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Sunday, 5 August 2018

O jardim que foi da Patriarcal

[...] balançada pelo trote largo [Luísa] viu passar, calada, as casas apagadas da Rua de S. Roque [actual da Misericórdia], as árvores de S. Pedro de Alcântara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento [Rua D. Pedro V], os jardins adormecidos da Patriarcal [Pç. do Principie Real].

Eça de Queiroz, O Primo Basílio, 1878-


O nome de Patriarcal Queimada deveu-se ao facto de um incêndio ter destruído a Patriarcal em 10 de Maio de 1769 e foi legalizado pelo edital da Câmara Municipal emitido em 8 de Junho de 1889.
O largo, ou terreiro, onde se encontrava a Basílica Patriarcal possuiu, segundo Norberto de Araújo, vários nomes como: Chãos de Ferroa, no século XVI; Alto da Cotovia; Sítio das Casas do Conde de Tarouca, cerca de 1755; Patriarcal Queimada, depois de 1769; Sítio das Obras do Erário Novo, em 1810-1815; Praça do Príncipe Real, em 1855; Praça do Rio de Janeiro depois de 1911; Praça do Príncipe Real actualmente.

Praça Príncipe Real [1927]
Antiga do Rio de Janeiro e antes da Patriarcal
Jardim do Príncipe Real/Jardim França Borges o jornalista fundador de «O Mundo»
 Entre as espécies que compõem o jardim destaca-se o Cedro-do-Buçaço, árvore secular com mais de 20 metros de diâmetro
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A praça foi traçada em 1853 e nos anos 60 começou o seu alindamento definitivo: primeiro uns bancos em 1861 e, finalmente, em 1869, por iniciativa do vereador Luís de Almeida e Albuquerque, com a plantação de “estilo inglês", obra do jardineiro João Francisco da Silva, estava criado o Jardim do Príncipe Real. Jardim onde o cedro de abas largas contrastando com a esguia araucária colunar [vd. 2ª imagem] mereceu do povo o nome carinhoso de “jardim do bucha e estica".

Praça Príncipe Real[s.d.]
Antiga do Rio de Janeiro e, antes, da Patriarcal
Jardim do Príncipe Real/Jardim França Borges
À esquerda pode observar-se a Araucária columnarisPalacte Ribeiro da Cunha
Postal colorido não circulado

Bibliografia
CASTRO, Zília Osório de, Lisboa 1821: a cidade e os políticos, 1996.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, 1938.

Wednesday, 13 January 2016

Calçada Patriarcal, Escadas da Rua da Mãe de Água

O topónimo advém da Basílica Patriarcal (antigo Largo da Cotovia, hoje do Príncipe Real) que foi inaugurada em 1756 e destruída por incêndio em 1769. O autor do fogo posto, Alexandre Franco Vicente — que detinha a chave e era responsável pela administração de todas as armações da Igreja bordadas e guarnecidas com franjas de ouro — foi julgado, em 1773, por mais dois incêndios, além daquele ateado na Patriarcal, um em São Bento da Saúde, e outro, em São Vicente de Fora, tudo para ocultar os roubos efectuados nas armações. Foi condenado por sentença, a ser arrastado com baraço e pregão, preso à cauda de um cavalo, açoitado e conduzido ao sítio e largo da Cotovia onde, preso a um poste seria queimado vivo. O lugar ficou conhecido pelo nome de Largo da Patriarcal Queimada.
 
Escadas da Rua da Mãe de Água [1945] 
Calçada Patriarcal, anteriormente Calçada Nova da Patriarcal Queimada
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 28 August 2022

Praça do Príncipe Real: a Patriarcal e a Praça do Rio de Janeiro

Estamos numa das praças mais lindas, e mais «alfacinhas» de Lisboa  — a Praça do Rio de Janeiro [e de novo, desde 1948, do Príncipe Real]. Deves ter no ouvido algumas das designações deste largo terreiro  e eu, — diz Norberto de Araújo —  sempre por curiosidade, tas relembro pela ordem das idades: «Chãos da Ferrôa» no século XVI, a mais antiga que se lhe conhece; «Alto da Cotovia», denominação que perdurou mesmo através de outros dísticos posteriores, municipais e populares; sítio das «Casas do Conde de Tarouca», cerca de 1755; «Patriarcal Queimada», depois de 1769; sítio das «Obras do Erário Novo», em 1810-1815; «Praça do Príncipe Real», em 1855; «Praça do Rio de Janeiro» depois de 1911.

