Wednesday, 21 August 2019

Teatro do Rato

No centro dêsse quarteirão sul [do Largo do Rato] referido — recorda Norberto de Araújo — chãos e casas que primitivamente foram da Real Fábrica de Sedasrasga-se um Arco, que leva a uns terrenos (antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari, o que julgo mais acertado) nos quais à esquerda está de pé a adega e casa de pasto conhecida pela designação de «Parreirinha», e ao fundo se construíram em 1907 uns barracões sólidos, que pertencem, como oficinas, à Sociedade Portuguesa. de Automóveis, com entrada pela Rua da Escola Politécnica; uns quintalórios denunciam ainda a antiga feição rústico-fabril do local.

Largo do Rato [195]
Ao centro vê-se o arco de acesso à antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari depois Teatro do Rato
Judah Benoliel, in AML

Aqui, precisamente no sítio dos barracões, assentou o Teatro do Rato, inaugurado em 27 de Março de 1880 e que ardeu em 1906, afinal também um grande barracão de zinco e tijolo, mas por cujo tablado passaram algumas notáveis figuras da cena portuguesa, entre as quais Adelina Abranches, felizmente ainda sobrevivente de uma geração de artistas eminentes.

Arco do Largo do Rato [1944]
Acesso à antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari e ao Teatro do Rato
Eduardo Portugal, in AML
Comício republicano realizado no antigo recinto do Teatro do Rato [1907-05-01]
Largo do Rato
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 15, 1939.

Sunday, 18 August 2019

Rua Andrade

O Bairro Andrade — diz Norberto de Araújo — foi aqui a grande primeira nota de urbanismo, entre campos e lugares aprazíveis; fundou-o um proprietário de terrenos locais, o qual, concedida a autorização municipal, o rasgou em xadrês regular, pondo às ruas os nomes das senhoras de sua família; leva pouco mais que quarenta anos [finais séc. XIX].


A Rua Andrade foi atribuída por deliberação camarária de 10 de Novembro de 1892, confirmada pela presidência da Câmara em 30 de Janeiro de 1893, a qual atribuiu também na mesma área os seguintes topónimos: Rua Maria Andrade, Rua Maria, Rua Palmira e Rua Antónia Andrade, no arruamento que ligava o Caminho do Forno do Tijolo com a Rua Maria.

Rua Andrade [1960]
Esquina com a Av. Almirante Reis; em frente à 'Leitaria Bijou' - antiga Farmácia Bezelga; do lado esquerdo da foto ficava o antigo Cinema Lys.
Arnaldo Madureira, in A.M.L.

Das actas das sessões da Comissão Municipal no ano de 1892, pode ler-se o seguinte sobre o dia 10 de Novembro de 1892:
«De Manuel Gonçalves Pereira d'Andrade, proprietário do 'Bairro Andrade', cujas ruas estão na posse da Câmara, pedindo que n'ellas sejam conservados os nomes que indica.
Deferido, com a alteração de Rua Antónia Andrade em vez de Rua Maria Antónia».
Daqui se pode inferir que a Rua Andrade recolhe a sua denominação do proprietário do Bairro Andrade e as restantes ruas do bairro, também indicadas pelo proprietário serão provavelmente de familiares — quiçá mulheres e filhas — do proprietário do Bairro Andrade.

Rua Andrade junto à Rua Palmira [1960]
Vendedeira de quinquilharia
Arnaldo Madureira, in AML
Nota(s): o local da foto não está identificado no A.M.L.
Rua Andrade, 55 [1960]
Vendedor ambulante de fruta
Arnaldo Madureira, in AML.
Nota(s): o local da foto não está identificado no A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 15, 1938.
cm-lisboa.pt.

Friday, 16 August 2019

Calçada do Conde de Pombeiro

Tem esta designação por aqui se situar o Palácio dos Condes de Pombeiro. A Rainha D. Catarina de Bragança para erguer o seu Paço da Bemposta, comprou neste sítio e em Santa Bárbara vários terrenos, dos quais, por lhe sobrarem, cedeu vários pedaços a pessoas amigas, e um deles, no actual Largo do Conde de Pombeiro, à sua camarista D. Luísa Ponce de Leão, para que esta pudesse ir viver para perto de si. D. Luísa era casada com o 1.º Conde de Pombeiro e foi um seu neto, o 3º conde deste título que veio a edificar aí um palácio conhecido pela Bempostinha e que o Terramoto de 1755 arruinou. [cm-lisboa.pt]

Calçada do Conde de Pombeiro com a Rua dos Anjos [1907]
Machado & Souza, in A.M.
L.

