quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Profissões de antanho: o trapeiro

Coêvo dos ferros-velhos e dos cães vadios   —  diz Alfredo Mesquita  —  a que a Providencia confiou por muitos annos em exclusivo privilegio a missão hygienica de devorar, com uma ou outra barriga de perna ao viandante, as imundícies esparsas nas estreitas e empinadas ruas da Mouraria e de Alfama, o trapeiro de Lisboa encarrega se de levantar e recolher da via publica o que nella sobeja da voracidade dos rafeiros. Por um complicado desenvolvimento de transações subsequentes, exerce elle a sua industria separando, classificando e vendendo em cada manhã a colheita de cada noite. 

Rua Castilho [1912]
Nota: O local não se encontra identificado no arquivo
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nessa coleção entra tudo ou quasi tudo o que a vida de uma cidade segrega pelo monturo como documento da sua historia intima: os ossos descarnados, as flores murchas, as porcelanas quebradas e os vidros partidos dos seus banquetes; as botas arrombadas, os chinelos moídos e os farrapos despegados da sua indigência; a renda desfeita, a joia desengastada, o dinheiro perdido dos seus ébrios, dos seus batoteiros e das suas cortezãs; as lentejoilas caídas do ouropel dos seus histriões e dos seus saltimbancos; os manuscritos inutilisados dos seus lettrados e dos seus poetas; os fragmentos das suas cartas de empenho, de negocio e d’amor; mil restos, finalmente, anonymos, truncados, confundidos, de obscuras tragédias, de ignorados martyrios, de acerbas lutas, de ardentes paixões, de inveterados vicios, de lindos madrigaes ou de inocentes idilios.

Travessa João Vaz [1961]
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Como typo popular, o trapeiro foi, em tempo que não vae longe, característico entre os mais característicos. Na incerteza de encontrar sempre pelas ruas da capital alimento ao seu principal negocio, o trapeiro acumulava com elle a magra industria da venda de mechas a retalho. Veio o fosforo, e matou ainda este inocente e pouco lucrativo commercio. Quando a industria do trapeiro prosperava, e as imundícies fertilisadoras da capital não achavam ainda quem as arrematasse em publico leilão, o trapeiro era também negociante. O trapeiro fez-se arrematante do espolio dos finados do Hospital! Era a miséria traficando com a túnica de Job ! Ao fundo, como scenario d’este grande drama de abandono, surgia a Feira da Ladra, o sorvedouro insaciável de todas as relíquias, a exposição cosmopolita de todos os infortúnios . . .

Avenida 24 de Julho [ant. 1908]
Ao fundo, o jardim do Largo de Santos
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MESQUITA, Alfredo. Lisboa, pp. 356-357, 1903.

domingo, 18 de novembro de 2018

Avenida da República, 19: «Casa Xangai»

A Casa Xangai — baptizada em homenagem à cidade oriental homónima —, abriu portas em 1931 como alfaiataria de sedas e algodões da China e só em 1953 foi adquirida por Caetano Soares da Fonseca. Desde então, conserva-se na família. Do projeto inicial manteve-se o interior da loja e as fabulosas montras Art Déco assinadas pelo arq.º Norte Júnior, mas mudou-se-lhe a vocação. De alfaiataria passou a loja dedicada a artigos para recém-nascidos devido à sua localização mesmo em frente à antiga maternidade ProMater.
A Casa Real de Bragança, bem como outras Casas Reais do norte da Europa, renderam-se à Casa Xangai. Entre os clientes célebres encontra-se ainda a mulher do Presidente Óscar Carmona, que, segundo consta, só queria comprar peças com defeito, de forma a obter desconto.

