domingo, 13 de agosto de 2017

Palacete Sabrosa

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constitui o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fêz demorar. (...) Quando em 1898 se celebrou o Centenário da Índia, (...) já então a Praça estava desenhada em rotunda, mas erguiam-se então apenas dois prédios-palacetes: aquele da esquina poente da Avenida, onde começa, para acabar na esquina da Rua Braamcamp [Palacete Lara e futuro Clube Militar], o arco de circulo da «Rotunda», e o que, com área de jardins, pertenceu ao Conde de Sabrosa, à esquina da Avenida Fontes Pereira de Melo (que não existia, é claro), demolido o ano passado [em 1938] pela Companhia do Gaz [actual EDP]. (...)


Em 1910, (...) a Praça Marquês de Pombal estava edificada como hoje. É entre a década de 1899-1909 que se pode colocar a data da edificação formal da Praça.

Palacete do Conde de Sabrosa, entrada principal [1930]
Avenida Fostes Pereira de Melo tornejando com a
Praça do Marquês de Pombal
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O Palacete Sabrosa impressionava pela área da sua implantação distribuída por um quarteirão inteiro: Rotunda do Marquês, Avenida Fontes Pereira de Melo, Rua Camilo Castelo Branco e Avenida Duque de Loulé.
Perfilava-se a residência no gaveto do Marquês com a Fontes Pereira de Melo com duas fachadas extensas, mas a principal projectava-se nesta avenida ou, como se dizia na altura, gozava de vista para o Parque. Na esquina com a Duque de Loulé via-se uma grande construção de apoio à habitação e que serviu durante a revolta republicana do 5 de Outubro de 1910, como hospital de sangue [vd. 3ª foto]. Escala que denota a grande dimensão da residência, onde o arvoredo dos seus jardins se destacava dos restantes parques dos palacetes da cidade de Lisboa, que veio a ser semeado de pequenas construções.
Confirma-se que no final do século XIX a residência principal estava construída e isso poderá explicar a opção por colocar a fachada principal na Fontes Pereira de Melo, que no fundo constituía como que a primeira pedra neste novo eixo, o arrastamento da definição urbana da praça era assim pragmaticamente ultrapassado. Assim, já em 1889, o proprietário Frederico Davidson apresenta um projecto para a reedificação da moradia, o que faz pressupor um imóvel pré-existente.

Fotografia aérea da Praça Marquês de Pombal [1934]
Implantação urbana do Palacete Sabrosa, parque e cavalariças (vermelho)

Pinheiro Correia, in Lisboa de Antigamente

Logo em 1903 a Construção Moderna (26.06.2003, n.º 99) publica o que designa de construções rústicas, executadas pelo arquitecto Norte Júnior. Tratava-se de uma cavalariça e aposentos para pessoal, um galinheiro e um pombal [vd. foto acima], em versão cottage popularizada e alguma robustez neo-românica. Constituíam adições pontuais a uma habitação de edificação já consolidada de anos. Reportando a alguns traços estilísticos, terá sido este arquitecto o autor do risco da residência principal ou pelo menos das adaptações promovidas pelo Conde de Sabrosa em 1901. A instalação provisória do já referido hospital de sangue no palácio durante o 5 de Outubro mereceu um louvor do Ministro da Guerra do governo provisório ao seu proprietário, o 1º Conde de Sabrosa (1855-1937), que é quem o mandou reconstruir no final do século XX.

Palacete do Conde de Sabrosa, cavalariças [1910] 
Praça do Marquês de Pombal com a Avenida Duque de Loulé
 As cavalariças funcionaram como hospital de sangue durante o 5 de Outubro
Alberto Carlos Limain Lisboa de Antigamente

A fachada denota uma influência de gramática neo-maneirista com os seus cunhais, pseudo-pilastras, embasamento rusticado e o friso na cirnalha muito pronunciado, que é produto desta adaptação. No interior, socorrendo-nos da magnífica descrição de Santos Tavares e do conjunto de fotografias publicadas na Ilustração Portuguesa (25 de Janeiro de 1904), confirma-se aquela opção de linguagem artística. Vêem-se arcos de volta abatida, colunas jónicas e tectos de caixotões rectangulares na casa de jantar e no escritório do proprietário. Uma das salas, designada de Luís XVI, era toda mobilada com as aquisições obtidas pelo senhor Conde de Sabrosa, considerado um grande coleccionador na época, no leilão do Marquês da Foz oriunda do Palácio dos Restauradores. Pintura e objectos da colecção Daupiás, outros da colecção Fernando Palha recheavam a grande diversidade de salas, num ecletismo fim de século, que tipificava o ambiente das grandes moradas deste período, por influência do gosto que as colecções Foz e outras espalhavam no meio alfacinha.

