domingo, 28 de maio de 2017

Estátua equestre d'el-rei D. José I na Praça do Cavalo Preto

A estatua equestre d'el-rei D. José I — noticiava o semanário illustrado Archivo Pittoresco em 1859 —, erigida na vasta praça do Commercio, é incontestavelmente, em que peze a estrangeiros e estrangeirados, um monumento de que Portugal se pôde ufanar, que poucos ou, talvez, nenhum rival, neste genero, tem no mundo, e que honra altamente o talento dos que a conceberam e executaram, acreditando os nossos progressos nas artes.  [1]


E surgiu então — relembra-nos Norberto de Araújo — um Terreiro do Paço novo. Espalmou-se aqui, no chão que fôra o «espalmadeiro» dos séculos XIV e XV — a mão de Pombal. E Eugénio dos Santos delineou a praça nova, ordenada por decreto de 16 de Janeiro de 1758. (...)
A «Black Horse Square» (Praça do Cavalo Preto), como dizem os ingleses, é, talvez, a mais imponente praça pública da Europa. Quanto à Estátua Eqüestre data de 1775.
Estamos deante do mais belo monumento consagratório de todo o país — prossegue o ilustre olisipógrafo, glórianão de D. José ou do Marquês de Pombalmas de Joaquim Machado de Castro.

Estátua equestre d'el-rei D. José I  [c. 1870] 
Terreiro do Paço, actual Praça do Comércio; Castelo de S. Jorge e a Sé em fundo
Francesco Rocchini, in BNP

Joaquim Machado de Castro, lente de escultura e estatuária, que já tinha cinqüenta anos quando realizou esta notável obra — êle, o barrista peregrino dos presépios — foi um artista de intuição, desenvolvido na escola de Mafra, onde, ajudante do escultor Alexandre Giusti, revigorou a sua cultura, preparando-se para maiores destinos.
O monumento não lhe saiu de um jacto, como o bronze liquido da Estátua; o artista estudou, duvidou, trabalhou, persistiu. O primeiro modêlo fê-lo [em gesso] em fins de Dezembro de 1770, e, depois, mais dois em Março de 1771; foi encarregado da obra em Julho dêsse ano, e em Outubro lançou-se à emprêsa. Dois anos depois, precisamente, começaram os trabalhos de fundição, concluídos na manhã de 15 de Outubro de 1774; a Estátua fôra fundida em oito minutos, nas oficinas da Fundição de Cima (antiga Fundição de Canhões).
Estátua equestre d'el-rei D. José I, face norte, baixo-relevo  [c. 1895] 
Grupo escultórico do lado direito do monumento, representa O Triunfo.
Praça do Comércio (Antigo Terreiro do Paço)
Fotógrafo não identificado, in AMLv

Na madrugada de 22 de Maio de 1775 começou a condução da estátua colossal desde Santa Engrácia, pela Rua do Paraíso, pela Rua (aberta de propósito) do Museu de Artilharia e pela Rua da Alfândega até êste Terreiro do Paço; organizou-se um imponente cortejo que desfilou entre alas de tropas de linha, cortejo que teve qualquer cousa de medieval pela grandeza, pelo brilho, até pela originalidade. A zorra conduzindo a Estátua chegou aqui no princípio da tarde de 25 — levou três dias e meio no trajecto —, e a admirável obra de Machado de Castro foi colocada, onde a estás vendo, na manhã do dia 27, ficando coberta por um invólucro de seda carmezim. A inauguração efectuou-se a 6 de Junho de 1775, e as solenidades, espectáculos e festas que se realizaram então foram das de maior esplendor da história de todos os tempos. 

