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domingo, 11 de junho de 2017

Instituto Nacional de Estatística

Construído em 1931, risco do arq.º Pardal Monteiro. Destaca-se o seu salão nobre decorado com dez frescos, da autoria do pintor Henrique Franco,  representando as quatro estações do ano e algumas actividades económicas tais como a Agricultura, a Pesca, os Têxteis e a Cerâmica e a escadaria principal com vitral de grandes dimensões, em posição horizontal, executado em 1933 no atelier de Ricardo Leone, sob cartão do pintor Abel Manta, Encontram-se ainda, na parte superior da fachada principal do edifício, dois baixos-relevos de Leopoldo de Almeida, representando um a Agricultura e a Demografia e, outro o Comércio e a Indústria.

Edifício-sede do Instituto Nacional de Estatística [1934]
Avenida de António José de Almeida; Avenida do México (esq.); Praça de Londres
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O imóvel continua a manter a sua primitiva função — sede do Instituto Nacional de Estatística. São atribuições do INE a notação, apuramento, coordenação e difusão de dados estatísticos de interesse geral e comum. O edifício-sede do Instituto Nacional de Estatística (incluindo muros e logradouro) está Em Vias de Classificação.

Edifício-sede do Instituto Nacional de Estatística [post. 1935]
Avenida de António José de Almeida; Avenida do México (esq.)
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

O topónimo desta artéria, atribuído  pelo Edital de 18 de Julho de 1933 da C.M.L, homenageia António José de Almeida. Na Praça onde convergem a Av. Miguel Bombarda e a Av. António José de Almeida foi edificado o monumento ao antigo Presidente da República, segundo projecto do arq. Pardal Monteiro e esculpido por Leopoldo de Almeida, inaugurado a 31 de Dezembro de 1937, por iniciativa do Governo. De composição simples, é constituído pela figura do médico, escritor, jornalista e político, António José de Almeida, de pé, esculpida em bronze, sobressaindo do monumento a figura da República, esculpida em pedra. É junto dele que no dia 5 de Outubro se costuma prestar homenagem aos heróis da implantação da República. A face principal do monumento apresenta a seguinte legenda: "António José de Almeida, ardente tribuno, patriota perfeito, cidadão exemplar - Presidente da República 19919-1923. - 17-7-1866. - 31-10-1929". 
Por sua vez, a face posterior do mesmo exibe legendas com frases históricas do Dr. António José de Almeida, como propagandista republicano (1906), como Ministro do Interior do Governo Provisório (1910) e como Presidente da República (1921). 

Monumento a António José de Almeida [post. 1934]
Avenida de António José de Almeida; Avenida do México (esq.)

Em último plano o Instituto Superior Técnico
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Avenida Dr. António José de Almeida

Por edital de 12/11/1929, a Avenida 12 do Novo Bairro no seguimento da Avenida Almirante Reis, passou a denominar-se Dr. António José de Almeida.
António José de Almeida (1866-1929) foi o 6.º Presidente da República Portuguesa (1919-1923). À sua profissão de médico aliou a actividade de jornalista e político.
Foi eleito em 6 de Agosto de 1919, com o apoio dos partidos Evolucionista e Unionista e de muitos apoiantes do Partido Democrático.
À data da sua eleição, era já uma das figuras mais prestigiadas do republicanismo, em grande parte pela eloquência e capacidade retórica que faziam dele «o tribuno da República».
Durante a sua Presidência, a Constituição foi revista, tendo-se atribuído ao Chefe do Estado o poder de dissolução do Congresso.
Foi o único Presidente que, durante a I República (1910-1926) cumpriu na íntegra os quatro anos de mandato presidencial fixados pela Constituição de então.

Avenida Dr. António José de Almeida |1935|
Perspectiva tirada do Instituto Nacional de Estatística
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Porém, por conspirar contra a ditadura de João Franco, acaba por ser preso, sendo apenas libertado após o Regicídio (1908).
Depois da proclamação da República, António José de Almeida foi nomeado Ministro do Interior do Governo Provisório Republicano (1910-1911). Em 1912 protagoniza uma cisão no Partido Republicano, daí emergindo o Partido Republicano Evolucionista, de índole mais conservadora.
Quatro anos depois chefia um governo de coligação (entre o Partido Republicano e o Partido Republicano Evolucionista), cargo que foi acumulado com a pasta das Colónias.