Palacete Sabrosa [c. 1910]
Perspectiva tirada do Parque Eduardo VII, vendo-se, ao centro, o Palácio Sabrosa; à esquerda, um esboço da Rua Camilo Castelo Branco; atrás a Av. Duque de Loulé; à direita a «Rotunda», hoje «do Marquês» e a Av. da Liberdade

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1929 o prédio viria a ser alienado «ao activo e confiado industrial hoteleiro», Alexandre Almeida, dono da Companhia dos Grandes Hotéis de Portugal, que já possuía nos Restauradores, o superlativo Hotel Avenida Palace (1890-92) projectado pelo arquitecto José Luís Monteiro (1849--1942). O Concelho de Arte e Arquitectura deu mesmo um parecer positivo e incentivou a construção de um Palace Hotel. Esta ideia não veio a ser concretizada e, em 1937, o hoteleiro vendeu--a com todos os seus terrenos à Companhia do Gás (Araújo, 1939).
E vai iniciar-se um novo ciclo na vida deste espaço com a abertura da sua demolição dois anos depois que se concretiza em 1940.2

Palacete Sabrosa [ant. 1940]
Avenida Duque de Loulé com a Rua Camilo Castelo Branco; Praça do Marquês de Pombal

Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 43-44, 1939.
2 TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível).

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Cinema Belém-Jardim

O Cinema Belém-Jardim foi inaugurado em 1925 e teve após a demolição do Belém Cinema, um dos primeiros animatógrafos permanentes da zona localizado na desaparecida Rua Paulo da Gama. Durante a II Grande Guerra viu a sua actividade cultural interrompida para funcionar como depósito de cereais com destino à Suíça. Reabriu como cinema no pós-guerra acabando por encerrar definitivamente na década de 1960

Cinema Belém-Jardim |1953|
Rua Bartolomeu Dias, 25-27 (ao centro e à direita do poste de catenária)
Belém Cinema, também designado por Belém-Jardim (situado primeiro na Rua Paulo da Gama e. depois, na Rua Bartolomeu Dias)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Nesta artéria funcionavam a «Fábrica de Borracha e Calçado Repenicado & Bengala» (1º edifício na foto, nºs 21 e 23 e 29 a 33). O cinema ocupava os nºs 25 e 27.
Estes edifícios foram demolidos em 1989/90 por ocasião das obras para a construção do Centro Cultural de Belém.

Cinema Belém-Jardim |1938|
Rua Bartolomeu Dias, 25-27
Em cartaz, o filme «Storm in a Teacup» com a célebre actriz britânica Vivien Leigh 
Gone with the Wind), estreado em Portugal no dia 24 de Fevereiro de 1938 com
o título «
Tempestade Num Copo de Água».

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Rua de São Boaventura, esquina com a Calçada do Cabra

Ora cá estamos, tomando pela estreita Calçada do Cabra — escreve mestre Norberto de Araújo —, na tão sossegada Rua de S. Boaventura. Aqui temos a fachada do prédio digno de ver-se. É puro de feitio setecentista, mas anterior ao Terramoto, talvez mesmo do final do século XVII. Em 1746 já existia, mas transformado de melhor tempo, e – não sabemos porquê – entre tantas evoluções da fisionomia bairrista por aqui ficou, sem que os restauros lhe afrontassem sensivelmente as cãs da primitiva construção, que aliás, e como observas, não se afecta de pitoresco teatral.1

Rua de São Boaventura, esquina com a Calçada do Cabra [c. 1900]
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Sobre a Calçada do Cabra, o olisipógrafo Júlio Castilho refere o seguinte: Por aí, era no século XVIII, sabe Deus desde quando, a Horta do Cabra. Hoje a Travessa da Horta, comunicando o do Areu com a dos Cardais (modernamente denominada Eduardo Coelho) é o vestígio derradeiro do campo de nabiças e feijoais do antigo Cabra, sujeito cuja personalidade se sumiu na voragem dos Invernos.2
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol.VI, p. 31, 1938
2 CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga: O Bairro Alto, p. 303, 1903.

domingo, 6 de agosto de 2017

A Bemposta: o Paço da Rainha

Eis-nos, Dilecto, deante do Paço da Bemposta. Observa-me a fachada desta casa paçã e palaciana; tem um certo ar mais aristocrático que fidalgo, mas, no seu conjunto, oferece um indiscutível interesse de arquitectura civil, com indicações puras seiscentistas na frontaria.