Wednesday, 14 August 2019

Grande Hotel de Inglaterra

lnstalara-se o Grande Hotel de Inglaterra no vasto prédio a esquina da Rua do Jardim do Regedor para os Restauradores, com a sua sala de jantar de estilo D. João V, como o salão de visitas. Foi inaugurado em 15 de Abril de 1906, por ocasião do décimo quinto Congresso de Medicina, que se realizou na capital. Era proprietário do hotel o senhor Abel de Barros, também dono da Pension Hotel, da Rua da Glória, centro de hospedagem preferido pelos portugueses que regressavam do Brasil. No novo estabelecimento havia pessoal português, inglês, alemão e francês.

Grande Hotel de Inglaterra [1912]
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

Joshua Benoliel, in AML

No prédio do lado oposto [da Rua 1.º de Dezembro], esquina da Rua do Jardim do Regedor — recorda Norberto de Araújo — , existiu até 1936 o Hotel de Inglaterra, que teve categoria. A Companhia, proprietária do Avenida Palace, comprou então o prédio para construir um grande Hotel, mas, como surgissem dificuldades, desfez-se do imóvel, o qual foi em 1937 adquirido pela «Ribatejana», sociedade de comércio agrícola; do Hotel novo, ou da reabertura do Hotel de Inglaterra, mais se não falou.

N.B. O edifício onde se encontrava o Grande Hotel de Inglaterra foi demolido em 1952.

Grande Hotel de Inglaterra [1910]
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

«Funeral do almirante Cândido dos Reis e do doutor Miguel Bombarda (1910-10-16)»
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
MARTINS, Rocha, Lisboa: História das suas Glórias e Catástrofes, 1947.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p.  15, 1939.

Sunday, 11 August 2019

Mercados do Poço dos Mouros e de Arroios

Construído em 1942 pela “Sociedade de Construções Amadeu Gaudêncio” e projectado pelo arquitecto Luiz Benavente, o Mercado de Arroios veio substituir o antigo Mercado do Poço dos Mouros considerado anti-higiénico — ou mesmo "infecto" —, no dizer de alguns.

Mercado do Poço dos Mouros, inaugurado em 1927 [1927-06-20]
Rua Morais Soares com a Rua Carvalho Araújo (antiga Azinhaga do Areeiro)

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
Mercado do Poço dos Mouros, inaugurado em 1927 [1939]
Rua Morais Soares com a Rua Carvalho Araújo (antiga Azinhaga do Areeiro)

Eduardo Portugal, in AML

Classificado inicialmente como mercado retalhista, mais tarde desempenhou as funções de mercado abastecedor de legumes, passando á categoria de mercado misto:
“Dispunha de 31 lojas destinadas a talhos, salsicharias, venda de frutas, lacticínios, etc., e de 300 lugares de venda. No subsolo foram instalados um matadouro de aves, tulhas, cantinas e frigoríficos, para carne, peixe, caça, aves, frutas, hortaliças. Aqui também existem lavabos e chuveiros para utilização dos vendedores, público e pessoal; arrecadação para produtos e vestuários dos vendedores, devidamente numerados e uma cantina.” (Leite, 2012)

Mercado de Arroios [post. 1942]
Rua Ângela Pinto
Eduardo Portugal, in AML

Dois anos e cerca de um milhão de euros depois, o Mercado de Arroios reabriu em 2017, apresentado à freguesia de cara lavada. Os postos de venda foram remodelados, o pavimento substituído e o interior pintado. Há uma nova rede de águas e melhorias na mobilidade (rampas e novos elevadores). O final desta requalificação acontece no ano em que se celebra o 75º aniversário da construção do mercado, classificado nos anos 80 como edifício com interesse cultural.

Mercado de Arroios [1941]
Rua Ângela Pinto
in Revista municipal Lisboa

Bibliografia
cm-lisboa.pt.
Revista municipal Lisboa, 1941.

Friday, 9 August 2019

Lançamento da 1ª Pedra para o monumento ao Dr. António José de Almeidaa

Recorda-nos o olisipógrafo Norberto Araújo que « O monumento ao Dr. António José de Almeida foi levado a efeito por iniciativa do então director do «Diário de Notícias» Eduardo Schwalbach; a subscrição pública abriu-se dois dias depois da morte do antigo presidente da República, sucedida em 30 de Outubro de 1929.

