Sunday, 16 August 2020

Bairro Chinês, Marvila

A construção das barracas fazia-se de noite porque quem as construía trabalhava, normalmente, durante todo o dia. Mas também se esperava pela noite para esconder o trabalho de construção dos olhos dos polícias.


O Bairro Chinês, o maior bairro de barracas da zona oriental de Lisboa, ficava onde hoje podemos ver os bairros Marquês de Abrantes, Alfinetes e Salgadas e Quinta do Chalé.
A confiar apenas na descrição da rua principal, a impressão que nos fica do Bairro Chinês está longe de ser a melhor. Quando chovia, as águas que desciam a encosta desde o campo do Clube Oriental de Lisboa – mais conhecido, simplesmente, por Oriental – até à passagem de nível arrastavam consigo a terra dos arruamentos improvisados, abrindo um canal de lama que dividia o bairro ao meio. “Passava um regato no meio, onde deitavam as necessidades”, descreve um morador. “E tinha umas tábuas para se passar de um lado para o outro”. Um verdadeiro riacho no meio de Marvila.

Bairro Chinês [195-]
Marvila, junto ao campo de futebol do Oriental
Judah Benoliel, in AML

É sabido que, embora não seja oficial, o epíteto de Bairro Chinês se tornara habitual. No entanto, o nome não é consensual. A origem já foi apontada a um suposto proprietário de ascendência oriental. “O nome Bairro Chinês não tinha nada que ver com os nomes das quintas”, diz, construindo o puzzle. “O que aconteceu foi que alguém se lembrou que, por causa da densidade das pessoas, aquilo parecia a China.” De alguma forma, a analogia não pareceu errada à maioria das pessoas, já que “o bairro tinha mais ou menos duas mil famílias”. Assim ficou. Independentemente do nome, este bairro foi porto seguro para muita gente que fugia à miséria e à desesperança que grassavam nas terras do interior do país, ofuscando qualquer falta de condições das barracas de chapa e madeira.
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Bibliografia
A vida no Bairro, O Bairro Chinês na primeira pessoa, João Santana da Silva, historiador, 2015.

3 comments:

  1. E depois, ainda há para aí muitos maduros com saudades dos tempos do Salazar, que nessa altura é que se vivia bem, segundo eles.
    O dianho que os leve!

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  2. Tem toda a razão. Lembro bem a miséria que havia no tempo de Salazar.

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  3. Só agora descobri este blog mas já tinha recolhido a foto noutro local! Bem Hajam pela manutenção da memória! Vivi por aqui entre 1962 e 1968...mais ou menos entre os meus 4 e os 10 anos de idade...ainda hoje pesa!

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