Wednesday, 22 May 2019

Profissões de antanho: o vendedor de capilé

— Capilé, copo com água!

Cortejo cívico, procissão, parada militar, feira ou qualquer outra manifestação que provoque ajuntamento, logo surgia e surgirá sempre, a completar o panorama, certo e sabido, o homem da «água fresquinha ou capilé»!
O material para o «negócio» é simples: um tabuleiro de zinco com quatro pernas, dois copos, uma garrafa de capilé, limões, uma faca para os cortar e uma bilha de água com a rolha trespassada por um pedaço de cana para não ter de a destapar, conservando a água isolada e fresca.
Depois é só instalar-se em local bem visível ou circular através da multidão e apregoar:
— Água fresquinha ou capilé! Capilé, copo com água!...

Vendedor de capilé  [1918-08]
Praça do Comércio
Joshua Benoliel, in A.M.L.

E não lhe falta freguesia porque há sempre gente que mesmo que não tenha sede lhe desperta a sede, mesmo que observe os copos mal lavados, passados ali num ápice, que ele não pode gastar muita água com tais preocupações, pois, se muita gastasse, pouca lhe ficaria para vender.
— Capilé, copo com água! Água fresquinha ou capilé!




Marchand de boisson  [entre 1903 e 1908] 
Largo Duque do Cadaval, vendo-se a Estação do Rossio
Charles Chusseau-Flaviens, in G.E.H.
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógrafo






O capilé, ou xarope de avenca, também se vendia em abundância, ou na conhecida casa de Santo Antão, em frente do Coliseu, cheia de avencas no tecto, hoje transformada em botequim, ou nos demolidos quiosques do Camões, e, ainda, pelos vendilhões de água fresca e do capilé de cavalinho, chupado pelos rapazes em canudos de folha, sôbre os quais bailarinas, toiros e t oireiros giravam.
O prémter marchand d'eau — velhote vestido de branco, com chapéu de  palha — fez época no Rossio.
 — Capilé, copo com água!

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Bibliografia
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 298, 1986.
Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», 1945.

Sunday, 19 May 2019

Palácio de D. Braz da Silveira ou do Marquês das Minas

Agora vejamos para último elemento dêste passo — escreve Norberto de Araújo —, êsse velho Palácio da esquina da Travessa de D. Braz serventia rectificada há três anos [vd. N.B.], e com frente ao ângulo poente do jardim [9 de Abril]: é representativo da época de seiscentos, e tem ainda qualquer cousa de Lisboa velha.


Foi pertença de D. Brás da Silveira, da casa e família dos Marqueses das Minas; mais tarde, no século passado [XIX], veio à posse dos Viscondes de Tojal, aos quais, após um interregno em que pertenceu ao capitalista Quaresma, voltou à posse, que subsiste.
Estão nele instalados [em 1938] vários serviços públicos, da Direcção Geral dos Impostos, e em parte tem habitado, de há longos anos, o diplomata conselheiro Dr. Arenas de Lima.
Os altos dêste palácio e dos prédios vizinhos, numa amálgama de planos, oferecem desde o alto do edifício novo do Museu [de Arte Antiga] curiosas perspectivas.
E agora te digo, Dilecto: e se descançássemos uns momentos?

Palácio de D. Braz da Silveira ou do Marquês das Minas [entre 1902 e 1908]
Rua Presidente Arriaga, 2-6, tornejando para a Travessa de D. Braz, n.º 1-7 e Rua do Olival, 21 
Observe-se a originalidade das chaminés entretanto 
apeadas quando foram acrescentadas as trapeiras.
Machado & Souza, in AML

A cobertura do palácio foi bastante alterada por diversos usos. Volumes articulados com coberturas diferenciadas em telhados de 2 águas, rasgadas por trapeiras. Possui dois corpos distintos: um na Rua Presidente Arriaga, de dois pisos (onde se localiza o piso nobre) evidenciando traços da origem seiscentista, outro na Travessa de D. Braz, de quatro pisos, com características posteriores. Edifício ritmado por 13 janelas de sacada com guardas em ferro forjado, no piso nobre, ao longo da fachada marcada pela sucessão de 13 trapeiras (inicialmente era composto por 6 chaminés). 
O acesso ao interior é feito através de um átrio com tecto em estuque decorativo. No interior encontram-se azulejos de figura avulsa, do 2º quartel do séc. 18, na escadaria principal e azulejaria pombalina nos pisos superiores (antigos estúdios de gravação); sala no piso nobre com tecto setecentista em estuque estilo "rocaille" e azulejaria pombalina do 2º período; tecto brasonado na entrada, com armas dos Sousa do Prado e coroa de Marquês.

Palácio de D. Braz da Silveira ou do Marquês das Minas [1938]
Um aspecto do velho Palácio do Marquês das Minas, do lado da Travessa de D. Braz, às Janelas Verdes.  — Observe-se a originalidade dos telhados e das chaminés
Desenho de Martins Barata, in Peregrinações em Lisboa

N.B. O homenageado Dom Brás, da íngreme ruela, é Dom Brás Baltasar da Silveira, nascido a 3 de Fevereiro de 1674. Foi Senhor de S. Cosmado, na comarca de Lamego, Comendador de Ranhados, e teve as Comendas de seu pai, D. Luís Baltasar da Silveira, casado com Dona Luísa Bernarda de Lima, filha das 2." núpcias do 1.° Marquês das Minas, D. Francisco de Sousa, décimo neto de Afonso III, de Portugal.Dom Brás consorciou-se com Dona Joana Inês Vicência de Meneses, filha de Aleixo de Sousa da Silva, 2.° Conde de Santiago. Os linhagistas tecem loas a Dom Brás, que acompanhou seu avô, o Marquês das Minas, até à Catalunha, ficando prisioneiro em Almanza. Regressado a Portugal, foi Mestre de Campo e General dos Exércitos, e governou as armas da Beira.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 61-62, 1938.
monumentos.pt.
SANTOS,Domingos Maurício Gomes, Brotéria, p. 206, 1952.

