quinta-feira, 21 de abril de 2016

Miradouro do Alto de Santa Catarina, Pico da Boa Vista ou Belveder

   Estamos, enfim, no Alto de Santa Catarina — um dos belos miradouros naturais de Lisboa. 
   Eis, a cavaleiro de Lisboa buliçosa e rumorejante dos cais, um sítio tranquilo, onde o silêncio assentou arraiais. Daqui se pode dizer que, ao longe, o ruído «se vê». 
   Este Alto, rodeado de palacetes, prédios de discreto semblante burguês, um certo ambiente aristocrático recolhido, destoa em absoluto da zona urbana que o envolve: a Bica, S. Paulo, o Combro, o Bairro Alto.  
   Há destes fenómenos por Lisboa — fenómenos de dissociação, nascidos sempre de um acaso, que acaba por deitar raízes.

Miradouro do Alto de Santa Catarina, Pico da Boa Vista ou Belveder [1959]
Rua de Santa Catarina
Fernando Manuel de Jesus Matias, 
in Lisboa de Antigamente
   
 Este sítio foi conhecido nos séculos velhos por Monte ou Pico do «Belveder» ou do «Belver», e ainda da «Boa Vista», vocábulos que bem correspondem à sua privilegiada situação panorâmica, e que deram a «Boa Vista› no sopé, junto ao mar, e que ainda subsiste.
   O Alto de Santa Catarina, designação que foi simultânea com a de Belver, mas resistiu, deve a designação à circunstância de neste sítio — exactamente onde está esse Palacete n.º 1 [do Conde de Verride], com pátio guarnecido de gradeamento — ter existido a Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai.
   No alto deste cabeço, havia, como atrás disse, desde o século XV uma enorme Cruz de madeira, que servia de guia aos mareantes.

Miradouro do Alto de Santa Catarina, Pico da Boa Vista ou Belveder [c. 1940]
Rua de Santa Catarina
Paulo Guedes, 
in Lisboa de Antigamente
Miradouro do Alto de Santa Catarina, Pico da Boa Vista ou Belveder [1965]
Rua de Santa Catarina
Paulo Guedes, 
in Lisboa de Antigamente

   O Jardim, Miradouro ou «Alto» de Santa Catarina — é este onde nos encontramos, debruçado sobre a vista, e dominando a margem fabril e naval, o Aterro, a Madragoa, o Tejo, e os montes da outra banda. A expressão «ver navios no Alto de Santa Catarina» tem a sua justificação.
   O ajardinamento deste logradoiro público data do princípio do século [séc. XX]; nem por carecer de arbustos e de flores o local deixou de ser, desde há alguns séculos, um dos encantos panorâmicos de Lisboa.
   Em 1927 foi colocado no centro deste pequeno jardim esse bloco de pedras sobrepostas, que constitui, no complemento escultórico, o monumento singelo, simbólico ao Gigante Adamastor. O artista Júlio Vaz Júnior, imprimiu à sua obra um sentido subjectivo; a «Visão do Estatuário» é o coroamento do monumento, e nele se vê a pequena figura do escultor, em bronze, à sombra da carranca do gigante fabuloso.
   Pode ser discutível esta obra; possui, contudo, uma certa expressão alegórica de grandeza.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 71-73, 1939)

Miradouro do Alto de Santa Catarina [1965]
O Gigante Adamastor e a «Visão do Estatuário» observando-se a pequena figura do escultor, em bronze, à sombra da carranca do gigante fabuloso.
Rua de Santa Catarina
Armando Serôdio, 
in Lisboa de Antigamente


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Faculdade de Ciências Médicas, antiga Escola Médico-Cirúrgica

A Escola Médica, no seu edifício actual, foi inaugurada em Abril de 1906, tem como autores o engenheiro Cabral Couceiro e o arquitecto José Maria Nepomuceno, que foram substituídos depois pelo arquitecto Leonel Gaia, que deu uma variante ao primeiro risco, e pelos engenheiros Abecassis e Borges de Castro.
No interior, esta escola é ornamentada por pinturas de Colunbano — «Sala do Concelho», Veloso Salgado — «Sala dos Actos Grandes», Malhoa, António Ramalho e silhares de azulejo da autoria de Jorge Colaço.