Avenida da República [1 de Fevereiro de 1932]
Cerimónia do lançamento da 1ª Pedra para o monumento ao Dr. António José de Almeida, 6º Presidente da República (1919–1923), na presença do Chefe de Estado Óscar Carmona
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

O primeiro local escolhido para o monumento foi o cruzamento das Avenidas da República e Miguel Bombarda, no qual se chegou a colocar a primeira pedra em 1 de Fevereiro de 1932.

N.B. Por iniciativa do Governo, a localização definitiva para o monumento viria a ser a Praça onde convergem a Avenida Miguel Bombarda e a Avenida António José de Almeida, tendo sido inaugurado a 31 de Dezembro de 1932

Avenida da República [1 de Fevereiro de 1932]
Sessão solene do lançamento da 1ª Pedra para o monumento ao Dr. António José de Almeida, 6º Presidente da República (1919–1923), na presença do Chefe de Estado Óscar Carmona
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 74, 1939.

Wednesday, 7 August 2019

Beco dos Cortumes

Nesta Travessa [do Terreiro do Trigo] se abre, à esquerda, descendo, uma das curiosidades autênticas da Alfama: o Beco dos Cortumes. Aí o temos, Dilecto. Eis-nos em- plena Alfama medieval.


Como é possível isto, através das desfigurações do tempo e da fortuna, no pobre urbanismo bairrista?  — questiona o ilustre Norberto de Araújo. Como encontramos hoje, e já tão perto da larga Rua do Terreiro do Trigo, êste especime raro ern tôda a Lisboa, que mais parece cousa de estampa antiga,arrancada a uma arca de erudito deão da Sé, do que água-forte viva em século de vintena?

Beco dos Cortumes, visto de dentro [1924]
Eduardo Portugal, in AML

Pois está aqui, pitoresco e  sombrio, até mais não poder ser. É um enfiamento curto, sem saída, morrendo nas traseiras dos prédios do Chafariz de Dentro, para onde em tempos teria passagem.
Não é do mais belo, mas é do mais «repassado» de tôda a Alfama: chamemos-lhe viela, alfurja, beco ou betesga, mas não chega a ser nada disso; pois nem tem quási sinal de gente. Entremos. 

Entrada para o Beco dos Cortumes, visto de fora [1947]
Fernando Martinez Pozal, in AML

Arcos curtos, passadiços ligando prédios exquisitos que já lhe não pertencem, janelas de madeira, baixos de armazéns gradeados de frestas, como na Rua das Canastras e do Almargem à Ribeira Velha — um mixto de reentrância exterior de cárcere e de recanto de burgo seiscentista — , êste Beco dos Cortumes é uma pequena água-forte.

Beco dos Cortumes, visto de dentro [1925]
Alfredo Roque Gameiro. Lisboa Velha. Aguarela
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 65, 1939.

Sunday, 4 August 2019

Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37

Edifício para habitação destinado a Emílio Leguori, construído por Augusto Carlos da Cunha, a partir de um projecto do arquitecto Ventura Terra (1902).
Este edifício foi desenhado de uma forma simétrica, nos seus aspectos relacionados com a métrica de vãos e desenho de varandas. Duas faixas de azulejo, no topo e ao nível do piso térreo, conferem-lhe horizontalidade em contraponto com a verticalidade dos vãos. A zona de esquina é marcada exteriormente por três varandas sobrepostas, unidas por um pano de marquise em dois níveis na continuidade e largura do vão principal constituído pela entrada e respectivo desenho em pedra.

Edifício na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [c. 1910]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; ao fundo vê-se o palacete «Casa da Cerâmica».
Joshua Benoliel, in AML

Uma proposta de 1940, tendo em vista retirar os envidraçados das marquises por se encontrarem em mau estado, não foi aceite por parte da Câmara, apesar de um primeiro parecer estar de acordo com a supressão dos mesmos, já que "em nada afectaria a expressão arquitectónica do edifício em questão, que segundo se julga só lucrará com essa circunstância", refere o texto da proposta. 
A necessidade de realizar obras por parte de um novo proprietário, a partir de 1940, levou a que o mesmo se dirigisse à Câmara solicitando a sua anulação relativamente ao interior das habitações. Curiosamente, refere o proprietário que "as rendas são antiquíssimas e de reduzido valor, para habitações de dezoito amplíssimas divisões, todas elas habitadas por gente rica. (...) Presentemente encontro-me exausto de recursos por muito tempo assim permanecerei, por os encargos dos empréstimos que contraí me absorverem todas as economias que venha fazer. Não seriajusto que, para beneficiar inquilinos ricos, satisfeitos com a sua habitação, fosse obrigado a fazer obras desnecessárias, gastando nelas dinheiro que não tenho, forçando-me a usar novamente o crédito,aumentando mais os encargos, já neste momento preocupante, pelo seu montante". 

