Sunday, 18 March 2018

Palácio Regaleira, a S. Domingos

No quarteirão entre as eEscadinhas da Barroca e a Calçada do Garcia, ali tens o prédio, n.º 14 a 15 com sete portas, que foi o Palácio Regaleira, propriedade no meado do século passado [séc. XIX] de D. Ermelinda Monteiro [Allen] d'Almeida, baronesa e viscondessa da Regaleira, título que passou e se mantém nos Morais Palmeiro; êste prédio pertenceu a Francisco de Sousa Cruz, em 1915? passou por compra a Artur Aires, e hoje [1939] é da Companhia dos Tabacos.

Existiu aqui um clube de jôgo e de prazer, imprôpriamente chamado "Clube Regaleira".¹


O registo mais antigo que se encontra sobre este edifício remonta a 28 de Outubro de 1814, no qual a localização do palácio é descrita no Registo de Descrições Prediais. A localização privilegiada do Palácio Regaleira numa zona nobre, central e movimentada da cidade, próximo do Rossio e no mesmo Largo da Igreja de São Domingos fez com que este mantivesse a sua centralidade relativamente ao espaço e vida urbana ao longo dos tempos.
Os dados precisos sobre a autoria e data de construção do edifício são desconhecidos. Vários autores sugerem tratar-se de uma edificação do século XVIII, provavelmente anterior ao terramoto de 1755. Segundo José-Augusto França, em gravuras anteriores a essa data, surge representado no mesmo local um edifício que apresenta grandes semelhanças com o actual: um prédio de três pisos, com a fachada principal virada a sul, de arquitectura sóbria e disposição simétrica de portas e janelas, que ocupam de forma regular grande parte da frontaria. É provável que o edifício tenha entrado na posse da família Allen em período anterior ao de D. Ermelinda Allen Monteiro d’Almeida, a primeira viscondessa da Regaleira, que teria herdado o Palácio dos seus pais e empreendido os trabalhos de remodelação entre 1835 e 1842, conferindo ao edifício a sua traça actual.

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
Mário Novais, in Biblioteca de Arte F.C.G.

A vida social de grande ostentação e as festas sumptuosas dadas nesta época pela baronesa e viscondessa da Regaleira no seu palácio lisboeta são-nos descritas por Fialho de Almeida:
«A primeira foi em 4 de Março de 1842, e Paulina de Flaugergues aponta-a como uma das mais belas e animadas da estação. Estiveram cerca de mil convidados, e era notável a porção de mulheres bonitas que se encontrava nos salões. A ornamentação da casa em pouco ou nada fora alterada a mais do que costumava ser nos dias ordinários. O palácio de madame Monteiro d’Almeida era um verdadeiro museu de coisas de arte e de elegância, e arcava em gosto e riqueza com a residência dos Palmelas, dos Fronteiras, dos Atalaias, e dos viscondes de Porto Covo […] No pátio da casa, em que tocavam três bandas de regimento, fora improvisado um jardim com laranjeiras, pritchardias e camélias, sob uma tenda de seda, às riscas multicolores, esticada e, lanças e albardas, que aprumavam de roda, mais de catorze ou quinze estátuas de guerreiros.»²

Em 1901 — após ter saído em definitivo (1898) da posse da família Allen — está instalado no Palácio Regaleira o Teatro Eléctrico Mágico. A partir do ano seguinte, funciona nesse edifício o Liceu de São Domingos, um desdobramento do Liceu do Carmo. Segundo o olisipógrafo Appio Sottomayor, terá aí funcionado, pouco tempo antes da implantação da República, a sala de cinema Rossio Palace, na qual se realizam, para alguns espectadores escolhidos e pagantes, sessões especiais com filmes pornográficos que têm lugar pela noite fora49. Já João Paulo Freire refere nas suas memórias «uma exposição-museu de figuras de cera, com uma secção reservada a doenças venéreas» que teria estado no Palácio Regaleira em 1918, aproximadamente.³

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
No início do séc. XX esteve aqui instalada sala de cinema Rossio Palace
Mário Novais, in Biblioteca de Arte F.C.G.

