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domingo, 1 de novembro de 2020

Avenida da Liberdade: uma família de ciganos nos seus burros

E eles lá vão passando sempre pela terra, sem responderem ou sem quererem dizer de onde vieram nem para onde vão, deixando, no entanto, nos lugares onde acampam sinas estranhos nas árvores e pedras. coisas misteriosas que só outros ciganos sabem ler.

Já correram cinco séculos desde que os ciganos entraram na Europa, vindos sem saber ao certo de que região [India?], nascidos sem se conhecer de quem, com o ar de um povo condenado, duma raça de peregrinos que chegasse para expiar, pelas estradas de todo o mundo, uns velhos e tremendos pecados, não podendo ligar-se á mesma terra nem morrer na cama onde nascera , como se trouxesse um selo fatal. [MARTINS, Rocha: 1909].

Avenida da Liberdade, junto à Rotunda, actual Praça Marquês de Pombal |1909|
Em segundo plano, da direita para a esquerda: Palacete Seixas, hoje Instituto Camões; a seguir o edifício que ficou conhecido como «prédio da Federação Portuguesa de Futebol», demolido em 1974; segue-se o palacete que tornejava a Avenida Duque de Loulé, provável autoria do arq. Adães Bermudes; ao fundo, construção de apoio do palacete Sabrosa e que serviu — durante a revolta republicana do 5 de Outubro de 1910 — como hospital de sangue.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

Um jumento no século XIX era relativamente barato: em 1890 um burro valia 10.000 réis e uma burra, meia moeda. Os burritos novos, com menos de um ano, davam-se.
A aparelhagem do burro consta do albardão, albarda e almantricha. O albardão para os serviços do campo, a albarda para a viagem, e a almantricha (com cadeirinha ou sem ela) para transporte de pessoas do sexo feminino.

Avenida da Liberdade |1909|
Uma família de ciganos nos seus burros.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 14 de março de 2018

Praça Marquês de Pombal, 15-18

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constituí o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fez demorar. [Araújo: 1939]


O palacete [demolido c. 1965] que torneja a Avenida Duque de Loulé (à esq.) inscrevia-se organicamente no desenho da praça e projectava com apreciável monumentalidade o seu corpo cilíndrico através de uma varanda corrida que o acompanhava no piso nobre. Em marcação vertical a cúpula com aberturas amansardadas transmitia uma dinâmica de volume. Poderá denotar dispositivos de linguagem compositiva do arq.º Adães Bermudes (1864-1947). 

Praça Marquês de Pombal, 15-18 [190-]
Quarteirão entre as Avenidas Duque de Loulé e da Liberdade

Paulo Guedes,
in Lisboa de Antigamente
 
 O prédio (ao centro) situado entre o «Palacete Seixas» e o palacete de esquina com a Duque de Loulé era conhecido como prédio da «Federação Portuguesa de Futebol», já que aqui se encontrava sedeada esta instituição a partir de 1954. No seu rés-do-chão direito estava instalado o estúdio fotográfico San Payo que durante décadas foi escolhido para retratos pessoais de grandes figuras. Em 1974 dá-se início ao seu processo de demolição.

Enquadramento dos edifícios na Praça Marquês de Pombal, 15-18 [1934]
Quarteirão entre as Avenidas Duque de Loulé e da Liberdade
Pinheiro Correia, in Lisboa de Antigamente

Em 1900, estava em adiantada fase de edificação o que vem a ser denominado o «Palacete Seixas» situado num talhão de grande área de terreno na extremidade direita da avenida, a contornar a Praça Marquês de Pombal e com acesso na retaguarda pela Rua Rodrigues de Sampaio. O projecto, de que se desconhece o autor, teve como primeiro responsável Alberto Pedro da Silva e, posteriormente, Guilherme Francisco Baracho. O mirante que lhe rematava a clarabóia central na sua configuração de minarete islâmico é dissonante à estrutura arquitectónica, mas a sua estilização de coreto em miniatura, assentava com aceitável leveza e registo poético no remate geométrico da cobertura. É desde 1997 propriedade do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e alberga o «Instituto Camões». Integra a Zona da Avenida da Liberdade que se encontra Em Vias de Classificação.
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Bibliografia
TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível, 2002.

domingo, 20 de agosto de 2017

Profissões de antanho: o calceteiro, uma arte a preto e branco


Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
      Vibra uma imensa claridade crua.
      De cócoras, em linha, os calceteiros,
      Com lentidão, terrosos e grosseiros,
      Calçam de lado a lado a longa rua.
Como as elevações secaram do relento,
      E o descoberto sol abafa e cria!
      A frialdade exige o movimento;
      E as poças de água, como em chão vidrento,
      Reflectem a molhada casaria.

