sexta-feira, 5 de maio de 2017

Os duelos na Estr. da Ameixoeira

Os duelos em defesa da honra aparecem abundantemente mencionados na obra literária de Eça de Queiroz. Em Os Maias, por exemplo, a páginas tantas, Ega informa Carlos da Maia de que Dâmaso Salcede anda a difamá-lo a ele e a Maria Eduarda. Carlos fica furioso, querendo matá-lo e desafia-o para um duelo.  O  duelo — escreve Eça — devia  ser  à  espada  ou  ao  florete,  um  desses  ferros cujo lampejo, na sala de armas do Ramalhete, fazia empalidecer o Dâmaso. Se contra toda a verosimilhança ele se batesse, Carlos fazia-lhe algures, entre a bochecha  e  o  ventre,  um  furo  que  o  cravasse  meses  na  cama.1


O duelo de honra ainda era, em 1915, uma instituição social e política em Portugal. Não era legal, pois desde l852 que o código penal estipulava penas correccionais para os duelistas e suas testemunhas, mas as autoridades fechavam os olhos ou transigiam muito na aplicação da lei. Apesar da proibição do duelo e da sua condenação pela igreja, por volta de 1900 um oficial ainda podia ser expulso das fileiras militares caso recusasse bater-se pela sua honra. com a República, a instituição do duelo começaria a declinar, mas não de imediato. No passado, vários políticos republicanos, como Afonso Costa [2º foto], tinham-se batido em duelos famosos. os duelistas eram principalmente políticos, militares, advogados e jornalistas, de qualquer quadrante político. Batiam-se de florete ou sabre e, mais raramente, à pistola.

Duelo entre Cristóvão Aires de Magalhães (de costas) e Óscar Monteiro Torres [16 de Junho de 1915]
Estr. da Ameixoeira (junto à Calçada de Carriche)
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Ilustração Portugueza, que não falhava o relato desses combates, noticiou a 28 de Junho de 1915 dois duelos ocorridos pouco antes. O mais documentado era um duelo de sabre que teve lugar na Estrada da Ameixoeira entre Cristóvão Aires, ex-capitão de infantaria, de 34 anos, e Óscar Monteiro Torres, tenente de cavalaria, de 26 anos, à data chefe de gabinete do Ministro da Guerra. Os duelistas tinham posições contrárias quanto à participação de Portugal na guerra europeia: o republicano Monteiro Torres, era a favor dessa participação, o monárquico Cristóvão Aires era partidário da neutralidade. Ao sétimo assalto, Cristóvão Aires foi ferido no braço (Portela, s.d.). Monteiro Torres seria pouco depois o primeiro português a obter um brevet de aviador e veio a morrer num combate aéreo em França, em 19 de Novembro de 1917, depois de abater dois aviões alemães. Foi o primeiro e até hoje único piloto aviador português a morrer num combate aéreo. Além de professor do Colégio Militar, Cristóvão Aires foi também jornalista e historiador, continuando a obra História Orgânica e Política do Exército Português, do homónimo general seu Pai.2

Duelo entre Afonso Costa (de costas) e o Conde de Penha Garcia [14 de Julho de 1908]
Afonso Costa do Partido Republicano.e o Conde de Penha Garcia do Partido Progressista. O duelo entre republicano e monárquico foi provocado por o primeiro ter dito que o segundo, enquanto ministro da Fazenda, dera 1,8 milhões de réis ao irmão do malogrado rei D. Carlos.

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/leonardo-ralha/detalhe/os_duelos_na_ameixoeira?
Estr. da Ameixoeira (junto a Calçada de Carriche).
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia 
1 QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888.
2 BARRETO, José (2015). O ano do Orpheu em Portugal. In Steffen Dix (Org.) 1915: o ano do Orpheu, pp. 78-79.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Do Vasto e Belo Porto de Lisboa

Do outro lado da linha — relembra-nos Norberto de Araújo —, encontramos as tuas conhecidas docas, cais acostável, Posto Marítimo de Desinfecção, ponte giratória e oficinas navais da Administração Porto de Lisboa. estas arrendadas por dez anos, desde 1 de Janeiro de 1937, à Companhia de União Fabril.

