Sunday, 14 August 2016

Capela (Igreja) da Ascenção de Cristo

Situada na Calçada do Combro, foi fundada por António Simões de Pina, em 1500, o que se testemunha pelo ritmo da fachada alta e estreita, a pequena torre sineira, e frontão em chaveta certamente muito transformados no século XVIII.
Segundo Norberto de Araújo «Foi reconstruída no século XVII, segundo se lê na legenda sobre o pórtico: «Esta obra se Fez à custa dos irmãos de Nª. Sª. do «Emparo» no ano de 1673». Esta ermidinha, que tem apenas três capelas, é uma relíquia do sítio, e muito mais antiga do que a importante igreja dos Paulistas
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 31, 1938)

Capela (Igreja) da Ascenção de Cristo |1941|
Calçada do Combro, 74 
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente


De acordo com Júlio de Castilho, este pequeno templo «Gosava muita notoriedade já nos fins do século XVI a ermida da Ascensão. Em 21 de Maio de 1692 determinou o Senado da Camara, que toda a pessoa que achasse menino perdido, o levasse ahi, e o entregasse à ermitôa.»
(CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga, vol. III, p. 188,, 1902)

Saturday, 13 August 2016

Calçada da Cruz da Pedra: Palacete Pereira Forjaz e Palacete Manique

A Calçada das Lajes abre, nesta Cruz da Pedra que Estrada foi, por dois palacetes, solares antigos, situados na esquina dos ângulos exteriores nascente e poente; eles constituíram na mancha solarenga arrabaldina, a que já aludi atrás, como que uma espécie de porta flanqueada. 
O palacete do nascente [Palacete Manique, o 2.º edifício ao fundo], n.° 34,  e sobre cuja verga do portal se vê, em pedra de letra de setecentos, o n.° 2 antigo, pertencia no meado do século passado ao Visconde de Manique (Pedro António de Pina Manique Nogueira Matos de Andrade), filho do famoso Intendente Diogo Inácio de Pina Manique. Passou mais tarde, por compra, a um dos Condes de S. Vicente.
 Os herdeiros do último Conde que aqui residiu resolveram desfazer-se desta peça do património da sua Casa, e, então, adquiriu, em hasta pública, o bloco urbano do palacete, com seus amplos terrenos, o industrial de bolachas Eduardo da Conceição e Silva. [...]

Palacete Pereira Forjaz e Palacete do Visconde de Manique [c. 1940]
Calçada da Cruz da Pedra
O Palacete do Visconde de Manique foi demolido na década de 1950 para dar lugar a uma escola [2ª imagem].
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Do palacete Manique, para o lado marginal da Rua, saía antigamente um passadiço, ou arco muito decorativoo Arco da Cruz da Pedra, demolido para benefício do trânsito em 1837.
O palacete do lado poente, n.° 58 [36-40], pertencia ao Conde da Feira, D. Miguel Pereira Forjaz, no começo de oitocentos, sendo herdado depois por um seu sobrinho, Visconde de Souto de El-Rei ; em 1873 comprou-o judicialmente um tal José Joaquim de Oliveira, e logo em 1875 o adquiriu a Condessa da Foz, já viúva, senhora da família Palha de Faria e Lacerda, que em 1884 o vendeu ao 3.° Conde de Bertiandos, D. Gonçalo Pereira da Silva de Sousa e Menezes, casado com D. Ana de Bragança, da casa de Lafões. O Palacete, que possui alguma história e interesse artístico, está ainda em posse da família Bertiandos.1

Calçada da Cruz da Pedra com a Calçada das Lajes [1967]
À esq., na esquina poente da Calçada das Lajes, nota-se parte do Palacete Pereira Forjaz e, na esquina nascente. vê-se a actual Escola EB n°15 onde existiu o Palacete do Visconde de Manique.
Vasco Gouveia de Figueiredo, iin Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, pp. 37-38, 1939.