No mesmo edifício funciona ainda um estabelecimento comercial denominado Vaccaria de S. Domingos e um hotel. A 24 de Março de 1919 o prédio foi vendido à firma Arthur Adriano Ayres, Lda. Este dado, retirado dos Registos Prediais, contradiz a data de transição da propriedade do imóvel que nos é dada por Norberto Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa como se pode ler logo no inicio desta publicação: «em 1915? passou por compra a Artur Aires».

Palácio Regaleira [1910]
Na esquina do Largo de S. Domingos com as Escadinhas da Barroca, observa-se a Vaccaria S. Domingos
António Novais, in AML

























No que respeita ao Regaleira Club — também mencionado por Norberto de Araújo como Clube Regaleira — há notícia do seu funcionamento entre 1920 e 1922. Contudo, este poderá ter aqui funcionado antes da data indicada. Entre Fevereiro e Maio de 1917 estaria, a julgar pelo nome, aí já instalado o Club Palácio da Regaleira, que pagava ao Governo Civil de Lisboa a devida licença para prolongar, todas as noites, as suas diversões para além da meia-noite. Não foi no entanto possível apurar se este seria ou não o mesmo estabelecimento conhecido por Regaleira Club em 1920. O seu encerramento em 1923 parece ser consensual.
Com a sua instalação no Palácio Regaleira e a adopção do nome deste para sua própria denominação, este clube nocturno procurou claramente beneficiar do estatuto alcançado e difundido na época da baronesa e viscondessa da Regaleira, aproveitando do edifício a aura que ainda prevalecia de festas sumptuosas e luxuosas.

«A monumental escada» e «A majestosa sala do “Regaleira Club”»
Efeitos da Guerra», ABC, 7 de Julho de 1921 [fotografias de Serra Ribeiro]

O palácio é vendido à Companhia de Tabacos de Portugal, que compra o imóvel pelo montante de 1.303.000$00 em escritura de 14 de Novembro de 1923.
Os inquilinos multiplicam-se e sucedem-se: um Armazém de Roupas Nogueira Viegas Lda.; a Fotografia Electro Rápida, de Brito Gago Justel; um estabelecimento de instrumentos musicais, de Larcher Castelo Branco, um estabelecimento comercial de artigos de malha, de José Esteves de Almeida; a Empresa Portuguesa de Instalações Eléctricas, Lda.; um estabelecimento de comércio de fruta e um outro de peixe, de Maria Fernandes de Almeida; o Bazar Universal, de Orlando Silva. Por estes anos está também instalada no Palácio Regaleira a Casa das Beiras, instituição de carácter regional que organiza festas e récitas.
No final da década o edifício encontra-se em adiantado estado de degradação: «O palácio estava em mísero estado. Parecia um chavascal. Soalho esburacado, paredes sujas, portas escangalhadas, um pavor.»
Em 1933 a Companhia dos Tabacos arrenda à Ordem dos Advogados o 1.º andar do edifício, que inicia obras de recuperação no palácio. A nova sede da Ordem dos Advogados só é inaugurada em cerimónia solene a 24 de Maio de 1939. Finalmente, a 26 de Janeiro de 1960, a Companhia dos Tabacos de Portugal vende o Palácio Regaleira à Caixa de Previdência da Ordem dos Advogados e Solicitadores pelo preço avultado de 11.000.000$00.
Tudo leva a crer que a traça arquitectónica exterior do edifício se tenha mantido igual desde meados do século XIX, altura em que se realizaram os amplos trabalhos de remodelação. Já o interior do Palácio terá conhecido múltiplas e significativas intervenções, em resultado dos numerosos inquilinos e das diversas actividades que ali tiveram lugar.
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 81, 1939.
² Fialho de Almeida, Vida Errante, pp. 334-335, 1925.
³ João Paulo Freire, Lisboa do meu tempo e do passado, Lisboa, J.P. Freire, 1931-1939, p. 10-11.
Cecília Santos Vaz, Clubes nocturnos modernos em Lisboa: sociabilidade, diversão e transgressão (1917-1927), Palácio Regaleira, pp. 76-81, 2008.

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