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Sunday, 19 February 2023

Palácio Alvito

O Palácio Alvito, do Largo do Conde-Barão, não evoca exteriormente em qualquer pormenor a sua nobreza antiga seiscentista. É, contudo, a edificação urbana que mais avulta no local.
O sítio, batido de rio, que veio a denominar-se do Conde-Barão, já era povoado no século XVI, nele se erguendo as casas nobres de Rui Fernandes de Almada, antecessor dos provederes da Casa da India, mais tarde os Almada-Carvalhais


A seu Poente, esquiando para a actual Rua dos Mastros, levantava-se no começo do século XVII uma casa nobre. Esta casa pertencia, pelo menos já em 1606, aos Lobos da Silveira, Barões de Alvito, mas era seguramente fundação do século XVI, propriedade de uns Quaresmas, dos quais uma descendente, D. Bárbara Quaresma, casara com o 5.ª Barão de Alvito, D. Rodrigo Lobo da Silveira, e, assim, por aquela senhora, ou por doação, a casa de Outeiro da Boa Vista —  então se chamava ao sítio — passou aos Alvitos, cujo primeiro barão foi João Fernandes da Silveira, que casou com D. Maria de Sousa Lobo, Senhora de Alvito, de onde a introdução do apelido Lobo nos seus descendentes a par do da Silveira.

Palácio Alvito |1909|
Largo do Conde Barão, antigo Outeiro da Boa Vista; Rua dos Mastros
A Frontaria, constituída por dois corpos que fazem um ligeiro ângulo oblíquo, com vértice de sólido cunhai, e nela quinze janelas de sacada, com grades do século passado, da época do restauro do edifício, e com outras tantas de peito; os baixos do palácio, ocupados por vários estabelecimentos comerciais, abrindo-se ao centro a porta principal, n.º 47, sem interesse de maior.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Este palácio, grande casarão que foi, está hoje modernizado e irreconhecível no seu aspecto nobre, e só pelo seu passado merece referência.
O 7.º Barão de Alvito, D. Luís Lobo da Silveira, foi distinguido em 1658 com o titulo de 1.° Conde de Oriola, cujo senhorio andava ligado ao dos Alvitos. Derivou disto o dar-se ao sítio o nome, que subsiste, de Conde-Barão.
No palácio, que depois veio a ser, residiram no começo do século XVII os Lobos da Silveira, mormente o 6.º Barão, D. João Lobo da Silveira, e depois os seus descendentes, até ao Terramoto, entre eles D. José António Francisco Lobo da Silveira Quaresma, 8.° Conde de Oriola, 10.º Barão de Alvito e 1.º Marquês deste mesmo titulo (1766), que foi conselheiro de Estado, e presidente do Senado da C4mara de Lisboa (1749).
Os Lobos da Silveira, Condes-Barões, deixaram de residir no seu palácio depois de Terramoto, que o teria danificado, passando a família a habitar casas suas no Bom Sucesso; o palácio do Conde-Barão andava, mais tarde, arrendado, estando nele instalada, pelo menos em 1805, e em parte, uma «grande Casa de Pasto Inglesa», e em 1822 uma repartição do Estado.

Palácio Alvito |c. 1952|
Largo do Conde Barão, antigo Outeiro da Boa Vista; Rua dos Mastros
A Fachada Lateral sobre a Rua dos Mastros, com janelas de sacada e de peito
idênticas às da frontaria. (O Palácio dos Alvitos encosta-se, pelo Nascente, ao antigo Palácio dos Almada-Carvalhais, com o qual teve comunicação interior no final do século XVII e no século XVIII).
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

O espirituoso 4.º Marquês de Alvito, D. José Lobo da Silveira Quaresma —  último do título —  camarista dos reis D. Luís e D. Carlos, alienou, em 1860, por troca com uma propriedade em Alverca, o palácio dos seus maiores ao Barão de Vila Nova de Foz Côa, Dr. Francisco António de Campos, que nele fez obras e passou a residir. A propriedade transmitiu-se depois a dois sobrinhos seus, únicos herdeiros, e por morte destes a Luis de Campos Henriques, parente mais próximo, do qual passou para D. Luísa de Campos Henriques de Almeida, Condessa de Pinhel, falecida em 1939. Para partilhas foi o imóvel à praça, adquirindo-o o Banco Esprito Santo, que por sua vez o vendeu à Companhia Cassequel, à qual hoje [1952] pertence. Em 1942 foi arrendado à Escola Académica.
O palácio nos seus tempos áureos teve jardins e hortas, e comm1icava com o palácio dos Almada-Carvalhais, família onde os Lobos da Silveira entroncaram, pelo casamento de D. Inês Margarida de Almada e Lencastre com D. Vasco Lobo da Silveira, 9.º Barão de Alvito o 2.° Conde de Oriola.
Os restauros, benefícios, transformações no velho palácio dos Alvitos, e isto já no actual século [XX], foram tantos que os Lobos da Silveira antigos, se revivessem, hoje não o reconheceriam.