É neste sitio que se situa — pode dizer-se — o coração do Porto de Lisboa. A extensão do porto é de 25 quilómetros, e a sua área de molhes ocupa 8.736 hectares. As suas cinco docas secas variam em comprimento, entre 42 e 180 metros. (...) 1

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh'alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito. 

Vista do Porto de Lisboa, Cais da  Rocha do Conde de Óbidos |1919|
Perspectiva tirada do Miradouro da Rocha do Conde de Óbidos
Autor desconhecido

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É — sinto-o em mim como o meu sangue —
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui...

Vista do Porto de Lisboa, Cais de Santos  |entre 1906 e 1910|
Posto Marítimo de Desinfecção, vendo-se o navio de passageiros Alemão "Oreana".
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Vista do Porto de Lisboa, Cais de Alcântara |1936|
Autor desconhecido

Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto
Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),
Ponto cada vez mais vago no horizonte....
Nada depois, e só eu e a minha tristeza,
E a grande cidade agora cheia de sol
E a hora real e nua como um cais já sem navios,
E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção
No silêncio comovido da minh'alma... 2

Vista do Porto de Lisboa, Cais de Alcântara |1935|
Autor desconhecido

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, 1939.
2 Álvaro de Campos (Heterónimo de Fernando Pessoa), Ode Marítima, 1890.

domingo, 30 de abril de 2017

Palacete da Rua das Trinas, 70-80

E é que estamos exactamente na  Rua das Trinas: Mocambo velho. Crismou-se esta Rua de 1911 até ao ano passado [1937], em Rua Sara de Matos, em memória daquela educanda do Convento das Trinas que foi dada, em escândalo publico, como envenenada intencionalmente na casa religiosa. A pobre rapariga, que repousa, há muito esquecida  túmulo privado no Cemitério dos Prazeres não merecia, com efeito, seu nome numa rua de Lisboa.


Em terrenos pertencentes à Casa Cadaval foi construído, na segunda metade do século XVIII, este elegante edifício pombalino, embora seja de crer que a sua conclusão se tenha dado já em inícios do século seguinte. Em 4 de Janeiro de 1935, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, por proposta do seu membro, coronel Pereira Coelho, deliberou colocar na fachada da casacom jeito de pequeno solar —, uma lápide comemorativa, assinalando que aí viveu Mousinho de Albuquerque (1855-1902), o "herói das campanhas de África e de Chaimite".

Palacete da Rua das Trinas, 70-80 [1953]
Antiga Rua Sara de Matos (entre 1911 e 1937)

Casa onde viveu Mouzinho de Albuquerque (1855-1902)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A fachada principal, regular e simétrica, de 2 pisos, coroada por uma mansarda mardeliana, é ritmada pela alternância de vãos de janela e vãos de largas portas ao nível do piso térreo, e pela sequência de 7 varandas de sacada com gradeamento em ferro forjado ao nível do 1º andar.
Sabe-se que em 24 de Novembro de 1884, o comerciante João José Martins Pereira compra o domínio útil da propriedade — o edifício mantinha um prazo foreiro à Casa Cadaval — aos herdeiros de D. Emília das Mercês Costa, tendo o edifício sido vendido, em 1926, ao Dr. Baltazar Freire Cabral.
As portas laterais, com os nºs 70 e 78 dão para lojas. Na primeira existia uma vacaria, pertencente a Theotónio da Cruz, com arrendamento de 1911, na segunda, Joaquim Malaquias dos Santos possuía uma mercearia, com arrendamento de 1916. Esta última, apesar de algumas alterações nem sempre felizes, mantém a interessantíssima decoração do início do século que urge proteger.
_______________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, 1038.
CASTRO, Zilia Osório de, Lisboa 1821: A Cidade e os Políticos, 1996.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Largo Duque do Cadaval