Monumento a António José de Almeida |post. 1937|
Avenida Dr. António José de Almeida

Em sua memória, foi erigido um monumento da autoria do escultor Leopoldo de Almeida e do arqº Pardal Monteiro na actual Avenida António José de Almeida (1937). 
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Avenida de António José de Almeida: Jardim Gomes de Amorim

O Jardim Gomes de Amorim acompanha toda a lateral de um quarteirão da Avenida em frente à Imprensa Nacional Casa da Moeda.
Cerca de quinze dias após o falecimento de António José de Almeida (1866-1929) decidiu a edilidade, pelo edital de 12/11/1929 que a a Avenida 12 do Novo Bairro no seguimento da Avenida Almirante Reis (hoje, Avenida Guerra Junqueiro) se denominasse Avenida Dr. António José de Almeida. Mas em 1933, pelo edital de 18 de Julho passou a Avenida António José de Almeida a ser no prolongamento da Avenida Miguel Bombarda, entre a Avenida dos Defensores de Chaves e a Avenida de Manuel da Maia, onde ainda hoje a encontramos, sendo ao mesmo tempo Guerra Junqueiro colocado no arruamento que antes levava o nome do antigo Presidente da República. Acresce que conforme um parecer da Comissão de Toponímia na sua reunião de 13/04/1951, homologado pelo Vice-presidente da edilidade, foi acrescentada a partícula «de», sendo desde então Avenida de António José de Almeida. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Avenida de António José de Almeida: Jardim Gomes de Amorim |1943-05-05|
Perspectiva tomada da Rua Dona Filipa de Vilhena na direcção da Av. Defensores de Chaves (e Av. Miguel Bombarda).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Francisco Gomes de Amorim nasceu em Avelomar a 13 de Agosto de 1827 e faleceu em Lisboa a 4 de Novembro de 1891. Escreveu muitas peças entre outras «Odio de Raças», «Ghigi», «0 Cedro Vermelho», etc. Publicou dois volumes de versos, «Cantos Matutinos» e «Ephemerus». Autor das «Memorias Biographicas de Garrett». Deixou vários romances e muitos outros escritos, em prosa e em verso, inéditos uns, outros já publicados.

Avenida de António José de Almeida: Jardim Gomes de Amorim |195-|
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 2 de março de 2018

Palácio e Parque José Maria Eugénio

O antigo Palácio José Maria Eugénio [de Almeida] situa-se entre o Largo de S. Sebastião da Pe­dreira, o começo da Estrada Palhavã [actual Rua Dr. Nicolau Bettencourt], a Rua Marquês de Sá da Bandeira e a Avenida Duque de Ávila, sobre a qual se estende o recente muro do jardim, com seus portões e guaritas soerguidas. As fachadas mantêm-se como em 1860, época da reedificação.


No primeiro quartel do século XVIII este sitio de S. Sebastião da Pedreira, onde viria a ser edificado o palácio ainda hoje denominado «de José Maria Eugénio» — tradição oral mais pró­xima — era quase completamente rústico, com uma ou outra casa a animar as imediações da igreja de S. João da Pedreira. Fazia-se por aqui caminho para Palhavã, onde já se erguia desde há muito o Palácio dos Condes de Sarzedas. O arquitecto francês Fernando Larre, que servira D. João V, cobiçou o local e fez nele erguer, cerca de 1780, um palácio, sólido e amplo, que não sofreu grande dano pelo Terramoto. Do primeiro Larre passou a propriedade, que desfrutava de uma larga área arborizada, para um filho, e deste para o neto do fundador, Fernando Larre Garcez Lobo Palha e Almeida, que foi Provedor dos Armazéns, cargo que andava na sua família, e extinto em 1798 (o actual Largo de S. Sebastião da Pedreira chamava-se então «do Provedor dos Armazéns»). Morreu o terceiro Larre em 1797, e o palácio continuou na posse de seus descendentes, no mesmo aspecto primitivo, mas interiormente muito, beneficiado. Haviam trabalhado nas decorações o famoso estucador João Grossi, o continuador, deste, Félix Salla, e os ornamentistas Biel e Gomassa. 

Panorâmica sobre S. Sebatião da Pedreira [c. 1900]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda:

1 - Palácio e Parque José Maria Eugénio [ou Palácio Vilalva]; 2 - Largo de S. Sebastião da Pe­dreira; 3 - Palácio Sá da Bandeira; 4 - Praça de Touros do Campo Pequeno

Em 1860 a propriedade veio às mãos de José Maria Eugénio de Almeida, opulento capitalista, um dos sócios do «real contrato do tabaco, sabão e pólvora» e foi este homem quem promoveu a reedificação e ampliação do palácio, no estado em que hoje sensivelmente se encontra, obra levada a efeito pelo arquitecto decorador Cinatti. Com o aproveitamento da área arborizada construiu-se o Parque José Maria Eugénio [ou de Santa Gertrudes], então mais dilatado, fronteiro aos jardins posteriores do palácio, os quais se estendiam até ao eixo da Avenida Duque de Ávila do nosso século [séc. XX] então estrada estreita com sua porta da circunvalação. O escultor Calmeis trabalhou nas emoldurações exteriores da frontaria. 
O Parque [de Santa Gertrudes], rodeado inteiramente de muros ameados, tornou-se uma das curiosidades de Lisboa, e nele esteve instalado o Jardim Zoológico de 1890 a 1909 [vd. 2ª imagem].