Edifício sito na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [1917]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; manifestação.
Joshua Benoliel, in AML

Em 1946, foram substituídas as marquises de ferro, que se encontravam em ruína, para outras construídas em estrutura de betão. Este projecto foi assinado pelo arquitecto Norte Júnior e pelo engenheiro Francisco Ventura Rego.
Em 1972, a Sojornal, proprietária do jornal Expresso, instala-se neste edifício, ocupando-o na totalidade. Em 1990, esta sociedade solicita uma remodelação do imóvel, com ampliação em altura, construção de 4 caves para estacionamento e conservação da fachada. O projecto foi reprovado pela Câmara Municipal em função dos planos urbanísticos em vigor para a zona e do estudo volumétrico do quarteirão, aprovado em 1980. Apesar do protesto do interessado, com base em pareceres jurídicos, a obra nunca se concretizou.

Rua Braamcamp vista da Praça do Marquês de Pombal [194-]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso».
Ferreira da Cunha, in AML

N.B. Afonso Costa (1871-1937) foi Presidente do Conselho de Ministro, ministro, dirigente do Partido Republicano e do Partido Democrático.
Em Outubro de 1910, um levantamento popular conseguiu implantar a República, não tendo havido uma resposta determinada do Exército. Formou-se um Governo provisório chefiado por Teófilo Braga, tentando impor um regimento com apoios unicamente na população urbana num país rural. Afonso Costa ficou com a pasta da Justiça: fez uma revolução num ministério que primava pela discrição. Iniciou reformas claramente anti-clericais, que contribuíram para o aumento da impopularidade do novo regime junto da população e da ala conservadora do republicanismo. Mas o ministro da Justiça e dos Cultos não cedeu às pressões e continuou com a política de afirmação dos valores laicos da República e de separação do Estado das igrejas, instituindo também o registo civil obrigatório.
__________________
Bibliografia
MANGORRINHA, Jorge, Arquitecturas de esquina em Lisboa, A.M.L., 2014.

Friday, 2 August 2019

Quiosque do Arco do Cego

Se quisermos compreender facilmente o seu nascimento, teremos de analisar primeiro a proveniência do termo quiosque. Originado do francês kiosque, derivou por sua vez do turco kiouchk, que quer significar "nádegas", talvez pela posição que as pessoas adquirem em redor dele. É provavelmente por isso que, em gíria, quando pretendemos que alguém se afaste de nós, ainda ouvimos dizer: "chega-me para lá esse quiosque!”.

ESTRUTURA: Base de alvenaria, quadrangular. Balcão alto com janelas corridas, encimadas em semicírculo de vidro opaco. Cúpula aos gomos quadrangulares, com bordo trabalhado.
PARTICULARIDADES: Particular. Muito concorrido. Parece ter sido demolido em 1974 ou 1975.

Quiosque do Arco do Cego [1940]
Avenida Duque de Ávila
Eduardo Portugal, in AML

N.B. A Estação do Arco do Cego da Carris, funcionou como recolha de eléctricos da empresa. Mais tarde, albergou um terminal de autocarros de longo-curso e serve agora como parque de estacionamento. Junto a este edifício encontra-se o Jardim do Arco do Cego.

Quiosque do Arco do Cego [1960]
Avenida Duque de Ávila
Artur João Goulart, in AML

Bibliografia 
CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os quiosques de Lisboa, 1987.