   Duas noticias te dou já: o adro, com sua escadaria, nem sempre foi como agora se apresenta; era mais avançado, e a sua redução ao espaço e configuração actuais datam de 1860. Quanto ao sítio, onde estamos, êle constituía um pátio do Palácio, fechado nos topos, com muros, onde rasgavam arcos ou portões, mas por onde aliás se fazia passagem pública, e demolidos em 1849.
    Foi aqui que uma Rainha, fatigada de pousadas estranhas, se recolheu um belo dia do ano de 1702. D. Catarina de Bragança regressara ao seu país em 1693, trazendo havia já oito anos sobre a sua cabeça, cortida por desgostos e resignações, o véu da viuvez que Carlos II de Inglaterra lhe legara. Filha e irmã de reis — porque não ter na sua pátria casa sua? Um paço próprio?

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Paço da Rainha; ao fundo,
a Penha de França
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

    D. Catarina, fiiha de D. João IV, que casara com Carlos II de Inglaterra — a que levou aos ingleses Tânger e Bombaim — enviuvara em 1685 e aborrecida da côrte de Inglaterra, voltou a Portugal em 1693, habitando sucessivamente os Paços Reais do Calvário, o Palácio dos Condes do Redondo, em Santa Marta, os do Conde de Soure, no Bairro Alto, os dos Condes de Âveiras, em Be1ém. E acabou por resolver — construir casa sua.
   Achamos que fêz muito bem.
   Entrou a Rainha a comprar terrenos a quantos proprietários, que por aqui desfrutavam quintas, hortas e azinhagas, os punham à disposição real. Do Matadouro [actual Praça José Fontana], Estefânia, Gomes Freire, Santa Bárbara e Bemposta de hoje — tudo passou a D. Catarina, que começou a erguer a sua casa neste lugar do Campo da Bemposta em 1694, e já nela habitava em 1702, ainda o edifício não estava concluído. A Carreira dos Cavalos [actual Rua Gomes Freire], ficava-lhe a Norte, acompanhando cêrca e jardins. O Paço não seria sumptuoso, mas merecer cuidados à viúva de Carlos II, que conhecia castelos e palácios de Inglaterra; a Capela, sobretudo, foi enriquecida de obras de arte, algumas trazidas na sua bagagem de rainha-viúva.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1900]
Paço da Rainha, 31; portas brasonadas com as armas da Rainha D. Catarina de Bragança; entre as duas ergue-se, desde 2002, um busto em bronze da Rainha assente sobre pedestal em pedra, obra da autoria do escultor britânico Tim Fargher, foi oferecida à cidade de Lisboa pela British Historical Society of Portugal, por ocasião da visita da rainha Isabel II a Portugal.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

   Morreu D. Catarina em 1705, e a propriedade passou a seu irmão D. Pedro II, que só lhe sobreviveu um ano. O Paço tornado bem da Corôa foi por D. João V, em1707, doado à Casa do Infantado, tomando dele posse o Infante D. Francisco, falecido em 1752, e passando então a Bemposta para D. Pedro, irmão daquele, depois D. Pedro III. Veio o Terramoto. O Paço da Rainha ou Paço da Bemposta, como indistintamente era conhecido, sofreu bastante; a Capela, que era da invocação de Jesus Maria José, foi quási completamente arruinada. A Casa do Infantado, muito rica, reedificou o Paço com certa largueza, modificando:se sensivelmente a sua aparência. A Bemposta, abandonada, em certos períodos, já antes vinha reclamando obras.

