhou o concurso para o pavilhão de Exposição Universal de Paris de 1900 (França, J. A. A Arte em Portugal do séc. IX, vol. II, 1966, p. 143). Tornou-se um arquitecto muito solicitado e respondeu às encomendas mais diversas, com grande versatilidade, responsabilidade profissional e competência, que o seu treino parisiense de cinco anos junto de Victor Laloux ajudou a definir com esmero.

Enquadramento do prédio n.º 5 na Praça do Marquês de Pombal [1934]
(clicar para ampliar)
Pinheiro Corrêa, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Avenida Dona Amélia: Asilo de Santo António

O Asilo de Santo António, mais tarde designado por Associação Protectora de Infância Santo António de Lisboa, e presentemente com o nome de Associação Pró-Infância Santo António de Lisboa, foi fundado em 22 de Março de 1891, com 13 associados, por Luís Pinto Moitinho, ourives de profissão, sendo a administração confiada a uma direcção composta por sete elementos efectivos e três suplentes. Inspirados pelos sentimentos do seu fundador, foram elaborados os Estatutos, aprovados segundo Alvará de 3 de Junho de 1890, pelo Governador Civil de Lisboa.

O Asilo foi inaugurado a 1 de Abril de 1892 com 13 educandas. Nessa altura o Asilo localizava-se numa casa do Largo do Conde Pombeiro, que pertencia ao Conde de Azarujinha, e só em 16 de Junho de 1895 foi inaugurado o edifício na Av. Almirante Reis, que na altura se intitulava Av. D. Amélia. Tinha como finalidade acolher raparigas órfãs às quais era ministrada educação industrial e profissional, mais tarde começou a ser-lhes dada uma educação literária e técnica. Durante muito tempo quase manteve o exclusivo da fabricação de estojos.

Asilo de Santo António |1938|
Avenida Almirante Reis, primeiro dos Anjos depois de Dona Amélia; Rua Maria Andrade (dir.)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Em 8 de Abril de 1893, visitou o Asilo de Santo António S. Majestade a Rainha Senhora D. Amélia, acompanhada pelo Príncipe Real D. Luiz Filipe, entendendo a Direcção deste Asilo, dever nomeá-lo Presidente Honorário. Nos livros dos visitantes escreveu Sua Majestade a Rainha:
"Visitando hoje a casa em que se acha estabelecida a Associação Protectora da Infância Santo António de Lisboa, tive o ensejo de avaliar quanto é útil e moralizadora esta Instituição, congratulando-me por vêr meu filho, o Príncipe Real, presidir a uma obra que honra quem a empreendeu pelo bem que faz e prepara as crianças que a frequentam com princípios sãos e aptidões para o trabalho que nobilita."

Asilo de Santo António |c. 1935|
Avenida Almirante Reis; Rua  Luís Pinto Moitinho (dístico de 1906)
Ao fundo, na Rua  Luís Pinto Moitinho, observa-se a antiga capela e parte do edifício do Asilo de Santo António; em primeiro plano, vê-se a Igreja dos Anjos e as novas motocicletas com side-car da Polícia de Segurança Pública.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

O Asilo de Santo António, possuía uma capela [vd. 2ª foto] na rua que tem o nome do seu benemérito fundador, Luís Pinto Moitinho, ourives de profissão, que de modesto caixeiro, na loja de seu sogro, fundada na Rua da Prata, em 1790, chegou a prestimoso benemérito pelo seu perseverante trabalho. Foi o fundador do jornal «O Caixeiro» e da Associação de Classe dos Ourives e Artes Anexas, tendo falecido com 71 anos. 
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Bibliografia
NEVES, Eduardo Augusto da Silva, Do sítio do Intendente, in Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1950.
Apisal.pt

domingo, 26 de novembro de 2017

Igreja de Nossa Senhora do Loreto ou dos Italianos

A Igreja é, no seu exterior, e como a observas, interessante, mesmo nobre, fazendo contraste sério na arquitectura geral com a da Encarnação, mais fria. Guarda bastante do primitivo templo anterior ao Terramoto, principalmente arte em pedra.¹