Avenida da Liberdade [1907] 
De cócoras. em linha, os  calceteiros
Em segundo plano vê-se o Palacete Seixas
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Avenida da Liberdade [1907]
E o ferro e a pedra — que união sonora!

Em último plano vê-se a «Rotunda», actual Praça do  do Marquês de Pombal
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
      Disseminadas, gritam as peixeiras;
      Luzem, aquecem na manhã bonita,
      Uns barracões de gente pobrezita
      E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
      Tomam por outra parte os viandantes;
      E o ferro e a pedra — que união sonora! —
      Retinem alto pelo espaço fora,
      Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Praça Dom João da Câmara [1907]
Com lentidão, terrosos e grosseiros
Ao fundo, à esq., o "Café Suisso" e à dir. o afamado "Café Martinho"
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
      Cuja coluna nunca se endireita,
      Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
      Pesam enormemente os grossos maços,
      Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
      Que espessos forros! Numa das regueiras
      Acamam-se as japonas, os coletes;
      E eles descalçam com os picaretes,
      Que ferem lume sobre pederneiras.

Praça Dom João da Câmara [1907]
Pesam enormemente os grossos maços
Com que outros batem a calçada feita

Ao fundo, à esq., o "Café Suisso", a Rua 1.º de Dezembro e a Praça dos Restauradores
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

E nesse rude mês, que não consente as flores,
      Fundeiam, como esquadra em fria paz,
      As árvores despidas. Sóbrias cores!
      Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
      Atiram terra com as largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio — o grande agente! —
      Carros de mão, que chiam carregados,
      Conduzem saibro, vagarosamente;
      Vê-se a cidade, mercantil, contente:
      Madeiras, águas, multidões, telhados!

Avenida da Liberdade [1907]
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente

Ao fundo vê-se a «cavalariça», do Palacete Sabrosa na esquina com a Av. Duque de Loulé
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
      Em arco, sem as nuvens flutuantes,
      O céu renova a tinta corredia;
      E os charcos brilham tanto, que eu diria
      Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
      Eu tudo encontro alegremente exacto.
      Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
      E tangem-me, excitados, sacudidos,
      O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Avenida da Liberdade [1907]
Que vida tão custosa! Que diabo!

Ao fundo vê-se o Palacete Sabrosa
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Avenida da Liberdade [1907]
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos

Em último plano vê-se a «Rotunda», actual Praça  do Marquês de Pombal e o começo da Av. Fontes Pereira de Melo com o Palacete Ramires.
  Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
      De tão lavada e igual temperatura!
      Os ares, o caminho, a luz reagem;
      Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
      Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
      Dois assobiam, altas as marretas
      Possantes, grossas, temperadas de aço;
      E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
      E manso, tira o nível das valetas.

Praça Dom João da Câmara [1907]
E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas

Ao fundo, a Rua 1.º de Dezembro, o "Café Suisso"  e o "Café Martinho".
  Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
      Que vida tão custosa! Que diabo!
      E os cavadores pousam as enxadas,
      E cospem nas calosas mãos gretadas,
      Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
      Uma bandeira penso que transluz!
      Com ela sofres, bebes, agonizas;
      Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
      E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

Praça do Marquês de Pombal [1933]
E eles descalçam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras

Ao fundo, o estaleiro do Monumento ao Marquês de Pombal e o antigo Palacete Lara (depois Clube Militar Naval).
Ferreira da Cunhal, in Lisboa de Antigamente

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
      Surge um perfil direito que se aguça;
      E ar matinal de quem saiu da toca,
      Uma figura fina, desemboca,
      Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
      E a quem, à noite na plateia, atraio
      Os olhos lisos como polimento!
      Com seu rostinho estreito, friorento,
      Caminha agora para o seu ensaio.

Rua Doutor Nicolau de Bettencourt [1957]
E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços

Muro do Parque José Maria Eugénio, actual Fundação Gulbenkiam
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
      Como lajões. Os bons trabalhadores!
      Os filhos das lezírias, dos montados:
      Os das planícies, altos, aprumados;
      Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
      Furtiva a tiritar em suas peles,
      Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
      Neste Dezembro enérgico, sucinto,
      E nestes sítios suburbanos, reles!