Palácio Alvito, átrio |c. 1952|
Largo do Conde Barão, antigo Outeiro da Boa Vista; Rua dos Mastros
O Átrio, encurtado e transformado em relação ao que foi no século XVIII; a estreita escada, revestida de azulejos modernos; o patim superior, ao alto da escada, e que abre de um arco de cantaria, de volta abatida, e de dois vãos rectangulares, também emoldurados de cantaria.
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

O Interior do Palácio Alvito mostra ainda elementos construtivos e decorativos do século XVIII, que as transformações e restauros, sobretudo do século passado, não fizeram desaparecer.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1952.

Sunday, 5 March 2023

Palácio dos Almada-Carvalhais: Provedores da Casa da India

Quero chamar-te a atenção — recorda Norberto de Araújo — para um dos mais curiosos vestígios de casa apalaçada de toda a Lisboa. Trata-se do Palácio dos Almada-Carvalhais, provedores da Casa da India, no Largo do Conde Barão, esquinando para a Rua das Gaivotas, remonta no seu núcleo primitivo, ainda de pé, ao século XVI, por ventura mesmo ao seu começo, e a despeito da trivialidade exterior no conjunto do seu semblante, excepção feita ao aludido núcleo — espécie de torre revestida de pedraria e armoriada — é na Cidade o mais recuado espécime de residência solarenga urbana, se abstrairmos a Casa dos Bicos.


Justamente classificado «imóvel de interesse público» no catálogo dos monumentos nacionais, ele constitui em padrão lisboeta, de reduzidas proporções mas venerando, e, por isso, merecedor de mais larga e actualizada noticia histórica.
As obras de beneficiação e de restauros desde a sua fundação ao século XVIII, depois as transformações e adaptações a inquilinato, deformações de dependências e «amparos» de conservação, sobretudo na segunda metade do século passado [XIX], muito desfiguraram este imóvel. Contudo perduram nele admiráveis vestígios, que bem podiam ser ainda valorizados.
Um fidalgo do ramo segundo dos Almada-Avranches foi o possuidor, e certamente o fundador, desta casa ou casas, à beira do Tejo, no sopé do sítio chamado Outeiro da Boavista. Seria ele Fernão Ruiz casado com uma filha de Bartolomeu Gomes de Almada, «homem fidalgo e honrado do tronco desta geração dos Almadas» (Almadas-Avranches); certo é seu filho Rui Fernandes de Almada habitar estas suas casas em 1551, pelo menos, e haver recebido, em 1668, de D. João III carta de armas igual à do ramo principal dos Almadas-Avranches, com acréscimo de brica, que corresponde a ramo segundo. Este Rui Fernandes teve um filho, Fernão Ruiz de Almada, que foi o 1.º provedor da Casa ela India, cargo que se continuava no primogénito e se transmitia em sucessão.

Palácio Almada-Carvalhais |195-|
Largo do Conde Barão, 48-57; Rua das Gaivotas, 1-3
O Corpo do lado Poente, contíguo ao antigo palácio dos Condes Barões de Alvito, avançado do alinhamento,e encostado ao núcleo primitivo, em linha quebrada de três faces, nas quais se rasgam três portas de estabelecimentos e várias janelas vulgares, sendo uma apenas de sacada.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Digo-te que os vestígios deste Palácio são curiosos; pois subamos a rampa, pelo portal n .º 50, que conduzia ao pátio do Palácio. Vejamos primeiro o que isto tem de interessante e depois me referirei às evoluções da propriedade. Em 1820 ainda aqui morava o citado 1.º Conde de Carvalhais, 9.º Provedor da Casa da Índia, e que em 1826 foi par do Reino.
A entrada, em rampa, mostra ainda as pilastras e os arcos de cantaria em volta perfeita, com artesonados, em dois tramos completos. À direita, por um formoso arco de volta abatida, abre um delicioso claustro da Renascença, ao fundo do qual sobe a escadaria nobre do Palácio, hoje prédio de arrendamento , indiferente às belezas e grandezas do passado.