Friday, 17 May 2019

Beco do Petinguím a Santa Bárbara

Sobre este Beco do Petinguim, na freguesia dos Anjos, pouco se sabe da sua origem.
De acordo com os Livros X e XI de óbitos da freguesia dos Anjos, Luís Pastor de Macedo («Lisboa de Lés a Lés», vol. IV) refere que o arruamento já aparece em 1816 como Ilha do Petinguim e como beco em 1823.

Rua de Santa Bárbara e Beco do Petinguím [c. 1939]
Eduardo Portugal, in AML




 
Por sua vez, o olisipógrafo Gomes de Brito («Ruas de Lisboa», vol. II) acrescenta que: «No "Manual descritivo de Lisboa e Porto, de Chianca (1845) lê-se , na "Miscelania" : "Ilha de Petinguim (ou Xacra, vulgo Beco da): fica na rua das Barracas; pertence à freguesia de Nossa Senhora dos Anjos"».
A artéria é ainda mencionada como Beco do Petinguim no «Atlas da Carta Topográfica de Lisboa» de 1858, de Filipe Folque, assim como num projeto de Ressano Garcia de 29-07-1893, de ligação da Rua Passos Manuel ao Paço da Rainha. [cm-lisboa.pt]

Beco do Petinguím [s.d.]
Vasco Gouveia de Figueiredo, in AML

Wednesday, 15 May 2019

Viaduto de Chelas

À origem fabulosa de Chelas associaram o nome de Aquiles (Achiles), o herói grego, que por ali teria estado escondido, disfarçado de mulher, entre as vestais de um templo (depois convento de Chelas). Presume-se que esta lenda tivesse sido forjada a partir do topónimo Achellis que é, de facto, mencionado na documentação mais antiga (sécs. XII e XIII).
Entretanto, não há certezas quanto ao verdadeiro significado da palavra Chelas. Alguns atribuem-lhe uma etimologia latina (planella chaela = pequena planície) a qual não se coaduna com a orografia do lugar.

Rua de Cima de Chelas [c. 1910]
Viaduto de Chelas
Joshua Benoliel, in AML

Outros, dizem que tem a mesma origem que as palavras «shell» (ingl.) e «schale» (al.), derivando de um radical comum com o significado de concha. Esta hipótese é mais sugestiva porque, na realidade, em todo o vale de Chelas e nas encostas (até ao Alto das Conchas!) se encontram numerosos concheiros fósseis que ficaram como vestígios de há muitos milhões de anos, quando por aí penetrava um golfo marinho.
A Rua tem a denominação de Cima de Chelas porque fica acima da Estrada de Chelas
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Bibliografia
Pelas Freguesias de Lisboa, CML: Pelouro da Educação, 1993.

Sunday, 12 May 2019

Estação dos Caminhos de Ferro de Leste e Norte, vulgo Estação de Santa Apolónia

O relógio da estação dos Caminhos de Ferro de Leste e Norte — vulgo Estação de Santa Apolónia — marcava treze horas e trinta minutos e estava "prontinha a estrear".


A Estação de Santa Apolónia figura em pelo menos uma dúzia de livros de Eça de Queiroz. Repartia com o Porto, no último quartel do século XIX, a condição de principal meio de chegada à capital portuguesa, a partir do exterior. Inaugurada no dia 1 de Maio de 1865, a estação de Santa Apolónia ficava na Rua do Cais dos Soldados, diante da Praia dos Algarves. O Tejo passava rente a ela [vd. 2ª foto], em seu flanco sul. Hoje, em terreno conquistado ao rio, corre a Avenida Infante Dom Henrique, entre a estação e a estrada de ferro de um lado, e o cais atracável, de outro, onde se situa o Terminal de Contentores de Santa Apolónia.

Estação de Santa Apolónia [c. 1865]
Rua e Largo dos Caminhos de Ferro
Antiga Rua do Cais dos Soldados e a então chamada «Praia dos Algarves» aterrada em 1865
O edifício, encomendado pela Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, dispunha no piso térreo de cocheira para 22 carruagens, salas de espera de 1.ª, 2.ª e 3.ª classes, e salas do chefe de estação, dos botequins e casas de pasto, do telégrafo, do serviço de saúde, etc., além de ser iluminado por 143 candeeiros a gás, de acordo com uma descrição no «Archivo Pittoresco: Semanario Illustrado, nº 4 de 1866», publicação lisboeta da época.
Fotógrafo não identificado, in AML

O primeiro caminho de ferro em Portugal foi inaugurado em 1856. A linha ia de Lisboa ao Carregado (cerca de 40 quilómetros ao norte da Capital). Não foram poucos os que se opuseram à introdução dos caminhos de ferro em Portugal, pois isto parecia um sacrifício estéril para a nação, que deveria, ao contrário, ir avançando na construção de estradas macadamizadas. O romance Os Maias, um grande painel da época, reflecte, na pessoa do Abade Custódio, esse sentimento de oposição às estradas de ferro. Quando soube que o procurador Vilaça viera no comboio até o Carregado, disse, suspendendo a colher que ia levar à boca: 
"De causar horror, hem?"
O abade assustava-se com as inevitáveis desgraças dessas máquinas. Gostava do progresso, achava até necessário o progresso, mas parecia-lhe que se queria fazer tudo à lufa-lufa. "O país não estava para essas invenções, o que se precisava eram boas estradinhas. . ." O lugar da actual estação de Santa Apolónia, ponto de partida da linha inaugural, era ocupado por um quartel de artilharia, edifício grande mas irregular, com espaçosa área na frente, fechada com grades de ferro que o separavam da Rua do Cais dos Soldados.

