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Sunday, 5 October 2025

Alfândega de Lisboa, fachada sul

Este edifício, pouco atraente na sua simplicidade, merece, contudo, a nossa atenção e um ou dois reparos de ordem histórica. Por um lado, trata-se do antigo celeiro onde se armazenava o trigo (e por isso veio a dar o nome à rua que o ladeia); por outro lado, um olhar cuidadoso à fachada sul faz-nos reparar em elementos relacionados com o facto de se encontrar mesmo à beira do rio, com cais próprio e acesso directo. Como outros edifícios de Lisboa, contava com um espaço aberto no interior o que lhe dá uma estrutura arquitectónica sui generis.
(ADRAGÃO, José Victor & PINTO, Natália & RASQUILHO, Rui, Lisboa, 1985)

Alfândega de Lisboa, fachada sul |195-|
Av. Infante D. Henrique, 36
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Fachada Sul do antigo e imponente edifício público pombalino da Alfândega de Lisboa. Situado na margem do Tejo foi construído entre 1765-68 para Celeiro Público. Possuía à época um cais privado, já desaparecido.

Vista aérea de Alfama |1953-02|
Em baixo observa-se o edifício da Alfândega de Lisboa na Av. Infante D. Henrique.
Manoel P. Carneiro, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 6 October 2019

Sítio da Achada: chafariz das Gralhas e Recolhimento do Amparo

Este sítio da Achada, que foi arrabalde da cidade muçulmana — recorda-nos o ilustre Norberto de Araújo — , deve o seu nome, muito antigo e característico, pois já é citado em 1554, ao facto de aqui se encontrar uma pequena planície ou descanso da encosta. «Achada», com efeito, é uma contracção de «achaada», terra chã.


Rua da Achada esquina com o Largo da Achada [194-]
[Prédio setecentista demolido]
Eduardo Portugal, in AML
(clicar para ampliar)


Largo da Achada esquina com o Beco de São Francisco [1901]
[Prédio setecentista alterado]
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente



Como vês, há aqui casas curiosas, interessantes na sua construção de alguns séculos, e como raras se encontram na Alfama. Por exemplo: estas na esquina nºs 17 e 19 [2ª foto] de feitio setecentista, com primeiro piso de ressalto na reentrância (da Achada, ou Jasmim forçadamente) defronte do Largo este prèdiozinho nº 54 [2], com porta ogival simples e janela do mesmo tipo.

Beco da Achada com o Largo da Achada esquina com o [1901]
Casa quatrocentista com porta e janela ogivais.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

É, no seu conjunto, bem pitoresco este sítio com seu marco fontanário rodeado de escadaria circular.

Chafariz do Largo da Achada, antigo Terreirinho das Gralhas [1945]
Ao fundo, nas Escadinhas da Achada observa-se o portal e lápide
do Recolhimento do Amparo.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Deste largo [antigo  Terreirinho das Gralhas] e rua sobe-se por contínuas escadas (sempre Rua da Achada) para a Costa do Castelo, e encontra-se à direita o velho Recolhimento do Amparo ou de S. Cristóvão, dentro de um pátio ou eirado, cujo portal ostenta uma lápide relativa à fundação do Recolhimento. Podemos ler no português de hoje: «Louvado seja o Santíssimo Sacramento. Este Recolhimento de N. S.' do Amparo é das meninas orfãs. Padre Nosso pelas Almas. l6l0». Esteve sujeito à Real Mesa da Consciência, e destinou-se finalmente só a pensionistas. Mas entremos no Pátio. O Terramoto sacudiu esta Casa e deixou-a maltratada.

Recolhimento do Amparo ou de S. Cristóvão [195-]
Rua da Achada com o Largo da Achada (antigo  Terreirinho das Gralhas)
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 55, 1938.

Thursday, 2 March 2017

Igreja de S. Cristóvão

Estamos diante de S. Cristóvão, no Largo pequeno que tem a Sul, defronte do templo as Escadinhas que levam à Rua da Madalena. Encosta-te à cortina: observa-me essas minúsculas casitas, do principio do século passado, acumuladas, em capricho de intersecção, graciosas na suas escadas exteriores, e melancólicas no seu ar de condenadas perante um urbanismo racional. 

 
Não reparaste que apenas pelo enunciado — S. Cristóvão tem uma ressonância bairrista? Ora vejamos o templo, que do seu começo esteve isolado, e só mais tarde foi rodeado de casas e, por consequência, de betesgas, naquele amontoado indisciplinado que caracterizava os focos de população crescente nos séculos da primeira dinastia.

 

Igreja de São Cristóvão, fachada principal [c. 1900]
Largo de São Cristóvão
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A igreja primitiva remonta talvez a finais do século XII, denominada então Igreja de Santa Maria de Alcamim. Há notícia que durante o reinado de D. Manuel I a igreja sofreu um incêndio que a deixou totalmente destruída. Em 1610 é restaurada e em 1671-72 dá-se a conclusão das obras. No século XVIII, resistiu globalmente ao Terramoto de 1755, mantendo-se a fachada maneirista da igreja característica do século XVII. 