Do Largo Duque do Cadaval (Freguesia de Santa Justa) não existe atribuição oficial do topónimo nem quaisquer data de referência De acordo com a DEAT/CML [Divisão de Alvarás, Escrivania e Toponímia] em email de 18/l l/05, «trata-se de um terreno propriedade da CP. e, como tal, não é da competência da CML atribuir-lhe denominação». 
(in Ler história - Edições 52-53, p. 233)

Largo Duque do Cadaval [1929]
Funeral do poeta Augusto Gil (1873-1929); chafariz; hotel
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O que se sabe é que esta área eram chãos da Casa Cadaval. Nestes terrenos assentavam o Palácio — construído entre 1837 e 1845 e demolido por volta de 1880 —, jardins e pátios do Duque de Cadaval (sensivelmente onde hoje se encontra a Estação do Rossio).
  

terça-feira, 25 de abril de 2017

Lisboa Vista do Cimo dos Montes

Do Castelo, da Graça, do Alto de Santa Catarina, vista do cimo dos montes, das colinas, dos miradouros, Lisboa «enfia os olhos pelo Oceano». «Poucas vezes no mundo verá o viajante, como em Lisboa, tanta magnificencia de espectaculos naturaes, e tamanha variedade de scenario!», diz-nos o olisipógrafo Júlio de Castilho, para quem Lisboa «apresenta panoramas estonteadores, pela grandeza das linhas, e pelo variegado das minucias».


É de Francesco Rocchini (1822-1895)  esta  «vista tomada do Castelo de S. Jorge» que Norberto de Araújo descreve: «O encanto de Lisboa não se procura: encontra-se. Não reside num único sítio: dir-se-ia móvel, deambulatório. Vadio — passeando por onde lhe apetece. 
Aconselha-se o romeiro a que o não rebusque. Será a melhor maneira de dar com ele. 
Os mil motivos de interesse, de sedução, de êxtase — espraiam-se, perdem-se, ocultam-se e mostram-se pelas colinas e pelas planícies ribeirinhas. 
Num parque fecundado pelo sol, poetizado pelo luar, nascido espontâneo, enobrecido pelas idades — não é possível encontrar dispostos para nossos olhos os loureiros que coroam heróis e as rosas que engrinaldam vestais. Nem os rouxinóis têm moita certa. 
As colinas de Lisboa há que trepá-las para bem as conhecer. 
Os vinte miradouros suspensos de pérgolas e de torres, dão-nos o panorama objectivo, familiar: apontam-se as coisas, sabe-se-lhes a idade e a história. As colinas — não. Rugadas de congostas [*], quelhas, linhas de desfiladeiros, planos indecisos, são subjectivas. O seu encantamento é de sonho. 

Panorâmica de Lisboa tirada do Castelo S. Jorge  |c. 1870|
Panorâmica de Lisboa tirada da Sra do Monte
Francesco Rocchini (1822-1895), in Lisboa de Antigamente
 Legenda (clicar para ampliar):


Edifícios/Monumentos:
1—Igreja do Socorro (demolida c. 1940)  2—Palácio Folgosa (Propriedade Geraz de Lima)  3—Convento (Hospital) do Desterro  4—Hospital de S. José  5—Primitiva Igreja dos Anjos (demolida em 1908)  6—Campo de Sant'Ana  7—Convento de Santo António dos Capuchos  8—Palácio Mitelo  9—Palácio da Bemposta (Academia Militar) Paço da Rainha  10—Observatório Astronómico do Paço da Bemposta  11—Hospital de D. Estefânia  12—Palácio Pombeiro  13—Chafariz do Intendente  14—Hospital Miguel Bombarda (Antigo Rilhafoles)  15—Escola Superior de Medicina Veterinária (Antigo Instituto de Agronomia e Veterinária (Actual edifício da Policia Judiciária)
Arruamentos:
A—Rua de S. Lázaro  B—Rua da Palma  C—Rua do Benformoso  D—Largo (Sítio) do Intendente  E—Largo de Santa Bárbara  F—Arroios  G—Antigo Largo do Matadouro hoje Escola Municipal n.º 1 e, logo acima deste, o Largo do Mastro e o Beco (hoje Rua) do Saco

