Sunday, 20 October 2019

Pátio do Marechal

Por trás do quarteirão, à esquerda desta Rua [do Barão], passa a Travessa das Merceeiras, que teve em tempo saída, pelo hoje Pátio do Marechal, antigamente Rua dêste nome que levava da Alfama (Porta de S. Pedro) até S. Martinho (Rua do Arco do Limoeiro hoje Rua de Augusto Rosa); a muralha que antecedeu estes prédios, foi construída em 1837.
Aqui, quási ao fundo desta Rua, ainda à esquerda, defronte da face norte da Igreja de S. João da Praça, é que existiu a fábrica de massas, que um incêndio devorou, e que se propagou ao templo, pela Capela-mór, [...]

Pátio do Marechal [1901]
Travessa das Merceeiras
Machado & Souza, in AML

O Visconde de Castilho julga que os vestígios de muralha, que se notam ainda no paredão Norte da actual Travessa das Merceeiras, próximo do Pátio do Marechal, seriam os.embasamentos que sustentavam o palácio dos condes de Vila-Nova, cuja frontaria e pátio deitavam cá em cima, do outro lado, para defronte de S. Martinho.

Pátio do Marechal [1903]
Travessa das Merceeiras
Machado & Souza, in AML
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 40-41, 1939.
CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antigs. Segunda Parte. Bairros Orientais, vol. IX, 2ª edição Revista e ampliada pelo autor e com anotações do Eng. Augusto Vieira da Silva, 1936.

Friday, 18 October 2019

Rua do Barão

Eis-nos no cimo da Rua do Barão, artéria do século passado [XIX], e que sucedeu a uma muito mais estreita Rua do Barão Velho, designação do século de quinhentos, e cujo titulo derivou do 1.° Barão de Alvito, João Fernandes da Silveira, chanceler-mór de D. Afonso V e de D. João II.
Confessa, Dilecto, que estes desvios contribuem para amenizar o passeio: vamos dar sempre ao mesmo sítio, que é o que sucede em todos os burgos velhos.

Rua do Barão [1908]
 Confluência com a Rua de Augusto Rosa, antiga do Arco do Limoeiro
Machado & Souza, in AML

Em 1554 a artéria designava-se por Rua do Barão Velho, o que Pastor de Macedo interpreta como «O adjectivo deveria ter sido aposto ao nome da rua, quando o Barão deixou de lá morar». Mais esclarece o olisipógrafo que «Em 1486 vemos designá-la por rua que vay pera a porta d`alfama, depois, conforme já se disse, por Rua do Barão em 1552, e por Rua do Barão Velho em 1554. Desde então até hoje foi sempre a Rua do Barão ou do Varão, e uma vez, em 1684, chegou a ser a Rua do Verão.»

Rua do Barão [1901]
 Junto à Igreja de S. João da Praça
Machado & Souza, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XX, p. 40, 1939.
 cm-lisboa.pt.

Wednesday, 16 October 2019

Merceeiras d'el Rei D. Afonso IV

Aqui temos agora uns passos andados à direita da rua [de Augusto Rosa], este prédio pequeno, chamado, e justamente, das "Merceeiras". Foi, e é, a sede de uma instituição fundada por D. Afonso IV e por D. Beatriz [ou Brites]¹, sua mulher (cujos túmulos, reconstruidos, estão na capela-mór da Sé).

 

"Mercearias" provêm de "mercê" e não de "merce" — mercadoria — ; eram instituições de assistência onde aqueles que recebiam mercê ficavam com certos encargos espirituais ou religiosos. Nesta casa se recolheram, segundo a disposição real de 1343, vinte e quatro criaturas, "doze homens bons e doze mulheres de bons costumes, fama e vergonha", que, havendo tido honra e alguma cousa de seu, caísse depois em penúria.
De seu comêço a Casa, que tinha carácter de hospício, não assentava neste sítio, mas mais baixo para a banda do rio, a encostar à muralha que corria onde é hoje o Campo das Cebolas; mais tarde esteve nas trazeiras de Santo António, à Sé.