Estação de Santa Apolónia [post. 1865]
Rua e Largo dos Caminhos de Ferro
Antiga Rua do Cais dos Soldados e a então chamada «Praia dos Algarves» aterrada em 1865
Foi aqui que tudo começou. Foi daqui que no dia 26 de Outubro de 1856 partiu o rei D. Pedro V no primeiro comboio que circulou em Portugal, ligava Lisboa ao Carregado. Sendo portanto este local o berço dos caminhos de ferro portugueses.
Edificada, entre 1862-1865, próximo do Bairro de Alfama, em frente ao «Cais dos Soldados», no local ocupado pelo antigo Quartel de Artilharia, é a estação mais antiga de Lisboa e o ponto de partida de diversos comboios, quer a nível nacional, quer internacional.
A. S. Fonseca, in AML

A construção foi iniciada em Outubro de 1862, no ano seguinte ao da coroação do Rei D. Luís I. O projecto era de autoria dos engenheiros João Evangelista Abreu (que , Angel Arribas Ugarte e Lecrenier. O edifício era iluminado por 143 candeeiros a gás. O caminho de ferro que sai de Santa Apolónia corre paralelamente ao Tejo, em direcção a leste e depois a norte. No dizer de Vasco Callixto, Santa Apolónia poderá considerar-se o berço do comboio em Portugal, pois, mesmo sem estação, foi dali que, em 1856, partiu a primeira composição ferroviária rumo ao Carregado. A denominação de Santa Apolónia advém do facto de que naquele local existia um edifício que, até 1833, era o convento das religiosas franciscanas da invocação de Santa Apolónia. O dia de Santa Apolónia, padroeira dos dentistas, ocorre a 9 de Fevereiro.

Estação de Santa Apolónia [post. 1865]
Rua e Largo dos Caminhos de Ferro
Antiga Rua do Cais dos Soldados e a então chamada «Praia dos Algarves» aterrada em 1865
A grande nave — cais onde (des)embarcam os passageiros — possuía um tecto todo em ferro com vidraças no centro, tinha de comprimento 117 mt., de largura 24,6 mt., e de altura 13 mt., e «é de construção mui sólida e esbelta», pode ainda ler-se no «Archivo Pittoresco: Semanario Illustrado, nº 4 de 1866».
A. S. Fonseca, in AML

Bibliografia
CASTRO ALVES, Dário Moreira de, Era Lisboa e Chovia: Todas as Personagens de Eça Na Lisboa Bem-Amada, pp. 177-178, 1984.

Saturday, 11 May 2019

Cinema Mundial

Inaugurado a 22 de Setembro de 1965, o Cinema Mundial localizado no bairro de Picoas, acompanhou durante 4 décadas a evolução dessa zona central de Lisboa. Tornou-se sistema multi-salas com 3 salas, sendo a sala 1 a maior e principal. Foi sabendo sempre adaptar-se enquanto à sua volta iam crescendo os arranha-céus e as superfícies comerciais e se multiplicavam as torres de escritórios. Entrou no novo milénio já sem a afluência de público de outras épocas, e em 2004 acabaria por encerrar e perder a guerra com os complexos multi-salas dos centros comerciais que foram abrindo na zona. Em 2005 foi convertido em teatro mas a partir de 2006 deixou de ter um programa contínuo, encerrando quase em definitivo.

Cinema Mundial [1977]
Rua Martens Ferrão, 12A
Vasques, in A.M.L.

NB. O filme «The Yellow Rolls-Royce», no original, estreou em Portugal no dia 17 Abril 1965 com título «O Rolls-Royce Amarelo». Contava no elenco com a premiada actriz Sueca Ingrid Bergman (1915-1982).

Wednesday, 8 May 2019

Alameda de Algés

Com uma História a caminho do meio milénio, o Convento actualmente transformado no Palácio Foz, faz parte integrante das raízes de Algés. Da sua história consta que D. Francisco de Gusmão, Cavaleiro da Casa da Infanta D. Maria, donatário de vastos terrenos na orla do Reguengo de Algés, doou esses terrenos aos monges, em 1559, para a fundação de um Convento evocando S. José. Mais tarde, o Cardeal D. Henrique ainda Infante, construiu nesse local três casas com uma Capela, e em 1595, o Provincial — Frei António da Anunciação, pela terceira vez erigiu o Convento, com uma albergaria de excelência para a época. 

Alameda de Algés  [Início séc. XX]
 Alameda Hermano Patrone
Torreões do Palácio dos Condes da Foz / Quinta de S. José de Ribamar
Garcia Nunes, in AML

Em 1834, dá-se o confisco dos bens das Ordens Religiosas, em proveito da Fazenda Pública e assim o Convento e as suas terras foram vendidas a João Marques da Costa Soares, um capitalista, que em 1850 vendeu toda a propriedade a Andrade Neri, o qual mandou restaurar a encantadora Casa dos Arrábidos, assim como a bela Igreja. Em 1872, o Conde de Cabral comprou tudo e fez a muralha e a bela construção dos arcos que fica sobranceira à entrada. A Pousada foi transformada no palacete de airosas linhas, arcarias e colunas que permanecem até aos dias de hoje,
Hoje é propriedade privada fruto de um projecto de suposta reabilitação Urbana que mais uma vez coloca nas mãos de privados um edifício histórico único na Freguesia.

Alameda de Algés  [c. 1920]
 Alameda Hermano Patrone (ant. à deslocamento da linha férrea Lisboa-Cascais)
Palácio dos Condes da Foz / Quinta de S. José de Ribamar
Fotografia anónima, in AML

Bibliografia
SILVA, Sara Cristina, O Convento de S. José de Ribamar in Revista Oeiras Municipal.

Sunday, 5 May 2019

A Bica dos Olhos

Ora aí temos no prédio n.° 32, numa reentrância da fachada, no primeiro plano, a Bica dos Olhos [...] 

Vê tu que ingenuidade, que fisionomia curiosíssima de miniatural monumento seiscentista!

A Bica dos Olhos — creio eu — já hoje perdeu a sua fama, o que não impede que se vejam, de madrugada, algumas pessoas ali a lavarem os olhos.


Havia naquele tempo por estes sítios da vertente de encosta que trepava a Belver, ou seja a Santa Catarina, — recorda-nos Norberto de Araújo — um homem a quem chamavam Artibelo, e que não era outro senão o Senhor Duarte Belo [contracção de Duarte Bello], dono de um chão às Portas do Pó (a actual Rua da Boa Vista) e no qual chão existia uma bica de água corrente. Aquele tempo — era o fim de quinhentos. A água da Bica do Artibelo foi — talvez seja ainda — milagrosa. Possuía a virtude de curar as doenças dos olhos, contando que a tomada da água se desse antes do nascer do sol.
De seu começo a Bica situava-se mais atrás do prédio da esquina da Travessa do Sampaio e Rua da Boa-Vista, em cujo vão de parede, com ombreiras e vergas de pedra, se encontra desde 1709, por imposição da Câmara feita a um carpinteiro [chamado António Ferreira] que comprou o chão [por 1:750$000 réis] onde, antes, o manancial milagreiro se encontrava. Lá está esculpido que «o dono da propriedade é obrigado a conservar «esta bica sempre corrente à sua custa».
É esta a Bica dos Olhos.