Wednesday, 31 July 2019

Mercado de Santa Clara

A festa de inauguração deste mercado foi explêndida. N’esse dia todo o edifício esteve embandeirado, subindo aos ares milhares de foguetes e tocando duas philarmónicas, uma dentro do recinto e outra da parte externa, para que se armou um vistoso corêto. Immenso concurso de gente ali affluiu e a multidão era enorme.¹

O Mercado do Campo de Santa Clara — recorda-nos Norberto de Araújo — , que ali se vê ao centro da Praça — a parte sul do Campo de Santa Clara — , data de 1877, e foi construído por uma Companhia de Mercados e de Edificações Urbanas, que o explorou até 1927, ano em que, após o meio século do contrato com a Câmara, e segundo clausula fundamental, foi municipalizado.²
Mercado de Santa Clara, entrada Sul [1927]
Campo de Santa Clara
A inauguração do Mercado foi feita, com pompa e circunstância, no dia 7 de Outubro de 1877, sob a melodia de uma orquestra que tocava num coreto instalado no local, propositadamente para o dia da inauguração. 
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Desenhado e construído com base em novas técnicas e materiais, nomeadamente o tijolo industrial, o ferro e o vidro, o Mercado de Santa Clara fez parte da fase de introdução da arquitectura do ferro em Portugal, a qual à semelhança da restante Europa, utilizou o conceito sobretudo na construção de estações de caminho-de-ferro, mercados, pontes, armazéns, estufas e outros edifícios públicos. Situado numa área de 1250 m2, o edifício foi construído sobre um plano inclinado, o qual se revelou estruturalmente favorável à sua funcionalidade. A proposta de construção do Mercado de Santa Clara em Lisboa foi apresentada à Câmara Municipal pelos senhores Conde de Penamacor e António Paes de Sande e Castro a qual mereceu um parecer favorável por parte de então vereador camarário, José Gregório da Rosa e Araújo, preconizador do desenvolvimento e modernização da cidade de Lisboa. 

Mercado de Santa Clara [1961]
Campo de Santa Clara; entradas Sul e Norte, respectivamente.
Artur João Goulart, in A.M.L.

Na década de 80 sob o desígnio de inovar, rentabilizar e tornar o mercado mais funcional, foi solicitado, ao arquitecto Alberto Sousa Oliveira, um projecto de reparação e remodelação tendo em vista a solução dos seus mais graves problemas. Desse projecto resultou a instalação de um Restaurante panorâmico na sobre-loja do mercado, foram instaladas novas bancas e remodeladas diversas lojas, para além de diversas alterações funcionais. Porém, tudo isto não bastou para salvar o Mercado de Santa Clara que deixou de funcionar como mercado de venda de produtos frescos e passou a funcionar como pólo de dinamização cultural da cidade, acolhendo eventos de índole diversa.

Mercado de Santa Clara [1927]
Campo de Santa Clara; ao fundo observa-se a entrada sul
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Hoje em dia, para além do restaurante panorâmico, lojas de antiguidades e de produtos alternativos, o Mercado de Santa Clara acolhe o Centro de Artes Culinárias, o qual foi inaugurado no dia 28 de Junho de 2011, em resultado de um protocolo entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Associação “As Idades dos Sabores”.³

Mercado de Santa Clara [1936]
Campo de Santa Clara; entrada Norte
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Bibliografia
¹ In Mercado de Santa Clara, C.M.L., Lisboa, p. 7, 1995.
² ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 73, 1938.
³ SEROL, Maria Elisabete Gromicho, O Campo de Santa Clara, em Lisboa Cidade, História e Memórias | Um Roteiro Cultural, pp. 84-127, 2012.

Sunday, 28 July 2019

Palácio dos Condes Almirantes de Rezende

Poucos edifícios por esta área — escreve Norberto de Araújo — têm a grandeza dêste antigo Palácio dos Condes Almirantes de Resende, e que se confina entre as duas faces do Campo de Santa Clara, e Rua do Paraíso.


No ângulo sul dêste enorme edifício, e com ingresso por uma estreita porta na Rua do Paraíso, estão instalados o Arquivo Histórico Militar, êste fundado em 25 de Maio de 1911 (sendo então director o coronel Henrique Luiz Pacheco Simões), mas só aqui arrumado depois da sua Organização de 1921 (cremos que em 1923). [...]

Palácio dos Condes Almirantes de Rezende [c. 1910]
Campo de Santa Clara, 21-24; Largo Dr. Bernardino António Gomes, 1-4; Rua do Paraíso, 2-16
Neste palácio funcionou  o Teatro Popular de Alfama, nome com que se abriu ao público o Teatro Thalia, inaugurado em 1873.
Alberto Carlos Lima, in AML

O Palácio Resende é usufruído pelo Ministério da Guerra, e e aparte os arquivos citados — todo o edifício é hoje ocupado pelos serviços das Oficinas Gerais de Fardamentos e Calçado [hoje OGFE vulgo Casão Militar], designação que vem de 1926, sucedendo ao Depósito Central de Fardamentos, criado em 1907. O edifício sofreu na parte poente e sul um grande incêndio em 1916, mas foi logo depois reedificado.
Antes de 1906, neste edifício Resende, e com frente para a Travessa do Zagalo, esteve — desde muitos anos antes — aquartelado um regimento de artilharia; durante muito tempo sôbre o muro daquela Travessa, e que ampara os terrenos circundantes do velho monumento de Santa Engrácia — nos quais em 1909 se construiu um pavilhão anexo da Fábrica Militar de Calçado — viam-se as bôcas das peças.