Palácio Almada-Carvalhais |194-|
Largo do Conde Barão, 48-57; Rua das Gaivotas, 1-3
O Exterior, sobre o Largo do Conde Barão, é composto por três corpos ligados,
em linha irregular; anota-se o Corpo Primitivo, a Poente do palácio propriamente dito,
constituindo uma espécie de torre, estreita, forrada de cantaria; e nele o portão, n.º 50,
rectangular, emoldurado de ombreiras e verga de cantaria, cuja traça e altura não
correspondem, evidentemente, às primitivas.
António Castelo Branco, in Lisboa de Antigamente

Tem o Claustro três facesadornadas, a do fundo de três arcos, e as laterais de quatro arcos, apoiados a colunas de lindos capitéis lavrados; uma das ordens laterais de arcarias está entaipada com um barracão saliente que as encobre, e a outra está visível, mas a parte do seu interior foi ocupada por uma oficina de imprensa [...]
Queres cousa mais bela, e de gosto arquitectónico mais puro, em pleno Conde Barão industrial?

Palácio Almada-Carvalhais |ant. 1947|
Largo do Conde Barão, 48-57; Rua das Gaivotas, 1-3
O Claustro ou Pátio nobre, quinhentista, de estilo Renascença, rectangular, único cm todas as construções solarengas de Lisboa, e que nasce, por alguns degraus, à. esquerda do encontro do primeiro com o segundo troço da rampa, através de um arco de volta abatida, apoiado cm pilastras singelas mas sólida.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Voltamos à rampa. Nela segue, em direcção à Garagem [Conde Barão], uma passagem, revestida de curiosos azulejos setecentistas nos dois tramos de abóbada, apoiados em belas pilastras nuas. Consegui saber que foi aqui a cozinha da Casa, no tempo em que o local da Garagem constituía o jardim do Palácio dos Provedores da Casa da India. Este jardim, de que não resta notícia escrita, e ficará apenas a que eu te dou, era guarnecido de algumas estátuas e azulejos, alguns do tipo dos da Bacalhoa (Azeitão), vila onde os Carvalhais tiveram casa sua, na qual se extinguiu o último representante da família.
Ora não quero deixar de te dizer que aqui, onde está a Garagem, existiu a Companhia Nacional Editora — honra da indústria gráfica portuguesa— infelizmente desaparecida.

Palácio Almada-Carvalhais |1980|
Largo do Conde Barão, 48-57; Rua das Gaivotas, 1-3
O Corpo do edifício, do lado Nascente, com vários estabelecimentos no andar térreo, e duas ordens regulares de sete janelas, sendo de sacada as do andar nobre. O primeiro andar, caracterizado por urna arcada de volta redonda embebida na parede, envolvendo urna janela central, vulgar, guarnecida por varanda larga, e sobrepujada pela pedra de armas dos Almadas, do ramo segundo.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1947.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 80-82, 1939.

Tuesday, 29 September 2015

Largo do Conde Barão: Palácio Alvito

«Eis-nos no Largo do Conde Barão. Êste dístico provém do Conde-Barão de Alvito cujo Palácio aqui existiu — e existe ainda, transformado —, no prédio, esquina da Rua dos Mastros, e que se prolonga para o nascente [...]»
(in Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 80)

Na primeira imagem, os famosos carros «Americanos» imortalizados por Eça de Queiroz em «Os Maias». Percorrendo a cidade, do Intendente ao Conde-Barão, de lotação limitada e puxados a dois ou quatro muares, ofereciam já o conforto dos rails, ou calhas, a mesma via transmitida, por herança, aos actuais «eléctricos».
À esquerda, o palácio que foi dos Almada-Carvalhais — Provedores da Casa da Índia — mandado construir no século XVI (cerca de 1545), por Rui Fernandes de Almada, banqueiro e feitor da Flandres. À data desta imagem, o solar já era propriedade da Companhia Nacional Editora, Limitada, «honra da indústria gráfica portuguesa», datada do ano de 1884.