Bica dos Olhos [1951]
Rua da Boavista, 30 esquina com a Tv. do Marquês de Sampaio
Ora aí temos no prédio n.° 32, numa reentrância da fachada, no primeiro plano, a Bica dos Olhos [...]
Eduardo Portugal, in A.M.L.

As fontes, as bicas, como alguns chafarizes desaparecidos ou secos nesta Lisboa de nascentes e arroios, andaram sempre rodeadas de lendas e de prestígios alfacinhas; assim a do Andaluz, a do Desterro, a do Regueirão dos Anjos, a da Samaritana, de que existe apenas o espaldar mutilado, a da Fonte Santa, o desaparecido Chafariz de Arroios.
A Bica dos Olhos é humilde e pobrezinha. Lá está com a sua data de 1675 (época talvez em que lhe foi encontrada virtude) e com a sua nau alfacinha.

Bica dos Olhos [1944]
Rua da Boavista, 30

Ostenta, na zona inferior, uma tabela octogonal com as armas camarárias, onde está instalada uma bica, que verte água para uma pia semicircular, assente no plano oblíquo da base.
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Olhos de trinta gerações que passaram de madrugada fria pela Bica dos Olhos — onde estais vós? Embarcadiços, calafates, remolares, mendigos, colarejas! Talvez mesmo que algumas donas velhinhas das casas dos Condes Barões de Alvito ou dos Carvalhais, provedores da Casa da Índia, ou alguns dos frades de S. João Nepomuceno, mandassem buscar pelos criados, noite alta, uma garrafinha da linfa virtuosa.
A Bica dos Olhos, eis um monumento ingénuo de humildade. E talvez por isso subsiste, mesmo já sem olhos que creiam nela

Bica dos Olhos [1951]
Rua da Boavista, 30
 = 1675 =
 = HE OBRIGADO O DONO DESTA PROPRIEDADE A CONCERVAR ESTA BICA SEMPRE 

CÒRENTE Á SUA CUSTA =
Eduardo Portugal, in A.M.L.

O chamar-se-lhe bica dos Olhos — lê-se no Archivo pittoresco — provém do seguinte caso, que a tradição tem conservado até hoje. Um francez que descobriu na agua desta bica grandes virtudes para inflammação de olhos, começou a vendel-a em vidrinhos com um nome pomposo, e vindo de origem supposta. Com efeito esta agua fez immensas curas, diz-se, e o industrioso estrangeiro ganhou muito dinheiro. Por fim o criado que ia de noite buscar a agua á bica de Duarte Bello, que o amo vendia como especifico, revelou o segredo, pelo que o francez teve de fugir, divulgando-se a virtude que tinha a agua d’aquella bica, concorrendo alli desde então muitos doentes a lavar os olhos, e a ser tirada em garrafas para o mesmo uso.
O auctor do Aquilegio Medicinal, em que se dá conta das aguas de caldas, de fontes, rios, poços, lagoas e cisternas do reino de Portugal, era medico d'el-rei D. João V, e publicou este curioso livro em 1726. E sobre tudo, o sr. J. Sergio Velloso de Andrade, na sua accurada Memoria sobre os chafarizes, bicas, fontes e poços publicos, diz positivamente que a bica d'antes chamada do Artibello é a actual bica dos Olhos.

Bica dos Olhos, gravura
Tem por cima das Armas da Cidade, a inscrição na pedra que reza :
= 1675 = 
= He obrigado o dono desta Propriedade a concervar esta Bica sempre còrente á sua custa = 
in A.M.L

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 78, 1939.
id., Legendas de Lisboa, pp. 68-69, 1943.
Archivo pittoresco: semanario illustrado - Vol. V, 1862.

Friday, 3 May 2019

Jardim 5 de Outubro vulgo Jardim da Burra

Estamos já em pleno coração da Estrêla — diz Norberto de Araújo.

Eu não te disse, Dilecto, que esta era uma das mais belas Praças de Lisboa? O monumental, o paisagista, o urbano, conjugam-se neste Largo da Estrêla (chamado até 1889 do Coração de Jesus), e desta harmonia, que talvez não houvesse sido estudada, resultou um admirável logradouro citadino-alegre, movimentado, limpo, lisboeta puro.

 

Jardim 5 de Outubro vulgo Jardim da Burra [entre 1926 e 1936]
Praça da Estrela; Basílica da Estrela; quiosque da Estrela
António Passaporte, Colecção Loty

Pequeno jardim verdejante desenvolvido lateralmente em relação à Basílica da Estrela. Este jardim exibe um conjunto escultórico , em bronze, executado com grande realismo, em 1918, por Costa Mota (tio), designado por "Lavrador" ou "Sagrada Família", uma vez que representa um casal de camponeses característicos da época, um lavrador de enxada ao ombro e uma camponesa com um menino nos braços, sentada numa burra que transporta cestos.

Jardim 5 de Outubro vulgo Jardim da Burra [1955]
Praça da Estrela
Conjunto escultórico designado por "Lavrador" ou "Sagrada Família"
Fernando Martinez Pozal, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 45, 1939.
cm-lisboa.pt.

Wednesday, 1 May 2019

Sítio de Valverde

«Ernestinho que não se podia demorar, ofereceu logo ao Conselheiro e a Julião — “a sua carruagem, que era uma caleche, se iam para a Baixa...”»

[Eça de Queirós, in O Primo Basílio, 1878]

 

A serventia [Rua Primeiro de Dezembro] — recorda-nos o ilustre Norberto de Araújo — parece que fora chamada pelo vulgo, no tempo de Pombal, depois do Terramoto, Rua Nova das Hortas e Rua das Hortas (e que constituiria referência oral à Horta da Mancebia ou a horta dos terreiros do Duque de Cadaval ou dos Condes de Faro, mais para Norte). Antes de 1755 a Rua tinha já o traçado sensivelmente idêntico ao de hoje, e chamava-se Rua de Valverde – lindo nome.

