Sunday, 6 September 2020

Palácio Tancos

O Palácio dos Marqueses de Tancos — ou simplesmente Palácio Tancos — , com ampla fachada sobre a calçada daquela denominação, é uma construção seiscentista, melhorada, ampliada e transformada no século XVIII. O seu núcleo primitivo remonta ao século XVI, pois já em 1589 o Conde da Castanheira, D. António de Ataíde, que foi conselheiro e embaixador de D. João III, aqui possuía umas casas nobres, certamente modestas em relação ao que veio a ser o palácio no decorrer dos séculos seguintes.


No começo do século XVII já residia aquele 1.º Conde de Atalaia nas casas nobres que dos Castanheiras haviam sido, e é de crer que fosse este fidalgo, possuidor de inúmeros bens, o primeiro edificador do palácio em que transformou completamente a casa quinhentista dos Ataídes. O 6.º Conde, D. João Manuel de Noronha, em 1791 feito 1.º Marquês de Tancos, foi, seguramente, quem am­pliou e restaurou a sua casa nobre à Costa do Castelo, considerada das melhores da côrte antes do Terramoto, que os Atalaias habitavam normalmente, onde se celebraram grandes festas e recepções,  e residiu o irmão do 1.º Marquês, o deão da Sé D. José Manuel, mais tarde (1794) Cardeal Patriarca.

Fachada principal  do  Palácio dos  Condes de  Atalaia e  Marqueses de  Tancos, vendo.se ao fundo o  Palácio Vila Flor  [194-]
Calçada Marquês de Tancos; Costa do Castelo
Horácio Novais, in AML

O Terramoto pouco teria danificado o Palácio de Tancos, mas impôs, certamente, obras de restauros; seu proprietário andava então pelo Alentejo, onde era governador das armas da província, e sua família assistiria em Lisboa, neste casarão palaciano de S. Cristóvão sob a Costa do Castelo.
Até 1865, permanentemente, ou com ausências periódicas, os Tancos-Atalaias habitaram a sua casa, em cuja capela se celebraram durante dois séculos casamentos e  baptizados de pessoas de família. Depois o  hist6rico palácio entrou em inquilinato, parcial pelo menos, para no decénio seguinte vir às mãos do comerciante Manuel Alves Dinis, e  parece que já então a  casa oferecia certa decrepitude, ou pelo menos abandono.
O palácio sumiu-se então; interiormente sujeito a adaptações para inquilinato rendoso, di­vis6rias, acrescentando utilitários, foi graduadamente perdendo o  carácter. No final do século XVII e até princípio do século XVIII, andou  o palácio arrendado aos Condes de Vale de Reis (chegando a  ser conhecido por esse título), mas este inquilinato fidalgo não prejudicava o palácio, e  até talvez o tivesse beneficiado. A cr6nica do inquilinato deste palácio não apenas a  dos baixos com oficinas e armazéns, é vasta, sobretudo a partir do final do século passado [XIX].  [...]

Palácio do Marquês de Tancos, fachada principal [1945]
Calçada Marquês de Tancos; Igreja de S. Cristóvão.
Eduardo Portugal, in AML

Nos andares térreos do lado da Calçada instalaram-se várias oficinas, e  muitas dependências com acesso pela Costa do Castelo, n.º 23, tem a  sua sede a  Associação de Beneficência de S. Cristóvão e S. Lourenço.
Este antigo palácio teve hist6ria social, fidalga, religiosa, e, decerto modo política; hoje [195o] é uma enorme massa urbana, alcantilada nas abas da Costa do Castelo sobre S. Crist6vão, que nada nos diz, sem auxilio das crónicas.

Palácio Tancos [c. 1900]
Calçada Marquês de Tancos; Costa do Castelo
O topo Nascente, estreito, com duas ja­nelas de  sacada,  baixa, ao  nível e idênticas

às  do  andar superior da  fachada grande.
Machado & Souza, in AML

N.B. Não obstante o cerca de século e meio em que os espaços do palácio foram sendo sucessivamente vendidos e transformados, o conjunto apresenta ainda uma grande uniformidade urbanística e conserva grande parte do recheio artístico original, em especial as salas decoradas com azulejos panorâmicos das primeiras décadas do século XVIII, executados por Raimundo do Couto.

Palácio do Marquês de Tancos, Painel de azulejos [194-]
Calçada Marquês de Tancos
Pormenor valioso de um dos painéis de azulejos, vendo-se na bordadura superior as armas dos Atalaies.
Horácio Novais, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1950.

3 comments:

  1. Boa Noite

    Gostaria de saber se a informação privilegiada (temas, fotos, textos!) que tem, são pessoais ou existe algum sítio onde me possa inscrever para o ter, tal como uma biblioteca, por exemplo.

    Muito Obrigado
    Cumprimentos
    Ricardo Santos (ricardosantos1953@gmail.com)

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  2. As fotos são de vários acervos públicos - portugueses e outros - e estão disponíveis na net. Parte dos textos são os descritos na bibliografia das respectivas publicações.

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    Replies
    1. Pode dar-me algum link ou exemplos, principalmente, se for da "minha" Lisboa e em virtude ir costumar fotografar edifícios e monumentos da cidade.
      Muito Obrigado
      Cumprimentos
      Ricardo Santos

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