Em boa verdade esta Praça é das mais modernas da capital, no seu aspecto urbano e paisagista; data assim de 1879. A sua regularidade é contudo notável, e respira um ar sadio, gozando desafogo, uma relativa tranquilidade, e oferecendo curiosos aspectos: pousio de «reformados» à sombra do velho cedro copado, com sessenta anos idade, brinco de crianças, jardim «de estar» dos nostálgicos e desocupados inocentes.
Pois, Dilecto, sentemo-nos também à sombra do cedro, ouvindo cantar o repuxo do lago, que mal se distingue no murmúrio afogado do conjunto entre o espesso arvoredo que tem resistido às devastações do tempo.

Praça do Príncipe Real |1940|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
A praça foi traçada em 1853 e o jardim, plantado em 1869, projecto do jardineiro João Francisco da Silva. Em termos urbanísticos é um exemplo do Romantismo das últimas décadas do século XIX.
«O Príncipe Real é um largo deliciosamente arborizado. Do seu harmonioso conjunto, destacam-se o majestoso cedro, considerado de interesse público, a deliciosa araucária e os formosos ulmeiros, também como tal distinguidos e as decorativas palmeiras. A «araucária columnaris» (araucária colunar — Nova Caledónia), de aspecto altaneiro e delgado, forma com o corpulento «cupressus», uma estranha parelha, que aos espirituosos frequentadores do recinto não passou despercebida, e por isso atribuem esse local de recreio o dito popular de Jardim do Bucha e do Estica». [Lisboa em quatro horas e Lisboa em quatro dias, 1895]
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Um pouco antes de 1755, neste alto cômoro da Cotovia, sobranceiro sobre a ponta do Salitre e portas de Valverde — mais largo para norte do que é hoje [em 1938], depois de urbanizado — existia apenas o Palácio dos Penalvas, à esquina das actuais Escadinhas da Mãe d'Água, e ao fundo do curto Arco do Evaristo. No centro da actual Praça andava o Conde de Tarouca construindo um Palácio, e ao local, por isso, chamava o povo «Casas do Conde de Tarouca», e o povo crisma a seu bel-prazer os sítios e as coisas, de modo que as denominações acabam por entrar na linguagem oficial e, quando as Câmaras as alteram ou corrompem, levam lustros, levam até séculos a apagar-se.
O Terramoto abalou inteiramente o edifício Tarouca soerguido, resignando-se o fidalgo no infortúnio, e compondo versos sobre os destroços.
Como a Patriarcal, que estava assente na Capela Real do Paço da Ribeira, tivesse ardido no dia do horroroso cataclismo, deliberou-se, após hesitações, transferir a Basílica para os restos, de pé, do palácio Tarouca, na «Cotovia»; a bênção foi dada em 26 de Junho de 1756, e logo nesse ano se realizou uma procissão, depois repetida, que deu o nome à Rua da «Procissão» (desde há poucos anos denominada de «Cecílio de Sousa»). 