A penha do Castelo, abarcada desde o Largo do Caldas — é uma fantasmagoria. Do Rossio — uma maravilha. De Santana — um deslumbramento. 
Vista deste lado — a colina é um santuário; adivinha-se a torrinha sineira de uma ermida. Contemplada deste outro sítio — é uma muralha. Tomada do lado do mar — é um museu; alveja o perfil manuelino de uma janela. 
Em todas as colinas, subindo, acavalgando-se, amparando-se, tocando-se nos beirais, as casas, os tugúrios, os palácios, os monumentos, os aglomerados indistintos, cinzentos ou violetas, conforme lhes dá a luz — são cenários do presépio lisboeta. 
As Colinas de Lisboaeis o panorama sagrado de uma cidade Olimpo, que enfia os olhos pelo Oceano. Os longes mandam na alma. Nas cidades e nos homensas distâncias ganham em saudade o que perdem em nitidez. Castelo, Graça, Penha, Estrela, S. Francisco, ascensão ideal... » 1

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 28-29, 1943.

* Nota(s): O Dicionário Houaiss e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam cangosta, mas remetem para congosta, portanto, o termo preferível. Trata-se de «caminho estreito e comprido, mais ou menos declivoso» (in Dicionário da Porto Editora) e «estrada estreita, rústica, entre muros ou sebes, na região periférica de uma povoação, aldeia, vila etc.; azinhaga» (in Houaiss). A palavra vem do latim hispânico 'congusta (via)', por 'coangusta (via)', «caminho estreito», de 'coangustare', «apertar».

domingo, 23 de abril de 2017

Largo dos Caminhos de Ferro: Museu Militar, antigo Museu de Artilharia

Vamos visitar o Museu de Artilharia, hoje intitulado, com mais propriedade, Museu Militar (...)

Já agora admira o formoso Pórtico poente nascente do edifício, verdadeiramente monumental, obra de Teixeira Lopes; anota a robustez e o movimento que distinguem o grupo escultórico superior, alegoria na qual avulta a figura da Pátria. É belo, posto que a muitos não pareça proporcionado. (Só foi concluído no começo do nosso século [XX]).


Museu Militar, fachada nascente [ant. 1895]
Largo dos Caminhos de Ferro; Calçada do Forte
Observe-se a a famosa Torre do Relógio pelo qual se  orientava a população. Pelas batidas da hora regulava as horas de entrada e saída das oficinas bem como as horas de pausa para almoço do pessoal militar e civil que aqui trabalhava.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

O primeiro Museu, de máquinas e peças militares, foi instituído em 1842 pelo general José Baptista da Silva Lopes, Barão de Monte Pedral (cujo nome depois de 1910 crismou a freguesia de Santa Engrácia), e estava instalado na citada Fábrica de Armas a Santa Clara, onde abriu em 1851.
Só em 1876 o Museu [chamado então de Artilharia] passou a ocupar parte deste edifício do Arsenal do Exército; era a casa, porém, insuficiente e estava velha.
Em 1895 promoveram-se grandes obras, fazendo-se o prolongamento do edifício até ao Largo dos Caminhos de Ferro; [...]
Em princípios de 1901 as obras continuavam, recompondo-se a fachada do Largo do Caminho de Ferro, com majestoso pórtico de Teixeira Lopes [...]

Museu Militar, fachada nascente [c. 1908]
Largo dos Caminhos de Ferro; Pórtico da autoria de Teixeira Lopes.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

A rematar a porta do Museu Militar, voltada para o Largo dos Caminhos de Ferro, surge uma alegoria à Pátria, representada por uma figura feminina, que empunha uma espada na mão direita e uma bandeira na mão esquerda, ladeada pelos filhos.
Obra da autoria de António Teixeira Lopes (filho), foi executada, em pedra, entre 1895 e 1908.