Edifício das Merceeiras  [1902]
Rua de Augusto Rosa, 15; Beco das Merceeiras; Travessa das Merceeiras 
Sobre a porta principal pode ler-se a seguinte inscrição: "Cazas para a habitação dos Merceeiros do Snr. Rey D. Afonso IV e Merceeiras da Snrª Raynha D. Beatris sua mulher Novvamte edificadas pelo favor e ordem da Raynha fidelissima D. Maria I nossa senhora em o Anno de MDCCLXXXV sendo Provedor D. Caetano de Noronha.".
Machado & Souza, in AML

Data de 1785 a construção dêste prédio, por ordem de D. Maria I. Em 1851 a instituição foi incorporada na Assistência Oficial, e passou a ser dependência do Asilo da Mendicidade: actualmente [1938] está integrada no Ministério do Interior, Direcção Geral da Assistência, fazendo parte do grupo de recolhimentos (e não asilos), e que são ao todo sete: êste das "Merceeiras", onde habitam vinte e quatro senhoras de boas famílias de oficiais superiores do Exército, o das Comendeiras de Avis, no antigo Convento da Encarnação, o das Comendadeiras de Santiago, no antigo Convento de Santos-o-Novo (ambos desanexados arranjos da Administração das Ordens Militares em 17
de Agosto de 1934), o de Lázaro Leitão, a Santa Apolónia, o do Grilo, ao Beato, o de Campolide, fundado em 1931 no prédio n..º 161 desta rua, e o de S. Cristóvão, antigo recolhimento do Amparo
arruinado, e que vai ser demolido.
Entremos uns momentos, com a devida vénia, não perturbar o remanso destas vèlhinhas.

Edifício das Merceeiras, traseiras  [1902]
Travessa das Merceeiras; Rua de Augusto Rosa, 15; Beco das Merceeiras
Machado & Souza, in AML

A casa é decrépita mas asseada, em seus dois pavimentos, sendo os aposentos independentes — uma casa separada para cada recolhida. Nenhum aspecto de albergue; cada senhora se mantém à sua custa. podendo sair quási todas, só recolhendo para dormir.
Ao todo estas sete casas recolhem 196 senhoras e 70 agregadas (criadas ou parentes de auxilio). A maioria das senhoras recolhidas recebe 105$00 por mês, e outras o  dôbro, segundo o rendimentos próprios daquelas instituições.
Deixemo-las em paz. Quero dizer-te ainda que neste edifício, no meado do século passado (em 1845 pelo menos), foi instalada a filial oriental do Liceu Central de Lisboa, cuja sede era na Rua de S. João de Nepomuceno; a filial ocidental era na Casa Pia.
Por trás do prédio corre a Travessa das Merceeiras, sem saída desde 1837, e que morre no Pátio do Marechal, onde, a certa altura, se encontra o muro alto que apoia uma parte do pátio do Limoeiro.

Edifício das Merceeiras  [1945]
Rua de Augusto Rosa, 15; Beco das Merceeiras; Travessa das Merceeiras 
Afonso IV instituiu numa capela da Sé de Lisboa uma mercearia, com missa cantada diariamente por sua alma e pela Rainha D. Beatriz.
Eduardo Portugal, in AML

¹ Afonso IV (Lisboa, 8 de Fevereiro de 1291– Lisboa, 28 de Maio de 1357), apelidado de '''Afonso, o Bravo''', foi o Rei de Portugal e Algarve de 1325 até sua morte. Era um dos filhos do Rei D.Dinis de Portugal e sua esposa Isabel de Aragão — canonizada como Santa Isabel. Casou a 12 de Setembro de 1309 com D. Brites ou Beatriz de Castela, que nasceu em Toro em 1293 e morreu em Lisboa a 25 de Outubro de 1359.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 53-55, 1938.
CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antigs. Segunda Parte. Bairros Orientais, vol. VI, 2ª edição Revista e ampliada pelo autor e com anotações do Eng. Augusto Vieira da Silva, 1936.

Sunday, 13 October 2019

Cadeia do Aljube e o «Celeiro da Mitra»

Subindo, na linha dos carros eléctricos da Graça, a Rua do Arco do Limoeiro — pode ler-se no Guia de Portugal — vê-se, à esq., a cadeia do Aljube, que serve de prisão para mulheres. É um velho edifício de janelas gradeadas, em cujo pavimento térreo era o antigo celeiro da Mitra. Foi palácio do arcebispo de Lisboa D. Miguel de Castro (séc. XVI), tendo servido no séc. XVII de palácio arquiepiscopal.