Praça Dom João da Câmara [1895]
Antigo Largo Camões; Tteatro D. Maria II
Caleche ou caleça Manton transportando o toureiro "Guerrita"
Fotógrafo não identificado, in AML

Rafael Guerra "Guerrita" (1862-1941) foi um dos maiores e mais famosos toureiros do século XIX. Actuou inúmeras vezes em Lisboa, onde era idolatrado pela afición. A fotografia que se reproduz, mostra o toureiro cordovês ao passar pela pelo então Largo de Camões [actual hoje Praça D. João da Câmara] e Rua do Príncipe [hoje Primeiro de Dezembro], numa caleça (ou caleche) Manton [vd. NB.], a caminho da Praça de Touros do Campo Pequeno.

Rua Primeiro de Dezembro [1895]
Antiga Rua do Príncipe, antes Travessa Camões; Café Martinho
Caleche ou caleça Manton transportando o toureiro "Guerrita"
Fotógrafo não identificado, in AML

NB. Caleche Manton: viatura do Século XIX. Caixa em forma de barco, com capota rebatível e quatro lugares vis-à-vis. Suspensão com molas elípticas e molas em C à frente e atrás da capota, mais por elegância do que por razões técnicas, duas lanternas quadrangulares. Guarda-lamas fixo na aba da capota. O banco do cocheiro é elevado e, na retaguarda, encontra-se um banco para sota com acesso ao travão de manivela. Rodas revestidas e estribo desdobrável.
A caleche Manton foi adquirida pela Casa Real Portuguesa, passou para as equipagens da Presidência da República após 1910.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 85, 1939.

Sunday, 28 April 2019

Basílica dos Mártires

Estamos em face da Basílica dos Mártires, um dos templos de Lisboa de «categoria social» — que as igrejas também possuem por efeito de convenções ou da importância das suas irmandades. A Igreja dos Mártires, porém, vale pelo seu título, pela história da sua paroquial, pela sua ligação aos primeiros destinos de Lisboa.


A Igreja de Nossa Senhora dos Mártires, de tão ressonante nome olisiponense, é uma edificação integral do século XVIII, do risco do arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos
A paróquia remonta ao ano da conquista de Lisboa; a sede principiou por ser uma pequena ermida dos Cruzados ingleses que auxiliaram D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa, erecta no local — Monte Fragoso, que mais tarde foi o Alto de S. Francisco — onde aqueles cavaleiros tinham o cemitério dos seus «mártires», junto do acampamento situado a Poente da Lisboa sarracena.

Basílica dos Mártires [190-]
Rua Garrett
A Frontaria, constituída por dois corpos no sentido horizontal, cortados verticalmente por seis
pilastras da ordem dórica, das quais as extremas são duplas; e nela, ao cimo de alguns degraus;
 Frontão, em cujo tímpano se rasga um óculo iluminante.
Paulo Guedes, in A.M.L.

O templo primitivo de Nossa Senhora dos Mártires foi várias vezes reedificado, ampliado e restaurado, nomeadamente em 1598-1602, 1629, 1686-1692, 1710, 1746-1750; assentava ao lado, sobre o rio, do convento de S. Francisco (no sitio ocupado pelo prédio que esquina da Rua Vítor Córdon para o Largo da Biblioteca [actual Largo da Academia Nacional de Belas Artes]) e o Terramoto destruiu-o inteiramente. A paróquia estanciou depois por vários locais: numa barraca em Rilhafoles, na ermida dos Mártires, ao Rego, na de S. Pedro Gonçalves, ao Corpo Santo.
Em 1769, ou no ano seguinte, deu-se começo às obras do novo templo, situado na ma Direita das Portas de Santa Catarina, entre as ruas da Figueira e da Ametade (mas Garrett, Anchieta e Serpa Pinto actuais). Ainda por acabar foi benzida a nova sede paroquial em 18 de Março de 1774, mas só aberta ao culto em 5 de Agosto de 1786 (outros dizem em 1783). Só foi sagrada em 1866 (30 de Julho) após obras efectuadas nesse ano.

Basílica dos Mártires [1907]
Rua Garrett
O portal central, emoldurado de ombreiras trabalhadas na base do  capitel, e rematado, sobre a  verga, por  um  interes­sante baixo relevo, contido num medalhão, de mármore, obra de Francisco Leal  Gar­cia,  discípulo de  Machado de Castro, e que representa a dedicação do templo à Virgem, que a aceita de dois cavaleiros ajoelhados, um dos quais figura D. Afonso  Henriques, vendo-se ao fundo um trecho das muraÍhas ameeiadas de Lisboa.  
Joshua Benoliel, in A.M.L.

A fachada, como vês, é simples e discreta (teve em tempos um adro fechado entre grades); as pilastras da parte inferior são de ordem dórica, aos de cima, sob o frontão, de ordem jónica. Com seus três pórticos, suas três janelas iluminantes, o seu óculo gradeado no timpano — a frontaria dos Mártires parece-nos bem no semblante arquitectónico do Chiado.


Basílica dos Mártires [s-d.]
Perspectiva tirada do Largo de S. Carlos;
A torre sineira está colo­cada por detrás do edifício, sobre a Rua Serpa Pinto
Fotografia anónima



Basílica dos Mártires [195-]
Porta de ferro dourada que defende a capela baptismal
Mário de Oliveira, in A.M.L.
(clicar para ampliar)


A Basílica dos Mártires não é sumptuosa nem trivial. Impressiona bem sem deslumbrar. O tecto da igreja em pintura de Pedro Alexandrino com ornatos de Inácio de Oliveira, tem no centro a cena da dedicação do templo antigo a N. Senhora dos Mártires, e em volta os doutores da igreja.
O coro assenta sobre três arcos de pedra, sendo o do centro de volta abatida. Possue oito capelas por lado, e que vamos ver, a começar pelo lado esquerdo, logo a seguir à capela baptismal defendida por porta de ferro doirada com uma inscrição relativa ao primeiro baptismo realizado, em 1147 [vd. foto acima à dir. e NB.], no templo velho: de S. Brás, com painel de fundo dêste santo, logo de Santo António, com painel de Santa Cecília, com painel representando a Santa de Joelhos, e a do Santíssimo; pela direita: de Santa Lusia com painel representando o sacrifício da Santa, de S. José, .cujo retábulo representa Cristo no Golgota, de N. Senhora da Conceição, dando a pintura do fundo S. Miguel, e o de N. Senhora de Lourdes, com o Bom Pastor no retábulo. Todas as pinturas são de Pedro Alexandrino.

