Sunday, 19 August 2018

Cinema Palatino

Em 1931, a revista «Cinéfilo» — suplemento semanal do jornal «O Século» — dedicava um artigo a uma nova sala de cinema da capital: o «Palatino». Rezava assim:

Inaugurou-se em Lisboa um novo cinema de bairro. o Palatino, sito no gaveto da Rua Filinto Elísio [fachada principal, entrada] com a Rua Gil Vicente, a Santo Amaro.
Foi construido, desde os alicerces, segundo um projecto do[s[ arquitecto[s] [Raul Lino e] sr. Perfeito de Magalhães. As decorações, admiráveis de simplicidade e de bom gôsto, atestam a fina sensibilidade de Raul Lino. Nenhum pormenor foi descurado, para que a nova sala não deixasse de agradar aos seus freqüentadores. Ponderaram-se todas as condições de confôrto e visibilidade, não sendo esquecidas as condições acústicas, que devem plenamente satisfazer todas as exigências. Os projectores são da marca Kalee e os reprodutores de som Klang-Film-Tobis, o que equivale a dizer, em face de provas já prestadas, que se trata de excelente material toto-acústico.
Os moradores do populoso bairro de Santo Amaro devem felicitar-se pelo grande melhoramento. visto que, por preços módicos, podem assistir à apresentação de belos filmes sonoros.

Cinema Palatino [post. 1931]
Filinto Elísio [fachada principal, entrada] com a Rua Gil Vicente
Fotografia anónima

Ao acto inaugural da nova sala — prossegue o articulista — , que comporta cerca de novecentos lugares [notável para um mero cinema de bairro], assistiram empresários, convidados, representantes de imprensa e de algumas firmas distribuidoras de filmes. um dos intervalos, serviu-se um fino ‹copo de água». Nële usou da palavra o sr. T. Guimarães. delegado da Paramount. a firma que distribuiu o programa de abertura do Palatino. e cujo brinde constituiu um louvor para a bela iniciativa levada a cabo pela nova emprêsa exibidora, que também foi vivamente felicitada.==
O Cinema Palatino fechou portas em 1968.

Cinema Palatino, matiné [1935-12-26]
Rua Filinto Elísio
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

N.B. Esta artéria — até 1938 denominada Rua nº 2 do Bairro Rolão — , homenageia o poeta arcádico Francisco Manuel do Nascimento (1734–1819), um sacerdote que usava o pseudónimo de Filinto Elísio, o qual lhe fora dado pela marquesa de Alorna quando lhe ensinou latim e a quem dera primeiro o nome árcade de Alcípe. Fez traduções e compôs odes, epístolas, epigramas e sátiras abrangendo as suas Obras Completas num total de 11 volumes. Refugiou-se em França a partir de 1778 para fugir da Inquisição.

Cartaz do Cinema Paladino [1941]
in Museu do Fado


Bibliografia
CINÉFILO, Vol. 4, Edições 124-149 p.25, 1931.
cm-lisboa.pt.

6 comments:

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  3. Adorei. Sendo eu um alcantarence, vivi a minha meninice metido nos cinemas da zona. O Eden "piolho" na Rua do Alvito e o Promotora no Calvário mas esse Palatino já não me lembrava dele apesar de ter sido aluno da Francisco de Arruda (ali pertinho)em 68 o ano em encerrou. Parabéns pelo blogue

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  4. O Cinema da minha infância, aos 2 anos já lá ia, (1942) . Foi onde me tornei cinéfilo e vi o 1º Filme de Ingmar Bergman que adorei, sem saber nada de cinema! nos anos 50, com desconto pagava 25 tostões (2 Escudos 50 cêntimos).

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  5. Sou um privilegiado. Alcantarense de gema nascido na Praça da Armada, passei as minhas juventude e infância nos cinemas do bairro nos quais passei a indefectível adepto da 7ª. Arte. Promotora, Eden (piolho) e Palatino são ícones no meu pensamento. Em 1975 casei-me e fui viver para o Alto de Santo Amaro. No caso actual do Palatino moro no 4º andar do n~. 40 da Rua Gil Vicente - Alto de Santo Amaro, precisamente no lugar do Palatino.
    Uma vez quando ainda morava no 2º. andar há alguns valentes anos, um casal de amigos que me visitou viu entre muitas cassetes o EL Cid e pediu-me para o colocar. Fiz-lhes a vontade e afirmei que tinha visto o filme há muitos anos sentado no lugar aonde eles estavam. Julgaram que estava a brincar e eu apostei com eles dez contos em como era verdade. Depois justifiquei o porquê. Porque no segundo andar era a altura do balcão do Palatino. É mais do que óbvio que não recebi o dinheiro porque não quis, mas perante a admiração deles foi um óptimo momento. Aposto que nunca mais se esquecem.
    É uma pena que certos lugares não sejam preservados mas, em Portugal, estamos habituados ás cabeças pensantes que nos governam e que desvalorizam todo o património que foi construido em nome da modernidade. Haviam de ser os ingleses!
    E por aqui me fico com esta modestíssima contribuição á saudade.
    José Lucas

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