De que deriva o nome de Madragoa? — questiona Norberto de Araújo.
Tem sido isto um inocente problema e talvez continue a sê-lo, assediado por explicações mais ou menos fantasistas. O verosímil — e fiquemo-nos, Dilecto, nesta verdade — é que «Madragoa» é vocábulo de corruptela.
Havia aqui perto o
Convento das freiras bernardas — já to disse atrás — que, primeiro, justificou o nome à actual
Rua das Madres. Mas,
paralela,
pelo norte,
corria a Rua das Madres,
de Goa, pois assim se
chamava no século XVI a artéria que corre superior, em
1802 oficialmente Rua da Madragoa, e em 1859, como hoje,
Rua Vicente Borga. No extremo desta Rua, à esquina das Trinas, existia um hospício de senhoras da Índia, as tais
«madres de Goa», e por corruptela fonética —
Madragoa. E aí tens uma explicação.
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Rua das Madres |1940| Ao fundo corre a Travessa do Pasteleiro Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente |
Madragoa!
Nome ressonante e plebeu: pescadores, ovarinas, homens da
estiva; mulheres de Estarreja e subúrbios, donas de trabalho na prancha
do carvão e nas areias da lota, de peitos altos, saias de cinta dobrada
nos corpos durazios a contrastar nas cinturinhas ágeis das raparigas da
Murtosa; cordões de ouro, bailaricos de S. João, mareantes de olhar
nostálgico, traficantes do peixe de olhar vivaço; tavernas onde se fala
do mar e das fainas ribeirinhas.
Ao cabo, uma
colónia aveirense
trespassada à capital — e que se arreigou, no único bairro de Lisboa que
não tem Lisboa por fundo dinástico.
❞Ó velha Madragoa,
Não tens um só painel
Um arco ou um brazão
Só tens ó Madragoa
Nos lábios doce mel
No peito um coração.
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Rua Vicente Borga |1945| Dístico de 1859 originado por corruptela de Vicente Borchers — filho de um negociante alemão, um tal Conrado Bicker, natural de Hamburgo —, que morou na antiga Rua
da Madragoa após ter casado com Maria Clara Sousa Peres, no séc. XVIII, e acabou
por substituir o antigo topónimo. Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente |
Em
todo este pitoresco, desligado da história —
um pouco de miséria,
ao lado da mediania suficiente, que com pouco se contenta para ser rica,
A
Madragoa normal é buliçosa,
rumorejante,
mas incaracterística ao primeiro contacto: há que adivinhá-la; há que
surpreendê-la aos domingos à noite ou nas quadras populares festivas.
A sua «cor local» existe, mas oculta-se sob um esfuminho de trivialidade.
Rigorosamente
a Madragoa é um reduzido xadrez irregular — recorda-nos Norberto de
Araújo — que se condensa numa área que corresponde à décima parte do
Bairro Alto e da Alfama, às dimensões da Mouraria popular.
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Travessa do Pasteleiro à Esperança |1950| Desconhece-se a origem do
topónimo, mas sabe-se que é muito antiga, pois, vem já
citado no Livro
IV de Óbitos da Freguesia de Santos-o-Velho. Presume-se que derive
do
facto de ali ter vivido um conhecido pasteleiro. Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente |
No sentido oriente-poente é cortada pela
Ruas do Machadinho,
de Vicente Borga,
das Madres, limitadas estas pela Esperança, avenida bairrista e independente da característica castiça, e de norte a sul pelas
Travessas do Pasteleiro, das Inglesinhas (que morre na Rua das Madres), das Izabéis, (um troço apenas) e pela
Calçada do Castelo Picão, a artéria
empinada e representativa.
❞ Uma saudade do mar, tem
Seu monumento em Lisboa
Velho bairro popular
Sombrio e vulgar
Que é a Madragoa.
E reza a história que foi, lá
Numa noite de natal
Que veio a luz o primeiro
Herói marinheiro
Que honrou Portugal.
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Rua da Esperança |c. 1900| O nº 46 corresponderá à loja de alfaiate que ali se vê à esquerda. Segue-se a Tv. do Pasteleiro e, ao fundo, a Avenida Dom Carlos I. Boa parte destes prédios ainda lá estão. Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente |
Como vais vendo, Dilecto, a
Madragoa, o velho Mocambo do século XVIII,
teve o seu ambiente religioso, como toda a Lisboa afinal, mas sem
grandeza, sem beleza, e de tal modo modesto — à parte o
casarão das Bernardas — que de todo se perdeu.
O que por aqui
impressiona é o rapazio à solta,
a multiplicidade de tavernas,
a vida feita quási à soleira das portas.
Esta
gente, êste sítio, devem ter e têm, a sua alegria, mas não transparece,
não sorri. É um formigueiro de vidas, em cujo quadro falta o fundo
ancestral, robusto,
«água-forte» da Alfama.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 22, 1938.