Avenida da Liberdade [entre 1906 e 1908]
Os calceteiros usam moldes para marcar as zonas de diferentes cores, repetindo esses motivos em sequência linear (frisos) ou nas duas dimensões do plano (padrões).
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
*Local da fotografia não  está identificado no arquivo

Como animais comuns, que uma picada esquente,
      Eles, bovinos, másculos, ossudos,
      Encaram-na sanguínea, brutamente:
      E ela vacila, hesita, impaciente
      Sobre as botinhas de tacões agudos.
Porém, desempenhando o seu papel na peça,
      Sem que inda o público a passagem abra,
      O demonico arrisca-se, atravessa
      Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
      Com seus pezinhos rápidos, de cabra!
Lisboa, Inverno de 1878
Cesário Verde (1855-1886)  in «Cristalizações»


Os calceteiros tiram partido do sistema de diáclases do calcário para, com o auxílio de um martelo, fazerem pequenos ajustes na forma da pedra. As diáclases ocorrem em todos os tipos de rochas, em particular nas rochas duras, e não são mais do que fracturas ao longo das quais não existiu movimento considerável. Estas fracturas formam-se por ruptura, como resultado de um campo de tensões aplicado ao material rochoso. Intersectam-se em diversas direcções, sendo algumas principais, originando uma rede de fracturas que facilita a separação da rocha em blocos. 

Praça Marquês de Pombal [c. 1914]
Estes mosaicos (já cortados) situavam-se entre as avenidas Duque de Loulé (em último plano à esq.) e da Liberdade
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
*Local das fotografias não  está identificado no arquivo

Os calceteiros usam moldes para marcar as zonas de diferentes cores, repetindo esses motivos em sequência linear (frisos) ou nas duas dimensões do plano (padrões). A geometria do séc. XX prova que há um número limitado de simetrias possíveis no plano: 7 para os frisos e 17 para os padrões. Um trabalho de jovens estudantes portugueses, incentivado pela Sociedade Portuguesa de Matemática, registou nas calçadas de Lisboa 5 tipos de frisos e 11 tipos de padrões. Está em curso um projecto entre a C.M.L. e a S.P.M. que pretende aumentar a riqueza geométrica da calçada de Lisboa, completando-a com os tipos de simetrias em falta.

domingo, 10 de julho de 2016

Lançamento da primeira pedra do monumento ao Marquês de Pombal

A Rotunda da Avenida, designada de Praça Marquês de Pombal desde 1882 — ano das comemorações do centenário do Marquês de Pombal — , data em que se procedeu ao lançamento da primeira pedra do monumento ao Marquês, era ainda — e foi durante largos anos — um vasto espaço aberto. O lançamento da primeira pedra, no dia 8 de Maio de 1882, «declarado por lei de grande gala», foi inaugurado pelo rei D. Luís. Ramalho Ortigão conta a imponência da cerimónia: «Junto ao pavilhão, erguido para esse fim, uma banda de música trombeteia o hino da Carta (...). Esta cerimónia, única destas festas a que o soberano se dignou assistir, verificou-se gravemente, com todo o grotesco destas praxes». Acompanhavam o rei, os membros da comissão do centenário, Rodrigues Sampaio, Moita e Vasconcelos, Emídio Navarro e Luciano Cordeiro, e «Chegado que foi o real préstito ao lugar em que tem de se erguer o monumento e onde por enquanto existe apenas um buraco» (Ortigão: 1943), colocada a primeira pedra, consumava-se a cerimónia. O concurso para o monumento só seria aberto em 1913, já com a a República, recaindo a escolha para o projecto de Adães Bermudes, António Couto e Francisco Santos. 

Lançamento da primeira pedra do monumento ao Marquês de Pombal [15 Agosto de 1917]
Panorâmica tirada da cobertura do Palacete Seixas [Instituto Camões]; à esq., por detrás do prédio de gaveto com a futura Rua Joaquim António de Aguiar, vislunbram-se as chaminés cónicas da Quinta e Pátio dos Geraldes; em último plano, a Rua de Artilharia Um e o Palácio dos Viscondes de Abrançalha; ao cimo do Parque a Rua Marquês de Fronteira e Cadeia Penitenciária de Lisboa.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nova cerimónia de colocação da primeira pedra, em 15 de Agosto de 1917, repetindo-se a 13 de Maio de 1926. As obras arrastaram-se, por falta de verbas, e o monumento só seria inaugurado a 13 de Maio de 1934, numa cerimónia «sem a solenidade que parecia supor» (Araújo: 1993).