Planta do Jardim Zoológico D’Acclimação de Lisboa [1883]
Entre 1883-1895 instalou-se no Parque de Santa Gertrudes o Jardim Zoológico e d’ Acclimação de Lisboa, in Lisboa de Antigamente

O Palácio dos Larres [vd. carta abaixo à esq.] perdeu o aspecto setecentista e tornou-se um belo edifício, mais burguês do que nobre, embora se houvessem aproveitado as ricas decorações interiores, à base de estuque em preciosos relevos. O filho e sucessor de José Maria Eugénio, Carlos Maria Eugénio de Almeida, pre­tendeu valorizar a propriedade iniciando a construção de uns anexos, em tipo inglês de castelo, destinados a cocheiras e aposentadorias, os quais não se concluíram e ainda hoje se mostram em pitoresco aspecto sobre a Estrada de Palhavã. 
Carlos Maria Eugénio casara com D. Maria do Patrocínio de Barros Lima, e do casal os únicos dois filhos, Condes de Vilalva e de Arge, não sobreviveram a sua mãe, falecendo, respec­tivamente, em 1987 e 1989. Por morte, em 1940, da viúva de Carlos Maria Eugénio, sucedeu no senhorio da propriedade, já então reduzida na parte do Parque, por expropriações municipais, o engenheiro agrónomo, Vasco Maria Eugénio de Almeida, 2.° Conde de Vilalva, filho do primeiro do titulo. 

Parque José Maria Eugénio [1909]
[Santa Gertrudes]
Planta Topográfica de Lisboa, de Silva Pinto

in Lisboa de Antigamente

Quinta do Provedor dos Armazéns [1801]
Carta Topographica de Lisboa de José D. Fava
in LdA















 
Em começo de 1946 o Estado adquiriu àquele bisneto do reedificador, para o Ministério da Guerra, o palácio que fora dos Larres, provedores dos armazéns, e de José Maria Eugénio de Almeida, nome este que perdura. Realizaram-se então no edifício largas obras de beneficiação, adaptação e de nova distribuição de salas, com construção dos anexos, dentro do grande jardim posterior, e de um muro sobre a Avenida Duque de Ávila, com ângulos adorna.dos de elegantes guaritas de vigia. Estes transformações foram dirigidas pelos arquitecto António Quinina e engenheiros João de Deus Pimentel e Filipe Ribeiro. 

Panorâmica sobre  Parque José Maria Eugénio  [c. 1900]
No ano de 1868 inicia-se a construção das cocheiras (ao centro) do Palácio Vilalva, segundo um projeto de Cinnati
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O edifício foi destinado a Quartel General do Governo Militar de Lisboa, havendo sido inau­gurado em 28 de Agosto de 1948, mas já dias antes militarizado, depois de, em 28 de Maio desse. ano, no salão nobre se haver efectuado uma grande reumião de oficiais superiores do Exército. 
Quanto ao que resta do formoso Parque José Maria Eugénio — onde nos últimos anos se tem realizado a «Feira Popular» — ele é ainda propriedade do Conde de Vilalva. 

Nota(s): Pode o estimado leitor ver mais imagens e pormenores deste Palácio e Parque José Maria Eugénio na nossa página de Facebook.
_________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, fasc. VIII. 1950.
Gulbenkian.pt.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Lançamento da 1ª Pedra para o monumento ao Dr. António José de Almeida

Recorda-nos o olisipógrafo Norberto Araújo que « O monumento ao Dr. António José de Almeida foi levado a efeito por iniciativa do então director do «Diário de Notícias» Eduardo Schwalbach; a subscrição pública abriu-se dois dias depois da morte do antigo presidente da República, sucedida em 30 de Outubro de 1929.

Avenida da República [1 de Fevereiro de 1932]
Cerimónia do lançamento da 1ª Pedra para o monumento ao Dr. António José de Almeida, 6º Presidente da República (1919–1923), na presença do Chefe de Estado Óscar Carmona.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O primeiro local escolhido para o monumento foi o cruzamento das Avenidas da República e Miguel Bombarda, no qual se chegou a colocar a primeira pedra em 1 de Fevereiro de 1932.

N.B. Por iniciativa do Governo, a localização definitiva para o monumento viria a ser a Praça onde convergem a Avenida Miguel Bombarda e a Avenida António José de Almeida, tendo sido inaugurado a 31 de Dezembro de 1932.

Avenida da República [1 de Fevereiro de 1932]
Sessão solene do lançamento da 1ª Pedra para o monumento ao Dr. António José de Almeida, 6º Presidente da República (1919–1923), na presença do Chefe de Estado Óscar Carmona.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 74, 1939.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Palácio José Maria Eugénio (ou Vilalva)

O Palácio dos Larres perdeu o aspecto setecentista e tornou-se um belo edifício, mais burguês do que nobre, embora se houvessem aproveitado as ricas decorações interiores, à base de estuque em preciosos relevos. O filho e sucessor de José Maria Eugénio, Carlos Maria Eugénio de Almeida, pretendeu valorizar a propriedade iniciando a construção de uns anexos, em tipo inglês de castelo, destinados a cocheiras e aposentadorias, os quais não se concluíram e ainda hoje se mostram em pitoresco aspecto sobre a Estr. de Palhavã [troço da actual Rua Doutor Nicolau de Bettencourt].


