sábado, 5 de novembro de 2016

E Tudo o Terramoto Levou: a Grande Capela ou Igreja Patriarcal de D. João V

Já disse que o edifício municipal ocupa o espaço que era o do Pátio da Capela Real, pátio com suas arcadas e galerias, nas quais se ostentavam «capelas e tendas, ou tendas da Capela.


   A primeira Capela Real do Paço — que tinha a invocação de S. Miguel, e que fazia parte do Paço da Ribeira —, ficaria neste lado sul do Pátio, que olha para a Rua do Arsenal defronte dos Correios. Só em 1531 passou mais para Norte — onde está o abandonado templo de S. Julião, vendido pela Aqui-confraria ao Banco de Portugal [actual Museu do Dinheiro] em 7 de Julho de 1933 —; foi ampliada em 1610 e 1619.
   Em 1716 a Capela Real foi elevada, por esforços de D. João V, a Catedral Metropolitana e Patriarcal de Lisboa Ocidental, e logo o rei pensou na sua reedificação; em 1746 estava de pé a Grande Capela ou Igreja Patriarcal, do orago de N. Senhora da Assunção.
   O pequeno Largo fronteiro, antepassado dêste. onde estamos, chamou-se por isso «da Patriarcal».
   O Terramoto reduziu tudo a cinzas; a riqueza da Patriarcal desapareceu, e tudo em redor, incluindo o vasto e imponente Paço da Ribeira.

Maqueta de reconstituição da cidade de Lisboa antes do Terramoto de 1755
Planta da primeira Igreja Patriarcal a vermelho (clicar para ampliar)
in Museu de Lisboa, núcleo instalado no Palácio Pimenta ao Campo Grand

D. João V, O Magnânimo — cuja corte beneficiava de excepcional desafogo financeiro, graças ao ouro do Brasil — engrandeceu bizarramente a Capela Real. Sob a orientação de João Frederico Ludovice, o arquitecto e ourives alemão ao serviço do rei, inicia-se a transformação da capela adjacente ao Paço da Ribeira em  Patriarcal, uma das mais magníficas igrejas de então, réplica miniatural do Vaticano, cujo esplendor era alimentado por constantes encomendas a artistas estrangeiros, sobretudo romanos, uma vez que Roma era o mais conceituado centro de produção artística da Europa. 

Ruínas da  Igreja Patriarcal de D. João V [1755]
Antiga Praça (Largo) da Patriarcal, actual Praça do Município

Jacques Philippe Le Bas (1707-1783), gravura

As prodigalidades deste monarca eram extraordinárias; enriqueceu os conventos, deu dinheiro ilimitado aos fidalgos; nos últimos anos da sua vida mandou rezar para cima de 700.000 missas; por urna imagem que o papa benzeu, de prata dourada, deu 120.000 cruzados; para Jerusalém mandou 1.377 cruzados; fundou o convento do Louriçal dotando-o com 6.000 cruzados, e deu-lhe muitas alfaias e pratas; ceou dois bispados no Brasil; mandou para diferentes igrejas do estrangeiro alfaias e adornos de incalculável valor; em indulgências e canonizações enviou para Roma perto de 1,38 milhões de cruzados; na missão que foi a Roma assistir a um conclave gastou-se para cima de dois milhões de cruzados; ao núncio Bichi, quando se retirou de Lisboa, mandou dar-lhe 1.000 moedas para ajuda da viagem; ao cardeal Oddi deu-lhe uma caixa de brilhantes no valor de 20.000 cruzados, etc. Apesar da sua exagerada devoção, não tinha escrúpulo em profanar a clausura das virgens do Senhor, o que lhe adquiriu o titulo de rei freirático, transformando, por exemplo, o convento de Odivelas, sustentando escandalosamente os seus amores com a madre Paula, freira sua predilecta.

Planta da Igreja Patriarcal [c. 1775?]
Planta feita depois do terramoto de 1755, mostrando o local onde se encontrava a Patriarcal ao lado do Paço da Ribeira, assim como todas as acomodacôes do Patriarca, os Principais, o tribunal da Congregaçao Camarária, etc., que se encontram descriminados à margem da planta.
Título: «Planta Geometrica pella qual se mostra a formalidade e grandeza, que tinha a S.ta Igreja Patriarchal, abrazada junto aos Passos da Ribeira das Naos; (...)»
in BNP

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 13-14 [1939])
(arqnet.pt)

1 comentário:

  1. A Capela de São Miguel, existente no Paço da Ribeira desde que a Corte para ali se transferiu, no século XVI, estava anteriormente localizada junto ao Paço da Alcáçova, no Castelo de São Jorge, onde os reis viviam antes da mudança para perto do Tejo.

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