sábado, 7 de novembro de 2015

Palacete do Menino de Ouro

Esta Rua Luis Fernandes denominou-se Travessa de S. Francisco de Borja e depois Travessa de S. Marçal, para ficar Rua Luís Fernandes pelo Edital de 06/02/1923, na data precisa em que se completava um ano sobre a morte do homenageado. A Ilustração Portuguesa, de 08/12/1923, noticiou da seguinte forma: «Em 30 de Novembro desse ano foi organizada uma cerimónia celebrando a nova toponímia, na qual foi descerrada uma placa de bronze desenhada por Raul Lino e modelada e fundida sob a direção de Teixeira Lopes. Colocada no pilar direito do portão do palacete que pertencera a Fernandes, esta placa ainda lá está, homenageando a memória “do benemerito brasileiro (…) a quem Portugal ficou devendo tantas provas de carinho e interesse”.»

Palacete do Menino de Ouro |1927|
Rua Luís Fernandes, 1-3; Rua de S. Marçal
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Datado de 1885, o Palacete Menino de Ouro pertenceu originalmente ao capitalista brasileiro Luís Fernandes, conhecido como «Menino de Ouro» e foi vendido por volta de 1925 a Artur Alves dos Reis, o qual realiza algumas obras de alteração (interior). Pensa-se que uma caixa-forte — escondida por debaixo do soalho da biblioteca — tenha sido o local onde foram armazenadas as «célebres» notas de 500 Escudos com efígie de Vasco da Gama. O Banco de Portugal tomou posse do palácio e, em 1942, este foi comprado pelo a Embaixada Britânica [vd. 2ª imagem], a fim de aí instalar o Instituto Britânico (British Council), que lhe acrescentou mais um andar por volta de 1945. A sala 201 possui janelas primorosamente pintadas (artista infelizmente desconhecido), bem como alguns azulejos com a assinatura de Sarreguemines. Os azulejos no pátio do edifício foram pintados por José António Jorge Pinto (1876-1945), um dos principais criadores de Arte Nova. Obras em 2001 envolveram a restauração de alguns elementos originais. Neste momento encontram-se expostas 40 obras de arte da colecção do British Council, representativas dos últimos 60 anos.

Palacete do Menino de Ouro Instituto Britânico (British Council) [c. 1945]
Rua Luís Fernandes, 1-3;  Rua de S. Marçal
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Capitalista e coleccionador brasileiro, Luís José Seixas Fernandes (Baía/30.11.1859– 06.02.1922/Paris), conhecido como «Menino de Ouro», foi também o 1º presidente do Grupo dos Amigos do Museu de Arte Antiga (organismo instituído oficialmente em 27 de abril de 1912) e, quando se retirou para Paris em 1886 legou as suas colecções ao Museu Nacional de Arte Antiga que as tem agrupadas numa sala com o seu nome, bem como deu algumas obras à ao Instituto Geográfico e Histórico da Baía, à Academia Nacional de Belas Artes, ao Museu Nacional de Arte Contemporânea e à Biblioteca Nacional de Portugal,  sendo também de destacar que a sua presidência do GAMNAA está profundamente ligada à construção e consolidação da imagem do Museu como referência nacional.
Luís Fernandes tornou-se ainda o organizador e principal doador da Secção Portuguesa do Museu e Biblioteca da Grande Guerra de Paris. Acresce que foi também um dos primeiros sócios da Sociedade Propaganda de Portugal, tendo elaborado o 1º curso de Hotelaria em Portugal, em 1908, na Casa Pia e,  publicado o Guia de Proprietários de Hotéis (1908), para além de ter sido o relator geral do Congresso Internacional de Turismo em 1911. [cm-lisboa.pt]

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Praça Marquês de Pombal, 18: Palacete Seixas

Em 1900 estava em adiantada fase de edificação o que vem a ser denominado o Palacete Seixas situado num talhão de grande área de terreno na extremidade direita da Avenida da Liberdade, a contornar a Praça Marquês de Pombal e com acesso na retaguarda pela Rua Rodrigues de Sampaio. O projecto, de que se desconhece o autor, teve como primeiro responsável Alberto Pedro da Silva e, posteriormente, Guilherme Francisco Baracho.