O que teria sido o edifício actual do Aljube, situado na Rua de Augusto Rosa [antiga do Arco do Limoeiro], em frente da fachada norte da Sé, e quem o teria mandado erigir?
O edifício actual não oferece aspecto de haver servido de palácio ou paço episcopal, mas é natural que tenha havido nesse local alguma dependência do mesmo.
Que por ali foi uma dependência do paço mostra-o o escudo de armas do arcebispo D. Miguel de Castro (1668 a 1625) colocado sobre a porta principal do edifício [vd. 4ª foto], o que faz supor, se não a sua fundação, pelo menos obras na época deste prelado, ou remodelação do edifício que anteriormente tivesse existido nesse sítio.

Cadeia do Aljube [post. 1914]
Rua de Augusto Rosa, antiga do Arco do Limoeiro
Em cima, à esq., pode ver-se o topo da pirâmide que encimava a torre 

Norte da Sé Patriarcal antes das obras de restauro.
Charles Chusseau-Flaviens, in GEH

A sua arquitectura exterior, assim como a sua estrutura interior, não revelam grande antiguidade, parecendo serem obra da segunda metade do século XVIII, não falando dos andares superiores, que são relativamente modernos.
Tem uma loja abobadada, um rés-do-chão, e mais quatro andares. O rés-do-chão é dividido em poucos compartimentos, todos abobadados, com abóbadas de aresta que tomam apoio nas paredes exteriores, em pilares centrais, e noutras paredes interiores; o primeiro andar tem alguns compartimentos cobertos com abóbada, e outros com tecto plano estucado; os andares superiores não apresentam cousa digna de menção.
No edifício se instalou, ignoramos desde quando, a prisão designada por Aljube.

Cadeia do Aljube, Pátio do Aljube [c. 1900]
Rua de Augusto Rosa, antiga do Arco do Limoeiro

Escadaria de pedra entre os dois edifícios: o Aljube e o «Celeiro da Mitra»; do lado esq. vê.se a antiga entrada sobrepujada pelo escudo de armas do arcebispo D. Miguel de Castro (1568-1625)
 José Artur Bárcia, inAML

Era o Aljube a prisão dos delinquentes em matéria eclesiástica. Assim o diz Bluteau em 1712.
Este cárcere é porém muito antigo, pois já as constituições do arcebispado de Lisboa de 1536, publicadas em 1588, estabeleciam a pena de prisão dos ministros da igreja no Aljube.
O alvará de D. João III, de 16 de Janeiro de 1554, determinava que os presos no Aljube do arcebispado de Lisboa, condenados para o Brasil, ou para as galés, fossem recebidos na Cadeia da dita cidade, para serem embarcados quando houvesse leva de outros presos.
Não dizem porém os autores antigos onde era situada esta prisão. Antes de 1755, do lado esquerdo da Rua Nova do Almada, na sua base, ficava o Largo do Aljube, que devia o nome a umas casas, naquele ano pertencentes ao visconde de Barbacena, e que anteriormente serviram de aljube. Na prisão do Aljube estavam encarcerados, em 1848, os forçados a trabalhos públicos; mais tarde foi o cárcere privativo das mulheres; actualmente (1936) serve de prisão a presos políticos.

Cadeia do Aljube [1901]
O edifício apresentava apenas um andar sobre o térreo
Machado & Souza


Cadeia do Aljube, portão [1959]
Pedra de armas de D. Miguel de Castro
Machado & Souza


Noutros tempos era a passagem para o pátio do Aljube feita por uma escada com seu adro, defronte da porta travessa da Sé, que a Câmara Municipal mandou demolir em Junho de 1836 substituindo-a pela escadaria de pedra entre os dois edifícios, que lá está.
Apenas separado do Aljube pela escada de pedra citada, fica um outro edifício conhecido por celeiro da mitra [vd. foto abaixo], actualmente com rés-do-chão e dois andares. Sobre a porta principal vêm-se, em alto relevo, as armas do arcebispo D. Afonso Furtado de Mendoça, que governou a diocese de Lisboa de 1627 a 1630. Este emblema heráldico indica, se não a construção original, ao menos obras de reconstrução ou remodelação no 2.° quartel do século XVII, e, em qualquer dos casos, que o edifício era uma dependência do paço dos arcebispos, que lhe ficava fronteiro.