Avenida da República, 19 [1967]
«Casa Xangai»
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Avenida da República, 47D-47F: «A Enceradora»

Foi em 1927 na Avenida da República, 47 — paredes-meias com o edifício Prémio Valmor de 1923 — em pleno Centro de Lisboa, que «A Enceradora» iniciou a sua actividade. Na grande Exposição Industrial Portuguesa de 1932 e 1933 foi premiada com a medalha de ouro. Com o sucesso dos produtos, verificou uma forte expansão que levou no início da década de 40 a mudar para novas instalações, na estrada das Laranjeiras, mais adequadas ao elevado nível de produção. Foi também nesse período que se procedeu a uma alteração de Gerência que introduziu técnicas mais avançadas de produção, assim como novos métodos de gestão, que ajudou a empresa a atravessar o período da difícil 2ª Grande Guerra Mundial.
p
Avenida da República, 47D-47F [1932]
«A Enceradora»
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente
A Enceradora, pub. 1943
Avenida da República, 47D-47F 
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Palácio do Conde Barão de Linhó: a «Casa dos Fantasmas»

Ali tens, contíguo à Escola Machado de Castro — recorda-nos Norberto de Araújo — um palácio, n.° 21-27, hoje [1939] habitado pelo Barão de Linhó, filho do Marquês da Praia, e irmão do falecido Duque de Palmela, e que no cunhal nascente, dentro do pátio nobre, apresenta, um brasão armoriado; é a representação nobre setecentista transfigurada do sítio.

Palácio do Conde Barão de Linhó [c. 1910]
«Casa dos Fantasmas»
Palácio do aéc. XVII sito na Rua Saraiva de Carvalho, 19-29 tornejando para a Rua de Santa Isabel, 91
 
Josshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Foi esta a famosa Casa dos Fantasmas, onde o povo dizia que andavam «espíritos» à solta, o que deu origem a folhetins e a novelas fáceis.

Palácio do Conde Barão de Linhó [c. 1910]
«Casa dos Fantasmas»
Palácio do aéc. XVII sito na Rua Saraiva de Carvalho, 19-29 tornejando para a Rua de Santa Isabel, 91
 
Josshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 64, 1939.

domingo, 11 de novembro de 2018

Rua da Boavista: antigo Instituto Industrial

Hemos chegado novamente à Boa Vista — diz Norberto de Araújo — onde há pedaço estivemos discorrendo acerca da Casa da Moeda, e conhecendo tu, Dilecto, a origem do nome do sítio — projecção toponímica do Alto da Boa Vista ou seja do Alto do Belver ou Belveder (Alto de Santa Catarina) — cumpre-me mostrar-te objectivamente o que nos surge deante dos olhos, e muito não será.
Não quero deixar de observar-te que as edificações desta artéria da Boa Vista, do lado Sul, não levam cem anos. [...]

Rua da Boavista |1926-05-10|
Antigo Instituto Industrial (esq.)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda da imagem no arquivo: «A catástrofe da ilha do Faial. O bando precatório na Rua da Boa Vista»

Aí tens o edifício do antigo Instituto Industrial, que fora fundado em 1852, anexando-se-lhe em 1869 o ensino comercial. Foi depois aqui o Instituto Superior Técnico, há meia dúzia de anos instalado, magníficamente, no Arco do Cego, e com certeza a mais importante edificação pedagógica de Lisboa. A Rua do Instituto Industrial deve o seu nome ao estabelecimento de ensino público que lhe ficava vizinho, pelo nascente. Corria ali, até 1865, o Boqueirão da Palha; nesse ano se fêz a artéria nova e se lhe deu o nome que hoje tem.

Vista aérea das instalações do Instituto Industrial |c. 1900|
Rua da Boavista; Rua do Instituto Industrial
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 75-80, 1939.

sábado, 10 de novembro de 2018

Rua de Dom Vasco esquina com a Travessa das Florindas

Ambos os topónimos pertenciam ao antigo e extinto Concelho de Belém e como o edital de 1916 indica, passaram a pertencer ao concelho de Lisboa: «tendo em consideração o justo pedido da Junta de freguesia da Ajuda, sobre a nomenclatura das ruas da mesma freguesia e que não existe no arquivo municipal documento algum pelo qual se possa certificar a data da denominação das referidas vias públicas, que pertenceram ao extinto Concelho de Belém, visto que quando da sua anexação ao de Lisboa não foi entregue a escrituração comprovativa das deliberações referentes a essa nomenclatura.» 