Basílica dos Mártires [195-]
Rua Garrett
O tecto em  abóbada de arco, em madeira, revestida de larga composição pictural, 
representando ao centro D. Afonso Henriques dedicando o templo à Virgem
acompanhado de um cavaleiro (Guilherme «da longa espada»), figurando-se ao alto Nossa Senhora,
 rodeada de  cruzados mártires e assistida por uma coroa de anjos, trabalho de  Pedro Alexandrino
 inspirado no desenho original do último tecto da anterior igreja, da autoria de  Vieira Lusitano.
Mário de Oliveira, in A.M.L.

NB. O baptistério, defendido por uma porta de ferro, dourada, com inscrição repartida; no  batente esquerdo lê-se em maiúsculas: «NESTA PARÓQUIA/SE ADMINISTROU O/PRIMEIRO BAPTISMO», e no batente direito «DEPOIS DA TOMADA/DE LISBOA AOS MOU/ROS, NO ANO DE1147»; no  fundo do  baptistério vê-se  um quadro «O baptismo do Salvador por S. João» pintura atribuída a Pedro Alexan­drino.

Basílica dos Mártires [1973]
Rua Garrett
No Interior, de nave única, a Igreja reveste-se de nobreza de materiais; um nicho, sobre o  arco da capela-mor, no qual se situa, orientada para o  corpo da igreja, uma imagem setecentista do Senhor Jesus dos Perdões; Nos Mártires conservam-se algumas boas imagens setecentistas, entre as quais uma, escultura de J. J. Barros Laborão, que pertenceu a uma ermida que existiu no edifício do Tesouro Velho. 
Artur Pastor, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 96-97, 1939.
id., Inventário de Lisboa, 1956.

Friday, 26 April 2019

Convento de S. João de Deus

As traseiras desta Casa conventual de poucas tradições lisboetas — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , são mais bonitas do que a frontaria, pelas sobreposições de acaso, panorama do claustro combinado com a arquitectura geral, um pouco confusa, e com pormenores decorativos que de todo não se perdem à distância. O Convento debruçava-se sobre o rio.¹


Convento de S. João de Deus [c. 1939]
Rua Presidente Arriaga, 9-13. Panorâmica tirada da Avenida 24 de Julho.
O Terramoto pouco dano fez ao Convento, que foi extinto em 1834. A Igreja conservou-se durante alguns anos, mas foi sacrificada às exigências de edifício publico. [Araújo: 1938]
Eduardo Portugal, in AML

Situado na Rua das Janelas Verdes [hoje Presidente Arriaga] ao lado do palácio que foi do Conde de Óbidos, e mesmo em frente ao vistoso convento de S. Francisco de Paula, encontra-se o que foi a antiga casa dos religiosos Hospitaleiros de S. João de Deus, Ordem instituída entre nós em 1617. 
Primitivamente, foi nesse local que se edificou, em 1581, o primeiro convento da Congregação de S. Filipe de Néri, dos Carmelitas Descalços, que naquele tempo era um sítio afastado da cidade, com boas vistas para o rio.

Convento de S. João de Deus
O claustro, que se vê do rio, é rasgado na frente, tendo, pois, três lados apenas, o do fundo com onze arcarias de volta perfeita e os outros com seis em cada. [Araújo: 1938]
Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755, pormenor, in Museu de Lisboa

O casario em que se edificou o convento pertencera a Francisco de Távora e a sua mulher, D. Mécia Ribeiro, que por volta de 1604 o venderam ao Dr. António Mascarenhas (Deão da Capela Real, doutor em Teologia e deputado da Mesa da Consciência e Ordens), que resolveu instituir um convento dessa invocação, com hospital acoplado.
Deu-se, pois, a sua fundação em 1629, contendo amplas instalações, grande claustro voltado para o rio e bonitas guarnições azulejadas.
Por morte de Deão fundador em 1637, viria a ser concluído posteriormente pelos religiosos.
Uma vez extintas as Ordens Religiosas em 1834, nele estiveram instalados primeiramente o Quartel da Brigada Real da Marinha, extinta com a revolução de Belém, em 1835. Depois, o Tribunal da Corte. Seguiu-se o Quartel de Infantaria n.° 2, culminando nos nossos dias, e a partir de 1919, com a Guarda Nacional Republicana, servindo o antigo claustro de parada do quartel

Convento de S. João de Deus, Enquadramento urbano [1857]
Rua Presidente Arriaga, 9-13 antiga Rua Direita de São Francisco de Paula
Legenda:  a Vermelho o claustro; a
Verde a delimitação do convento e cerca extintos em 1834Carta topográfica de Filipe Folque, 1857, in A.M.L.
(clicar para ampliar)

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 59-60, 1938.
² CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os conventos de Lisboa,  p. 120, 1989.

Wednesday, 24 April 2019

Calçada e Rua de Arroios

Acerca da origem do topónimo «Calçada de Arroios», Luís Pastor de Macedo afirma que «Nos princípios do século XVIII denominavam-na calçada de Alvalade, denominação ainda em uso ao tempo do terremoto. O nome era-lhe dado em razão da calçada comunicar com [o sítio de] Alvalade (Campo Grande e Campo Pequeno).»
(MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. I, p. 180)

Calçada de Arroios [c. 19112]
Rua de Arroios; ao fundo, o viaduto sob a Rua Pascoal de Melo, que se ampara a antigas edificações do arruamento; ao fundo, à direita, destaca-se a cúpula do belíssimo prédio de gaveto na Avenida Almirante Reis, 31 com Rua dos Anjos
Joshua Benoliel, in AML
Nota: arruamento não identificado no AML