Capela e Paço Real da Bemposta [1863]
Largo do Paço da Rainha
Gravura, in Archivo pittoresco

   Beneficiado o Paço, pôde vir habitá-lo D. Joáo VI, quando regressou do Brasil (1821). Foi aqui que se desenrolou parte das cenas da famosa «Abrilada», em 30 de Abril de 1824, conjura à frente da qual se colocou o irrequieto Infante D. Miguel, e que se malogrou pela intervenção do corpo diplomático, animado pelo embaixador de Luiz XVIII, o Barão Hyde de Neuville.
   (Neuville foi distinguido, logo quinze dias depois, com o título de Conde da Bemposta; um sobrinho de Neuville, que serviu D. Pedro IV nas lutas liberais e casou com uma dama portuguesa, da Casa Subserra, foi, depois, por D. María II, feito Marquês da Bemposta, e o título perdurou em três vidas, extinguindo-se na Casa Rio Maior).
   Depois de D. João VI viveram aqui D. Miguel (1828) e D. Pedro IV (1833). Em 1834 a Casa do Infantado foi abolida, e a Bemposta passou para a Corôa, rras D. Maria II apressou-se a doá-la ao Estado, quere dizer: à Nação.
   Eis porque eu te dizia que por ter comprado e feito, a Bemposta, andou bem a rainha D. Catarina de Bragança. Os ermos povoararn-se, o sítio animou-se, e a Nação ficou com mais um palácio útil.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Largo do Paço da Rainha, 31 

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Não podíamos, Dilecto, fugir a esta divagação, e pena tenho eu — de que tu talvez comparticipes — de não te poder resumir certas cenas da «Abrilada» descritas para França pelo próprio Embaixador Barão de Neuville em relatórios ao seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, que era, nem mais nem menos, o grande escritor René de Chateaubriand, e pela Embaixatriz, Maria Roger de Neuville, num diário íntimo. Mas dêsses papéis se apura, e eis o que nos interessa, que êste sítio há cem anos era descampado e, de noite, «lúgubre e medonho».

Ele — o Paço — era a testa coroada de Sant'Ana toda. Perto, campo de ciganos, a Carreira dos Cavalos, o solar dos Mitelos de Meneses, nascidos em Santo Estêvão de Alfama.

Hoje — e desde 1851, por mercê de D. Maria II — é a Escola do Exército [actual Academia Militar]. A frontaria, de linhas aristocráticas da arquitectura de setecentos — eis tudo. Tudo e a Bemposta, a mais linda designação de Lisboa de há duzentos anos.


E fez o Paço Real da Bemposta [risco do arq.º João Antunes], um dos mais lindos espaldares arquitectónicos de Lisboa.
É vê-lo no seu alçado setecentista, recomposto depois do Terramoto [arq. Manuel Caetano de Sousa]. Na sua varanda nobre, no seu pórtico de capela real, no seu duplo escadório decorativo, cortinado de acrotérios. 
É senti-lo na evocação opulenta da Casa do Infantado, nas sombras do Infante D. Francisco, de D. João VI, do irrequieto Infante D. Miguel, que chegou a ser por algumas horas dono de Lisboa, mas que não sabia bem o que queria. 

Capela do Paço Real da Bemposta [c. 1910] 
Paço da Rainha
Na fachada imponente destaca-se o coroamento de platibanda e balaústres, pelo
remate com frontão triangular, decorado no tímpano, encimado por cruz sobre plinto,
e pela varanda central, de balaustrada contracurvada, para a qual se abrem três janelões,
sendo o central rematado por frontão tripartido ostentando as armas reais.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No interior a Capela organiza-se dentro de um rectângulo de ângulos arredondados, a nave, com seis capelas laterais, constituindo a do Santíssimo Sacramento [vd. foto abaixo (dir)], pela sua profundidade, uma unidade espacial autónoma, à qual se justapõe a capela-mor. O programa decorativo é inspirado na obra prima do barroco joanino, a Capela de S. João Baptista, da Igreja de S. Roque, mas atribuindo-lhe já um certo gosto rococó tardio, que se abre a manifestações neoclássicas. Merecem, ainda, destaque as pinturas em «trompe l'oeil» de Pedro Alexandrino de Carvalho e a tela do altar-mor, figurando a padroeira (N. S. da Conceição, vd. foto abaixo à esq), atribuída ao pintor italiano José Troni, sob a qual foi colocado um friso de retratos de elementos da família real.
A Capela está classificada como Monumento Nacional. O Paço Real da Bemposta integra a classificação do Campo dos Mártires da Pátria como Imóvel de Interesse Público.