Palácio dos Condes Almirantes de Rezende [1900]
Campo de Santa Clara, 21-24; Largo Dr. Bernardino António Gomes, 1-4;  
Rua do Paraíso, 2-16
Observe-se o cunhal brasonado com as armas da dos «Condes de Rezende, 
Almirantes de Portugal».
Machado & Souza, in AML

Em 1916, o esquecido monumento nacional das «Obras de Santa Engrácia» foi ocupado (provisoriamente, se disse) pelas Oficinas de Calçado.
Também há poucos anos, e durante um curto período, a profanada capela do Conventinho do Desagravo serviu de Depósito de Material das Oficinas Gerais.
São bem curiosos estes sítios! Têm um bairrismo tranqüilo, quási de extra-muros, desafogado e popular, sem cair no pitoresco. Mas hemos de andar para diante.

Palácio dos Condes Almirantes de Rezende [1968]
Campo de Santa Clara, 21-24; Largo Dr. Bernardino António Gomes, 1-4; Rua do Paraíso, 2-16
OGFE vulgo Casão MilitarArnaldo Madureira, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 79-80, 1939.

Friday, 26 July 2019

Mosteiro de Santa Clara

Ora agora me cumpre falar-te do Convento das freiras de Santa Clara.

Ali, onde vês êsse casarão militar — recorda-nos Norberto de Araújo — , que ocupa a área que confina já com a Rua do Mirante — a Fábrica de Armas do fim do século XVIII — , e junto ao qual se erguem umas casas de habitação, pertenças também do Ministério da Guerra, assentou o desaparecido Convento que deu o nome ao sítio.


Campo de Santa Clara [1900]
Casas antigas, séc. XVIII, erguidas junto à Fábrica de Armas, onde assentou o célebre Convento de Freiras Clarissas, que deu o nome ao sítio.
Machado & Souza, in AML

Em 1288, quatro damas nobres e piedosas resolveram fundar um Mosteiro para religiosas da Ordem franciscana de Santa Clara, e começaram a erguer uma casas à Trindade. Breve, porém, se resolveram por sítio mais vasto, e escolheram êste campo, adquirindo uns chãos que aqui possuía Gonçalo Pires. A habitação estava de pé em 1292 e a Igreja inaugurou-se em 1294.
Prosperou logo aquela Casa religiosa, que pelo andar dos séculos se enriqueceu, sendo das mais grandiosas de de Lisboa, com sua Igreja recheada de boa. arte e de preciosas alfaias. 
O Terramoto de 1755 reduziu tudo a escombros e a cinzas. Foi esta uma das casas de Lisboa que mais sofreram; nada se salvou, e morreram 400 pessoas, entre as quais 123 religiosas e recolhidas. Nunca mais se pensou em reedificar Santa Clara. O terreno foi rasoirado para nele e edificar pouco depois uma dependência do Arsenal Real do Exército, a «Fundição de Santa Clara», ou Fábrica de Armas, com casas anexas e habitação de oficiais. Hoje essa Fábrica está convertida na Fábrica de Equipamentos e Arreios [vd. N.B.], mas o aspecto exterior não difere do do século XVIII.

Campo de Santa Clara, Fábrica de Armas [1900]
Antiga depência do Arsenal Real do Exército, a «Fundição de Santa Clara, depois OGFE.
Machado & Souza, in AML


Pois foi aqui o Mosteiro das freiras de Santa Clara, com larga cêrca traseira e que ainda há quarenta anos [c. 1900] se adivinhava em pedaços de quinta — como os vimos — , Mosteiro que por alguns escritores, reproduzindo-se, foi dado como assente no sitio onde se ergueu depois o Conventinho do Desagravo.