Foi a primeira igreja do Loreto erecta n'uma ermida de St.° Antonio — refere o precioso Portugal Pittoresco e Illustrado — que os confrades da nação italiana ampliárão por concessão do pontifice Leão X, e d'EIRei D. Manoel, pelo anno de 1517, sendo depois annexada ao cabido Lateranense por um breve, que o mesmo cabido passou a 20 d'abril do anno de 1518, confirmado pelo mesmo papa Leão X em 1523, e ultimamente por Benedicto XIII em 6 d'abril de 1726.
No dia 29 de março de 1651 , quarta feira de Lazaro, aconteceo queimar-se esta igreja com a grave perda de mais de 400:000 cruzados, salvando-se comtudo apenas o cofre do Santissimo Sacramento, que foi transferido para a ermida de N. S.a do Alecrim, começando-se no mesmo anno, a 17 d'abril, a desentulhar a igreja para se reedificar, e no fim de 25 annos o templo foi acabado com todo o primor.²

Erigida em 1518 — a pedido da comunidade italiana residente em Portugal — foi recuperada após o Terramoto de 1755, segundo projecto de Joaquim António dos Reis Zuzarte, depois substituído por José da Costa e Silva, trata-se de uma igreja de nave única, revestida com mármores de Itália e decorada com estátuas de pedra dos Evangelistas e dos Apóstolos. A capela-mor, de abóbada de berço e retábulo de mármore polícromo, acolhe a imagem da padroeira e surge ladeada por 12 capelas com pinturas e decoração barroca.

Igreja de Nossa Senhora do Loreto ou dos Italianos [ant. 1895]
Largo do Chiado; Rua da Misericórdia
Observe-se, no nicho alto, a curiosa imagem da Virgem do Loreto envolvendo o Menino.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

O olisipógrafo Norberto de Araújo chama a especial atenção dos curiosos para a invulgar imagem de Nª Sra. do Loreto, com o Menino: «No nicho alto, sobre a arquitrave, entre pilastras compósitas, ostenta-se a curiosa imagem da Virgem do Loreto, que oferece a particularidade de se envolver num manto afunilado, cinzelado de jóias, a figura sem braços, a cabeça e o meio corpo do Menino espreitando desta espécie de saco. É esta a iconografia tradicional da Virgem. O portal é decorativo, com suas colunas caneladas que sustentam um entablamento ornamentado, sobre o qual avulta o conjunto de dois anjos ladeando as armas pontifícias, obra de Borromini, ou de Bernini, segundo alguns informadores, da primeira metade do século XVII, isto é: da primeira construção. Nos nichos laterais, à altura de meio pórtico, observa as imagens, duras de escopro, de S. Pedro e S. Paulo, do estilo italiano de seiscentos, mas atribuídas a um escultor francês.»¹

Igreja de Nossa Senhora do Loreto ou dos Italianos [1907]
Largo do Chiado; Rua da Misericórdia
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 16, 1938.
² DENIS, Fernando, Portugal pittoresco; ou, Descripção histórica d'este reino, p. 53, 1846.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Panorâmica sobre o Vale da Lapa da Moura: Chafariz das Terras (ou de Buenos Ayres)

No século XVI — recorda-nos Norberto de Araújo — o lado poente do actual bairro [da Lapa], que cai sobre a Pampulha, era de campos matizados de casas e arvoredos, onde aqui e ali afloravam pedreiras. Uma lapa, numa dessas rochas deu origem à «Lapa da Moura», designação oral, e documentada, que precedeu a de «Cova da Moura» ainda existente. A “«lapa» – à Pampulha, sítio mais antigo – subiu para Norte e Nascente até ao Mocambo e, deslocando a designação, firmou a Lapa de setecentos.


Em fundo, paredes meias com a Tapada das as Necessidades, espalmada entre muros, sobe a Calçada do mesmo nome, vendo-se, ao cimo desta, o palacete da Casa de Bragança no gaveto para a Rua do Borja; logo abaixo, entre a Calçada e o ramal do Aqueduto ou Galeria das Necessidades, o Vale da Cova da Moura — símbolos do passado que se foram para dar lugar a novos arruamento —, por onde corre actualmente a Avenida Infante Santo, construída na década de 1940 e que implicou a demolição parcial do referido aqueduto; na 1.ª imagem, em baixo à esquerda, na Travessa do Chafariz das Terras, junto à «Casa das Iscas» e adossado ao troço do Aqueduto das Águas Livres, vislumbra-se o Chafariz das Terras e o movimento de aguadeiros; do lado direito do ramal, encontramos a Rua do Pau da Bandeira, «dístico antigo e pitoresco»  — diz Norberto de Araújo —, «cuja origem me escapa» e que comunica com a referida Travessa através de um dos arcos do aqueduto contíguo ao chafariz. (vd. 2ª foto).