Capela do Paço Real da Bemposta, nave, capela e altar-mor (esq) e Capela do Santíssimo, retábulo [1790-95] (dir) [c. 1962] 
Paço da Rainha
Robert Chester Smith, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 47-48, 1938.
id., Legendas de Lisboa, p. 87, 1943.
Archivo pittoresco: semanario illustrado - Vol. 6, 1863.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Chafariz do Largo da Paz

Segundo Norberto de Araújo  o nome de Ajuda deriva da pequena Ermida desta invocação, erecta no século de quatrocentos no alto da Ajuda, e à qual andou ligada uma graciosa lenda: um pastor que por aqui trazia seu gado entrou em certa ocasião numa gruta entre fragas que caracterizava o lugar, e viu nela uma imagem da Virgem, que logo — e porque auxiliava os que a ela recorriam — ficou sendo a Senhora «da Ajuda», construindo-se defronte a Ermida.


Sabe-se que por volta de 1762-63, a freguesia da Ajuda deixou de ser considerada suburbana e estava incluída nos limites da cidade com 5 principais arruamentos: Calçada que vai de Alcântara para a Ajuda, Travessa da Estopa, Calçada de Nossa Senhora da Ajuda, Rua das Mercês e Rua da Paz.

Chafariz do Largo da Paz |1932-08-08|
Largo da Paz
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda das imagens no arquivo: «As bilhas e as vasilhas que se colocam em bicha nas proximidades do chafariz, por motivo da falta de água»

Chafariz em cantaria de calcário lioz, de planta circular, assente em plataforma circular, com um degrau no lado S., vencendo o desnível do terreno. No centro desta, surge o chafariz, composto por tanque circular, com base e bordo saliente, pouco profundo e consolidado por gatos de ferro. No interior, uma pequena base, saliente na zona superior, onde assenta plinto paralelepipédico, capeado e encimado por dado, de onde evolui um obelisco piramidal, coroado por base galbada que sustenta alcachofra. 

Chafariz do Largo da Paz |1932-08-08|
Largo da Paz
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda das imagens no arquivo: «Após a chegada da água, o povo rodeando um chafariz»

No plinto, surgem quatro chapas metálicas circulares, que tapam as primitivas bicas, mantendo, no lado N., uma torneira de inox e duas réguas de ferro para apoio do vasilhame. O dado onde assenta o obelisco, apresenta as faces almofadadas, com os ângulos côncavos, onde surgem inscrições pintadas a preto: no lado N., "CMB 1859"; no lado E., "BICA DO POVO"; no lado O., "POVO" e, no lado S., "CAMARA MUNICIPAL DE BELEM 1859". A envolver o tanque, surge um escoadouro.

Chafariz do Largo da Paz |1932-08-08|
Largo da Paz
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda das imagens no arquivo: «Bicha, próxima de um chafariz, à espera que haja água»


Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 94, 1939.
Junta De Freguesia Ajuda.
monumentos.pt.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Os «Canos da Mouraria»

O sítio é feio, desagradável, sem pitoresco, ainda que com significação bairrista, nos seus cafés de tipo antigo, botequins e tavernas de peixe frito, durante o século passado de fama equivoca.


Esta zona na antiga freguesia do Socorro fazia parte de um dédalo de arruamentos que foram alvo do camartelo camarário, cerca de 1940-50, para dar lugar à "moderníssimo" Praça do Martim Moniz [vd. carta topogáfica anotada]. O local era outrora conhecido como os «Canos da Mouraria» como nos conta, em 1938, mestre Norberto de Araújo:

Beco  dos  Álamos |c. 1940|
Esta serventia começava na Rua Silva Albuquerque e findava
na Rua do Arco do Marquês de Alegrete, que se vê ao fundo
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Tudo isto — que é um dédalo — eram os canos da Mouraria, que transmitiram o nome às nossas contemporâneas Travessa, Beco e Rua dos Canos, de dístico substituído em 1885, por este actual de Silva e Albuquerque, operário muito culto, um apóstolo da instrução primária gratuita, falecido em 1879.
Como já disse toda esta área foi alagadiça, depois de ter sido um verdadeiro rio, e assim por aí acima, pelo Benformoso e Anjos, até Arroios.
No século XVI isto por aqui eram os «Canos de S. Vicente» (da porta de S. Vicente), e no século seguinte «Canos da Mouraria».