Cadeia do Aljube e o Celeiro da Mitra [1971]
Rua de Augusto Rosa, antiga do Arco do Limoeiro

À altura das janelas do 2º andar observa-se a Pedra de Armas do arcebispo D. Afonso Furtado de Mendoça, encimada por um chapéu com 3 ordens de borlas pendentes.
 Fotógrafo não identificado, in AML

Por cima deste escudo existiu a seguinte inscrição, que o visconde de Castilho copiou, e deixou nos seus apontamentos para uma 2.ª edição da sua obra:
FOREIRO
AS CADEIRAS SU
PREMIDAS, HOJE
ENCORPORADAS
NO R SIMINARIO
DO PATRIARCA
DO EXIST.E NA V.ª
DE SANTARÉM
1....3
Já lá não está.
As paredes do rés-do-chão e primeiro andar são grossíssimas, e aquele só tinha originariamente um compartimento único, abobadado, sem apoios intermédios.
O rés-do-chão foi uma cavalariça, e ainda lá se conservam vinte e nove manjedouras, em frente de outros tantos nichos abertos nas paredes dianteira e posterior da casa, correspondentemente às quadras do gado [os tristemente célebres «curros»].
O edifício ainda em 1914 tinha apenas um andar sobre o térreo, o qual servia então de Teatro do Aljube. Sobre ele foi construído, há poucos anos, um 2.° andar, e nos dois está instalada actualmente (1936) uma oficina de maleiro.

Rua do Arco do Limoeiro, desde 1924 Rua Agusto Rosa [post. 1906]
Do lado esq.  — fronteiro à Cadeia do Aljube — observa-se o portão, do estilo de Renascença, que dava entrada para o antigo Paço dos Arcebispos.
Segundo Norberto de Araújo, este portão foi construido no tempo do arcebispo D. Luiz de Sousa. no final do século XVII; em último plano vê-se a torre Norte da Sé Patriarcal encimada por pirâmide derribada por volta de 1930.
 José Artur Bárcia, in AML

N. B. A 25 de Abril de 2015 foi inaugurado neste edifício o Museu do Aljube, cumprindo o dever de gratidão e de memória da cidade de Lisboa e do país às vítimas da prisão e da tortura. A reabilitação e adaptação do imóvel a espaço museológico esteve a cargo do arq-º Graça Dias.
_________________
Bibliografia
Guia de Portugal: v. Generalidades. Lisboa e arredores, p. 279, 1924.
CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antigs. Segunda Parte. Bairros Orientais, vol. VI, 2ª edição Revista e ampliada pelo autor e com anotações do Eng. Augusto Vieira da Silva, 1936.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, 1938.

Friday, 11 October 2019

Livraria Barateira

Fundada por Salvador Santos Romana em 1914, na Rua do Duque, esta pequena casa veio a mudar em 1930 para este prédio datado de 1835. Ocupava duas salas — espaço que outrora funcionou como cavalariça do antigo Convento da Trindade. Uma pedra gravada na base de coluna aflora numa das paredes a atestar a antiguidade do local. 
Encerrou portas em 2012.

Livraria Barateira [1968]
Rua Nova da Trindade, 16-C
Armando Serôdio, in A.M.L.

Wednesday, 9 October 2019

Estação do Cais do Sodré

A Estação do Cais do Sodré — linha de Cascais — que aqui vês, foi inaugurada em 18 de Agôsto de 1928, e dela foi arquitecto Pardal Monteiro, que adoptou êste estilo prático e desafogado, decente mas sem cousa alguma de monumental. Substituiu uma estação ferroviária que levava 32 anos [vd  foto].

A ligação ferroviária do Cais do Sodré a Cascais data de 1896, «antes ia-se a Cascais partindo da estação de Pedrouços, que servia de testa de linha» [Araújo: 1939]. «O comboio abranda» ao chegar ao Cais do Sodré. Nele vem Bernardo Soares. Fora «pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril», gozando «o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica».

Panorâmica sobre o Cais do Sodré [post. 1928]
Estação do Cais do Sodré, Praça Duque da Terceira e Avenida 24 de Julho
Estátua de António José de Menezes Severin de Noronha, 1792-1860, 1º duque da Terceira; Jardim Roque Gameiro
Judah Benoliel, in A.M.L.

A Estação de Caminho-de-Ferro do Cais do Sodré é a primeira grande construção do seu autor, o arq. Porfírio Pardal Monteiro. Trata-se de um projecto executado para a Sociedade Estoril, que ambicionava desenvolver turisticamente o território favorecido pela exploração desta linha férrea. A Estação foi desenhada como se de um empreendimento público se tratasse, antevendo por certo esse estatuto posterior, na sua utilização efectiva e importância social.