Faculdade de Ciências Médicas, antiga Escola Médico-Cirúrgica  [Início séc. XX]
Campo dos Mártires da Pátria, 130
José Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente

Foi neste edifício que decorreu o XV Congresso Internacional de Medicina, realizado em Lisboa de 19 a 26 de Abril de 1906. Este evento científico teve a participação de cerca de 2000 congressistas portugueses e estrangeiros. Foi seu presidente o conselheiro Costa Alemão, lente da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e secretário geral, o Prof. Miguel Bombarda, que teve a seu cargo a organização do Congresso. Foram fomentados e desenvolvidos estudos científicos, além de ter possibilitado uma projecção da medicina portuguesa a nível mundial.
A Escola Médica constituiu, desde 9 de Maio de 1911, a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Faculdade de Ciências Médicas, antiga Escola Médico-Cirúrgica [1944]
Campo dos Mártires da Pátria, 130; M
onumento a Sousa Martins.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

terça-feira, 19 de abril de 2016

Praça do Comércio: Iluminação pública com candeeiros a gás e a electricidade

A partir de 1902, com a generalização da electricidade, são colocados novos candeeiros no Rossio, Chiado, Praça do Comércio, e nalgumas das placas centrais das Avenidas Novas e na Avenida 24 de Julho até à Praça de Afonso de Albuquerque, em Belém. Por vezes, estes novos elementos eram colocados ao lado dos velhos candeeiros a gás — como se pode comprovar nesta imagem — , utilizando-se os dois sistemas em simultâneo, cuja diversa gramática decorativa dotava a cidade de um eclectismo formal singular. 

Praça do Comércio [190-]
Iluminação pública com candeeiros a gás e a electricidade

Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Em 1909 a Câmara decide racionalizar as despesas relativas eléctrica e a gás e melhorar a iluminação pública em geral, através da instalação de bicos incandescentes.
(in revista digital rossio, nº2)

Praça do Comércio [190-]
Iluminação pública com candeeiros a gás e a electricidade

Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Rua Barata Salgueiro com a Rua Rodrigo da Fonseca

Nesta artéria perpendicular à Avenida da Liberdade foi homenageado o Dr. Adriano Antão Barata Salgueiro (1814-1895), advogado em Lisboa, por decisão unânime na 19ª Sessão Extraordinária da Câmara Municipal de Lisboa, em 6 de Maio de 1882, à qual presidia José Gregório da Rosa Araújo, o presidente responsável pela construção da Avenida da Liberdade entre 1879-1886. Curiosamente, a Rua Rosa Araújo é paralela à Rua Barata Salgueiro.
As ruas Barata Salgueiro e Castilho foram calcetadas e iluminadas em 1886, ano da inauguração oficial da Avenida. Do mesmo plano de urbanização faziam parte, os bairros Barata Salgueiro a ocidente e Bairro Camões, a leste. (cm-lisboa.pt)

Rua Barata Salgueiro com a Rua Rodrigo da Fonseca |190-|
Entregas ao domicílio
Ao fundo, à esquerda, no cruzamento com a Avenida da Liberdade, nota-se a cúpula do Palacete Antão Barata Salgueiro, hoje edifício-sede do Novo Banco.

Paulo Guedes, 
in Lisboa de Antigamente

domingo, 17 de abril de 2016

Cinema Império by night

Edifício de traço arquitectónico modernista, projectado por Cassiano Branco em 1947, foi terminado em 1952. Estrutura-se através de planta rectangular, bloco único, cujo alçado principal, que se encontra virado a Norte (precedido de escadaria) é definido espacialmente através de uma ampla estrutura envidraçada que acompanha o primeiro registo da construção. A gramática decorativa da fachada traduz-se em linhas verticais coroadas por esferas armilares em ferro forjado. O espaço interno orienta-se em torno de corredores de passagem, que fazem ligação entre os três pisos e a sala de espectáculos. A corroborar a linguagem plástica, modernista, patente nesta obra, destaca-se o painel cerâmico de Jorge Barradas, que decora o restaurante do piso térreo. Actualmente, é a sede da Igreja Universal do Reino de Deus. [DGPC]

Cinema Império [1957]
Alameda Dom Afonso Henriques, 35-35D; Avenida Almirante Reis, 205-205 E;
Rua Quirino da Fonseca, 28-28
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A datação das fotografias foi viável porque na 1ª imagem é possível ler-se o título do filme: Com Quem Andam as Nossas Filhas [Con quién andan nuestras hijas, 1956] de Emilio Gómez Muriel que estreou em Portugal em 10 Julho de 1957. 