Thursday, 11 August 2016

Eden Cinema: o Piolho de Alcântara

Um dos primeiros jornalistas de cinema a comentar a importância das novas salas foi José Gomes Ferreira numa crónica de Março de 1931 que se juntava a um pequeno (mas crescente) conjunto de reportagens dedicadas especificamente aos cinemas de bairro que vinham sendo publicadas nas principais revistas de cinema desde o ano anterior. Numa viagem de táxi pelos “cinemas dos bairros afastados” (“o Oriental, o Europa, o Max Cine, o Imperial, todos”), Gomes Ferreira encontrou sempre lotações esgotadas e sessões animadamente ruidosas. “Dentro das salas”, escreveu, “ouviam-se gritos, assobios, sussurros. Algumas pareciam-me enormes: oitocentos lugares de carne humana, desejos de gozar a vida e suor. Depois, perguntava aos porteiros:
– Então?
– Ah, meu senhor! É isto todas as noites! O fim do mundo!
 (…) Em toda a parte encontrava a mesma paisagem, a mesma ânsia de arrombar as portas daquelas casas donde saíam gargalhadas pelas frinchas!
(José Gomes Ferreira, «Crónica», Kino, nº48, 1931)

Eden Cinema, Rua do Alvito, 4 [c. 1940]
Eden Cinema (prédio de cor branca, no n.º 4 da Rua do Alvito); Rua da Cruz a Alcântara
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Eden Cinema foi inaugurado em Março de 1921, em Alcântara, na Rua do Alvito, 4, com a exibição do filme “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, estreado meses antes no Cinema Condes, nos Restauradores.
Este cinema piolho servia o público do bairro industrial e fabril do bairro de Alcântara, muito antes da zona se tornar centro de atracção nocturna com os seus bares e discotecas. Os apelidados cinemas piolho (ou de reprise) eram caracterizados por ter sessões contínuas, um público muito jovem de classes sociais mais baixas e claro, com condições de higiene precárias, não sendo incomum sair da sala com um incomodativo passageiro achatado.
A sua lotação era de 568 lugares distribuídos por 219 lugares na 1ª Plateia; 90 na 2ª Plateia; 168 no 1º Balcão e 91 no 2º Balcão. A sua exploração esteve durante muito tempo confiada à empresa J. Castello Lopes e Luciano Marques foi o seu gerente, representando a firma "Empresa Eden Cinema, Lda." que suportou este espaço.
No inicio da década de 1950, este cinema sofreria importantes obras de remodelação, principalmente na plateia, o que fez reduzir a sua lotação para 327 lugares. O Éden encerrou portas em 1971.
(JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias,cinemasparaiso.blogspot.pt)

Eden Cinema, Rua do Alvito, 4 [1966]
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 9 August 2016

A Rua Larga de S. Roque que foi do «Mundo»

A Rua é «da Misericórdia» — que fica no Largo, que não é da Misericórdia; foi do «Mundo», que já não há. E foi Rua de S. Roque.


A imprensa, que fez do Bairro Alto o seu quartel general, não poupou o Largo de S. Roque, tal como ainda hoje povoa a Rua da Misericórdia, que assim se chama, desde o ano passado [1937], a antiga Rua de S. Roque (Rua Larga de S. Roque), já por sua vez crismada, depois da República, em Rua do Mundo. 1
 
Leva os nossos olhos, por aí acima, depois do eirado ribeirinho do Cais do Sodré — esta Rua de S. Roque. Pertence à meia idade de Lisboa — o tempo de quinhentos. Goza de tantos anos como S. Roque, Ermida, com o adro da peste, antes de surgir o templo actual
A Rua é «da Misericórdia» — que fica no Largo, que não é da Misericórdia; foi do «Mundo», que já não há. E foi Rua de S. Roque. Mas como ela começou, por invenção do Senhor Rei D. Sebastião, foi Rua Larga de S. Roque. Da estreita vereda do começo do século XVI se alargou, enfunando de prédios e de possibilidades. E «de S. Roque» ficará para sempre. Vizinha da Trindade e do Carmo, do Loreto e do Bairro Alto — é lisboeta da gema. 2

Rua da Misericórdia, 95 [29 de Novembro de.1915]
Redacção do jornal O «Mundo» (1890-1922), funeral de António França Borges (1871-1915), jornalista e director do jornal.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): No n.º 95 funcionou O Mundo (1900-1927), jornal republicano (democrático) dirigido por França Borges; as instalações seriam depois reutilizadas pelo Diário da Manhã, e, mas tarde, pelo jornal A Época, ambos defensores do Estado Novo (eram uma espécie de órgãos noticiosos do regime).

Rua da Misericórdia, 95 [post 1901 e ant. 1908]
Redacção do jornal O «Mundo» (1890-1922)

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 86, 1938.
2 ARAÚJO, Norberto de, Legendas Lisboa, vol. XV, p. 195, 1943.