Campo de Santa Clara [1961]
Casas antigas, séc.XVIII, erguidas junto à Fábrica de Armas, onde assentou o célebre Convento de Freiras Clarissas, que deu o nome ao sítio, vendo-se à esq. a Fábrica de Armas hoje OGFE.
Arnaldo Madureira, in AML

N.B. Mais tarde, em 1968, por fusão das as Oficinas Gerais de Fardamento (OGF), com a Fábrica Militar de Santa Clara (FMSC), antiga Fábrica de Equipamentos e Arreios criada em 1927, tiveram origem as actuais Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento (OGFE).
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 75-76, 1938.

Wednesday, 24 July 2019

Jardim de Santa Clara / Jardim Botto Machado

Ora se aqui não devia de haver um miradouro! Qual é o sitio de Lisboa que o não possue?
Aí o temos: o Jardim do Campo de Santa Clara construído em 1862 [ou Jardim Botto Machado (1865)], mas muito melhorado depois. Daqui tiramos urna vista panorâmica do rio, tranqüilo e azulado.
E desçamos, cortando ainda a Feira da Ladra.

Jardim de Santa Clara ou Jardim Botto Machado [c. 1930] 
Em frente aos Palácios Lavradio e Sinel de Cordes
Ferreira da Cunha, in AML

Esta parte baixa do Campo de Santa Clara intitula-se desde há poucos anos Praça Dr. Bernardino António Gomes, que foi notável médico da Marinha de Guerra, e cujo busto, sôbre plinto, se ergue no centro da Praça, diante do Hospital, de que êle foi Director. Êste médico, verdadeiro homem de ciência, foi quern em Portugal aplicou pela primeira vez a anestesia pelo clorofórmio (1848).

Campo de Santa Clara  [1929]
Do lado esq. vê-se a cortina do Jardim de Santa Clara ou Jardim Botto Machado (1865)

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

N.B. Baptizado, em 1865, com o nome de Botto Machado em homenagem ao político português Pedro do Amaral Botto Machado. Pequeno espaço verde municipal, gradeado e com ruas asfaltadas com um estrato arbustivo e arbóreo bem desenvolvido. 
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 77-78, 1939.

Sunday, 21 July 2019

Chafariz da Meia-Laranja

A Rua Maria Pia — assim chamada pelo povo desde o final do século passado, antiga «Estrada da Circunvalação», designação ainda municipal em 1894 — começa do lado sul da antiga Ponte de Alcântara e vai até ao cruzamento com a Rua do Arco do Carvalhão.

Chafariz da Meia-Laranja, aguadeiras [1907]
Rua Maria Pia
Joshua Benoliel, in AML

A «Meia-Laranja» fica exactamente na Rua Maria Pia, entre o Arco de Carvalhão e Alcântara, na confluêndia da Estr. dos Prazeres com a Rua Maria Pia. Penso que se chama Meia-Laranja pelo feitio da rua que é cortada como se fosse uma laranja cortada ao meio criando um espaço em forma de semicírculo.
No centro há um Chafariz que, naquele tempo, era usado pelos aguadeiros, servindo de bebedouro aos cavalos e burros dos vendedores ambulantes.








Chafariz da Meia-Laranja [1964]
Rua Maria Pia junto ao antigo Casal Viúva Teles
Arnaldo Madureira, in AML

Bibliografia
NEVES, Ernesto, Uma tela igual às outras: um metro por oitenta e um, 2005.

Friday, 19 July 2019

Rua de Campo de Ourique

No século XVIII esta artéria, já desenhada e edificada — recorda Norberto de Araújo — , chamava-se dos «Pousos» –, pela proximidade com a quinta dêste nome dos Rebelos Palhares, depois dos Sás (Anadias). [...]
O sítio de Campo de Ourique logra porém possuir uma designação que blasona de antiguidade; terras de pão e de oliveiras nos séculos velhos, quintas, terrenos para merendas e passeio no século de seiscentos — subúrbios de Campolide com título próprio — , só no ciclo posterior ao Terramoto começou a desenhar-se em póvoa rudimentar, pela força da lei demográfica, apressada pelo arrasamento de uma parte de Lisboa.

Rua de Campo de Ourique [1908]
Machado & Souza, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 70-74, 1939.

Wednesday, 17 July 2019

Profissões de antanho: o homem da hortaliça

Não tinha grande relevo nem brilho de pregão o homem que carregava aos ombros dois canastros unidos por um grosso varapau:
 — Cá estão nabos, cenouras, tomates ou pepinos e tudo o mais que a horta dá!
Naturalmente, concorria no negócio com os lugares de hortaliça que os havia e há por toda a Lisboa, pequenas lojecas onde se vende, a par das couves e dos rabanetes, galinhas e coelhos em reduzidas capoeiras entaipadas e às vezes malcheirosas.

