terça-feira, 25 de abril de 2017

Lisboa Vista do Cimo dos Montes

Do Castelo, da Graça, do Alto de Santa Catarina, vista do cimo dos montes, das colinas, dos miradouros, Lisboa «enfia os olhos pelo Oceano». «Poucas vezes no mundo verá o viajante, como em como em Lisboa, tanta magnificencia de espectaculos naturaes, e tamanha variedade de scenario!», diz-nos o olisipógrafo Júlio de Castilho, para quem Lisboa «apresenta panoramas estonteadores, pela grandeza das linhas, e pelo variegado das minucias».


É de Francesco Rocchini (1822-1895)  esta  «vista tomada do Castelo de S. Jorge» que Norberto de Araújo descreve: «O encanto de Lisboa não se procura: encontra-se. Não reside num único sítio: dir-se-ia móvel, deambulatório. Vadio — passeando por onde lhe apetece. 
Aconselha-se o romeiro a que o não rebusque. Será a melhor maneira de dar com ele. 
Os mil motivos de interesse, de sedução, de êxtase — espraiam-se, perdem-se, ocultam-se e mostram-se pelas colinas e pelas planícies ribeirinhas. 
Num parque fecundado pelo sol, poetizado pelo luar, nascido espontâneo, enobrecido pelas idades — não é possível encontrar dispostos para nossos olhos os loureiros que coroam heróis e as rosas que engrinaldam vestais. Nem os rouxinóis têm moita certa. 
As colinas de Lisboa há que trepá-las para bem as conhecer. 
Os vinte miradouros suspensos de pérgolas e de torres, dão-nos o panorama objectivo, familiar: apontam-se as coisas, sabe-se-lhes a idade e a história. As colinas — não. Rugadas de congostas [*], quelhas, linhas de desfiladeiros, planos indecisos, são subjectivas. O seu encantamento é de sonho. 

Panorâmica de Lisboa tirada do Castelo S. Jorge  [c. 1870]
Panorâmica de Lisboa tirada da Sra do Monte
Francesco Rocchini (1822-1895), in BNP
 Legenda (clicar para ampliar):

Edifícios/Monumentos:
1—Igreja do Socorro (demolida c. 1940)  2—Palácio Folgosa (Propriedade Geraz de Lima)  3—Convento (Hospital) do Desterro  4—Hospital de S. José  5—Primitiva Igreja dos Anjos (demolida em 1908)  6—Campo de Sant'Ana  7—Convento de Santo António dos Capuchos  8—Palácio Mitelo  9—Palácio da Bemposta (Academia Militar) Paço da Rainha  10—Observatório Astronómico do Paço da Bemposta  11—Hospital de D. Estefânia  12—Palácio Pombeiro  13—Chafariz do Intendente  14—Hospital Miguel Bombarda (Antigo Rilhafoles)  15—Escola Superior de Medicina Veterinária (Antigo Instituto de Agronomia e Veterinária (Actual edifício da Policia Judiciária)
Arruamentos:
A—Rua de S. Lázaro  B—Rua da Palma  C—Rua do Benformoso  D—Largo (Sítio) do Intendente  E—Largo de Santa Bárbara  F—Arroios  G—Antigo Largo do Matadouro hoje Escola Municipal n.º 1 e, logo acima deste, o Largo do Mastro e o Beco (hoje Rua) do Saco

A penha do Castelo, abarcada desde o Largo do Caldas — é uma fantasmagoria. Do Rossio — uma maravilha. De Santana — um deslumbramento. 
Vista deste lado — a colina é um santuário ; adivinha-se a torrinha sineira de uma ermida. Contemplada deste outro sítio — é uma muralha. Tomada do lado do mar — é um museu; alveja o perfil manuelino de uma janela. 
Em todas as colinas, subindo, acavalgando-se, amparando-se, tocando-se nos beirais, as casas, os tugúrios, os palácios, os monumentos, os aglomerados indistintos, cinzentos ou violetas, conforme lhes dá a luz — são cenários do presépio lisboeta. 
As Colinas de Lisboaeis o panorama sagrado de uma cidade Olimpo, que enfia os olhos pelo Oceano. Os longes mandam na alma. Nas cidades e nos homensas distâncias ganham em saudade o que perdem em nitidez. Castelo, Graça, Penha, Estrela, S. Francisco, ascensão ideal... » [11]

Bibliografia
[11] (ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 28-29)

[* Nota(s): O Dicionário Houaiss e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam cangosta, mas remetem para congosta, portanto, o termo preferível. Trata-se de «caminho estreito e comprido, mais ou menos declivoso» (in Dicionário da Porto Editora) e «estrada estreita, rústica, entre muros ou sebes, na região periférica de uma povoação, aldeia, vila etc.; azinhaga» (in Houaiss). A palavra vem do latim hispânico 'congusta (via)', por 'coangusta (via)', «caminho estreito», de 'coangustare', «apertar».

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