Rua de Dom Vasco, esquina com a Travessa das Florindas |c. 1943|
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Dom Vasco da Câmara Belmonte (1767/1830) foi o primeiro Conde de Belmonte, título que lhe foi concedido por portaria de 18 de Maio de 1805 por D. João, príncipe regente. Fidalgo da Casa Real, foi morgado de Ota, de Belmonte e de Santo André, Par do reino, porteiro-mor da Casa Real e gentil-homem da Câmara de D. João VI. [cm-lisboa.pt]

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Maternidade Alfredo Costa

Merece-nos uma referência a Maternidade Dr. Alfredo Costa, instituição pública de beneficência, cujos serviços são relevantes.


A iniciativa da construção desta Maternidade vem de 1908. Só em 1914 se nomeou uma comissão para fazer erguer o edificio, que teria o nome do grande médico, professor de obstectricia, Dr. Alfredo da Costa, sendo votada a verba de 250 contos. A guerra obrigou a suspender a obra. Mais tarde, por um donativo de 1.500 contos feito pelo benemérito Pais Rovisco, e, seguidamente, com uma dotação especial de 3.600 contos estabelecida pelo Ministro das Finanças, Dr. Oliveira Salazar, foi possivel concluir o grande edificio, com quatro corpos e três pavimentos, cuja entrada principal assenta na Avenida Cinco de Outubro, confluência das Ruas Pinheiro Chagas e Viriato.
A inauguração desta Matemidade realizou-se em 31 de Maio de 1932. Foi primeiro Director desta instituição o Dr. Augusto Monjardino.

Maternidade Alfredo Costa [1967]
Panorâmica tirada do antigo Aviz Hotel  vendo-se a Maternidade Dr. Alfredo da Costa e a Avenida Cinco de Outubro,
Ruas Viriato e Latino Coelho
João Brito Geraldes, in Lisboa de Antigamente

Em frente da Maternidade, numa pequena praça cu eirado triangular da Avenida Cinco de Outubro, se projectou erguer um monumento a António José da Silva, «o Judeu», escritor de comédias do século XVIIl, e que a Inquisição queimou em 1739; a idéia não prosseguiu e não vemos que se pretenda renová-la.

Maternidade Alfredo Costa [1931] 
Rua Pinheiro Chagas com a Rua Viriato
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p.81, 1939.

domingo, 4 de novembro de 2018

Rua do Arco do Carvalhão

Antes de ser do «Arco do Carvalhão» a rua chamava-se «do Sargento-Mór». [...] — recorda-nos Norberto de Araújo. Mas nós estamos no Arco do Carvalhão — sob dois Arcos enormes do Aqueduto. Terrenos eram estes de Sebastião José de Carvalho e Melo, ainda antes de êle ser Pombal e Oeiras, e estendiam-se, ultrapassando a actual Rua das Amoreiras, no lanço da Cruz das Almas para cima, até à actual Rua Marquês da Fronteira [...] O «Carvalhão» era então o futuro Marquês de Pombal, e do apelido derivaram os nomes da Rua actual [...]

Rua do Arco do Carvalhão [1947]
Aqueduto; Chafariz do Arco do Carvalhão; Alto do Carvalhão (esq.)
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Esta Rua do Arco do Carvalhão — recorda o Grande enciclopédia portuguesa e brasileira — passa sob um robusto e curioso viaduto [inaugurado a 28 de Maio de 1944] que serve de suporte à auto-estrada no sítio conhecido por Sete Moinhos. Segue a rua até ao alto de Campolide com comunicações para S. Sebastião da Pedreira.

Rua do Arco do Carvalhão [1959]
Viaduto da Avenida Duarte Pacheco ou do Arco do Carvalhão. Rua Maria Pia (esq.)
 Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 79.1939.

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