Profissões de antanho: o homem da hortaliça [1907]
Avenida Almirante Reis, S→N; quarteirão entre as Ruas Álvaro Coutinho e Febo Moniz
Joshua Benoliel, in AML

O homem da hortaliça, raras vezes de origem saloia, já não se vê nos bairros populares, substituído por oportunistas que, na altura das «novidades», gritam, de esquina em esquina, o produto que anunciam em primeira mão, utilizando umas carrocecas atreladas a pacientes burricos. Estes vendedores normalmente não pagam licença camarária para exercer o mister. Daí que, à aproximação do polícia fiscalizador, para gáudio e regalo dos proprietários dos lugares de hortaliça, lá vai tudo de escantilhão e com eles em fuga, a carroça, o burro, as balanças e os pesos, quando os há!

Profissões de antanho: o homem da hortaliça [post. 1901]
Avenida Vinte e Quatro de Julho e Praça do Duque da Terceira; Hotel Central
Garcia Nunes , in AML

Bibliografia
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974, p. 42, 1986.

Sunday, 14 July 2019

Os Fiéis de Deus

Em 1902, o olisipógrafo Júlio de Castilho, adiantava a razão da origem deste curioso topónimo do seguinte modo: «A travessa dos Fieis de Deus, essa é toda mystica. Tira talvez origem de um antigo uso, que o Elucidário de Viterbo nos denuncia: montes de pedras soltas arrojadas a uma e uma pelos passageiros nas encruzilhadas, ao pé de alguma Cruz que ahi houvesse, e em honra d'ella; resto de hábitos pagãos transformados pelo Christianismo. Parecia aquillo um modo de provar que os fieis não esqueciam o seu Deus, pois erguiam, a pouco e pouco, junto ao symbolo da Redempção, aquelles rudes calvários, commemorativos do alcantilado theatro da Paixão de Christo.
A taes acervos de cascalho chamava o povo «Fieis de Deus», pela fidelidade dos obscuros e incógnitos auctores. E é para notar que a ermida de Nossa Senhora da Ajuda dos Fieis de Deus, que se acha ainda hoje no seu logar primitivo, foi edificada n'uma encruzilhada de dois caminhos; a actual Travessa dos Fieis de Deus, e a actual rua dos Caetanos.

Travessa dos Fiéis de Deus [1930] 
Perspectiva tomada da Rua de O Século
[Ermida (de Nossa Senhora da Ajuda) dos Fiéis de Deus]

Fotógrafo não identificado, in arquivo do Jornal O Seculo

Os «fiéis de Deus» eram pedrinhas — afirma por seu turno Norberto de Araújo. Pedrinhas de piedade. Não chegavam a ser uma lágrima. Queriam ser um Padre-Nosso. Quando era justiçado um homem, não o enterravam no adro sacrossanto das igrejas. A lei punha-o fora do seio de Deus. Abriam-lhe a cova numa encruzilhada. Os que passavam atiravam-lhe uma pedra e uma oração pelo «fiel de Deus». Eis o costume caritativo de há muitos séculos.
E aí está a única ermida do Bairro Alto, neste buliçoso sítio onde muitas outras existiram, e que esqueceram. Aí fica ela ao cabo do enfiamento de uma pitoresca travessa, ainda de casinhas cor-de-rosa, de fundo setecentista, perto das Salgadeiras, da Espera, das Mercês, da Trombeta. 

 Ermida (de Nossa Senhora da Ajuda) dos Fiéis de Deus] [1945] 
Travessa dos Fiéis de Deus, 111; Rua dos Caetanos
Eduardo Portugal, in AML

Data a Ermida de 1551, dedicada por um Afonso Brás às Almas do Purgatório. É pequena e pobre, com um arzinho de ingenuidade antiga. Nela habitou um dos cinco homens que, na cidade, tinham o ofício de recolher as crianças perdidas das mães: também foi um refúgio, os Fiéis de Deus.
Na Ermidinha entravam muitas vezes os calafates da Boavista, os brigões da Espera, os fidalgos de Soure, os frades eruditos de S. Caetano, as colarejas da Atalaia. Agora não entra quase ninguém. [...]
É simplesmente a pedrinha anónima, distraída, humilde dos Fiéis de Deus.
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Bibliografia
CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga, Vol, 1, p. 102, 1902.
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 202-203, 1943.
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