Reedificado a partir de 1860 segundo o risco do arquitecto francês Jean Colson, o Palácio de José Maria Eugénio de Almeida — um dos sócios do «Real contrato do tabaco, sabão e pólvora» e um dos mais ricos proprietários do país — domina a paisagem do Largo de S. Sebastião da Pedreira, para onde volta a sua fachada principal. A implantação desta nova obra manteve as linhas essenciais do palácio do Provedor dos Armazéns que a precedeu — e que se sabe ter sido edificado para habitação própria, cerca de 1730 pelo arquitecto, também francês, Fernando Larre — que servia D. João V. 

Palácio José Maria Eugénio (ou Vilalva) |c. 1930|
Fachada principal sobre o Largo de S. Sebastião da Pedreira;  Rua Dr. Nicolau Bettencourt [antiga Estr. Palhavã] e Rua Marquês Sá da Bandeira (dir.)
Paulo Guedes, 
in Lisboa de Antigamente

O antigo Palácio José Maria Eugénio situa-se entre o Largo de S. Sebastião da Pedreira, o começo da Rua Dr. Nicolau Bettencourt, a Rua Marquês de Sá da Bandeira e a Rua Marquês de Fronteira, sobre a qual se estende o recente muro do jardim, com seus portões e guaritas soerguidas. As fachadas mantêm-se como em 1860, época da reedificação. 
O edifício com larga área arborizada que lhe era anexa, passou depois para os herdeiros (Condes de Vilalva) que, embora mantendo-lhe o aspecto primitivo, o beneficiaram interiormente, recorrendo-se do concurso do famoso estucador João Grossi e do continuador deste, Félix Salla, e dos ornamentistas Biel e Gomassa.

Palácio José Maria Eugénio (ou Vilalva) !1910|
Fachada posterior, de linhas irregulares, sobre os jardins; Rua Marquês de Fronteira e Rua Dr. Nicolau Bettencourt (dir.)
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em começo de 1946, o Estado adquiriu ao bisneto do reedificador, para o Ministério da Guerra, o palácio que fora dos Larres, provedores dos armazéns, e de José Maria Eugénio de Almeida, nome este que perdura. Realizaram-se então no edifício largas obras de beneficiação, adaptação e de nova distribuição de salas, com construção dos anexos, dentro do grande jardim posterior, e de um muro sobre a Rua Marquês de Fronteira, com ângulos adornados de elegantes guaritas de vigia. Estes transformações foram dirigidas pelos arquitecto António Quinina e engenheiros João de Deus Pimentel e Filipe Ribeiro.

Palácio José Maria Eugénio (ou Vilalva), uma das entradas e cavalariças [1910]
Rua Marquês de Fronteira, esquina com a Rua Dr. Nicolau Bettencourt; separado do parque pela Rua Marquês de Fronteira, o palácio pertence hoje ao Exército.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Palácios particulares, 1950.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Monumento ao Marquês de Pombal

Em 1910, poucos anos depois das comemorações das comemorações do Centenário da Índia, a Praça Marquês de Pombal estava edificada como hoje [em 1939].
Quedemo-nos uns momentos diante do monumento ao Marquês de Pombal. 


A ideia de se erguer um monumento ao estadista, reedificador de Lisboa, é antiga, mas só lhe foi dada expressão pública em 1882, ano em que o Parlamento autorizou o Estado a ceder o bronze necessário. Em Abril daquele ano — recorda o ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo — constituiu-se uma comissão encarregada de promover a subscrição nacional, presidida por Rodrigues Sampaio.
Os trabalhos não tiveram sequência, e só em 1905 se voltou a um plano prático, constituindo-se nova comissão, presidida pelo Conselheiro Veiga Beirão, havendo a subscrição pública sido iniciada a 6 de Maio. Contudo, ainda desta vez a iniciativa não foi coroada de êxito, talvez porque logo em 1906 começou a agitação política que dominava todos os pensamentos.
Proclamada a República, a ideia de dar realização séria à iniciativa de havia quarenta anos, ressurgiu. Em 1913 realizou-se o concurso para o monumento, sendo apresentados catorze projectos, e aprovados quatro; destes, acabou por ser preferido (5 de Abril de 1914) aquele que sob a legenda «Gloria Progressus - Delenda reactio» era assinado por Adães Bermudes, António Couto e Francisco Santos. A escolha, feita por um júri idóneo, ao qual presidia o professor e director da Escola de Belas Artes, José Luiz Monteiro, provocou enorme celeuma, havendo muitas personalidades de categoria artística e intelectual que preferiam o projecto do arquitecto José Marques da Silva e do escultor António Alves de Sousa (ambos artistas portuenses).
A primeira pedra para o Monumento foi colocada em 15 de Agosto de 1917, mas em 13 de Maio de 1926 a cerimónia repetiu-se, havendo discursado o Dr. Bernardino Machado, Presidente da República, e D. Tomaz de Vilhena, descendente do «Grande Marquês» qualificativo tradicional da família — , e ao tempo deputado monárquico.