Largo do Conde Barão [séc. XIX]
Palácios dos Almada-Carvalhais e dos Alarcões, respectivamente. Lá bem no alto, o miradouro de Sta. Catarina
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


O Palácio do Conde-Barão de Alvito [vd. 2ª foto] é um edifício palaciano, de arquitectura chã, construído em finais do século XVI e transformado em 1606, sofrendo alguns restauros nos séculos XVIII, XIX e 1ª metade do século XX. Foi residência dos Barões de Alvito (mais tarde Condes-Barões), que o abandonaram logo a seguir ao terramoto de 1755, passando o edifício por diversas mãos. Contudo, a memória da família ali se perpetuou, dando o nome ao largo que posteriormente se formou frente ao palácio. [...]

Largo do Conde Barão [1912]
Palácio (do Conde-Barão de) Alvito; carro da empresa Salazar
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 29 October 2016

Chafariz do Cais do Tojo (ou da Boa-Vista)

Este Chafariz n.º 8 — de arquitectura peculiar — recebia água directamente do Aqueduto das Águas Livres, tinha 3 bicas e pela retaguarda um grande tanque de lavar roupa que foi demolido em 1836. Ao presente [1851] faz frente ao Norte, mas já está determinado mudar as bicas para correrem da parte do Sul. Os sobejos vão para o tanque de Lavadeiras da Rua Nova do Caes do Tojo. Em 1851 tinha 2 Companhias de Aguadeiros, 2 Cabos e Capatazes, 66 Aguadeiros e 1 Ligeiro. 
Terá sido demolido no último quartel do século XIX porquanto já não aparece referenciado nas plantas topográficas da cidade a partir de 1876-79.1

Chafariz Cais do Tojo  (ou da Boa-Vista)  [1858]
Travessa do Cais do Tojo 
(Tv. que entesta na Calçada do Marquês de Abrantes/Largo do Conde Barão)
Amédée de Lemaire-Ternante, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): Imagem não identificada no arquivo(cpf)

Os topónimos Rua do Cais do Tojo e Travessa do Cais do Tojo foram atribuídos pela Câmara Municipal de Lisboa através de edital de 8 de Junho de 1889, o qual contemplou perto de sessenta arruamentos a que foram alterados os topónimos “com vista à sua simplificação e também à sua diferenciação de outros idênticos existentes em outras partes da cidade”. Estes arruamentos eram a antiga Rua Nova do Cais do Tojo e a Travessa Nova do Cais do Tojo.

Localização do Chafariz do Cais do Tojo [1856]
Legenda (clicar para ampliar):
Vermelho:
Chafariz do Cais do Tojo na Tv. do Chafariz do Caes do Tojo (actual Tv. do Cais do Tojo)
Verde:
Tanque das Lavadeiras da Rua Nova do Caes do Tojo (actual Rua Cais do Tojo a Amarelo)
Verde/Azul:
Calçada do Marquês de Abrantes/Largo do Conde Barão
Levantamento [fragmento] topográfico de Filipe Folque,
in Lisboa de Antigamente

Existe no Arquivo Municipal Histórico documentação datada de 1778 relacionada com a cobrança do “donativo” pela Mesa do Cais do Tojo da Boavista. O “donativo” era um imposto municipal sobre os rendimentos, criado por resolução régia de 21 de Março de 1766 e que começou a ser cobrado pelo edital municipal de 2 de Novembro de 1769.

Largo do Conde Barão com a Travessa do Cais do Tojo [1893]
Recanto onde se encontrava o Chafariz do Cais do Tojo (ou da Boa-Vista
Severino de Avellar,
in Lisboa de Antigamente

Os cais sempre fizeram parte da paisagem ribeirinha de Lisboa. Os topónimos dos mais antigos estão geralmente associados aos produtos que aí aportavam, caso do Cais do Tojo ou do Cais do Carvão, que já aparece mencionado no Sumário de Lisboa de 1551.
O tojo, planta arbustiva da família das leguminosas, era usado como cama para o gado, estrume ou combustível.
Em 1821, o posto da 4.ª Companhia de Infantaria da Guarda Real da Polícia, situado no Cais do Tojo, sofreu um grande incêndio. Também no local existiu em tempos o chafariz que aqui observamos, muito frequentado por aguadeiros e populares. [2]

Chafariz do Cais do Tojo [ant. 1836]
(Ainda com a presença do tanque de lavar roupa que foi demolido em 1836)
Desenho de Luís Gonzaga Pereira (1796-1868), in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1 ANDRADE, Velloso, Memoria sobre chafarizes, bicas, fontes, e poços públicos de Lisboa, Belem e muitos logares do termo, 1851.
2 cm-lisboa.pt.
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