Sunday, 7 August 2016

Rua da Saudade

Os paquetes atracam logo em baixo, no cais, e a rua deve talvez o nome à saudade que para sempre ficou flutuando no sítio: a saudade dos que ficam, e a dos que partem e querem prender-se à terra, de braços, olhos e almas alongadas.
(José Rodrigues Miguéis (1901-1980) A Escola do Paraíso)

Em Agosto de 1938, afirma Antonio Tabucchi que um jornalista solitário, de nome Pereira, tomava o eléctrico que ia até ao Terreiro do Paço. E da janela «via desfilar lentamente a sua Lisboa, olhava a Avenida da Liberdade com os seus belos edifícios, e depois o Rossio, de estilo inglês; e no Terreiro do Paço desceu e apanhou o eléctrico que subia para o Castelo. Desceu junto da Sé, pois morava ali perto, na Rua da Saudade.
(Antonio Tabucchi, Afirma Pereira, 1938)

Rua Augusto Rosa e Rua da Saudade (dir.) |c. 1930|
 Seis anos após o falecimento do actor Augusto Rosa (1850-1918) a artéria onde ele viveu e faleceu, a Rua do Arco do Limoeiro (no nº 50), passou a ter o seu nome, consagrado por Edital municipal de 1924.
Fotógrafo não identificado (E. Portugal?), 
in Lisboa de Antigamente

A Rua da Saudade, situada nas freguesias da Sé e Santiago, é uma artéria secular cujo nome terá a seguinte explicação, de acordo com Luís Pastor de Macedo («Lisboa de Lés-a Lés», vol. V):

« Diz G. de B. [refere-se ao olisipógrafo Gomes de Brito] : 'Não é por agora possível dar informação alguma, que não tenha o cunho de vaga conjectura acerca, das razões que determinariam à denominação dade à nova rua'. Mas na mesma página, um pouco mais abaixo, adiciona: 'Esta denominação, rua da Saudade, é influência da duração da capela feita fora do corpo da igreja de S. Jorge dedicada a N. Sª da Soledade'. Assim parece ser na verdade. Pelos menos, embora em 1775, conforme viu G. de B., a artéria seja já designada por rua Nova das Saudades, em 1786 é apontada como o nome de rua da Soledade, nome que aliás só lhe vemos dar esta vez. Além deste, os livros paroquiais de S. Martinho dão-lhe os de rua nova q vai pª os Loios (1779), rua da Saudade (1787), rua Larga dos Loios (1790) e rua Nova da Saudade (1796). A igreja de S. Jorge, citada por G. de B., era paroquial, e erguia-se pouco mais ou menos no sítio onde hoje vemos o edifício das Merceeiras de D. Afonso IV, na rua Augusto Rosa.» 

Rua da Saudade, 31-43 |1902|
 Prédio construído no local onde existiu o Palácio dos Mira.
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

Saturday, 6 August 2016

A história da Ponte Salazar sobre o Rio Tejo

Após o 25 de Abril de 1974, é rebaptizada com a designação da data da queda do regime fundado por Salazar.

Às 15H00 do dia 6 de Agosto de 1966 a ponte é aberta ao público. «Um Austin-Seven verde, com a matrícula DC-72-48, foi o primeiro automóvel a entrar no tabuleiro da ponte na sua saída de Lisboa para a Outra Banda”, num ambiente em que “todos os automobilistas, desconhecendo a prioridade, tentaram a todo o custo, num atropelo de direitos que chegou a traduzir-se em barafunda, ultrapassar todos os veículos que circulassem à sua frente(in DN)