Monumento ao Marquês de Pombal
Fundações da estátua |1927|
Fotógrafo não identificado, in LdA

Monumento ao Marquês de Pombal
Obras de desaterro |1924|
Fotógrafo não identificado, in LdA




















As obras vinham-se arrastando, por falta de verba, desde 1914. Em Março de 1924 foi nomeada uma nova comissão, à qual presidia o Dr. Magalhães Lima, estando na vice-presidência o general Vieira da Rocha; o rendimento dos selos emitidos em Dezembro de 1924 não satisfez, mas as obras de 1925 para diante entraram na fase definitiva da sua actividade. Em 13 de Maio de 1930 o Presidente da República, general Oscar Carmona, visitou as obras, já em vulto neste local. A grande estátua foi completamente assente sobre o alto fuste em 2 de Dezembro de 1933.
Finalmente em 13 de Maio de 1934 foi inaugurado o monumento, sem a solenidade que parecia de supor; assistiram o Ministro das Obras Públicas, engenheiro Duarte Pacheco, o presidente da Câmara Municipal, tenente-coronel Linhares de Lima, o governador civil, tenente-coronel João Luiz de Moura, e o presidente da Comissão, general Vieira da Rocha.
Estas anotações cronológicas, apesar de deficientes, reputo-as necessárias, pois andavam dispersas. Dêmos volta ao monumento.
Vejamos primeiramente o pedestal. Essa figura de mulher, constituída por dois blocos de pedra que pesam 17.250 quilos, na frente do monumento, representa «Lisboa reedificada»; tem cinco metros de altura — não o dirias. Sob o plinto em que ela assenta, vemos a proa de uma nau simbolizando a libertação da marinha mercante. Em baixo, dos lados, representa-se o cataclismo que assolou Lisboa na terra e no mar; destacam-se as esculturas de Plutão e Poseidon, este simbolizado num cavalo-marinho.

Monumento ao Marquês de Pombal
Ao fundo nota.se o estaleiro de obra |1934|
Tomada da Braamcamp para a Av. Fontes.
Fotógrafo não identificado, in LdA
Monumento ao Marquês de Pombal
Cabeça da figura do Marquês |1934|
Ao fundo ve-se a R. Braamcamp.
Ferreira da Cunha, in LdA



























Analisemos agora os grupos escultóricos laterais do pedestal, em seu conjunto admiráveis, apesar de algum senão que lhes possas notar. No grupo da esquerda, lado nascente, simboliza-se a agricultura, com o trabalho da lavoura, através de uma junta de bois, e de figuras bem tratadas escultoricamente, e das quais sobressaem o homem que sustenta o arado e a mulher que transporta o cabaz com uvas. O grupo do lado oposto simboliza a indústria e a pesca: um cavalo arrasta as redes, e um operário sopra o vidro; eis um conjunto também de merecimento, não apenas pela disposição mas pelo lavor das várias figuras.
Os escultores, professor Simões de Almeida e Leopoldo Neves de Almeida, que já eram colaboradores do ilustre Francisco Santos, falecido em Abril de 1930, foram os realizadores destes trabalhos, como aliás de outros que valorizam o monumento.
Na face norte (posterior) do monumento construiu-se uma alegoria objectiva à reforma da Universidade de Coimbra [vd. imagem seguinte]. Destaca-se — nota — essa figura de Minerva, em bronze, sentada, adiante do pórtico da «Universitas Conimbricensis».


Monumento ao Marquês de Pombal, face norte (posterior) |1953|
Destaca com a presença, na fachada, de um edifício clássico que simboliza a Universidade de Coimbra, à frente do qual está uma estátua de Minerva, sentada, em bronze.
Em primeiro plano nota-se o Lago do Parque Eduardo VII.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

No fuste, de grande superfície, vêem-se nas suas quatro faces legendas que exaltam o estadista e reformador; na face principal lês, comigo: «Ao genial estadista Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal — a Pátria reconhecida — MCMXXXIV».
O capitel do obelisco ostenta quatro medalhões, enlaçados nos cunhais por quatro águias; no medalhão da frente enquadra-se  a efigie de Machado de Castro, no do poente as de D. Luiz da Cunha, Eugénio dos Santos e Manuel da Maia, no posterior a de Ribeiro Sanches, e no do lado nascente as de Luiz Verney, Serra da Silva e Conde de Lipe. Foram estes os principais colaboradores de Pombal.
Finalmente, ao alto, está o grupo fulcro do monumento — que mede, de alto abaixo, 36 metros: o Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força. Este grupo, de grandes dimensões (basta dizer que tem a altura de cinco homens) é de realização primorosa, prejudicada contudo na visão perspectival à distância, quando tomada do Norte e do Poente.