Cinema Império [1957]
Alameda Dom Afonso Henriques, 35-35D; Avenida Almirante Reis, 205-205 E;
Rua Quirino da Fonseca, 28-28
Estúdio Mário Novais,in Lisboa de Antigamente

sábado, 16 de abril de 2016

Palacete do Chafariz d'El-Rei (ou Palacete das Ratas) (actualizado)

Este palacete mandado construir a partir de 1907, no local do antigo Palácio do Marquês de Angeja, foi destruído pelo terramoto de 1755, a propriedade foi partilhada pelos «brasileiros» João António e Augusto Vítor dos Santos. A partir de 1933, a posse do palacete passou para a família de Armando Dias da Cruz, até que, em 1980, com Francisco da Cruz, então proprietário, o imóvel deixou de ser habitado pela família e foi arrendado.

Palacete do Chafariz d'El-Rei (ou das Ratas) [c. 1963]
Rua Cais de Santarém; Travessa do Chafariz, n.º 4-4A
Destaca-se um mirante, o terraço e um pequeno coruchéu.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Em Vias de Classificação, trata-se de um exemplar de arquitectura residencial romântica e ecléctica, de gosto revivalista, implantado em declive, sobranceiro ao Rio Tejo e assente parcialmente sobre as estruturas hidráulicas do Chafariz d'El-Rei e sobre vestígios da Cerca Moura. Este palacete, de planta compacta rectangular, volumetria escalonada, telhado de 4 águas perfurado por clarabóia, destacando-se um mirante, terraço e pequeno coruchéu, surge articulado em 2 corpos, de 5 pisos (2 deles parcialmente enterrados).
Este palacete-castelinho é hoje um pequeno hotel com seis quartos e salão de chá.

Chafariz d'El-Rei [c. 1900]
Rua Cais de Santarém; Travessa do Chafariz, n.º 4-4A
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O Chafariz de El-Rei... Pois aí o temos, Dilecto — recorda Norberto de Araújo. É este o mais antigo de toda a Lisboa, embora o seu aspecto seja muito diferente do que teve nos séculos velhos. É bonito! Tem um semblante repousado, sem a balbúrdia dos tempos ainda não muito distantes.

Crê-se que a origem do Chafariz d'El-Rei remonta a tempos muçulmanos. É certamente um dos mais antigos chafarizes da cidade. A sua fisionomia foi sendo alterada ao longo dos séculos resultante das diversas obras de que foi alvo. No reinado de D. Afonso II (1211-1223) é chamado Chafariz de São João da Praça dos Canos e é a partir do reinado de D. Diniz que passa a ser designado por Chafariz d'El-Rei. No século XVI o chafariz era um recinto com muro, estando por baixo de três arcadas sobre colunas ornadas com o escudo régio e duas esferas armilares. [vd. imagem abaixo]

Chafariz d’el Rey in the Alfama District [c. 1570–80]
View of a Square with the Kings Fountain in Lisbon
Anonymous, in Berardo Collection Museum
Todavia, como a água do chafariz de El-Rei aclarava o órgão vocal, e Calisto,
à força de berrar ao pé do açude e das azenhas, estava um tanto rouco,
mandou buscar um barril daquela salutífera água [...] Bebeu à tripa forra o deputado, e teve uma dor de barriga precursora de febres quartãs.
— Fie-se lá a gente! — monologou o deputado. — É preciso cuidado com
os clássicos a respeito da água de Lisboa.
[Camilo: 1866]

Em 1744 a fachada do Chafariz desabou de velha; foi reedificada em 1747 e passou de seis para nove bicas. O Terramoto oito anos depois produziu-lhe dano; há cerca de cem anos [c. 1840] andava em obras o seu frontispício, mas só em 1864 se concluiu a reedificação como hoje se nos apresenta, com boa cantaria e vistosa arquitectura ao estilo do Renascimento, dando um largo conjunto decorativo, como nenhum outro chafariz da cidade. Da muralha da Cerca, que atrás corria no século XIV, não restam vestígios.
Sendo o chafariz mais importante da cidade presenciou muitos motins e desacatos e até mortes, impondo-se a regulamentação da sua utilização pelo Senado, tendo sido estipulado que cada bica teria um destinatário: uma era para os negros forros; outra para os moiros das galés; outra para as moças brancas; outra para os homens brancos; outra para as índias, pretas, escravas e lacaios.