A promotora de construção foi D. Carmen Grazilla Castilho da Rocha, mas já em 1908 ele é vendido ao industrial Carlos Seixas (l873-?) – homem de cultura e mecenas de muitos artistas como Sousa Pinto, Carlos Reis, Columbano, Falcão Trigoso, Silva Porto, José Malhoa, entre muitos outros – que promove, nos primeiros anos, algumas alterações: uma garagem com entrada pela Rua Rodrigues Sampaio, n.º 113, um galinheiro e uma estufa. É de admitir que estaria praticamente concluída naquela data.
 
Palacete Seixas |post. 1908|
Avenida da Liberdade, 270; Praça do Marquês de Pombal, 18
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A elegância dos tramos marcados pelas duplas pilastras terminadas no primeiro andar por capitais compósitos, o par de janelas de volta perfeita geminadas, que se abrem de cada lado do gaveto e os óculos iluminantes abertos na cobertura amansardada configuram-lhe uma matriz classicizante de sintaxe arquitectónica com ressonância no ecletismo francês do final do séc. XlX. 
O mirante que lhe rematava a clarabóia central na sua configuração de minarete islâmico é dissonante à estrutura arquitectónica, mas a sua estilização de coreto em miniatura, assentava com aceitável leveza e registo poético no remate geométrico da cobertura. Em Setembro de 1948, um violento incêndio destrói parcialmente o 2.º andar, o sótão e a cobertura.
É desde 1997 propriedade do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e alberga o «Instituto Camões». Integra a Zona da Avenida da Liberdade que se encontra Em Vias de Classificação.

Enquadramento do Palacete Seixas na Praça Marquês de Pombal, 18 |1934|
Praça do Marquês de Pombal, 18; Avenida da Liberdade, 270
Pinheiro Correia, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível, 2002.
instituto-camoes.pt

domingo, 9 de agosto de 2015

Baía de Cascais: Casino da Praia e Chalet Seixas (actualizado)

O Casino da Praia foi edificado em 1873 sobre a muralha que ligava os dois baluartes da Praia da Ribeira (integrados no sistema defensivo da costa, projectado em meados do século XVII), numa área onde anteriormente se encontravam uns armazéns e um terraço pertencente ao Ministério da Guerra. Terá sido José Joaquim de Freitas, juiz de paz na altura e proprietário dos armazéns, que veio a adquirir o terraço e a construir o edifício do casino.

Praia da Ribeira na hora dos banhos [1910]
Casino da Praia e, ao fundo, o Forte de Santa Catarina.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Inicialmente constituído por dois pisos, foi ampliado parcialmente para três no final do século XIX. Embora as suas linhas arquitectónicas fossem pouco interessantes, a sua localização privilegiada e uma grande esplanada virada para a baía de Cascais permitiam admirar a beleza da paisagem e a actividade dos banhistas que aqui se dirigiam. Nos dias de competição, era o sítio ideal para assistir confortavelmente ao desfile de embarcações e ao espectáculo da praia coberta de tendas.[...]
Na década de 40 do século XX o edifício foi encerrado e, posteriormente, demolido. (in cm-cascais.pt)
 
Baía e Praia de Cascais vistas da Cidadela  [c. 1900]
Passeios Príncipe Real D. Luís Filipe e Maria Pia. Ao fundo, Praia da Ribeira
Ao fundo observa-se o Casino da Praia.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Construído em 1916 e desenhado pelo arq. Manuel Joaquim Norte Júnior como casa de veraneio, de estilo ecléctico, para Henrique Maufroy de Seixas, o Palacete Seixas ergue-se sobre os vestígios do antigo Forte de Santa Catarina ou Baluarte da Foz— um dos redutos defensivos de Cascais e da linha do Tejo. É hoje propriedade da Marinha Portuguesa. 
A fachada principal exibe elementos decorativos e de composição inspirados na arquitetura medieval, como o elegante alpendre mainelado do torreão, rematado em coruchéu., as janelas e varandas com balcões sustentados por mísulas, além dos capitéis de estilo neo-românico.Voltado para a praia, ergue-se o volume que se destaca pelo grande terraço e pela torre com arcada e remate em coruchéu; ao centro, está o corpo com janelas simetricamente dispostas, de moldura em arco de volta perfeita no piso térreo e, no superior, antecedidas por balcão; à esquerda, fica o volume com a entrada principal do palacete, ladeada por escadaria, com duas varandas alpendradas nos dois primeiros pisos e um terraço na mansarda. [DGPC, Catarina Oliveira, 2015]

Baía de Cascais: Casino da Praia e Chalet Seixas [1940]
Maufroy de Seixas construiu "uma das últimas casas deste veraneio de excepção" [SILVA: 2011]
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

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