Monumento ao Marquês de Pombal (em obra) |1934-04-05|
No topo do monumento, sobressaem quatro medalhões que retratam os principais colaboradores de Pombal, incluindo Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Machado de Castro.
Perspectiva tomada da Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Também este grupo principal foi concluído por Simões de Almeida; a cabeça da figura do Marquês [vd. imagem acima], ainda em formação no barro, com 1,80 de altura , de enorme peso, ruíra no atelier de Francisco Santos no próprio dia em que o artista morrera (29 de Abril de 1930).
Quatro grandes colunas de mármore nobre , cada uma com quatro candelabros de braço, em bronze, decoradas com florões e laços — bom trabalho de «atelier» e de fábrica , mas de gosto discutível — guarnecem o monumento.
E aí tens num dos degraus da escadaria do sopé: «Autores: Adães Bermudes, arquitecto; António Couto, arquitecto; Francisco Santos, estatuário; colaboradores, Leopoldo de Almeida, estatuário; Simões de Almeida, estatuário».

 

Inauguração do monumento ao marquês de Pombal |1934-05-13|
 O Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E, Dilecto, com paz na consciência, e sem beliscadura de sectarismo, digamos adeus ao monumento a Pombal. Antes, porém, anota as legendas cronológicas da vida do Marquês, e que no empedrado à portuguesa ilustram as placas que compõem a Praça.

Monumento ao Marquês de Pombal |1938-10-06|
Na base, várias figuras alegóricas dão vida à cena, como uma figura feminina que simboliza Lisboa reconstruída e três grupos escultóricos que representam as reformas de Pombal na agricultura, indústria e ensino.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa», vol. XIV, pp. 44-48, 1939.
BRITO, Francisco Nogueira de, Roteiro ilustrado de Lisboa e arredores, 1935.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Igreja de Santo Estêvão

A igreja de Santo Estêvão — considerada «monumento nacional» (27/8/1917) — é uma reedificação do segundo quartel do século XVIII. por sua vez objecto de largo restauro depois do Terramoto (1778). na frontaria e em parte do interior. Está situada numa elevação, na qual se construiu um vasto adro amparado a uma muralha.


A paróquia de Santo Estêvão, das mais antigas e representativas de Lisboa, remonta, por noticia de um documento, a 1188; existia seguramente o templo neste lugar em 1279, possivelmente mesmo na primeira metade do século, reinado de D. Afonso II. A primitiva igreja, certamente modesta, foi reedificada em 1316 e em 1548, por efeito dos danos causados por sismos nos século XIV e XVI, e teria então sido ampliada e revestida de grandeza, pois sabe-se que ostentou cinco naves — por ventura apenas divisões teóricas demarcadas por colunas de apoio, mas que representariam largueza na traça arquitectónica.

Igreja de Santo Estêvão, frontaria |c. 1900|
 Num terreiro sobre o Tejo, Santo Estêvão.
Panorâmica tirada do miradouro de Santa Luzia
José A. Bárcia, 
in Lisboa de Antigamente

Esta traça desapareceu completamente numa reedificação radical de 1788-1740, que deu ao templo outra planta, fazendo recuar a capela-mor sobre o troço da Rua, a Sul, ainda hoje incluído na Largo de Santo Estêvão. Além da reconstrução posterior ao Terramoto, concluída em 1775, a qual não lhe alterou a área nem a configuração, Santo Estêvão beneficiou de restauros de 1888 a 1848, e de reparos já no actual século [XX].



Igreja de Santo Estêvão, fachada |1898|
Largo de Santo Estêvão
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


Igreja de Santo Estêvão, fachada |1939|
Largo de
Santo Estêvão
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente



Ora contempla a fachada, fria, mas expressiva — convida-nos Norberto de Araújo. Abre por três pórticos, dos quais o central, sobrepujado da data da reconstrução: 1773, é o mais largo e alto, todos coroados de áticas. O corpo central, onde se eleva um. frontão simples, com um óculo iluminante, avança um pouco da fachada, deixando assim os dois .curtos corpos extremos — sabre um dos quais, do lado nascente, assenta a torre — um pouco recuados. Três altos janelões e outras tantas janelas quadradas abrem-se no corpo central, e duas por lado nos corpos subsidiários.


Igreja de Santo Estêvão |1944|
 

A traseira da capela-mor, saliente do corpo do edifício, apoiada sobre grossa cachorrada, construída em 1733-1740, e na qual, ladeando a passagem do Largo de Santo Estêvão, ao alto das escadinhas, se vê um painel de azulejo com a representação da Eucaristia, legenda latina, tirada dos Salmos, e uma data, 1723.
J. C. Alvarez, 
in Lisboa de Antigamente


No Interior, a igreja é de forma octogonal, como as do Menino Deus, Santo Amaro, Penha de França, Santo Amaro). Assinala-se:
O Corpo da igreja, revestido de materiais nobres, cujas faces do octógono são divididas por pilastras caneladas, e nele:  
O tecto, pintado a claro-escuro, sobre estuque, simulando nervuras de artesão rematadas por fecho;  
O coro, apoiado em pilastras de quatro faces;
Seis capelas (três por cada lado) correspondendo a outras tantas faces do octógono (as outras duas faces correspondem ao sub-coro e ao arco da capela-mor.