Sobre o sítio de Arroios, o olisipógrafo Norberto de Araújo nas suas Peregrinações, refere o seguinte:
«O Largo de Arroios — escuso dizer-to — era um arrabalde de Lisboa ainda há cento e cinquenta anos. Ameno, sussurrante de hortas verdejantes, como o seu nome indica, salpicado de casas e de alguns palácios seiscentistas — continuação mais pura de Santa Bárbara — Arroios, por cuja estrada se fazia a saída de Lisboa para Sacavém, tem também o seu pedaço de história fugaz a ilustrá-lo. (...)
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 82)

Sunday, 21 April 2019

Lojas de antanho: Pâtisserie Benard

Modificada, embelezada e modernnisada — noticiava a lllustração portugueza em Novembro de 1914 — abriu ha dias a antiga pastelaria Benard. de que é proprietário o sr. Casimiro Bénard. O interior da loja é revestido de elegantes vitrines de metal branco e cristal, bons espelhos que rodeiam a casa o até ao teto, tudo decorado a branco e ouro, o que a torna confortável e vistosa. A pastelaria Bénard tornou-se o ponto escolhido da boa sociedade de Lisboa para as suas reuniões, sendo o o seu proprietário, pelas belas qualidades que possue e dotes de inteligencia que o distinguem, merecedor de todas as simpatias que lhe são dispensadas

 

Pâtisserie Benard [c. 1912]
Rua Garrett, 104-106; (Hotel Borges, vd NB.))
A partir de 1926, passou a incluir o termo «pastelaria», quando os dísticos das fachadas em idiomas estrangeiros foram sujeitos a um pagamento de 500 reis à Câmara
Joshua Benoliel, in A.M.L.

A elegante Pastelaria Bénard, vizinha do Hotel Borges, — recorda-nos Mário Costa no seu Chiado pitoresco e elegante — pertence hoje à firma Manuel José de Carvalho, Ld.ª. Fundada no Calhariz [abriu primeiro como patisserie], em 1868, por Elie Bénard, passou a Pedro Bénard, Elias Bénard e ainda a Casimiro Bénard, transferindo-se para aqui no princípio do século XX, em substituição de outra fábrica de guloseimas, a Confeitaria Gratidão, de Manuel Antunes, que sucedera à firma V.ª Justo, especializada em frutas cristalizadas para exportação, e que se demorou de 1885 a 1891.


Pâtisserie Benard [1912]
Rua Garrett, 104-106
O interior da pastelaria em 1912.
A partir de 1926, passou a incluir o termo «pastelaria», quando os dísticos das fachadas em idiomas estrangeiros foram sujeitos a um pagamento de 500 reis à Câmara
Joshua Benoliel [?]

Entre 1838 e 1840 foi notória uma loja de ferragens, conhecida por Clube da Rolha, reunindo numeroso grupo de janotas, que, com a sua presença e animada conversação, afastavam muita freguesia. E, em 1873, data em que se inaugurou, o armazém de pianos, de G. Fontana & C.ª foram estes os fornecedores de grande número de discípulos dos melhores professores da época. 
A Confeitaria Gratidão lembrará duas similares, de tempos muito distantes, que por estes lados se acoutaram, tornando-se conhecidas pelos nomes dos seus proprietários, o Batalha e o Vilas. 

Rua Garrett, 104-106
Funcionários da Benard a fazer broas de Natal em 1912.
A partir de 1926, passou a incluir o termo «pastelaria», quando os dísticos das fachadas em idiomas estrangeiros foram sujeitos a um pagamento de 500 reis à Câmara.
Joshua Benoliel

NB. O Hotel Borges não tem capitulo na história antiga da artéria, mas é de citar-se como o único Hotel que o chiado possui em 1939, visto que o Aliança, na esquina da Rua Nova da Trindade, desapareceu em 1936. [Araújo: 1939]

Bibliografia
Illustração Portuguez, 9 de Novembro, 1914.
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 276-277, 1987.

Friday, 19 April 2019

Semana Santa em Lisboa

A Semana Santa no primeiro quartel do século passado tinha maior brilho e concorrência do que as actuais. Um cronista da Illustração Portugueza escrevia sobre a de 1907 (foi mantida a ortografia da época) :

Meia Lisboa accorre ás igrejas que se vestem de crepes, cumprindo a cada fiel visitar sete. É uma immensa romaria pelas ruas da cidade, a que o predominio dos fatos escuros dá um aspecto desusado. A's portas das egrejas é um vae-vem ininterrupto de gente que entra e sae, silenciosamente. Dentro, na meia treva que se mantém em todos os borborinha o rumor de orações discretas, evola-se o cheiro do incenso e as pessoas movem-se com gestos lentos e sobrios, que parecem automaticos. Ha uma onda de mulheres e homens, principalmente mulheres, que constantemente se renova. Uns vão por fé, decerto; muitos por curiosidade; outros por motivo diverso; mas o certo é que no dia da visita ás egrejas metade de Lisboa percorre os templos da capital.

Largo do Chiado [post. 1901]
Antigo Largo das Duas Igrejas; Igrejas do Loreto e da Encarnação
Joshua Benoliel[?'], in AML

No sabbado apparece a Alleluia. Jesus resuscitou. Correm-se os véos do templo, accendem-se todas as luzes, enfeitam-se os altares com flôres e toalhas brancas. Por toda a parte renasce a alegria e se espalha o ruido. Os rostos illuminam-se de satisfação, os labios sorriem sem constrangimento. Pelas ruas continua a mesma romaria interminavel, mas a onda é agora mais marulhenta. As toilettes claras da primavera, que substituem os vestidos pretos ou rôxos, incutem uma impressão de alegria e de rejuvenescimento, como a natureza nas arvores que começam a florir.

Largo do Chiado [ant- 1912]
Igreja do Loreto
Joshua Benoliel, in AML

Não ha duvida de que a ardente fé viva de outras eras se acalmou nas almas, mas ha ainda no meio do geral scepticismo dos tempos correntes crenças sinceras e verdadeira piedade. O recolhimento com que nações inteiras celebram a grande semana que vem de decorrer, a persistencia das cerimonias religiosas, cujo significado symbolico se perdeu comtudo, são prova d'isso.

Rua Garrett [24-03-1932]
Antiga Rua do Chiado; Igreja dos Mártires
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia
Illustração Portuguez, n.º 59, 8 de Abril, 1907.

