Tuesday, 16 June 2015

Palácio da Flor da Murta

Localizado entre a Rua de São Bento e a Rua do Poço dos Negros, no cunhal do palácio, é ainda visível o Brasão das armas dos Pereira Faria, Senhores de Aconchel, cuja descendente, D.Guiomar de Faria casou com D. Jorge de Meneses da Casa da Flor da Murta, tomando o palácio este nome.
A origem deste palácio tem por base uma casa nobre quinhentista, progressivamente reedificada ao longo dos séculos XVII e XVIII, facto que lhe imprimiu a sua feição actual, barroca. Apesar de pouco afectado pelo terramoto de 1755, o edifício acabou por cair em ruína.

Palácio da Flor da Murta [1908]
Rua de São Bento  com a Rua do Poço dos Negros

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

O palácio ficou sobretudo célebre no século XVIII, pois nele viveu em 1731, a bela D. Luísa Clara de Portugal da casa dos Castelo Melhor, aia da Rainha D. Maria Ana de Áustria e amante do Rei D. João V, tendo ficado conhecida para a história como a Flor da Murta.

Palácio da Flor da Murta |1911|
Fachada sobre a Rua do Poço dos Negros

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Já no século XX foi desafectada a capela, da invocação de Nossa Senhora de Monserrate, da qual resta o portal encimado por frontão triangular e cruz, na fachada lateral e, mais tarde, foram também removidos alguns painéis de azulejos. (cm-lisboa.pt)
Actualmente, mantém-se apenas a fachada do palácio porque o mesmo foi alvo de recuperação e transformado num condomínio para habitação. [DGPC]

Palácio da Flor da Murta |1908|
Capela com portal encimado por frontão triangular e cruz.
 Rua de São Bento esquina com a Rua Fresca
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Monday, 15 June 2015

Ourivesaria Araújo

Fundada por João Carlos Araújo, a pequena ourivesaria distingue-se na Baixa lisboeta pela fachada de ferro trabalhado, num estilo a denunciar as suas origens que remontam a 1878.
No interior, que se mantém praticamente inalterado desde a fundação, destaque para o tecto, com uma tela a óleo com moldura pintada a fresco, de Domingos Costa, proeminente pintor do final do século XIX e início do século XX – autor de pinturas que ainda hoje se podem observar nos Palácio Foz e Palácio Vale Flor.

Ourivesaria Araújo |Início séc. XX|
Rua Àurea, 261 

Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

Sunday, 14 June 2015

Avenida Fontes Pereira de Melo com a Rua Tomás Ribeiro

Arruamento de 1900 que homenageia o chefe do partido Regenerador, António Maria Fontes Pereira de Melo (1819-1887), que presidiu ao Conselho de Ministros na década de 1876 e 1886, período que ficou conhecido como Fontismo.
Esta artéria que faz a ligação da Praça Marquês de Pombal à Praça Duque de Saldanha integra o Plano das Avenidas Novas, do eng.º Ressano Garcia, aprovado em 1888 na Câmara Municipal de Lisboa. Este projecto seguia as ideias urbanísticas do séc. XIX, aplicando os princípios higienistas de combate à insalubridade das densas vilas da industrialização, definindo um traço regular formado por quarteirões uniformes, numa sequência de eixos estruturantes articulados por rotundas.

Avenida Fontes Pereira de Melo com a Rua Tomás Ribeiro,  1960
À direita, o muro do antigo Mercado 31 de Janeiro, antigo Matadouro Municipal.

Filipe Romeiras, in Lisboa de Antigamente
 
Neste plano, a Avenida Fontes Pereira de Melo constituía o elemento de ligação do conjunto das ruas adjacentes ao Parque da Liberdade (hoje Parque Eduardo VII) com o núcleo Picoas - Campo Grande. (cm-lisboa.pt)

Avenida Fontes Pereira de Melo com a Rua Tomás Ribeiro,  1961
Em 29 de Dezembro de 1959 é inaugurado novo sistema de transporte — o Metropolitano.
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Thursday, 11 June 2015

Um coupé e um eléctrico na Avenida Fontes Pereira de Melo

Palácio Sabrosa e Palacete Gabriel José Ramires

«Era um coupé pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha côr de castanha. O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos cavallos.»
—Eça de Queiroz, O Mistério da Estrada de Cintra, 1870
O seu nome provem do verbo francês couper (cortar). Viatura com quatro rodas, coberta, em que o passageiro ia virado para a frente do veículo, atrás do condutor, na frente do veículo. Normalmente existia um vidro, a separar o passageiro e o condutor, como protecção para a sujidade levantada pelos cavalos. Era uma viatura particular mas também utilizada como carruagem de praça.