Igreja de Santo Estêvão, interior |1963|
Na
Capela-mor destaca-se a coroação ou remate, sobre o trono, composição escultórica, em mármore alvíssimo, que representa um Cristo crucificado ladeado por dois serafins, obra de José de Almeida.
Armando Serôdio, 
in Lisboa de Antigamente

A Capela-mor, sector nobre do templo, toda de mármore, fazendo lembrar a da Igreja de S. Domingos, salvas as dimensões, e nela: a abóbada de aresta, em cujas faces se vêem os Evangelistas, e ao centro o símbolo da Eucaristia (factura posterior à dos Evangelistas, ou mal restaurada); o altar-mor, ostentoso, e, nele, o frontal e banqueta em embutidos florentinos; a guarnição, de duplas colunas salomónicas de mármore rosa da Arrábida, apoiadas em bases ricamente lavradas; a coroação ou remate, sobre o trono, composição escultórica, em mármore alvíssimo, que representa um Cristo crucificado ladeado por dois serafins, obra de arte pura de José de Almeida, com colaboração de Jerónimo da Costa, e que foi executada — parece — para o mosteiro de Mafra, onde chegou a estar colocada, e transferida depois para esta igreja; uma imagem de Santo Estêvão, escultura de Nicolau Pinto.

Igreja de Santo Estêvão |c. 1900|
 Cruzeiro de Santo Estêvão junto da igreja com o mesmo nome.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

No adro da igreja eleva-se um Cruzeiro, seiscentista (que deve ter substituído um muito mais antigo), com uma legenda no soco: «Este sinal de redenção, que um de voto aqui fez pôr, pede com devoção se louve o Redentor. Pelas Almas um Padre. Nosso e uma Avé-Maria. 1669». A cruz, ao alto, não é da época; partida a antiga há uns trinta anos foi depois substituída pela que alveja agora sobre a muralha.
 
Igreja de Santo Estêvão |1963|
 Cruzeiro de Santo Estêvão junto da igreja com o mesmo nome.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 85-87, 1939.
id., Inventário de Lisboa, 1955.

domingo, 18 de março de 2018

Palácio Regaleira, a S. Domingos

No quarteirão entre as Escadinhas da Barroca e a Calçada do Garcia, ali tens o prédio, n.º 14 a 15 com sete portas, que foi o Palácio Regaleira, propriedade no meado do século passado [séc. XIX] de D. Ermelinda Monteiro [Allen] d'Almeida, baronesa e viscondessa da Regaleira, título que passou e se mantém nos Morais Palmeiro; êste prédio pertenceu a Francisco de Sousa Cruz, em 1915? passou por compra a Artur Aires, e hoje [1939] é da Companhia dos Tabacos.

Existiu aqui um clube de jogo e de prazer, impropriamente chamado "Clube Regaleira".¹


O registo mais antigo que se encontra sobre este edifício remonta a 28 de Outubro de 1814, no qual a localização do palácio é descrita no Registo de Descrições Prediais. A localização privilegiada do Palácio Regaleira numa zona nobre, central e movimentada da cidade, próximo do Rossio e no mesmo Largo da Igreja de São Domingos fez com que este mantivesse a sua centralidade relativamente ao espaço e vida urbana ao longo dos tempos.
Os dados precisos sobre a autoria e data de construção do edifício são desconhecidos. Vários autores sugerem tratar-se de uma edificação do século XVIII, provavelmente anterior ao terramoto de 1755. Segundo José-Augusto França, em gravuras anteriores a essa data, surge representado no mesmo local um edifício que apresenta grandes semelhanças com o actual: um prédio de três pisos, com a fachada principal virada a sul, de arquitectura sóbria e disposição simétrica de portas e janelas, que ocupam de forma regular grande parte da frontaria. É provável que o edifício tenha entrado na posse da família Allen em período anterior ao de D. Ermelinda Allen Monteiro d’Almeida, a primeira viscondessa da Regaleira, que teria herdado o Palácio dos seus pais e empreendido os trabalhos de remodelação entre 1835 e 1842, conferindo ao edifício a sua traça actual.

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A vida social de grande ostentação e as festas sumptuosas dadas nesta época pela baronesa e viscondessa da Regaleira no seu palácio lisboeta são-nos descritas por Fialho de Almeida:
«A primeira foi em 4 de Março de 1842, e Paulina de Flaugergues aponta-a como uma das mais belas e animadas da estação. Estiveram cerca de mil convidados, e era notável a porção de mulheres bonitas que se encontrava nos salões. A ornamentação da casa em pouco ou nada fora alterada a mais do que costumava ser nos dias ordinários. O palácio de madame Monteiro d’Almeida era um verdadeiro museu de coisas de arte e de elegância, e arcava em gosto e riqueza com a residência dos Palmelas, dos Fronteiras, dos Atalaias, e dos viscondes de Porto Covo […] No pátio da casa, em que tocavam três bandas de regimento, fora improvisado um jardim com laranjeiras, pritchardias e camélias, sob uma tenda de seda, às riscas multicolores, esticada e, lanças e albardas, que aprumavam de roda, mais de catorze ou quinze estátuas de guerreiros.»²