Igreja de São Cristóvão, fachada lateral [c. 1900]
Calçada Marquês Tancos
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


O tecto da nave tem pintura ornamental exuberante, apresentando 15 quadrelas desenvolvendo-se em torno do painel central, composto por figuração de anjos ao redor de uma custódia barroca. Possui 44 telas de Bento Coelho da Silveira, de finais do século XVII. Sabe-se que «contam a história de S. Cristóvão, falam de S. Francisco, de Santo António, dos jesuítas S. Francisco Xavier e Santo Inácio de Loyola, falam sobre o Céu», mas estão quase ilegíveis, aliás, tudo está em risco devido à infiltração de água pelo telhado.

Igreja de São Cristóvão, traseiras [c. 1900]
Rua da Achada
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 52, 1938.
cm-lisboa.pt.

Tuesday, 21 June 2016

Rua das Farinhas

 Os Corvos de S. Vicente


O olisipógrafo Norberto Araújo recorda-nos um pouco da história desta pitoresca Rua das Farinhas com início no Beco das Farinhas e fim no Largo da Rosa — no território da actual freguesia de Santa Maria Maior e que foi de S. Cristóvão e S. Lourenço — topónimo  que terá sido fixado na Lisboa seiscentista.

«Para o lado Norte (banda do Castelo) abrem as escadinhas — sempre escadas por aqui — que levam à Rua das Farinhas, a avenida do sitio, com é o seu Rossio que é o Largo da Rosa. Subamos.

Rua das Farinhas, 1 [c. 1910]
Junta de Freguesia de São Cristóvão e São Lourenço
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

É interessante êste conjunto de três prédios, ao centro da rua, os mais típicos da artéria e do sítio. O que tem os n.°' 22 a 26, com empena de bico, mostra uma pedra com um corvo [nº. 24], em relêvo, e uma legenda «Sam Vecête», vestígio do culto vicentino e da predilecção popular pelos corvos que acompanharam o corpo do Santo a Lisboa desde o Cabo Sacro.

Rua das Farinhas, 24 [c. 1900]
Pedra com um corvo
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O outro prédio, n.° 28 a 30 [32], mostra-nos um registo de S. Marçal *[vd. foto abaixo], dos mais antigos entre as centenas que Lisboa possue. O prédio seguinte, n.°* 32 e 34, é curiosíssimo: alto, esguio, «aguarelado» de si próprio, com seus canteiros de flores e a face da sua modéstia.

Rua das Farinhas, 22-32, prédio (nº 26) com empena de bico [c. 1900]
*O registo de S. Marçal encontra-se no nº 32 e não no  n.° 28 a 30 como refere o autor
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Por quanto tempo viverá isto? Eu não tenho, e tu também não, apêgo a estes versos soltos de redondilha urbanista; confesso porém que se amanhã por aqui passasse e isto já não existisse — tinha pena.» [1]

Rua das Farinhas, 22-32 [c. 1900]
Ao fundo, o Largo da Rosa e o Palácio Rosa
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

« Conserva o sítio de S. Cristóvão, no meio do seu encanto de pitoresco alfacinha, uma pedra esculpida que representa um corvo da nau da heráldica olisiponense. Tem este corvo movimento, pisar lesto e olho alerta; sobre a sua silhueta fina lê-se SÃM VECÊTE.
Neste muito alfacinha bairro de S. Cristóvão, vizinho da Madalena e da Mouraria, no sopé dos muros do Castelo, com os seus becos das Flores, os seus largos da Achada, de cazitas de andar de ressalto e janelas ogivais, e dos Trigueiros, fantasia do acaso urbanista, com a Rua das Fontaínhas e o Largo da Rosa — a pedra do corvo de S. Vicente do prédio de empena de bico, n.° 22 [n.º 24] da Rua das das Farinhas, é uma preciosidade de pitoresco.
Nada em Lisboa assim. Deve ter sido o prédio foreiro aos cónegos regrantes de Santo Agostinho. O foro passou; o corvo não. » [2]

Rua das Farinhas, 24 [c. 1950]
«Pedra com um corvo, em relêvo, e uma legenda «Sam Vecête»,
vestígio do culto vicentino e da predilecção popular pelos corvos
que acompanharam o corpo do Santo a Lisboa desde o Cabo Sacro»

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente


[1] ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 56, 1938.
[2] idem, Legendas de Lisboa, pp. 80-81, 1943.

Tuesday, 10 May 2016

Ermida do Senhor Jesus da Boa Nova

Aqui temos esta pequena Ermida do Senhor Jesus da Boa Sorte e Santa Via Sacra. Eu te digo.

