terça-feira, 1 de novembro de 2016

Retiro O Tanoeiro na antiga Estr. de Sacavém

As hortas que marcavam o seu dia grande em quarta-feira de Cinzas, tinham características  próprias, como o jogo do chinquilho, os cegos e respectivos moços a cantarem modinhas acompanhadas à guitarra e à viola, o canjirão e as inseparáveis canecas, o esforço vagaroso do boizinho, movendo a nora, o perfume natural das emanações do campo, propício ao veraneio de fidalgos. que tinham suas residências de verão para as bandas do Areeiro, e ar é à cura da tosse convulsa que exigia mudança de ares e fumo do combóio ... E que bons são os ares desces sítios!


Na Estrada de Sacavém, que começava junto da igreja paroquial de Arroios, existiam quintas célebres como a da Maria José, com a sua épica nora (no local hoje ocupado por parte da Alameda D. Afonso Henriques), e a do Filipe (entre a Praça do Chile e a Alameda D. Afonso Henriques), e retiros como o «Papagaio», o dos «Pacatos», o «Mexe. Mexe», a «Perna de Pau».
A Estrada de Sacavém, mercê da sua privilegiada situação, tornou-se preferida tanto pelas camadas populares, como pelas élites, e as suas hortas apetecíveis, acarinhadas pelos seus frequentadores, triunfaram brilhantemente.

Estr. de Sacavém [1947]
Em cima vê-se o Casal Vistoso (Areeiro)
Eduardo Portugal, in AML

O poeta Bulhão Pato dedica-lhes significativas palavras. Diz: Vamos para as bandas de Arroios; vamos para as hortas que estão a desaparecer. Ali há alguma coisa mais do que o desenho e a luz: a nora gemendo, m bordões e as primas da guitarra nacional, na mórbida cadência, acompanhando a letra onde há versos que rebentam do coração, como estes:
Puz um pé na sepultura
Uma voz me respondeu:
Ah! cruel, que estás pisando
Um amor que já foi teu!
E Gomes Leal pudera exteriorizar:
Apraz-me ir ver os alecrins das hortas,
risonhas, festivais, com seu matiz.
Vou, qual boémio lirico e feliz,
que busca o sonho para além das portas!...

Continuando pela Estr. de Sacavém, Já no Areeiro, ficava o «Retiro da Basalisa», onde havia grandes sessões de fado. O nome passou a ser mais tarde — «Tanoeiro».
Por detrás do Tanoeiro» encontrava-se o Casal Vistoso ou Quinta das Ameias, que data do século XVII e era dos Abreus e Castros, sendo considerado um local de ares lavados e privilegiada situação.

Estr. de Sacavém [1966]
Em cima vê-se o Casal Vistoso (Areeiro)
Augusto de Jesus Fernandes in AML

Bibliografia
(MONTEIRO, João, Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», 1947)

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