Em 1962 o governo adjudica a obra à «United States Steel Export Company». A obra compreendia a construção da ponte sobre o rio, a realização de um complexo rodoviário que incluía 15 km de auto-estrada, trinta e duas estruturas de betão armado e pré-esforçado, o Viaduto Norte sobre Alcântara (com 945,11 m de extensão e catorze vãos, cujo tabuleiro de betão pré-esforçado é apoiado em pilares gémeos de betão armado, ligados por uma travessa horizontal a 10 m do topo, destinada a suportar o tabuleiro ferroviário), um túnel sob a Praça da Portagem (com cerca de 600 m de comprimento e destinado a receber a plataforma ferroviária do eixo de ligação da rede a Norte com a rede a Sul do rio Tejo), a sinalização e iluminação de toda a obra.
Em Novembro é iniciada a obra, uma ponte constituída por uma estrutura metálica, suspensa, com cerca de 2300 m de comprimento entre ancoragens, dos quais 1013 m vencem o vão central.
As duas torres principais de aço carbono, atingem uma altura de 190,5 m acima do nível da água e estão situadas a cerca de meio quilómetro de cada margem. A construção das suas fundações, sobretudo as da torre Sul, constituiu um dos aspectos mais interessantes da obra. Implantada em pleno rio, a fundação em betão armado, realizada empregando o método do caixão aberto, assenta na rocha basáltica a 82,5 m abaixo do nível da preia-mar de águas vivas.


No topo de cada torre foram fixadas duas grandes selas de aço fundido, que dão apoio aos dois cabos principais de suspensão, constituídos por fios de aço paralelos, organizados em 37 feixes com 304 fios cada um, cintados e apertados de modo a formar, em todo o percurso suspenso, um cabo com 58,6 cm de diâmetro. A viga de rigidez e o tabuleiro são suspensos desses grandes cabos que amarram a dois maciços de betão, localizados nas margens. A grande viga de rigidez, com 21 m de largura e 10,65 m de altura, contínua em toda a sua extensão, é constituída por elementos soldados que foram depois fixados com parafusos de alta resistência. Sobre ela assenta o tabuleiro, constituído por um conjunto de longarinas e carlingas de aço sobre as quais assentam painéis formados por uma grelha do mesmo material.
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Produção do filme: Laboratórios Tobis Portuguesa para o Min. Obras Públicas
Realização: Leitão de Barros
Duração: aprox. 20 min.

Thursday, 4 August 2016

Largo da Graça: Regimento de Sapadores Bombeiros

Os mouros, que seus arredores ocupavam antes da conquista cristã, chamavam a este sítio «Almafala» — recorda Norberto de Araújo — e foi aqui que pousaram, para o cerco de Aschbouna — a Lisboa mourisca — as gentes portuguesas de Afonso Henriques. A designação «de Graça» data precisamente de 1305, nem mais ano nem menos ano.

Largo da Graça [1935]
Rua da Verónica; Regimento de Sapadores Bombeiros, 4ª Companhia, Quartel da Graça
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Aí temos o quartel n.º 5 dos Bombeiros. Foi construído em 1890-1891, ao tempo em que era Inspector dos Incêndios o Chefe Ferreira, o animador destas edificações municipais, e cuja obra está patente no Quartel da Avenida Presidente Wilson [hoje Av. D. Carlos]. Antes havia uma pequena estação, a «Bomba 15», no Largo da Graça, a oitenta passos do actual Quartel, onde está hoje [em 1939], n.º 44, uma pequena marcenaria.═
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 41-51, 1938)

Largo da Graça [1935]
Regimento de Sapadores Bombeiros, 4ª Companhia, Quartel da Graça; Rua da Voz do Operário
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Largo da Graça [1935]
Regimento de Sapadores Bombeiros, 4ª Companhia, Quartel da Graça
Casa esqueleto destinada aos treinos.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 2 August 2016

Rua de S. João da Praça

Eis um burgo cuja linguagem eu preferiria que fosse antes respeitada que tolerada», diz Norberto de Araújo no pórtico do livro das Peregrinações por Alfama, para quem o seu «encanto está onde não está a convencional beleza das cidades-avenidas». Aqui «passeamos à margem da Civilização».

Rua de S. João da Praça [1929]
À direita, a Travessa do Chafariz D'El-Rei e, ao fundo, a Rua da Adiça.

Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

A Rua de S. João da Praça deve o seu nome a aí estar localizada a Igreja de São João da Praça [....] que data do princípio do século XIV, pelo menos, e teve como orago S. João Degolado, ou seja S. João Baptista"acrescenta Norberto Araújo caracterizando da seguinte forma este arruamento do Bairro de Alfama: " Esta Rua de S. João da Praça, deste local até à , tem o aspecto urbano característico do meado do século passado [séc. XIX], prédios sólidos de transição pombalina para o feitio trivial novecentista da construção." 
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 38-39, 1939)

Rua de S. João da Praça [entre 1930 e 1939]
À dir., a Travessa do Chafariz D'el-Rei e, ao fundo, a Rua da Adiça.
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente
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