terça-feira, 12 de julho de 2016

Avenida da Liberdade

Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?.... Já não é mau! [1]


A Avenida da Liberdade, inaugurada em 1885, ou a Avenida, como quase logo passou a ser designada, foi um lugar em si mesmo. Nos últimos anos do século XIX e até à proclamação da República, «fazia-se a Avenida» como se fazia a Rua Áurea e o Chiado: para passear, ver e ser visto, numa ritualização do passeio urbano cujas características eram ainda românticas.
O ajardinamento das placas laterais (que salvaguardaram espécies do Passeio Público e alguns dos seus elementos decorativos, como os pequenos lagos), a amplitude do espaço de andar e a quase ausência de trânsito explicam que a Avenida tenha sido, de facto, a mesma espécie de palco que fora o Passeio Público, mas sem muros nem portões de acesso, democratizando o passeio e a fruição de espectáculos ocasionais de Verão. [2]

Avenida da Liberdade [1955]
Panorâmica da Avenida da Liberdade com placas ajardinadas
Eduardo Portugal, in AML

«Assim se fez a Avenida» escreve, em 1893, Fialho de Almeidapanfletário maior da literatura portuguesa«que é como se sabe um corredor de cantaria, com altos muros cheios de buracos, palmeiras de cabellos nas pernas, e um obelisco-thermometro marcando no primeiro de Dezembro o zero da temperatura patriotica. (...)
Insisto no que poderia ter dado a Avenida, se a camara partindo d'um estudo de transformação architectonica bem guiado, e sabendo que para essa arteria convergiriam todas as novas construcções luxuosas da classe rica, dictasse a esta typos de residencia, não nos seus detalhes meúdos, que isso seria um attentado ás leis da variedade, mas dentro d'um quadro d'estilos sujeito a um ensemble, e frisando o monumental da grande rua. Eis o que teria afastado daquele sítio os prédios mercenários, os predios cómodas, com janelas de bico e platibandas de louça por vidrar, e o que multiplicaria as perspectivas por uma diversidade sem fim de tipos palaciais, dando a esse eixo novo de Lisboa a grandeza cenográfica que lhe falta, e o ar de grande terra que já agora só com um terramoto novo pode ter. 

Avenida da Liberdade [ant. 1939]
Placas ajardinada
Eduardo Portugal, in AML

É realmente mágoa olhar da praça dos Restauradores, até à Penitenciária, o bisonho canal de casarões saloios que arrotam sobre a via, chatos e altíssimos, com seus telhados opacos, lucarnas de celeiro, magras varandas, e divisórias de aluguer, cheirando a sovinice dos senhorios. Dos pouquíssimos palácios que lá restam, apenas do marquês da Foz tem grande tipo, o resto concebido num tipo de cartonagem chinfrinote, dizendo o disfrute ou a estupidez do arquitecto, a farófia patuda dos donos, e a irremissível chateza merceeiral do nosso tempo.» [3]

Avenida da Liberdade [1955]
Placa ajardinada; Monumento aos Restauradores
Eduardo Portugal, in AML

[1] (QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888)

[2] (SILVA, Raquel Henriques da, O Livro de Lisboa: O Passeio Público e a Avenida da Liberdade)

[3] (ALMEIDA, Fialho de, Os Gatos, vol. 6 [1893]

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