Estação do Cais do Sodré [1963]
Praça Duque da Terceira
Armando Serôdio, in A.M.L.

Trata-se de uma construção moderna de transição, de acordo com a própria modernização da linha operada em 1926, com a sua electrificação, e com uma proposta estilística assente nos ensinamentos da «Art-Déco». Abre-se ao espaço exterior através de grande superfícies de iluminação em ferro e vidro e de um grande arco envidraçado inserido num corpo que articula as fachadas laterais. Esta relação com a Praça marca efectivamente a modernidade deste edifício, servindo para tal a sua situação privilegiada em esquina. 

Bilheteiras da Estação do Cais do Sodré [195-]
Armando Serôdio, in A.M.L.

A expressão formal decorre das possibilidades do novo material, o betão armado. Os seus motivos decorativos abundam em detrimento dos trabalhos em ferro e avançam para uma ideia de novo progresso (em contraponto ao progresso oitocentista) decorrente do desenvolvimento pretendido, tanto para o país, como também para o território entre Lisboa e Cascais. Simultaneamente, esta obra anuncia a caracterização depurada da arquitectura que Pardal Monteiro viria a projectar e que contribuiu decididamente para uma renovação da linguagem da arquitectura portuguesa.

Panorâmica sobre o Cais do Sodré [c. 1896]
Antiga Estação do Cais do Sodré (esq.), Praça Duque da Terceira e Avenida 24 de Julho (aterro)
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

«Um dia, ao comprar o bilhete do caminho de ferro na estação do Cais de Sodré, colocou em cima do guichet a importância da passagem em terceira classe e, quando o empregado lhe perguntava qual a classe desejada, respondeu irónico: «La que Usted quiera!»

Estação do Cais do Sodré [1908]
Legenda da foto no arquivo:«Eleições legislativas em Lisboa: condução de presos para a estação do Cais do Sodré com destino a Caxias»
António Novais, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 40-41, 1939.
PESSOA, Fernando, O Livro do Desassossego, 1982.
CML-Cadernos do Arquivo Municipal, nº4, pp. 24-25, 2000.
Portucale. Revista ilustrada de cultura literária, scientífica e artística, 1943.

Sunday, 6 October 2019

Sítio da Achada: chafariz das Gralhas e Recolhimento do Amparo

Este sítio da Achada, que foi arrabalde da cidade muçulmana — recorda-nos o ilustre Norberto de Araújo — , deve o seu nome, muito antigo e característico, pois já é citado em 1554, ao facto de aqui se encontrar uma pequena planície ou descanço da encosta. «Achada», com efeito, é uma contracção de «achaada», terra chã.



Rua da Achada esquina com o Largo da Achada [194-]
[Prédio setecentista demolido]
Eduardo Portugal, in AML
(clicar para ampliar)


Largo da Achada esquina com o Beco de São Francisco [1901]
[Prédio setecentista alterado]
Machado & Souza, in AML



Como vês, há aqui casas curiosas, interessantes na sua construção de alguns séculos, e como raras se encontram na Alfama. Por exemplo: estas na esquina nºs 17 e 19 [2ª foto] de feitio setecentista, com primeiro piso de ressalto na reentrância (da Achada, ou Jasmim forçadamente) defronte do Largo êste prèdiozinho nº 54 [2], com porta ogival simples e janela do mesmo tipo.

Beco da Achada com o Largo da Achada esquina com o [1901]
Casa quatrocentista com porta e janela ogivais
Machado & Souza, in AML

É, no seu conjunto, bem pitoresco êste sítio com seu marco fontanário rodeado de escadaria circular.



Chafariz do Largo da Achada [1945]
Ao fundo, nas Escadinhas da Achada observa-se o portal e lápide do Recolhimento do Amparo
Eduardo Portugal, in AML
(clicar para ampliar)


Chafariz do Largo da Achada ou [19p1]
Machado & Souza, in AML



Dêste largo [antigo  Terreirinho das Gralhas] e rua sobe-se por contínuas escadas (sempre Rua da Achada) para a Costa do Castelo, e encontra-se à direita o velho Recolhimento do Amparo ou de S. Cristóvão, dentro de um pátio ou eirado, cujo portal ostenta uma lápide relativa à fundação do Recolhimento. Podemos ler no português de hoje: «Louvado seja o Santíssimo Sacramento. Êste Recolhimento de N. S.' do Amparo é das meninas orfãs. Padre Nosso pelas Almas. l6l0». Esteve sujeito à Real Mesa da Consciência, e destinou-se finalmente só a pensionistas. Mas entremos no Pátio. O Terramoto sacudiu esta Casa e deixou-a mal tratada.