Beco  dos  Álamos (esq,), ao fundo o arco de ligação ao Beco da Póvoa; (dir.) Rua dos Vinagres |c. 1940|
A Rua dos Vinagres começava na Rua dos Álamos e findava no Largo de Silva e Albuquerque
Fotografo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Estas horríveis serventias, Beco da Póvoa, Rua dos Vinagres (onde havia a «póvoa» dos «vinagreiros»), Rua dos Álamos, já de 1550, e mais vielas, eram tudo — os «Canos».
E esses canos eram umas valas abertas no leito da rua, escoantes das águas que, no vale, corriam das encostas de Sant'Ana e do Castelo, e vinha já de Arroios. Em 1840 ainda aqui havia sumidouros, cobertos de grades, como os do Rossio, nos passeios laterais.

Beco  da  Póvoa |c. 1940|
Este insignificante
beco ligava, através de um arco (ao fundo) com o Beco dos Álamos, a
Rua do Arco do Marquês de Alegrete ao Largo de Silva e Albuquerque
No século XVI era denominado Beco da estalagem das moças, ou do mouco.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Rua dos Álamos, demolições |c. 1950|
Perspectiva tomada da Rua do Arco do Marquês de Alegrete
Judah Benoliel,in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 79, 1938.
COSTA, António Carvalho da (Pe.), Corografia portuguesa, e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal..., vol, III,  1706-1712.

sábado, 29 de julho de 2017

Igreja dos Freires da Conceição Velha ou Conceição Velha (antiga da Misericórdia)

Ora bem, Dilecto — expressão com que habitualmente Norberto de Araújo interpela o leitor — mais tem que ver a Rua dos Bacalhoeiros, em 1755 designada Rua de Cima da Misericórdia, e depois, e até à dos Arameiros, aberta depois do Terramoto, chamada dos Confeiteiros.
E da Misericórdia, porquê? Porque no chão onde se eleva hoje um quarteirão de propriedades sólidas, entre as Ruas dos Bacalhoeiros e da Alfândega, se ergueu no começo do século de quinhentos a Igreja do Recolhimento da Misericórdia.
Pois metamos já por esta transversal da Rua dos Arameiros, e vamos ver o que resta desse templo manuelino, chamando, desde a segunda metade do século XVIII, da Conceição Velha. Quedemo-nos sob o majestoso pórtico. Duas breves notícias de história, que é simples, afinal.
   A instituição das Misericórdias foi obra, como já disse quando passámos pela Sé, e por S. Roque, da Rainha D. Leonor. A primeira Confraria, instalou-se na Capela de N. Senhora da Piedade, vulgo da Terra Sôlta no claustro ogival da Sé, em 15 de Agôsto de 1498.
   Prosperou a Confraria, ou seja a Misericórdia de Lisboa, reconhecendo-se pouco depois que a capela claustral da Sé era mesquinha para sede da instituição. D. Manuel, irmão da Rainha fundadora, viúva de D. João II, projectou, não se sabe ao certo o ano, mas seguramente depois de 1510, erguer neste chão — que era ocupado por vários edifícios públicos, como o Paço do Trigo, a Portagem, o Paço da Madeira — um majestoso templo e Casa para Misericórdia, a obra querida de sua irmã, inspirada por freire Miguel Contreiras.
   Era o tempo opulento da Índia e do Brasil, caracterizado pela sumptuosidade na arquitectura religiosa. A obra — templo, Recolhimento das Orfãs e Casas da Misericórdia — só se concluiu em 1534, tempo de D. João III, já havia falecido (1525) D. Leonor. A Igreja ostentava-se de três naves, sendo a abóbada apoiada ao centro por seis colunas monolíticas (de mármore?) e por mais catorze laterais, pilares de sustentação da cobertura; as casas anexas ocupavam quatro pavimentos.
   Obra notável era, de precioso recheio. Orientada no sentido poente-nascente, a porta principal com seu adro rasgava-se, de começo, para o Largo da Portagem, prolongamento, então da Rua da Padaria; a sua porta travessa, a sul, é hoje o portal desta Conceição Velha (já vou dizer, porque se chama Conceição Velha).

