terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Café Chiado

O Café Chiado, nos n.°* 58 e 60, sucedeu a uma Livraria Portugal-Brasil, cujo estabelecimento, neste sítio, por sua vez sucedera à Chapelaria de Augusto Ribeiro. O mais interessante do Café Chiado não está no seu presente, mas no passado remoto. É que foi aqui o celebrado Café Marrare «do Pulimento», fundado por António Marrare (...) [1]

 

   Corria então o ano de 1925 — escreve Mário Costa no seu Chiado pitoresco e elegante. Depois da inevitável interrupção para as sucessivas obras de reconstrução e embelezamento, os célebres vãos de portas, números 58 e 60, com outro sistema de arquitectura, e lá dentro uma nova marcenaria, voltaram a abrir-se, para acolher outro público, de características bem diferentes. Apareceu o Café Chiado, que a escritura social de 6 de Maio especificadamente denominou Café Chiado, Ld.ª. O seu parecer mostrou-se sempre carregado, de ar pacato, talvez sensaborão, sintomas que um quarteto musical procurava alterar, proporcionando aos clientes contínuos acordes de boa música, à hora dos almoços e durante a noite, passatempo que, numa volta do calendário, se extinguiu penosamente. 
   Em grande parte, os frequentadores do Café Chiado eram estudantes de cursos superiores. Com a simples bica e o complementar copo de água à sua frente, justificavam a sua demorada presença, rodeados de calhamaços, e iam engrolando uns tantos palavrões que o estudo da anatomia impunha conhecer, ou enchendo quartos e quartos de papel com os cálculos matemáticos que a Ciência ordena e o Mestre não dispensa. 

Café Chiado [1929]
Rua Garrett, 58-60

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

   À porta, juntavam-se uns grupos de tagarelas. Rapaziada de sangue na guelra, olhando para as pequenas, a quem dirigia dichotes, e uma roda de intelectuais, que deixaram grande saudade. 
   Era esse o ponto preferido pelo sentimental Bourbon e Meneses, que aí passou os seus últimos e tristes dias. Um tal espírito, que não parecia terreno, classificava-o Aquilino, uma «alma tão galharda e fina de sentimentos e de têmpera». Acrescentou, o ilustre escritor: «Às segundas e terças, era certo no vão da porta ocidental (...), de cutelo para a rua, lançando as suas anedotas com esperto sainete e ouvindo as larachas da roda (...). Despedia-se do Chiado, a rua ali ciadora em seu recato e até na sua incrustada pasmaceira elegante; despedia-se de modo geral da cidade que tanto amou, lhe recebeu o livro carinhoso Sua Graça (...) pelo qual viria a ser galardoado tão justamente com o prémio camarário».

Café Chiado [1939]
Rua Garrett, 58-60

Eduardo Portugal, in AML

   Dentro do ano de 1963, o Café Chiado acentuou a sua decadência. Em pleno Junho, os jornais chamavam a atenção para o estado caótico do alpendre exterior; e, em Novembro, já os periódicos noticiavam, com grande surpresa dos lisboetas, o próximo encerramento do estabelecimento, facto que se confirmou no dia 27 de tal mês, um tanto precipitadamente, para evitar o completo desaparecimento de toda a utensilagem em serviço, levada pelos clientes, como gratos souvenirs.
   O leilão teve início em 4 de Dezembro. Nada escapou à rasoirada, incluindo as duas grandes telas que guarneciam as paredes de outras tantas salas: «O Festim Antigo», de Fernando Santos, e «Interior de Casino», de Carlos Neves.  
   Dos últimos contemporâneos, conservaram-se fiéis, até à hora derradeira, os escritores José Gomes Ferreira, Augusto Abelaira, Alexandre Pinheiro Torres, Alves Redol, Manuel Ferreira, José Cardoso Pires, Alexandre Cabral, Fernando Namora e Rogério Fernandes. [2] 

Café Chiado, aspecto da entrada [1929]
Rua Garrett, 58-60

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia

[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 95, 1939)

[2] (COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 148-149, 1987)


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