sábado, 26 de novembro de 2016

Palácios do Calhariz: Palácio Calhariz-Palmela e Palácio Sobral

O Largo do Calhariz é um troço da seiscentista Estrada da Horta Navia, também denominada Estrada de Santos e este topónimo deriva da existência no local da residência dos Morgados do Calhariz, conforme relata Norberto Araújo:

   Encontramo-nos na artéria conhecida em tôda a Lisboa pelo «Calhariz», rua e sítio dêste título, e que tem origem no Palácio dos «Sousas Calharizes», como diz o vulgo e como se encontra em livros antigos. É este edifício, à direita, com um pequeno jardim adjacente, e que ocupa todo o quarteirão confinado entre as Ruas do Calhariz, da Atalaia, Travessa das Mercês e Rua da Rosa.
   Oferece, como vês, um certo ar nobre, de transição do estilo solarengo velho para o tipo palaciano do século XVIII. É elegante o portão ladeado por duas colunas dóricas, cujo entablamento suporta a varanda de balaústres, única sacada do primeiro andar. As sete janelas de sacada de cornija saliente do andar nobre, que é o segundo, dão ao prédio uma harmonia e distinção invulgares aos edifícios desta construção. O pequeno jardim é gracioso e foi construido depois de edificado o palácio, ocupando o lugar de uma serventia que daqui saía, e que erra o prolongamento da Rua da Trombeta, que ainda se continua nas traseiras até a Fiéis de Deus, serventia vendida pela Câmara de Lisboa a D. Pedro de Sousa Holstein. por um conto de réis...

Palácio Calhariz-Palmela [ant. 1900]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do Calhariz;Rua da Rosa (ao fundo à dir.)

Fotógrafo não identificado, in AML

O palácio foi mandado erigir em 1703 pelo Morgado do Calhariz, D. Francisco de Sousa (1631- 1711). O edifício, além de moradia ducal — relembra Norberto de Araújo (1938) — tem sido de tudo um pouco: aqui esteve a Academia Real de Fortificações que precedeu a Escola do Exército e Escola Militar, em 1796 e em 1811, a Câmara Eclesiástica até 1830, a Contadoria Greal das Tropas, o Ministério dos Estrangeiros (em 1882), a Liga Naval até há poucos anos [o autor escreve em 1938], etc., ocupando quaisquer destas instituições parte do edifício, ou, por vezes, talvez todo.
Festas deslumbrantes viu o Palácio desenrolar-se nos salões, cujo recheio de arte era precioso.

Palácio Calhariz-Palmela [1929]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do Calhariz;Rua da Rosa (ao fundo à dir.)

Ferreira da Cunha, in AML

Sofreu restauros e ampliações em 1843-44 dirigidas pelos artistas italianos Rambois e Cinatti,  e uma anexação ao Palácio Sobral em 1956, destruindo as obras oitocentistas (jardim e pavilhão), prolongando o corpo principal do edifício até á Rua da Atalaia, depois de em 1947 os Morgados do Calhariz, entretanto criados Duques de Palmela, o terem vendido à Caixa Geral de Depósitos para lhe servir de sede. Em 1969 está em curso a obra do passadiço sobre arco (sobre a Rua da Rosa) de ligação entre os dois palácios.
Sofreu obras de recuperação em 1997 com projecto dos arqs. Dante Macedo, Conceição Macedo e José Afonso, para albergar a Companhia de Seguros Fidelidade, o que lhe valeu a atribuição do Prémio Eugénio dos Santos referente a esse ano.

Palácio Calhariz-Palmela onde está a Caixa Geral de Depósitos,  e, ao fundo, o Palácio Sobral [1966]
Largo do Calhariz; Rua da Atalaia; Travessa das Mercês; Rua da Rosa; Rua Luz Soriano

Armando Serôdio, in AML

Acerca da história do primitivo Palácio Sobral [vd. 4ª imagem] diz Norberto de Araújo: «Reconstruído modernamente — fôra levantado entre 1770 e 1780, por Joaquim Inácio da Cruz Sobral, de quem descenderam os Condes de Sobral, que, para erguer o palácio, comprou o velho prédio aqui existente, pertencente a Lázaro Leitão Aranha, rico e erudito Principal da Sé, que nele fêz reünir a famosa Arcádia em 1764.»
Outro ilustre olisipógrafo — mestre Júlio Castilho — apresenta uma descrição pormenorizada do antigo palácio do século XVIII na sua Lisboa Antiga (1903):

   Formava o palácio um vasto paralellogrammo, com a frente principal de 130 palmos (uns 29 metros e tanto) sobre a Rua Direita, ou Largo do Calhariz, a opposta sobre a Travessa das Mercês, a occidental sobre a Rua do Carvalho [hoje Luz Soriano], e a oriental sobre a [Rua] da Rosa.
   A fachada sobre o Calhariz era dividida em tres corpos, sendo os lateraes separados do central por pilastras correspondentes ás dos cunhaes, e terminando ambos em feitio de torres sobrepojadas de mirantes elegantíssimos.
   No corpo central dois grandes portões de entrada ornamentados, e por cima duas filas de sacadas, sendo mais nobres e altas as do andar superior.
Na aresta dos dois cunhaes viam-se as Armas, que eram: escudo cortado; o i.° de azul, cinco estreitas de seis pontas, de oiro, postas em cruz; o 2.º de prata ondado de azul; bordadura de vermelho, com as palavras Nomen honorque meis em lettras de oiro. Elmo; timbre: cão de prata com colleira de vermelho, e chave de oiro na bocca.
   Os portões abriam para duas vastas lojas em forma de corredores, que ambas desembocavam no grande pateo, onde as carroagens davam volta, entrando por um portão e sahindo pelo outro.
   Ao fundo d'esse pateo, no interior da parte do edifício que deitava para as Mercês, ficava a entrada monumental de quatro degraus conduzindo aos vinte e dois da escadaria, bifurcada para a direita e para a esquerda em dois outros lanços, que levavam ao andar nobre, onde eram as salas.

Gravura do Palácio Sobral, no Calhariz [séc. XVIII]
in Lisboa Antiga (1903)

Em 1887, o Palácio Sobral é adquirido «por 50 contos e pico» pelo Estado para instalação da Caixa Geral de Depósitos, e de imediato, se iniciam obras de recuperação e remodelação. Em 1969, depois de uma reconstrução total, procede-se à uniformização das fachadas e efectua-se a ligação por arco dos dois palácios — Calhariz-Palmela e  Sobralhoje Edifício da Caixa Geral de Depósitos, CGD, do Calhariz.

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 22-26)
 (Lisboa antiga, Júlio de Castilho, 1903, vol. III, p. 26)
 (cm-lisboa.pt/toponimia; monumentos.pt)

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