Museu Militar, fachada nascente [c. 1908]
Largo dos Caminhos de Ferro; Pórtico da autoria de Teixeira Lopes
Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, p. 13, 1939.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 104, 1939.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Largo do Museu de Artilharia: Museu Militar: antigo Museu de Artilharia

Eis-nos no Largo do Museu de Artilharia ao fundo da Calçada dêste nome, aberta em 1775 para dar passagem à zorra [4ª foto] que conduzia a Estátua Equestre [de D. José]. para o Terreiro do Paço. 1

 
Vamos visitar o Museu de Artilharia, hoje intitulado, com mais propriedade, Museu Militar (...) A fachada do edifício é, como vês, adornada com colunas monolíticas de ordem coríntia, e coroada de um entablamento com panóplias militares em cantaria.2

 

Museu Militar, antes Museu de Artilharia [c. 1905]
Largo do Museu de Artilharia;a fachada, voltada ao rio, na Rua Teixeira Lopes, é do século XX.
O Pórtico da entrada principal do antigo Arsenal Real, da autoria do eng. francês Maurice Larre (alguns historiadores atribuem a autoria deste pórtico a Carlos Mardel).

J. A. Cunha Morais, in Lisboa de Antigamente

Aqui assentaram as «tercenas» de D. Manuel, para fundir e guardar artilharia; no tempo dos Filipes este arsenal trabalhava só para espanhóis, e da circunstância derivou chamar-se ao estabelecimento a «Fundição dos Castelhanos›, designação que perdurou mesmo depois da Restauração. 
De 7 a 14 de Julho de 1726 as Tercenas foram reduzidas a cinzas, por um incêndio impossível de atalhar.  
D. João V tratou de reedificar as Tercenas, sendo o risco do francês Larre, mas só se acabando a obra em tempo do Marquês de Pombal (1760). Ficou a Cidade, para a sua época, com um Arsenal moderno; sob o ponto de vista técnico e científico o novo estabelecimento deve-se ao tenente general francês Fernando Chegary, ao general engenheiro Bartolomeu da Costa, e ainda a outros oficiais portugueses.
O Arsenal do Exército, no século XVIII e durante quási todo o século passado, compunha-se de três estabelecimentos: este, ou seja a «Fundição de Baixo», o do Campo de Santa Clara, a poente, defronte das obras de Santa Engrácia, e que se intitulava a «Fundição de Cima», ou «Fundição de Canhões», letreiro que ainda se vê no abandonado edifício, e a «Fundição de Santa Clara», depois «Fábrica de Armas», hoje «Fábrica de Equipamentos e Arreios», a nascente do Tribunal Militar, no sítio onde existiu até 1755 o famoso Mosteiro de Santa Clara. (...)
O Arsenal do Exército conjunto de fábricas militares, como instituição centralizadora, foi extinto em1927. 2

Museu Militar, antes Arsenal do Exército, fachada principal (poente) [c. 1880]
Como se constata nesta imagem, em frente da fachada do antigo Arsenal Real do Exército (actual Museu Militar), havia um pequeno terreiro banhado pelo Tejo (ode se vê o muro à dir.), e que foi alargado, chamando-se-lhe Largo da Fundição (de Baixo), hoje «do Museu de Artilharia».
Arnaldo S. Fonseca, in Lisboa de Antigamente
Museu Militar, antes Museu de Artilharia, fachada sul [c. 1900]
Rua Teixeira Lopes (antigo Cais da Fundição); fachada (sul) voltada ao rio Tejo; Igreja de Santa Engrácia (Panteão Nacional).
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A história do Arsenal — diz Norberto de Araújoestá resumida. Falemos agora do Museu de Artilharia — Museu Militar.
O primeiro Museu, de máquinas e peças militares, foi instituído em 1842 pelo general José Baptista da Silva Lopes, Barão de Monte Pedral (cujo nome depois de 1910 crismou a freguesia de Santa Engrácia), e estava instalado na citada Fábrica de Armas a Santa Clara, onde abriu em 1851.
Só em 1876 o Museu passou a ocupar parte deste edifício do Arsenal do Exército; era a casa, porém, insuficiente e estava velha.
Em 1895 promoverarn-se grandes obras, fazendo-se o prolongamento do edifício até ao Largo dos Caminhos de Ferro; [...]