Recolhimento do Amparo ou de S. Cristóvão [195-]
Rua da Achada com o Largo da Achada (antigo  Terreirinho das Gralhas)
Judah Benoliel, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 55, 1938.

Friday, 4 October 2019

Calçada da Estrêla

Esta Calçada da Estrêla, daqui para cima, era no século XVIII pouco mais que campo, mostrando à direita a Cêrca dos benedictinos.
As discretas e simpáticas ruas à esquerda [de quem sobe] — Miguel Lupi, Almeida Brandão — são dêste século [XX] na sua urbanização; como observas, tôda esta bela artéria por aí acima tem um ar burguês, repousado, muito 1850.

Calçada da Estrela [ant. 1913]
Elevador Estrela-Camões (1890-1913) vulgo «Maximbombo da Estrela» ou «Mata~cães»; paragem junto aos conventos de S. Bento (A.R.) e das Francesinhas
Fotografia anónima

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p.43, 1939.

Wednesday, 2 October 2019

Rua das Francesinhas

O topónimo (1950) advém da proximidade ao Convento do Santo Crucifixo das Capuchinhas Francesas, conhecido como das Francesinhas (à esq. na 1ª imagem); ao fundo, a Calçada da Estrela e a Rua de S. Bento.


Norberto de Araújo, nas suas «Peregrinações em Lisboa», recorda-nos, em 1938, que «Em tempos idos, e não foi há nenhum século, esta Rua de João das Regras não passava de um caminho estreito, encostado pelo norte ao muro da Cêrca do Convento das Francesinhas, e pelo sul escancarado ao Tejo; não tinha iluminação que não fosse a das estrêlas, e levava de S. Bento da Saúde o Mocambo como, num arredor de Lisboa, uma vereda que nasceu de um caminho de pé pôsto.

Rua das Francesinhas [190-]
Antiga Rua João das Regras, antes Caminho Novo
Paulo Guedes, in A.M.L.

Aquêle Pinto Machado, que tinha o seu palácio na Rua do Machadinho — diminutivo que nasceu do apelido do fidalgo — , foi quem fêz rasgar, depois de 1758, uma serventia já desenhada desde 1680 «Caminho Novo» — na quinta de D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, por alcunha o «Quelhas», quinta na qual o fidalgo tinha sua casa, que bem pode ter sido aquela onde assentou o palácio dos Pintos Machados. 

Rua  das Francesinhas, esquina com a  Avenida Dom Carlos I (esq.) [1959]
Antiga Rua João das Regras, antes Caminho Novo
 Fernando de Jesus Matias , in A.M.L.

Caminho Novo é designação oficializada do século XVIII, julgo eu, embora de muitos anos antes viesse a novidade de um caminho público estreitíssimo, como aliás estreito era o que antecedeu a Rua de João das Regras.»

Lavadouro do Caminho Novo, hoje uma galeria de arte, na Rua  das Francesinhas [1969]
Antiga Rua João das Regras, antes Caminho Novo
Vasco Gouveia de Figueiredo, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 33, 1938.

Sunday, 29 September 2019

Beco do Maquinez

Vale a pena olhares êste Beco do Maquinez — diz o ilustre Norberto de Araújo — , que desce à direita [vindo do Beco da Lapa]. Repara a curiosidade do arco, do cunhal que o ampara, do enfiamento estreito em escadinhas, que morrem na Rua Jardim do Tabaco. Aquêle «Maquinez» parece, segundo um escritor olisiponense (*), ser corruptela fácil de «Mequinez», alcunha de Gaspar da Costa Ataíde, um general do mar, de D. Pedro II; não vejo lá grande justificação na conjectura, mas adeante, que afinal o interêsse desta anotação é pequeno.

Beco do Maquinez [1944]
Martinez Pozal, in AML

Neste beco, na porta n.° 10 [vd. 2ª foto], ostenta-se um simples e delicioso registo de azulejos, de guarnição policromada, que dá Nossa Senhora da Nazaré, com a representação do veado atraindo o cavaleiro para o abismo  — talvez a única figuração dêste tipo em Lisboa — , S. Marçal e S. Francisco.