Praça do Príncipe Real |c. 1869|
Lago octogonal com repuxo; ao fundo notam-se as torres e zimbório da Basílica da Estrela. 
Ао repuxo dedicou Júlio de Castilho um hino de ternura, mais próprio de poeta, como o Mestre se mostrava muitas vezes: «Quando ele arroja, metros ao alto, as suas pérolas fluídas, decompondo a luz, sussurrando frescura, e espadanando-se todo vaidoso no azul da atmosfera, está, muito de industria, repassando as águas nos gazes aéreos que as vivificam e as tornam potáveis; pensa em nós; prepara para nós a melhor das bebidas; colabora na higiene da Cidade. Aquele tanque é um sábio: reconhece as leis da física; sabe que os líquidos, vindo de longe, impregnando-se do calcário dos canos, e morando lá em baixo às escuras, se tornam pesados; quer aligeirá-los , banhá-los de sol e de oxigénio. Aquele tanque é um poeta utilitário: mistura habilmente o Belo e o Bom. Olhemos pois com gratidão para esse pequenino Oceano de puríssimas linfas, que abastecem as cozinhas, e amanhã brilharão aos poucos nas nossas taças de cristal. [Lisboa Antiga: 1904]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E a Igreja [armada em madeira] foi-se construindo, no edifício adaptado; era imponente: três naves, largo cruzeiro, quinze capelas, um zimbório oitavado, e anexos esplêndidos. Treze anos perdurou: a Patriarcal foi devastada por um terrível incêndio em 10 de Maio de 1769, obra criminosa de um empregado da Igreja, que pelo fogo queria ocultar seus sacrílegos roubos; foi justiçado, depois de lhe cortarem as mãos no próprio local onde os escombros fumegavam ainda. E aí está a origem da designação de «Patriarcal Queimada».[...]
As ruínas e montes de pedregulho ficaram por aqui durante dezenas de anos, ninho de valhacoutos. Em 1807 pensou-se em levantar no sítio o novo Erário Régio, a casa do Tesouro (pois ardera o do Rossio) mas o projecto, que era do Visconde de Vila Nova da Cerveira, não teve seguimento, embora se chegasse a começar a obra, e nela se gastassem alguns milhões de cruzados.
Em 1841 ainda o sítio continuava a ser vazadouro público e albergue de patifes. Só em 1856 se começou a terraplanar o local, que pouco depois recebeu iluminação. Já chamada «Praça do Príncipe Real», em 1859, começou então a estudar-se o seu aformoseamento, com a construção dum lago, por acordo entre a Câmara e a Companhia das Águas; os restos da «Patriarcal Queimada» foram então destruídos a tiros de pólvora.

Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 Localizado no subsolo da Praça, existe o Reservatório da Patriarcalprojectado em 1856 pelo eng. francês Mary. Construído entre 1860 e 1864 para servir a rede de distribuição de água da zona baixa da cidade. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 No centro da praça está o monumento-memória a França Borges, o jornalista fundador de «O Mundo», foi erigido em 1924; é obra de Maximiano Alves; à dir. observa-se destaca-se o Cedro-do-Buçaço, árvore secular com mais de 20 metros de diâmetro.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Em 1864 regularizou-se a disposição da Praça, tornando-a quadrada, e alinhando algumas edificações que entretanto se tinham erguido, o que tudo se concluiu em 1863. Construiu-se então a muralha sobre a Rua da Procissão e plantou-se este magnífico jardim, que estamos contemplando.
O «Príncipe Real» começou a existir, pequeno parque e logradoiro, com a sua ingenuidade, o seu repuxo e a sua «memória esquecida» de anteriores desgraças. E assim até hoje…==

Muralha da Praça do Príncipe Real sobre a Rua Cecílio de Sousa, antiga da Procissão |1960|
Terraço, com varanda, assente sobre muralha, que se ergueu em substituição da velha ribanceira, que por longos tempos existiu. Esta obra faz parte do arranjo geral da praça, foi concluída em 1864 e custou 3.208$400 réis. Numa lápida elucidativa, lê-se: «A Câmara Municipal mandou construir no ano de 1863». Por dois caminhos laterais, conduz à Rua da Procissão, que começou por chamar-se do Corpo de Deus e Cotovia ou simplesmente do Corpo de Deus. É hoje Cecílio de Sousa (desde 1926) a rua onde morou em 1869 o paciente bibliófilo Inocêncio Francisco da Silva, e se chamou desde 1756, ano em que, da nova Basílica Patriarcal, já implantada nas «Casas do Conde de Tarouca», saiu o grande cortejo religioso comemorativo do solene dia do Corpo de Deus.
Armando Serôdio,, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Praça tem este nome em homenagem ao filho primogénito da Rainha D. Maria II, o futuro rei D. Pedro V — nasceu no Palácio das Necessidades, a 16 de Setembro de 1837, recebendo o nome de Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Vítor Francisco de Assis Júlio Amélio; morrendo no mesmo local, a 11 de Novembro de 1861.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 65-68, 1938.