Panorâmica sobre o Vale da Cova da Moura [s.d.] [prov. início séc. XX]
Travessa do Chafariz das Terras e Chafariz das Terras; Rua do Pau da Bandeira; Calçada das Necessidades
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Localizado na Tv. do Chafariz das Terras, à Cova da Moura, o Chafariz das Terras surge encostado ao Aqueduto das Águas Livres, sendo abastecido pela água proveniente da Galeria das Necessidades. De construção mais tardia, 1867, e por iniciativa camarária, tal como atesta a inscrição patente numa tabela quadrangular, de vértices chanfrados, existente na frontaria do chafariz, traduz uma solução mais simples e funcional em relação aos imponentes modelos de chafarizes abastecidos nos primeiros tempos de funcionamento do Aqueduto. Chafariz de planta rectangular, com um largo espaldar, cujo pano frontal surge delimitado lateralmente por cunhais coroados por pequenos coruchéus em pirâmide. A meio da cimalha ostenta as armas da cidade inscritas numa moldura circular e na base possui 2 tanques de recepção de águas diferenciados assentes sobre degraus. Uma porta lateral dá acesso ao interior da arca de água.

Chafariz das Terras (ou de Buenos Ayres) [1970]
Travessa do Chafariz das Terras e o arco que liga com as Ruas do Arco do Chafariz das Terras e do Pau da Bandeira
Assim como a Rua do Arco do Chafariz das Terras este é um topónimo fixado na memória da cidade em data que se desconhece mas que será seguramente do final do século XVIII já que a denominação deriva do primitivo Chafariz das Terras, construído em 1791, mais acima daquele em que está hoje; neste sítio tem a data de 1867.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
 
Sofreu melhoramentos em 1812, tinha em meados do século XIX, 2 bicas, 2 Companhias de Aguadeiros, 2 capatazes e cabos, 66 aguadeiros e 1 ligeiro.

Chafariz das Terras (ou de Buenos Ayres) [1947]
Travessa do Chafariz das Terras
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII-IX. 
VELOSO DE ANDRADE, José Sérgio , Memória sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do Termo., 1851.
monumentos.pt; cm-lisboa.pt.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Cine-Bélgica

O Cine-Bélgica, servindo o bairro do mesmo nome e toda a zona do Rego, abriu as portas a 25 de Julho de 1928, no número 175 da Rua da Beneficência. Com uma lotação estimada de 500 lugares entre plateia e balão, fora projectado pelo construtor civil Domingos Pinto e construído no local de um antigo barracão de arrumações. Conhecido por Bélgica-Cinema a partir de 1931, viria a ser adaptado ao cinema sonoro em 1933, através da instalação de uma aparelhagem R.C.A. Photophone (vd. N.B.). Durou várias décadas, conhecendo um verdadeiro segundo apogeu a partir de 1968, como Cinema Universitário, com programação criteriosa, digna de um cineclube. 

Cine-Bélgica, Bélgica-Cinema [1961]
Rua da Beneficência, 175
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Nos anos 70 foi ainda Cinema Universal, explorado pela distribuidora Animatógrafo, sob a direcção do produtor e realizador António da Cunha Telles, antes de encerrar para obras de vulto que o transformariam em novo ponto de encontro dos lisboetas mais jovens: o Rock Rendez-Vous. Foi nas célebres noites do Rendez-Vous que, ao longo da primeira metade dos anos 80, se estrearam várias futuras celebridades do rock português e algumas das melhores bandas de rock anglo-saxónicas. 
Encerrou as portas em 27 de Julho de 1990. 

Cine-Bélgica, Bélgica-Cinema[1968]
Rua da Beneficência, 175
João Goulart, in Lisboa de Antigamente

N.B. O Bélgica-Cinema inaugurou os espectáculos sonoros com o sistema de som R.C.A. Photophone com a exibição do filme A Loucura de Monte Carlo (Le capitain Craddock, no original), musical produzido em França no ano de 1931. 
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Bibliografia
DIAS, Marina Tavares  em Lisboa Desaparecida,vol. VII.