(*) Gomes de Brito, Ruas de Lisboa: notas para a história das vias públicas lisbonenses

Beco do Maquinez [1944]
Registo de santos representando o milagre de Nossa Senhora da Nazaré, tendo à esquerda São Marçal e, à dir-, São Francisco
Eduardo Portugal, in AML

Beco do Maquinez [194-]
Perspectiva tomada da Rua do Jardim do Tabaco
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 99, 1939.

Friday, 27 September 2019

Casa das 11 Portas

Onze portas? — perguntará o leitor. Mas onde, se eu só conto 10? Pois bem, também nós. Todavia, ao virarmos a esquina (à esq.), aí está ela, a 11ª porta, no nº. 42 da Rua do Monte Olivete [vd. 2ª imagem].
Edifício sóbrio, ao gosto neoclássico — onde se destacam os vãos com arcos de volta perfeita — destinado a habitação e comércio, tal como o prédio vizinho (49-53). No interior da Farmácia Albano (57-59), ainda é possível observar mobiliário e decoração do final do século XIX. Projecto de 1858 atribuível ao arq. francês P. J. Pézerat¹.

Casa das 11 Portas [post. 1901]
Rua Escola Politécnica, 53-71; Farmácia Albano (57-59, 3ª e 4ªˢ portas)
J. Artur Bárcia, in A.M.L..

Paralelamente às funções na C.M.L., Pierre-Joseph Pézerat foi nomeado, em 1853, professor de desenho na Escola Politécnica de Lisboa, sendo também o arq. responsável pelo projecto de remodelação da referida escola. 

Casa das 11 Portas [post. 1908]
Rua Escola Politécnica, 53-71 esquina com a Rua do Monte Olivete, 42, a 11ªˢ porta
 Machado & Souza, in A.M.L..

¹ Pedro Bebiano Braga, A Sétima Colina, pp. 114-115, 1994.

Wednesday, 25 September 2019

Rua dos Capelistas que foi d'El-Rei

Aos comerciantes que tinham as suas lojas no Pátio da Capela Real (depois elevada a Igreja Patriarcal de D. João V), pátio com suas arcadas e galerias [vd. Planta de Lisboa anterior ao Terramoto], chamava-lhe o povo os capelistas, e às suas lojas capellas.
As «capelas» e tendas, ou tendas da Capela — explica Norberto de Araújo — onde se «acha tudo o que de mais precioso é no mundo», foram depois do Terramoto armadas nas lojas dos prédios edificados na Rua do Comércio, e daí o chamar-se a essa artéria «Rua dos Capelistas», da mesma forma que os pequenos estabelecimentos «que vendem tudo» por êsses bairros de Lisboa, são conhecidos ainda por «capelistas», casas de «artigos de capela». Fenómenos da evolução dos vocábulos.

Rua do Comércio vulgo dos Capelistas [c. 1890]
Praça do Município e Paços do Concelho que ocupa o espaço que era o do Pátio da Capela Real
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

Após o terramoto e a restauração da Baixa, estabeleceram-se os mesmos comerciantes na rua mais próxima do Terreiro do Paço, então designada Rua Nova de El-Rei, mas o povo chamava-lhe Rua dos Capelistas, até que, em 1910, passou a chamar-se Rua do Comércio.
Pela primeira regulamentação toponímica, o decreto régio de 05/11/1760 que consagra as denominações da Baixa Pombalina, foi atribuído o topónimo Rua Nova de El Rei. Depois, por deliberação camarária de 18/05/1889 e edital de 08/06/1889 passou a denominar-se Rua de El Rei. A última denominação desta artéria e que se mantém até aos nossos dias, Rua do Comércio, foi fixada pelo primeiro edital da vereação republicana na edilidade lisboeta, com data de 5 de Novembro de 1910, ou seja, um mês após a implantação da República em Portugal, e nesse edital se procurou substituir os topónimos

Planta de Lisboa anterior ao Terramoto
A vermelho a Capela Real e a azul o respectivo Pátio; a verde a  Rua dos Capelistas (clicar para ampliar)
«Por baixo d'estas arcadas ou galerias, em toda a circumferencia, ha muitas tendas e lojas onde se acha tudo que mais precioso ha no mundo, ouro, diamantes e outras pedras preciosas». [Serrão, 1993]
in B.N.P.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 13-14, 1939.

SENOS, Nuno, O Paço da Ribeira: 1501 - 1581, 2002.