Chafariz d'El-Rei, aguadeiros [1909]
Rua Cais de Santarém
Aquela científica boa-fé com que procuravas monumentos em Alfama, e água depurante no muco catarroso no chafariz de El-Rei. [Camilo: 1866]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1851, este Chafariz tinha nove bicas, dez Companhias de Aguadeiros, dez capatazes, trezentos e trinta aguadeiros e dois ligeiros. Os seus sobejos iam para o mar. Este chafariz também é designado por Chafariz N.º 18.
 
Chafariz d'El-Rei [c. 1900]
Rua do Cais de Sintarém
... [Calisto Elói] leu que o chafariz de El-Rei dava uma linfa gostosa e de suave
quentura, a qual limpava a garganta de toda a rouquidão, e afinava as vozes
e assim, dizia o clássico, não errará quem disser que ela é causa das boas vozes
que em Lisboa docemente ouvimos cantar; e também dos bons carões que
conservam as mulheres.  [Camilo: 1866]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Quadra popular alusiva ao abastecimento público do Chafariz de El-rei:
Os meus olhos se obrigaram
Ao que eu nunca me obriguei:
A dar água todo o ano
Para o Chafariz d'El-Rei.
___________________________________________________________________________:__________________________
Bibliografia
Agostinho de Campos e A. de Oliveira, Mil Trovas, 1917, p. 225, n.° 707.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp, 27-28, 1939.
VELOSO DE ANDRADE, José Sérgio , Memória sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do Termo., 1851.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Rua do Vigário (actualizado)

O olisipógrafo Norberto Araújo descreve do seguinte modo este arruamento da velha Alfama:
Quem fosse o Vigário que se celebra nesta velha artéria de Santo Estêvão, ignoro. À direita [esquerda na imagem], até aos Remédios, toda a rua se desdobra em prédios de dois tipos: século XVIII e século passado [XIX], estes renovados de anterior tessitura construtiva. É cheia de bizarria, policroma, aguarelada de seu natural, esta face norte da muito antiga serventia, que do lado sul, à nossa direita, beneficiou de demolições já no actual século, e que dão largueza à rua.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 89, 1939)

Rua do Vigário [c. 1900]
À esquerda, o Beco do Vigário.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Em ternos documentais, a Rua do Vigário surge nas descrições paroquiais anteriores ao terramoto de 1755 na freguesia de S. Estêvão de Alfama e nas plantas após a remodelação paroquial de 1780, bem como em 1858 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, e a partir da 2ª metade do século XIX encontra-se na documentação municipal prova de bastantes prédios a ruir nesta artéria e consequentes pedidos de reconstrução dos mesmos ou de construção de novos prédios.

Rua do Vigário [c. 1950]
Varredor de ruas
Alvarez, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

Encontramos ainda com data de 25 de maio de 1897 a indicação de uma propriedade a expropriar para alargamento da Rua do Vigário e um plano para o seu alargamento, da autoria do arqº José Luís Monteiro, de 7 de Julho de 1907. [cm-lisboa.pt]

Rua do Vigário [c. 1940]
Ao fundo, a Rua dos Remédios.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Palácio dos Senhores de Trofa

O edifício que foi o Palácio dos Senhores de Trofa (Carvalhos e Lemos), veio mais tarde à posse de Francisco Barbosa, que o herdou de um seu familiar com o mesmo nome. Estendendo-se ao longo de três grandes blocos entre a Calçada da Graça e a Travessa das Mónicas, forma um pátio, conhecido como Pátio do Barbosa. 

Palácio dos Senhores de Trofa [1939]
Calçada da Graça, 18-18F
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
 
Este imóvel do séc. XVII, rasgado por portais e janelas em cantaria trabalhada, mantém ainda hoje uma fachada seiscentista, sobre o jardim, que não corresponde nada ao seu aspecto interior. que, de acordo com Norberto de Araújo, «é uma verdadeira ilha, justificando a designação pela qual é conhecido: Ilha das Cobras».1
Nota(s): Actualmente está alojado neste edifício um hostel.

Palácio dos Senhores de Trofa  [194-]
Calçada da Graça, 18-18F
 Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1  ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 49, 1938.

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