domingo, 19 de novembro de 2017

Hotel Ritz

A construção do hotel Ritz, projectado pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, teve início em 1952 e  foi inaugurado em 1959. Para a distinção do Ritz, ainda hoje uma referência no quadro da hotelaria nacional, muito contribuíram consagrados artistas, entre os quais Almada Negreiros, Sarah Afonso, Barata Feyo ou Carlos Botelho. Por indicação do regime de então, ansioso por ter na capital uma unidade de luxo com todos os requisitos da hotelaria moderna, foi constituída, especialmente para este efeito, uma Sociedade de Investimentos Imobiliários (Sodim), da qual fazia parte, entre outros, o banqueiro Ricardo Espírito Santo. Refira-se que em 1959 — quer modernos quer conservadores — não gostaram do que viram, tendo sido muito criticadas as opções artísticas adoptadas para o hotel. Consta, até, que o próprio Salazar — que só visitou o Ritz uma única vez, numa pré-inauguração exclusiva —, não apreciou nada do que lhe foi dado ver no hotel, tendo permanecido em silêncio durante a visita acabando por sair pela porta de serviço das cozinhas, não tendo mais lá sido visto, nem sequer para inaugurarão oficial, à qual, aliás, se recusou a comparecer.
A publicidade ao Ritz dava-o como «O Grande Hotel de Lisboa». Estava equipado com trezentos quartos, todos com sala de banho privativa revestida de mármore, e anunciava-se ambiente climatizado e ventilação garantida por aparelhagem silenciosa. Um must daquele tempo.

Hotel Ritz [1959]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
Obras do metropolitano, vendo-se à esquerda a estátua do Marquês de Pombal e, em baixo, os terrenos do antigo Palácio Sabrosa; ao fundo vê-se o hotel Ritz
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Situado no topo de uma colina no coração de Lisboa, a quinze minutos do aeroporto e a dez minutos da baixa e zona histórica de Lisboa, o hotel reflecte o encanto e história de Portugal na sua arquitectura e interiores espaçosos. Trata-se de uma construção de grande monumentalidade, acentuada pela sua dimensão, pela sua perfeita geometria e pelo revestimento integral das fachadas a mármore. Oferece 284 amplos quartos, com luxuosos quartos de banho em mármore, varandas debruçadas sobre o Parque Eduardo VII, com vistas fabulosas sobre a cidade. O (agora) Four Seasons Ritz Hotel detém mais de 600 obras de arte, desde tapetes e carpetes artesanais, pinturas e esculturas que ornamentam os halls de mármore do hotel. Os seus hóspedes têm ao seu dispor o centro de negócios, 'fitness centre' muito bem equipado, spa e a piscina interior. Do restaurante 'Varanda'' desfruta-se de excelente vista para o Parque Eduardo VII e para os terraços do hotel e oferece o melhor da cozinha portuguesa e internacional. O 'Ritz Bar'' com decoração onde predominam as cores vermelho e preto, tem música ao vivo em piano.

Hotel Ritz [1959]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
António Passaporte, 
in Lisboa de Antigamente
Hotel Ritz vista tomada do Parque Eduardo VII [c. 1960]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
António Passaporte (Loty), 
in Lisboa de Antigamente

O interior, luxuosamente desenhado, acolhe mobiliário fabricado expressamente nas oficinas da Fundação Ricardo Espírito Santo, assim como obras de arte moderna dos mais consagrados artistas da época, como Almada Negreiros, Querubim Lapa, Martins Correia, Lagoa Henriques, Sara Afonso e Carlos Botelho contribuíram para a decoração com valiosas obras. Carlos Calvet e Lino António criaram motivos para tapeçarias, produzidas na fábrica de Portalegre.
O Hotel, incluindo o seu património integrado, encontra-se classificado como Monumento de Interesse Público.

Hotel Ritz [c. 1959]
Neste sala estão presentes tres tapeçarias "Centauros" do mestre Almada Negreiros inspiradas na mitologia grega
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
Amadeu Ferrari, 
in Lisboa de Antigamente
Hotel Ritz, restaurante 'Varanda'' [c. 1959]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente

Também digna de admiração é a principal escadaria de acesso ao Salão Nobre com um mural lacado de Pedro Leitão e madrepérola de Arnaldo Louro de Almeida e, ao descer, chega-se junto da coluna do mestre ceramista Querubim Lapa, um verdadeiro totem artístico.

Hotel Ritz
Coluna do mestre ceramista Querubim Lapa e mural lacado de Pedro Leitão e madrepérola por António Louro de Almeida.
 
N.B. Caso esteja interessado e disponha de 30 minutos, aconselhamos ao prezado leitor  uma visita guiada, pela mão da RTP, a este edifício icónico da cidade de Lisboa. Vale bem a pena, acreditem.
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Bibliografia
BRASÃO, Inês, Hotel, os Bastidores, 2017.
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