Existia já antes de 1722 e durou até 1745, na Igreja velha dos Anjos, uma capela da Irmandade do Senhor Jesus da Boa Sorte, que transitou, depois daquela data, para uma Ermidinha de N. Sr.ª da Nazaré, na Rua das Olarias, existente junto à embocadura da Travessa da Nazaré de hoje.
Neste sítio erguiam-se umas cito casas de um legado pio do Convento de S. Bento de que era administradora uma Veríssima Caetano da Conceição; tudo estava em terra. A Senhora Veríssima doou então parte do terreno, cheio de entulho, à tal Irmandade, com a condição de que esta fizesse um andar sobre a sacristia para acrescentamento da casa doadora. Aí tens a razão porque — pode observar-se — o prédio da esquina está agarrado à Ermida. [Araújo. VIII, 1938]

Ermida construída no séc. XVIII (1744-1748),  riscada e delineada por Manuel da Costa Negreiros, para substituir uma pequena ermida da invocação de Nª Sra. do Rosário, pertencente à Congregação do Sr. Jesus da Boa Nova, localizada no Campo da Lã ao Terreiro do Trigo (antigo Cais do Carvão).
Manuel da Costa Negreiros (?-1750), Major de engenheiros e arquitecto da Casa do Infantado, executou a Torre do Relógio da Igreja da Graça, a porta da Igreja do Sacramento e o Palácio Barbacena

Ermida do Senhor Jesus da Boa Nova |c. 1910|
Rua do Jardim do Tabaco; Rua do Museu da Artilharia
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Em 1775, com a abertura da Calçada Nova — actual Rua do Museu de Artilharia para dar passagem à zorra que conduzia a estátua equestre de D. José I, o Reformador da Fundição para o Terreiro do Paço , a fachada desta ermida ficou enterrada em relação à rua e integrada no conjunto das fachadas, passando despercebida.
Tem três altares de linda talha dourada, e era administrada por uma irmandade secular com o titulo de Via Sacra. Tinha de rendimento duzentos mil reis e uma propriedade mística por não ter sido ficado danificada com o Terramoto.

Ermida do Senhor Jesus da Boa Nova |194-|
Rua do Jardim do Tabaco; Rua do Museu da Artilharia
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A ermida, típica do barroco joanino revela os indícios da Escola de Mafra, e dos elementos utilizados no Convento de Mafra, tais como os capitéis jónicos da fachada, as janelas elípticas e os óculos circulares, com a influência certa da arquitectura borrominiana. O corpo anexo da sacristia, outrora sede da confraria, lembra um solar seiscentista, com as suas janelas de sacada.

Ermida do Senhor Jesus da Boa Nova, fachada lateral, vendo-se a Cerca Fernandina formando as traseiras da ermida vista da Rua do Museu da Artilharia [1963]
Rua do Jardim do Tabaco; Rua do Museu da Artilharia
Arnaldo Madureira, 
in Lisboa de Antigamente

O muro do fundo da ermida é a própria muralha da Cerca Fernandina.

Cerca Fernandina, formando as traseiras
da ermida do Senhor Jesus da Boa Nova |c. 1949|

Rua do Jardim do Tabaco; Rua do Museu da Artilharia
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

Saturday, 23 January 2016

Palácio dos Duques de Cadaval

No extremo noroeste do Rossio existiam até c. 1880, o palácio, jardins e terrenos da Casa de Cadaval, dentro de um grande pátio na Rua do Príncipe (actual Rua 1º de Dezembro). Depois do Terramoto de 1755, em que foi completamente arrasado, foi reconstruido, ficando com a frente para a Rua do Príncipe (cf. 1ª foto), e a fachada principal voltada ao sul, para o Pátio do Duque (cf. 2ª foto), ou do Duque de Cadaval (v. Carta Topográfica). Foi demolido em 1880 para permitir a construção da estação do caminho de ferro do Rossio e do seu anexo, destinado originariamente a hospedaria e botequim.

Palácio dos Duques de Cadaval, Rua do Príncipe, actual Rua 1º de Dezembro [ant. 1880]
Estúdio Horácio Novais in Lisboa de Antigamente
Palácio dos Duques de Cadaval, Rua do Príncipe, fachada virada a Norte, actual Largo Duque de Cadaval [ant. 1880]
Estúdio Horácio Novais in Lisboa de Antigamente
Palácio dos Duques de Cadaval, Rua do Príncipe, fachada virada a Norte, actual Largo Duque de Cadaval [ant. 1880]
Estúdio Horácio Novais in Lisboa de Antigamente
Atlas da Carta Topográfica nº 36 de Lisboa de Filipe Folque, 1858, [fragnento]
Legenda:
- Vermelho: terrenos do palácio, jardins virados a Norte
- Azul: fachada principal voltada a Sul, para o Pátio do Duque, ou do Duque de Cadaval
- Verde: frente para a Rua do Príncipe (v. 1ª foto)
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