Avenida Fontes Pereira de Melo |Início séc. XX|
Perspectiva tirada da Praça Marques de Pombal vendo-se à esq. o Parque Eduardo VII e, à dir.,  o Palacete Sabrosa e o Palacete Gabriel José Ramires.

Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamen

Wednesday, 10 June 2015

Luiz de Camões, o poeta maior

De acordo com Norberto de Araújo «não se pode garantir, em ciência de academia, que «nesta casa morreu Camões», mas pode manter-se, sem perigo de ofender a razão, que «é tradição Camões ter vivido e morrido nesta casa». Atentemos na sua explicação:
«Para melhor entendimento do que vou dizer-te podemos ler a lápide comemorativa: «Nesta casa, segundo tradição documental, faleceu a 10 de Junho de 1580 Luiz de Camões». O actual proprietário, Manuel José Correia  mandou pôr esta lápide em 1867». O prédio já não tem a configuração pitoresca de há 70 anos, mas não mudou sensilvelmente.
Ora o problema é êste dilecto companheiro alfacinha: Camões viveu e morreu aqui? Qual é a «tradição documental» a que a legenda comemorativa se refere?
Não se comporta nesta «Peregrinação» o debate inocente desta questão, que já fez verter alguma tinta.  Indiscutivel é que o poeta habitou e morreu aqui a dois passsos, ou no sítio onde está o prédio e onde assentou a Ermida do S. J. da Salvação, encostado ao da lápide, ou ali à entrada,  em reentrância, na fronteira Calçada Nova do Colégio, o que tudo situava junto à Porta de Sant'Ana do lado de fora.
Ora quanto a mim, Dilecto, não se trata de saber «onde era o prédio», precisamente, matemàticamente, arqueològicamente, porque estes prédios actuais não assentam, de seguro, sôbre fundamentos de quaisquer outros; trata-se, sim, de saber «onde era o sítio». E o sítio é «aqui» (versão do Visconde de Jerumenha ante a biografia manuscrita de Padre Francisco de Santo Agostinho), ou é «ali», a vinte metros (interpretação extensiva do que «constava a Manuel de Faria e Sousa, que nasceu dez anos depois da morte de Camões).
(Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 29)
Arco de Sant'Ana e casa onde viveu e morreu Luís de Camões em 1580, desenho conjectural de Júlio Castilho 
[Calçada de Sant'Ana]

A Ginjinha do Rossio teve bênção de um monge

A Ginjinha do Largo de São Domingos abriu portas em 1840 e mantém-se praticamente igual. Um pequeno balcão e dezenas de garrafas de licor. Nesta foto a grande diferença para os dias de hoje era a presença de engraxadores em frente à porta.
Desde 1840 que os lisboetas e os que visitam a capital vão ao Rossio para se confrontar com a pergunta: “Com ou sem elas.” A ginja, rigorosamente seleccionada, e a produção do licor está na Arruda dos Vinhos. O negócio vai na quinta geração da família Espinheira.

Largo de São Domingos [198-]
DN, in Lisboa de Antigamente

«É mais fácil com uma mão dez estrelas agarrar, fazer o sol esfriar, reduzir o mundo a grude, mas ginja com tal virtude é difícil de encontrar.» O verso está escrito há mais de um século no balcão d’A Ginjinha. E terá quase tanto tempo como a lenda do monge da Igreja de Santo António, Francisco Espinheira. A história, que está contada à porta, diz que esta doce bebida nasceu da recomendação de um monge à família galega Espinheira para deixar fermentar ginjas dentro de aguardente, juntando-lhe açúcar, água e canela. Por ser uma bebida doce e barata tornou-se um êxito imediato, transformando a ginjinha na bebida típica de Lisboa.

Largo de São Domingos [post. 1940]
Observa-se A Ginjinha, à esquerda, no prédio que torneja para o Rossio.

Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Tem a Ginjinha do Rossio duas meias portas, onde se podem ver umas pinturas do actor Alexandre de Azevedo, antigo pintor de tabuletas, estão inscritos os seguintes versos, pelos quais o galego dono da casa pagou, «em bons tempos de penúria e quando o dinheiro era dinheiro, a soma de 5.000 reis» a Eduardo Fernandes  (ESCULÁPIO) :
“Dona Prudência da Costa,
 Delambida e magrisela,
 Fez de ser tola uma aposta,
 Diz que ginginha nem vê-la
 Porque, coitada, não gosta.
 E a ama de um reverendo
 Que é das bandas da Barquinha
 Tem um aspecto tremendo,
 Bebe aos litros da ginginha
 E é isto que se está vendo.”