Em 1901 — após ter saído em definitivo (1898) da posse da família Allen — está instalado no Palácio Regaleira o Teatro Eléctrico Mágico. A partir do ano seguinte, funciona nesse edifício o Liceu de São Domingos, um desdobramento do Liceu do Carmo. Segundo o olisipógrafo Appio Sottomayor, terá aí funcionado, pouco tempo antes da implantação da República, a sala de cinema Rossio Palace, na qual se realizam, para alguns espectadores escolhidos e pagantes, sessões especiais com filmes pornográficos que têm lugar pela noite fora49. Já João Paulo Freire refere nas suas memórias «uma exposição-museu de figuras de cera, com uma secção reservada a doenças venéreas» que teria estado no Palácio Regaleira em 1918, aproximadamente.³

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
No início do séc. XX esteve aqui instalada sala de cinema Rossio Palace
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

No mesmo edifício funciona ainda um estabelecimento comercial denominado Vaccaria de S. Domingos e um hotel. A 24 de Março de 1919 o prédio foi vendido à firma Arthur Adriano Ayres, Lda. Este dado, retirado dos Registos Prediais, contradiz a data de transição da propriedade do imóvel que nos é dada por Norberto Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa como se pode ler logo no inicio desta publicação: «em 1915? passou por compra a Artur Aires».

Palácio Regaleira [1910]
Na esquina do Largo de S. Domingos com as Escadinhas da Barroca, observa-se a Vaccaria S. Domingos.
António Novais, in Lisboa de Antigamente

No que respeita ao Regaleira Club — também mencionado por Norberto de Araújo como Clube Regaleira — há notícia do seu funcionamento entre 1920 e 1922. Contudo, este poderá ter aqui funcionado antes da data indicada. Entre Fevereiro e Maio de 1917 estaria, a julgar pelo nome, aí já instalado o Club Palácio da Regaleira, que pagava ao Governo Civil de Lisboa a devida licença para prolongar, todas as noites, as suas diversões para além da meia-noite. Não foi no entanto possível apurar se este seria ou não o mesmo estabelecimento conhecido por Regaleira Club em 1920. O seu encerramento em 1923 parece ser consensual.
Com a sua instalação no Palácio Regaleira e a adopção do nome deste para sua própria denominação, este clube nocturno procurou claramente beneficiar do estatuto alcançado e difundido na época da baronesa e viscondessa da Regaleira, aproveitando do edifício a aura que ainda prevalecia de festas sumptuosas e luxuosas.

«A monumental escada» e «A majestosa sala do “Regaleira Club”»
Efeitos da Guerra», ABC, 7 de Julho de 1921 [fotografias de Serra Ribeiro]

O palácio é vendido à Companhia de Tabacos de Portugal, que compra o imóvel pelo montante de 1.303.000$00 em escritura de 14 de Novembro de 1923.
Os inquilinos multiplicam-se e sucedem-se: um Armazém de Roupas Nogueira Viegas Lda.; a Fotografia Electro Rápida, de Brito Gago Justel; um estabelecimento de instrumentos musicais, de Larcher Castelo Branco, um estabelecimento comercial de artigos de malha, de José Esteves de Almeida; a Empresa Portuguesa de Instalações Eléctricas, Lda.; um estabelecimento de comércio de fruta e um outro de peixe, de Maria Fernandes de Almeida; o Bazar Universal, de Orlando Silva. Por estes anos está também instalada no Palácio Regaleira a Casa das Beiras, instituição de carácter regional que organiza festas e récitas.
No final da década o edifício encontra-se em adiantado estado de degradação: «O palácio estava em mísero estado. Parecia um chavascal. Soalho esburacado, paredes sujas, portas escangalhadas, um pavor.»
Em 1933 a Companhia dos Tabacos arrenda à Ordem dos Advogados o 1.º andar do edifício, que inicia obras de recuperação no palácio. A nova sede da Ordem dos Advogados só é inaugurada em cerimónia solene a 24 de Maio de 1939. Finalmente, a 26 de Janeiro de 1960, a Companhia dos Tabacos de Portugal vende o Palácio Regaleira à Caixa de Previdência da Ordem dos Advogados e Solicitadores pelo preço avultado de 11.000.000$00.
Tudo leva a crer que a traça arquitectónica exterior do edifício se tenha mantido igual desde meados do século XIX, altura em que se realizaram os amplos trabalhos de remodelação. Já o interior do Palácio terá conhecido múltiplas e significativas intervenções, em resultado dos numerosos inquilinos e das diversas actividades que ali tiveram lugar.⁴
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 81, 1939.
² ALMEIDA, Fialho de, Vida Errante, pp. 334-335, 1925.
³ FREIRE, João Paulo, Lisboa do meu tempo e do passado, Lisboa, 1931-1939, p. 10-11.
⁴ VAZ, Cecília Santos, Clubes nocturnos modernos em Lisboa: sociabilidade, diversão e transgressão (1917-1927), Palácio Regaleira, pp. 76-81, 2008.
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