Museu Militar, antes Museu de Artilharia, fachada sul [1907]
Rua Teixeira Lopes; fachada (sul) voltada ao rio Tejo; colunas (nove) e a balaustrada que faziam parte da rica capela de N. S. da Pureza, no Palácio Foz, aos Restauradores.
Paulo Guedes,in Lisboa de Antigamente

O pórtico, do Largo do Museu, antigo Largo da Fundição, data de 1874, alargado de um portal anterior; [...] a fachada, voltada ao rio, na Rua Teixeira Lopes, é deste século [XX], e assim mais moderna que as fachadas nascente e poente, havendo-se aproveitado as colunas (nove) e a balaustrada que faziam parte da rica capela de N. S. da Pureza, no Palácio Foz, aos Restauradores. 2
 
Nota(s): Acerca da fachada nascente, virada ao Largo dos Caminhos de Ferro, já aqui falámos e pode ser (re)vista aqui.

Museu Militar, antes Museu de Artilharia [1927] 
Uma recordação do passado: a zorra em que, das suas oficinas, foram transportadas para o Terreiro do Paço a estátua de Dom José e as colunas que sustentavam o arco triunfal da Rua Augusta.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente











 
Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 103, 1939.
2 idem, vol. XV, pp. 12-13, 1939.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Largo dos Caminhos de Ferro: antiga Praia dos Algarves

Onde vemos o largo em frente da fachada nobre do edifício (a do relogio) [da Estação de Santa Apolónia], era ainda então, como disse, uma pequena praia chamada dos Algarves. Convinha acabar com ella, e substituil-a pela projectada praça.1


Este Largo dos Caminhos de Ferro — recorda Norberto de Araújo —, em cuja orla superior de casario, do nosso lado esquerdo, ao norte, avulta a silhueta das «Obras de Santa Engrácia», foi terraplanado em 1865. Era até então a «Praia dos Algarves» naturalmente porque aqui chegavam as mercadorias do Sul do país. O mar recuou um pouco, mas ainda no fim do século passado [séc. XIX] estava muito mais próximo do que está hoje; a obra da construção do cais de navegação e dos entrepostos levou-lhe boa faixa, como ainda sucede, mês a mês, em Santa Apolónia, em Xabregas e Poço do Bispo.  
O que a terra tem roubado ao rio em cem anos, desde Algés ao Poço do Bispo! E o Tejo —  contente!2

Largo dos Caminhos de Ferro: antiga Praia dos Algarves [ant. 1888]
À direita, o antigo Arsenal do Exército depois Museu de Artilharia; Cais da Fundição depois Rua Teixeira Lopes (1903).
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

O Largo em frente da Estação principal da então designada Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses passou por edital de 12 de Novembro de 1880 a denominar-se Largo dos Caminhos de Ferro. Também a Rua do Cais dos Soldados pelo mesmo edital passou a ser a Rua dos Caminhos de Ferro.

Largo dos Caminhos de Ferro [c. 1900]
Ao fundo, o cais da Empreza Nacional de Navegação a Vapor para a Africa Portugueza (fund. 1871) depois Companhia Nacional de Navegação (1918); a dir. o antigo Arsenal do Exército depois Museu de Artilharia.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Este topónimo deriva da proximidade à Estação de comboios de Santa Apolónia, meio de transporte que em Portugal havia sido iniciado apenas 24 anos antes, com a viagem inaugural em 28 de Outubro de 1856, na qual o comboio baptizado D. Pedro V, partindo da Estação de Santa Apolónia ligou pela primeira vez Lisboa ao Carregado, a primeira linha de Caminho-de-ferro nacional.

Largo dos Caminhos de Ferro [Início do séc. XX]
Ao fundo, a Estação de Santa Apolónia; ardinas
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1 CASTILHO, Júlio de, A Ribeira de Lisboa, p. 123, 1893.
2 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, p. 17, 1939.
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