Recorda-nos o autor dos versos que «A pintura representa duas tipas a escorropichar copinhos, vendo-se, na outra mela porta e na mesma atitude, dois tipos, num dos quais o artista me quiz representar, mas com grande infelicidade».
O Mateus é um chóchinha
 Mais feio que um camafeu,
 Magro, tísico, um fuinha,
 Nunca na vida bebeu
 Nem um copo de ginginha.
 O Irmão, que sabe a virtude
 Desta divina ambrozia,
 É gordo como um almude,
 Bebe seis copos por dia,
 Por isso goza saúde.”
[1]
[1](in Olisipo : boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», n.º 17, Janeiro 1942)

A Ginjinha, porta, Largo de São Domingos [1967]
Sid Kemer, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 7 June 2015

Elevador de Santa Justa — a todo o vapor

E aqui temos, da esplanada do ascensor de Santa Justa, um espectáculo de cor, de movimento, uma planificação agitada — um mapa ao vivo — da Lisboa pombalina, da Lisboa que ficou como no século XVII, e da Lisboa moderna. [...] 

Do alto do Carmo, na passarelle que serve o ascensor, « entende-se » melhor a Lisboa que nos rodeia Escancara-se; mostra-se como se usássemos uma lupa, aplicada sobre uma planta natural. [Araújo: 1938]


O elevador de Santa Justa — ou do Carmo — foi inaugurado no dia 10 Julho de 1902, sendo um dos dois ascensores verticais da cidade (o ouro era o elevador de S. Julião). O projecto é de Raoul Mesnier du Ponsard. Com 45 metros de altura e integralmente construído em ferro forjado, faz a ligação entre a Rua Áurea, vulgo «do Ouro» e o largo do Carmo. Apresenta-se em estilo neogótico, com decorações em filigrana e foi classificado como monumento nacional em 2002.

Elevador de Santa Justa, a todo o vapor [ant. 1907]
Rua de Santa Justa; Largo do Carmo
Paulo Guedes,in Lisboa de Antigamente

Movido inicialmente a vapor, passou a ser accionado por energia eléctrica, em 1907. O transporte dos passageiros é feito por duas cabines de madeira, cada uma com capacidade para 20 pessoas. A ascensão por estas cabines dá acesso a um passadiço de 25 metros, que leva os passageiros até ao Largo do Carmo.

Elevador de Santa Justa, a todo o vapor [entre 1902 e 1907]
Rua de Santa Justa; Largo do Carmo
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 6 June 2015

O primeiro Éden Teatro

A história do edifício Éden e do seu espaço envolvente remonta a 1764, quando o Marquês de Pombal compra terras que na altura pertenciam ao quarto Conde de Castello-Melhor, para a abertura das obras de ajardinamento do Passeio Público.
Na década de 1770, o Conde de Castello-Melhor procedeu à demolição das suas casas, arruinadas pelo terramoto. Em 1777 começou a edificar-se um Palácio (mais tarde denominado Palácio Foz). Interrompidas as obras pouco depois, só seriam retomadas em 1845. Em 1858, estava o palácio praticamente pronto. A zona agreste ao lado do futuro Palácio Foz é, precisamente, o local onde hoje se ergue o edifício do antigo Eden Teatro.

Éden Teatro, Praça dos Restauradores [1928]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1875 a companhia circense Whyttoyne instalou-se de pedra e cal nos jardins do palácio, mas o fogo encerrou o recinto após 6 anos de armação. A companhia circense acabaria por ser expropriada em 1887, para deixar passar os comboios até a Estação do Rossio e também permitir a construção do Avenida Palace Hotel. Em 1901, com a queda da Casa da Foz, foi tudo posto em praça, num célebre leilão.
Aproveitando o esqueleto da Garagem Beauveletentretanto erguida no local das antigas cocheiras do Palácio Foz — Luiz Galhardo, empresário de teatro, encomendou ao cenógrafo Augusto Pina e ao arq. Gulherme Edmundo Gomes planos para a construção de um Teatro, inaugurado no dia 25 de Setembro de 1914, com a opereta «O Burro» do Sr. Alcaide de Gervásio Lobato, é o primeiro Éden.

Éden Teatro, Praça dos Restauradores [1919]
«Chegada de um raid internacional»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Após uma visita rotineira, a Inspecção Geral de Espectáculos ordenou o encerramento do Éden, no final de 1928, por questões de segurança. O conde de Sucena, que tinha comprado o Palácio Foz e terrenos anexos em 1914, resolveu-se pela demolição do Imóvel.

Web Analytics