Sunday, 22 September 2019

Lolas de antanho: Camisaria High Life

No local onde onde hoje está instalada uma loja de moda— recorda Mário Costa — existiram anteriormente três camisarias: de António Carneiro, de F. G. Coutinho e de Jacinto Bastos da Silva, esta denominada High-Life, também com chapelaria. O estabelecimento com os números 96-98 [da Rua Garrett], tem outra frente para a Rua de Serpa Pinto, n.° 42, e, quando se denominava Camisaria Borges, de Borges & Carneiro, gozou de fama pelo seu grande sortimento de «Rouparia e fazendas brancas — Enxovais para casamentos e baptizados».

Camisaria High Life [1917]
Rua Garrett, 96-98; Rua de Serpa Pinto, 42
Legenda da foto no AML: «Venda da Flor a favor das vítimas da 1ª Grande Guerra (1914-1918)»
Fotógrafo não identificado, in AML

Seguiu-se António Carneiro. E, na Camisaria Coutinho, já conhecida em recuados tempos, em Novembro de 1872 «faziam sensação duas riquíssimas camisas para senhora, destinadas a uma noiva brasileira, avaliadas, respectivamente, em 30$000 e 40$000 réis».
Guarda nas suas entranhas a história do Café do Toscano, que em 1826 pertencia a Domingos Daddi, e, em 1844, a José Marrare, sobrinho do célebre botequineiro.

Camisaria High Life [1917]
Rua Garrett, 96-98; Rua de Serpa Pinto, 42 (antiga Nova dos Mártires
Legenda da foto no AML: «Venda da Flor a favor das vítimas da 1ª Grande Guerra (1914-1918)»
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 276, 1987.

Friday, 20 September 2019

Rua Nova da Piedade

De acordo com Luís Pastor de Macedo («Lisboa de Lés a Lés»), sabe-se que «O vulgo, durante algum tempo, designou-a por travessa de Santo Antoninho, conforme se vê num anúncio publicado em 1831 na Gazeta de Lisboa. Houve nesta rua dois moradores que não podemos deixar de mencionar: o insigne pianista e compositor João Domingos Bomtempo e o jornalista e escritor Silva Pinto, o dedicado amigo do infeliz poeta Cesário Verde». [cm-lisboa.pt]

Rua Nova da Piedade [1908]
Quarteirão entre as Ruas Manuel Bernardes e Rua dos Prazeres; ao fundo a Rua de São Bento
Machado & Souza, in A.M.L

Wednesday, 18 September 2019

Colégio Valsassina / Palácio Lousã

À época — por volta dos anos 30 do século passado — existiam em Lisboa vários locais onde os filhos de gente abastada estudavam: o Colégio Vasco da Gama, que viria da Travessa das Freiras a Arroios à actual Alameda; a Escola Académica, situada na quinta de S. João de Monte Agudo, à Penha de França, cuja publicidade elogiava os seus vastos jardins e os campos de jogos escolares e desportivos; a Escola Valsassina, instalada no antigo Palácio Lousã.

Colégio Valsassina / Palácio Lousã [1934]
Avenida António Augusto de Aguiar, 148
Palácio Lousã; à dir. a Casa José Joaquim Miguéis, projectada pelo arq. Miguel Ventura Terra (1902)
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

As origens do Colégio remontam a 1898, altura em que a Professora Susana Duarte fundou uma pequena escola primária na Rua de Santa Marinha, na parte antiga da cidade de Lisboa. Tendo casado com o Professor Frederico César de Valsassina em 12/12/1907, a então Escola Primária foi alargada ao Ensino Liceal para a preparação individual de alguns alunos.
Em Outubro de 1934 a então "Escola Valsassina", transferiu-se para o Palácio Lousã sito na Avenida António Augusto de Aguiar, 148, onde começou a verdadeira existência do Colégio Valsassina. Dispondo de magníficas instalações para a altura, permitiu o lançamento de um projecto educativo inovador, com todos os tipos de Ensino - Infantil, Primário e Liceal – para cerca de 300 alunos e com regime de internato para cerca de 80 alunos a partir dos finais dos anos 40 e até Setembro de 1959.
O Palácio Lousã foi demolido na década de 1960.

Palácio Lousã [1960]
Avenida António Augusto de Aguiar, 148
Augusto de Jesus Fernandes, in A.M.L.

Bibliografia
MADUREIRA, Arnaldo, Salazar e a Igreja (1928-1932), 2008.

cvalsassina.pt.
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