Friday, 12 April 2024

Praça do Príncipe Real: a Patriarcal e a Praça do Rio de Janeiro

Foi sítio das «Obras do Conde de Tarouca», das «Casas do Conde de Tarouca» e das «Terras do Conde de Tarouca» (anteriormente a 1755); «Patriarcal Queimada» e «Largo das Pedras» (depois de 1769); «Obras do Erário Novo» (em 1810), «Erário Régio» (em 1813), «Covas da Patriarcal» e «Pedras da Patriarcal» (à roda de 1820); «Caboucos do Erário» (entre 1825 e 1849), «Praça do Príncipe Real» (em 1855, embora o edital camarário se publicasse em 1 de Setembro de 1859) e «Praça do Rio de Janeiro» (em 1910, edital de 5 de Novembro).

Praça do Príncipe Real: a Patriarcal e a Praça do Rio de Janeiro |entre 1908 e 1914|
Junto à Cç. da Patriarcal; ao fundo vê-se a embocadura da Rua da Escola Politécnica.
Destaque para o empedrado artístico no passeio em frente ao n.º 27. moradia (rés-do-chão e 2 andares), da riquíssima família Sommer. O seu primeiro proprietário foi José Ribeiro da Cunha, que aí viveu enquanto não lhe aprontaram o «prédio dos torreões».
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

As «Manas Perliquitetes», duas curiosíssimas figuras da Lisboa pacata século XIX, que moravam à Escola Politécnica, também deambularam pelo jardim e procuravam este lugar romântico, a cismar com o Amor, à espera dos seus cavaleiros andantes, que nunca se prostraram a seus pés. Mestre Matos Sequeira ainda conheceu estas celebridades de pitoresca excentricidade e a seu modo escreveu uma curiosa crónica, em que expande, com o maior interesse, a vida caricata das inofensivas manas, Carolina Amália e Josefina Adelaide Brandi Guido, descendentes de duas famílias de duas famílias de origem italiana, e que não puderam furtar-se ao lápis humorístico de Bordalo Pinheiro e à graça satírica das «revistas» da época. [Costa, Mário, 1959]

Sunday, 6 October 2024

Alto do Longo que foi «dos Moinhos de Vento»

O Alto do Longo — diz Norberto de Araújo — devia ter sido, com seus chinfrins e seu arruído de almas doloridas, um brinco para cenários excêntricos, na época que precedeu a regularização do cômoro que veio a ser o da Patriarcal Queimada.
É o avô do sítio. Não faz parte integrante do Bairro Alto nem pretende entrar na história dos Moinhos de Vento. Mas é muito velho. Uma coisita para ali à espera de picareta. [...]. 
No tempo em que a Cotovia adejava o seu alado estribilho, e quando o Conde de Tarouca erguia o seu palácio, que nunca chegou a ser — o Alto do Longo pertencia, como súcia, à grei urbana do sítio.
Quem foi o «Longo» que deu razão ao dístico? Perde-se na bruma a explicação toponímica. Contentemo-nos em entrar por um lado e sair pelo outro, desde o alto da velha Rua Formosa [actual de O Seculo], onde uma empena desamparada dá fundo a um desolado marco fontenário , até ao escadório da Travessa do Conde de Soure.

Rua Dom Pedro V com a Rua de O Século Alto do Longo |1943|
O Alto do Longo é anterior ao ano do Terramoto. [Araújo: 1938]
Eduardo Portugal,, in Lisboa de Antigamente

Esta Rua de D. Pedro V — prossegue Araújo — , designação do ano de 1885, era, antes, «dos Moinhos de Vento», o que bem dá nota da sua feição campesina e da sua situação ventosa. Já existia o Bairro Alto de S. Roque, e ainda esta estrada, sem desenho que que não fosse o de pé posto, e que não fazia parte da herdade de Santa Catarina (origem do Bairro Alto) corria entre terras de semeadura. Os ingleses de Maria Tudor, auxiliares de D. António, Prior do Crato, quando cercaram Lisboa em 1589, tempo de Filipe II de Espanha, estiveram aqui acampados.==

Rua D. Pedro V |1908-02-08|
Esta Rua de D. Pedro V, designação do ano de 1885, era, antes, «dos Moinhos de Vento». [Araújo: 1938]
Legenda no abandalhado aml: «Funerais de Dom Carlos e de Dom Luís Filipe
Joshua Benoliel,, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 205, 1943.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 64-68, 1939.
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