Wednesday, 17 April 2019

Palácio Sabugosa

O Palácio Sabugosa [antes S. Lourenço] situa-se na Rua Primeiro de Maio (antiga Rua de S. Joaquim, ao Calvário), n.ºˢ 120-124. A sua aparência é vulgar, notando-se a fachada forrada de azulejos, do tipo do século XVII. Os S. Lourenços (César de Menezes, descendentes de Vasco Fernandes César) possuiram uma vasta área de chãos neste sítio terminal do Calvário; foi em 'terrenos seus que se rasgou a Rua Luiz de Camões, essa grande artéria do fim do século — avenida de Santo Amaro.
No interior do Palácio Sabugosa as reminiscências seiscentistas estão representadas por alguns panos de azulejo, em regra deslocados do sítio primitivo, por alguns tectos de masseira no andar superior, e por outros pequenos pormenores, que os restauros quase encobriram.

 

Palácio Sabugosa [c. 1950]
Rua Primeiro de Maio, 120-124
Antiga de São Joaquim, ao Calvário, antes Rua direita do Calvário
Frontaria (séc. XVIII) e fachada lateral do Palácio Sabugosa, em Santo Amaro,  vendo-se a porta que conduzia à «Quinta Cesárea»; anota-se: o Andar  nobre, com seis janelas, de sacada, com  grades de varões, e  coroada de cornija; o Andar térreo, com quatro janelas de pei­toril,  centradas por dois portões triviais, de acesso
Fotografia anónima


O Palácio Sabugosa ou dos Césares, em Santo Amaro [vale recordar que Eça leu parte de Os Maias ao Conde de Sabugosa, precisamente neste palácio — protótipo do Ramalhete], remonta ao século XVI, no seu núcleo primitivo. Foi fundado por Luís César, segundo deste nome e apelido, que, como seus avós, foi do Conselho de El-Rei, Guarda-mór das Naus da Índia, Provedor dos Armazéns nos Reinos e Senhorios de Portugal, Alcaide-mór de Alenquer. Foi o primeiro administrador do Morgado dos Césares, insti­tuído na primeira metade do século XVI, por seu pai Vasco Fernandes César.
Luís César de Menezes, cativo da batalha de Alcácer-Quibir, foi um dos oitenta fidalgos res­gatados na carta régia de 10 de Outubro de 1678. Nos anos de 1583 e 1584, Luís César adquiriu várias propriedades, de algumas das quais já era senhor directo. Mas na escritura celebrada pelo tabelião de Lisboa, João Rodrigues Jacome, em 5 de Outubro de 1588 diz-se «Luís César comprou huma casa junto das suas de sua vivenda de S. Amaro» que confrontava pelo Sul com caminho de Lisboa para Belém. No quadrante de um relógio de sol existente nos jardins do palácio lê-se a data de 1605. O palácio ou vivenda de campo — qualificação que mais lhe quadraria — era, porém, quer no sem­blante, quer no interior e disposição, diferente do que veio a ser no século XVIII depois de obras de ampliação e beneficiação levadas a efeito em 1728 por Vasco Fernandes César de Menezes, quinto neto do fundador do palácio, em meados do século XVI [...].

Rua Primeiro de Maio, extracto da Carta topográfica de Filipe Folque, 1857
Legenda:  a Azul a Rua Primeiro de Maio, antiga de São Joaquim, ao Calvário, antes Rua direita do Calvário; a Vermelho o actual Palácio Sabugosa e jardins; a Laranja terrenos da antiga «Quinta Cesárea»
in A.M.L.

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Eis por que a vasta propriedade que se estendia à ilharga da quinta dos Césares até ao Alto de S. Amaro, e que havia sido adquirida em 1580, se chamou «Casal do Conde de S. Lourenço» em homenagem à aliança dos Césares com os Condes de S. Lourenço, família muito antiga que precedia de Pedro Pires, rico homem do século Xll, onde entroncaram os Sabugosas.
E de crer que a «Quinta Cesária» — assim foi chamada — fosse anterior à construção da primitiva casa de campo, ou palácio, pois os Césares eram possuidores de largos tratos de terrenos rústicos; quanto à casa seiscentista era um pouco mais recuada, em relação ao alinhamento que o 1º Conde de Sabugosa lhe deu, e servida por um largo portão que não é, evidentemente, o que hoje se abre na fachada principal. [...]
A «Quinta Cesária», que se dilatava para Poente até quase à Ermida de Santo Amaro, e, para Norte, até à zona onde veio a ser construído em 1904 o Palacete Valflor, foi em grande parte retalhada e alienada, para urbanismo local, pelo 3.º Marquês de Sabugosa, alguns anos antes da sua morte (1897); a Rua Luís de Camões foi, no final do século passado [XIX], aberta em terrenos da quinta.
O filho do 3.º Marquês, António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, 9.º Conde de Sabugosa e 11.º Conde de S. Lourenço — o escritor e académico ilustre, mordomo-mór da Casa Real — promoveu depois de 1898 grandes obras de restauro e transformação no palácio de seus maiores, podendo dizer-se que a actual casa de Santo Amaro, à parte o semblante exterior, é outra em relação ao que teria tido mesmo no século XVIII. Foi o Conde de Sabugosa, ele próprio, o orien­tador artístico dos restauros e transformações, nas quais avultou a construção da biblioteca-livraria, ocupando o espaço de um antigo pátio, contíguo ao jardim: nas decorações trabalharam um artista Anunciação (que não Tomás da Anunciação) e Leandro Braga, mestre entalhador.

brasão de  armas dos Sabugosas tem sido alterado no  decorrer das idades; o do último Conde, e que prevalece, é  encimado pela coroa de duque com o símbolo dos Césares, esquartelado das armas dos Lencastres (armas de  Portugal com filete em  contrabanda), dos  Césares (seis  fustas), dos Melo (seis arruelas) e dos Vieiras (seis vieiras), centrado pelo escudo com leão ronmpante dos Silvas

Nota:  Como o artigo já vai longo, decidimos inserir aqui a chamada «quebra de página», caso queira continuar a ler a descrição ds algumas das salas do Palácio Sabugosa clique em «ler mais [read more]».
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