Zorra, Museu Militar [1927] 
A zorra concebida por Bartolomeu da Costa que transportou para o Terreiro do Paço a estátua de D. josé I
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Coloquemo-nos em frente do monumento, que muito se valoriza no ambiente da Praça. O fundo natural norte é-lhe dado pelo Arco Triunfal, num cenário a que o Castelo, no alto longínquo, e a Sé, na sua silhueta superior, imprimem semblante histórico; defronte desenrola-se o estuário azul do Tejo, desafogado e alegre. 
O monumento favorecido pela situação ganha assim imenso, orgulhoso na vastidão do Terreiro.
A proporção nos elementos é, como facilmente anotas, um dos méritos dêste monumento. Não se dirá que o bloco de bronze de uma patina glauca que o enobrece, tem sete metros menos sete centímetros de altura e 29.371 quilos de bronze útil. Seria necessário colocarem-se quatro homens uns sôbre os outros em vertical para darem o tamanho da Estátua. O monumento mede 14 metros de altura.

Estátua equestre d'el-rei D José I e o Arco da rua Augusta [Início séc.. XX]
Praça do Comércio (Antigo Terreiro do Paço)
Grupo escultórico do lado esquerdo do monumento, representa A Fama.
Augusto Bobonee, in AML

Na frente do fuste, e sob uma escultura com as armas reais de D. José, ali vês o medalhão do Marquês de Pombal, que foi retirado dêste lugar logo em 1777 para só ser repasto novamente em 1833.
Por tal sinal-conta-se-que o grande Marquês, ao darem-lhe a noticia, observou entre irónico e resignado: «Ainda bem; o retrato não se parecia nada comigo...». A inscrição latina na base do pedestal exalta as virtudes do Rei.
Agora dêmos volta ao monumento, pela direita; ali tens a alegoria escultórica «O Triunfo› representado num grupo, em vulto, no qual se marcam uma figura que conduz um cavalo pisando aos pés os inimigos, avançando outra que conduz a palma da vitória; a alegoria, em baixo relêvo, na face norte do pedestal, em frente ao Arco da Praça, representa a «Generosidade Régia» erguendo a Cidade dos escombros do Terramoto, ou, segundo outras divisas, «Lisia desmaiada», ou seja Lisboa vencida pelo Terramoto, enquanto o govêmo da Nação a ajuda a erguer-se da ruína; o grupo escultórico da esquerda do monumento não é menos belo que os seus similares: dâ-nos a «Fama», com a sua tuba sonora, vendo-se as figuras de um homem prostrado e de um elefante.

Estátua equestre, em bronze, do rei D. José I
Gravura em cobre de Carneiro da Silva, 1774, executada antes da inauguração
Na frente do fuste, as armas reais de D. José  e o medalhão do Marquês de Pombal
reposto em 1833 conforme se lê na inscrição abaixo do busto
Museu de Lisboa

Se, peça por peça, desde a figura do Rei a cavalo, até ao pedestal, com seus grupos e esculturas, o monumento realça como uma grande peça de arte-é o seu conjunto, equilíbrio e nobre simplicidade que constituem o seu mérito. [3]

Baixo relevo de Machado de Castro, que está colocado no monumento do lado Norte (2ª foto)
Gravura, 1795

O monumento exibe na face oposta do pedestal (face Norte, vd. 2ª foto) uma alegoria de Machado de Castro em baixo-relevo à Generosidade régia (vd. Gravura, 1795), traduzindo o empenho do monarca na reconstrução da cidade destruída pela Terramoto.

Nota(s): Para saber mais sobre este magnifico monumento e o o seu autor, mestre Joaquim Machado de Castro, pode assistir a pequeno filme no n/ sítio do Facebook apresentado pelo escultor Lagoa Henriques e produzido pela RTP em 1971.

Bibliografia
[1] Archivo Pittoresc: semanario illustrado, p. 41, 1859) 
[2] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 23-25, 1939)
[3] (cm-lisboa.pt)

2 comentários:

  1. Sempre que aqui venho aprendo qualquer coisa. Parabéns por este excelente blogue.
    João Freitas Branco

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  2. A estátua é magnífica. Já tive ocasião de estar junto ao modelo (tamanho real) em gesso, aquando uma exposição (Páteo da Galé) relacionada com a Lisboa de antes e após o terramoto.

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