Igreja da Conceição Velha [ant. 1900]
À esquerda, a Rua dos Arameiros em direcção ao Campo das Cebolas
Rua da Alfândega, 112-114 
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

   Veio o Terramoto. Aluiu e incendiou tudo. Do templo escaparam este pórtico magnífico, a Capela do Espírito Santo, hoje Capela-mor, e uma ou outra imagem.
   D. José ordenou que se reedificasse a Igreja, mas a Misericórdia andou de empréstimo por aqui e por ali, até que ocupou a Casa dos Jesuítas de S. Roque.
   A nova igreja, já num estilo bastardo da arquitectura religiosa, cujo risco é de Francisco António Ferreira, o «Cangalhas», foi entregue aos freires de Cristo de Nossa Senhora da Conceição, cuja Casa e templo haviam ardido também.
   Aquela Igreja da Conceição [vd. gravura] que ocupava uma antiga sinagoga dos judeus, situava-se próximo à Madalena, caindo sobre a actual Rua dos Fanqueiros junto ao quarteirão cujas traseiras são a Rua dos Douradores; fora N. Senhora da Conceição dada aos freires de Cristo em troca da Ermida do Restelo, derrubada para se erguer os Jerónimos, e chamava-se, por oposição, «a Velha» (paroquial em 1568), porque em 1698 se construíra outra sede paroquial de N. S. da Conceição «Nova» — desaparecida também pelo, Terramoto — e que se localizava onde passa hoje a Rua da Prata, segundo quarteirão do sul, então Rua Nova dos Ferros.
   E como foram os freires da Conceição Velha que para a antiga Misericórdia vieram em 1770, esta Igreja que temos à vista se passou também a chamar da Conceição Velha.
   Falta dizer que nunca estes chãos foram de sinagoga e de judeus, (como anda escrito), ou sítio de uma Vila Nova de Gibraltar, que nunca existiu, versão esta que corre derivada de um dos raros erros do grande Herculano, e que mestre Vieira da Silva teve a felicidade de poder desfazer, sem deixar qualquer espécie de dúvida.
Ficaste sumariamente a par do que isto foi, e como e porque foi.

Vista de Lisboa [1598?-1610?]
(clicar para  ampliar)
Olissippo quae nunc Lisboa, civitas amplissima Lusitaniae ad Tagum, totius orientis... emporium nobilissimum
Autores: Georg Braun, gravador (1542-1622) e Franz Hogenberg, geógrafo (1535-1590)
Esta gravura, colorida à mão e gravada em cobre, faz parte da colecção "Civitates Orbis Terrarum" publicada entre 1572 e 1618. Representa  a cidade de Lisboa com Armas Reais e as Armas de Lisboa ladeando uma rosa dos ventos e com os edifícios e espaços públicos numerados correspondente a uma legenda na parte inferior e superior..

Assinalados no mapa: 
Antiga Igreja da Misericórdia, actual Conceição Velha
Primitiva Igreja da Conceição
Terreiro do Paço, actual Praça do Comércio
Sé Patriarcal de Lisboa

Agora contempla o Pórtico — antiga porta travessa lateral —, obra de peregrinos lavrantes da pedra: ali tens, sobre a porta geminada, dentro do arco, o quadro escultórico, pormenor largo historiado desta bela peça arquitectónica, e que representa N. Senhora da Misericórdia, de manto aberto [sustido por dois anjos], tendo de joelhos, a seus pés, de um lado D. Manuel, D. Leonor, e alguns príncipes, e do outro o Pontífice Leão X, freire Miguel Contreiras — o inspirador das Misericórdias —, e algumas figuras da Igreja. Este quadro admirável esteve retirado deste seu lugar, desde 1818 a 1880, substituído por uma grade iluminante da Igreja, e colocado numa capela da nave, então de N. Senhora das Mercês.

Igreja da Conceição Velha, aguarela [s.d.]
Pórtico de estilo manuelino
Rua da Alfândega, 112-114 
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

De cada um dos lados do Pórtico rasga-se uma formosa e decorativa janela, avolumando a beleza deste conjunto plástico, que o frontão alto de remate avilta até à mesquinhez.
Como observas, esta peça solta de arte, encravada entre prédios vulgares do século passado [XIX], é de puro estilo manuelino, do tipo dos pórticos dos Jerónimos, posto que menos grandioso e exuberante.
A-pesar-de, aparte o pórtico, a Conceição Velha não ser famosa, ela merecia mais dilatada visita; se deste templo mais quiseres saber recomendo-te o livro «A Igreja da Conceição Velha», de Filipe Nery de Faria e Silva (1900).

Igreja da Conceição Velha [c. 1940]
Capela de Nossa Senhora do Restelo ou do Parto, quadro
oferecido pelo Infante D. Henrique aos freires.
Rua da Alfândega, 112-114 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Vejamos agora o templo no seu interior — prossegue o autor das Peregrinações — obra do final de setecentos, cuja torre sineira se encrava em propriedades particulares. (...)
À direita vemos a Capela de N. Senhora do Restelo  [vd. imagem acima], ou do Parto — pela circunstância de a Virgem, sentada numa cadeira (esta de madeira) ter o Menino Jesus nu sobre os joelhos. Esta imagem, em pedra pintada, é o venerando monumento dêste templo, relíquia da imaginária religiosa portuguesa; pertenceu à primitiva Ermida de N. Senhora do Restelo, doada em 1460 pelo Infante D. Henrique aos freires de Cristo, e adveio de Sagres onde o Infante teve sua Casa, sendo por consequência anterior à Ermida, podendo atribuír-se-lhe meio milhar de anos de idade (há receio de se lhe tocar por correr o perigo de se desfazer).
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 16-19, 1939.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Palácio Angeja-Palmela: actual Museu Nacional do Traje

Edificado sobre o antigo Paço de D. Afonso Sanches, após o terramoto de 1755, traduz uma arquitectura de influência pombalina. Tendo conhecido acrescentos e obras ao longo do séc. XIX, apresenta características neo-clássicas e românticas. Após a recuperação do edifício e do património paisagístico envolvente,nomeadamente a Quinta do Monteiro-Mor/Quinta do Marquês de Angeja, acolheu o Museu Nacional do Traje e da Moda, inaugurado em 1977.


Este palácio, assim denominado por ter sido propriedade, sucessivamente, destas duas famílias, deve a sua traça actual ao 3º Marquês de Angeja, que aqui projectou instalar as suas colecções de história natural, complementadas com um jardim botânico. O projecto de remodelação é realizado mas o de instalação de um museu de história natural não se concretiza, embora tenha deixado alguns vestígios arquitectónicos — o edifício que actualmente serve de restaurante e a estufa.
Adquirido pela Família Palmela no segundo quartel do séc. XIX, continua a servir de residência secundária e foi objecto de campanhas de requalificação dos interiores, das quais se salienta a desenvolvida por Pereira Cão, Rambotti e Cinatti, que intervieram na decoração parietal do andar nobre.
Foi adquirido, juntamente com o seu jardim e quinta,  pelo Estado Português em 1975, para instalação do Museu Nacional do Traje, inaugurado em 1977.

Palácio Angeja-Palmela, actual museu Nacional do Traje |1939|
Largo Júlio de Castilho, 5; Estrada do Lumiar, 2-8
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

No interior destacam-se os tectos de masseira, estuques, pinturas ornamentais e alguns silhares de azulejos setecentistas, para além do acervo do Museu: tecidos dos sécs. IV a XIX, salientando-se os tecidos coptas; indumentária civil dos sécs. XIV a XX, com especial relevo para o traje da corte de meados do séc. XVIII e traje Império; trajes populares, brinquedos e bonecas dos sécs. XIX e XX em sistema rotativo de exposições temporárias; e uma secção de tecelagem e estamparia manual em exibição permanente. O Palácio Angeja-Palmela, edifícios, jardins, parque e terrenos anexos encontram-se classificados como Imóvel de Interesse Público por si mesmo, assim como fazem parte do Paço do Lumiar, classificado como Conjunto de Interesse Público.
A capela do Palácio é dedicada a Santa Rita tem um altar encimado por um sacrário de talha dourada. De ambos os lados pode observar as imagens que representam Santo António e São Francisco Xavier.

Palácio Angeja-Palmela, capela |1939|
Estrada do Lumiar, 2-8Largo Júlio de Castilho, 5
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O jardim botânico terá sido iniciado por Domingos Vandelli, na segunda metade do séc. XVIII, no tempo do 3ª Marquês de Angeja e, no séc. XIX, foi continuado pela Família Palmela. Aqui se encontra a primeira Araucaria Heterophylla conhecida em Portugal continental. O jardim botânico, uma área que integrou os jardins oitocentistas e parte do antigo núcleo agrícola, tem cerca de 11 hectares murados e é atravessado por uma ribeira que, à entrada, corre a céu aberto e segue depois num troço encanado, datado do séc. XVIII. Esta solução permitiu a construção dos grandes socalcos que sustentam a plataforma onde se encontra o palácio.
Após a aquisição pelo Estado, em 1975, procedeu-se à adaptação da propriedade a parque, mantendo as áreas características — jardim, roseiral, pomar, prados, pinhal e  horta —, e aumentando a diversidade botânica. [DGPC]
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