Wednesday, 13 February 2019

Palácio Alcáçovas

O Palácio Alcáçovas, da Rua da Cruz dos Poiais, a partir para Norte, desde a esquina da Travessa da Arrochela, e que termina defronte do final da Rua Eduardo Coelho, do lado oposto, é uma edificação de repousado semblante e aparência característica do século XVII, num único corpo contínuo.


Palácio Alcáçovas, da  Rua da  Cruz dos Poiais, é  uma construção do  último quartel do século XVII, mas o  seu  núcleo primitivo remontava ao  final do  século XVI. Com efeito em  1605 Luísa Franca, casada com Mateus Ferreira, comprou neste sítio, do  lado da  «Rua da  Rochela» — assim se  denominava — uma morada de  casas quinhentistas; em  l622, Cristóvão Ferreira, talvez filho de  Mateus, adquiriu a  Mateus Jorge e  sua  mulher Andreza Pinheira outra morada antiga de casas, contigua à primeira citada. Mais tarde Diogo Pessanha Falcão (que foi pai  de D.  Sebastião de Andrade Passanha, arcebispo de Goa) tomou-se senhor das  duas moradias, que reuniam numa única casa nobre, a  qual correspondia, em  situação sensivelmente à  metade, do  lado Sul, do  actual Palácio dos  Condes das  Alcáçovas. [....]
 Em Janeiro de 1681 a casa nobre, citada acima em primeiro lugar, e então ainda não acabada, foi vendida pelo dito Diogo Pessanha Falcão a Aires de Saldanha Meneses e Sousa, fidalgo e militar, do conselho de El-Rei [...]

Palácio Alcáçovas, fachada principal [1944]
Rua da Cruz dos Poiais, 111;
Travessa da Arrochela
Mário Novais
, in AML

O Palácio Alcáçovas é dos poucos de Lisboa que se conserva na posse da família do seu findador, o 1º. Morgado de Saldanha de Jesus, que quando adquiriu, as duas casas nobres, que unificou, reedificando quanto antes existia, manteve no palácio o cunho seiscentista. Os descendentes de Aires de Saldanha promoveram, por sua vez e cm várias épocas, restauros e transformações. O Terramoto, ao contrário do que cronistas da época escreveram, poucos estragos causou no edifício, sendo o mais notório a queda de um terraço, em construção, na ala Norte sobre os jardins; era então administrador do Morgado D. Caetano Alberto Henriques, 11.º Senhor das Alcáçovas.
A «Quintinha», ou seja os terrenos rústicos ,do Morgado de Saldanha de Jesus, foi sendo aforada, em várias épocas para urbanização. O antigo pátio nobre, a Norte, onde se situou durante quase três séculos a entrada principal voltada a Norte, foi em parte alienado recentemente {1949) pelo proprietário, desaparecendo o arco de volta abatida, em vão aberto, que dava acesso ao palácio, sendo transformado o átrio, pelo qual se passou a dar ingresso ao palácio através de um portão nobre, n.º 111 da Rua da Cruz dos Poiais. Nos restos que perduram do pátio foi construida uma garagem particular da casa.
No Palácio Alcáçovas, onde a traça seiscentista nitidamente se surpreende, através dos restauros dos séculos XVIII e XIX , residem presentemente  [em 1952] os actuais Condes, e alguns dos seus filhos, e ainda, na ala da parte Sul, como inquilinos, a Condessa da Ponte e pessoas de sua família. 

Palácio Alcáçovas, fachada principal [post. 1949]
Rua da Cruz dos Poiais, 111; Travessa da Arrochela
A actual frontaria seiscentista do Palácio dos Condes das Alcáçoves vendo-se
o portal armoriado mas que não corresponde ao primitivo
Mário Novais, in AML

Situado na Rua Cruz dos Poiais e com frente também para a Travessa da Arrochela, é uma alongada e baixa construção com base revestida de cantaria e dois pisos separados por cornija de secção rectangular. O andar nobre está definido por extensa série de janelas de sacada protegida de grades e cornija rectilínea. No extremo da fachada principal rasga-se o portal de acesso encimado por brasão. O edifício constitui bom exemplar de uma das soluções mais sóbrias e mais difundidas da arquitectura das casas nobres portuguesas do período barroco, em que a planta é rectangular, a face externa dos muros aparece animada exclusivamente pela repetição dos vãos e a articulação vertical desses muros fica circunscrita aos cunhais.

Palácio Alcáçovas, portal armoriado [1965]
Rua da Cruz dos Poiais, 111; Travessa da Arrochela
O portão (1949) ocupa a altura do edifício até às cornijas das janelas,
emoldurado de cantaria com remate de tímpano aberto, no qual se situa
a pedra de armas dos Condes das Alcáçovas: escudo partido em pala, tendo
na primeira as armas dos Henriques — escudo mantelado, com um castelo
em baixo e dois leões batalhantes nos campos superiores — , e na segunda
pala as armas dos Lancastres — armas do Reino com filete em contrabanda, 

este actualmente desaparecido — , coroa de condado e timbre de pelicano 
dos Lancastres
Armando Serôdio, in AML

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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1955.

Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, vol. II, dir. Fernando de Almeida; org. Maria João Madeira Rodrigues, 1975.

1 comment:

  1. O palácio foi sede da EMI-Valentim de Carvalho nos anos 80 e, pela mão de Maria Nobre Franco, uma galeria de exposições. Mais tarde foi vendido a um conhecido economista. É bom ver que não se transformou num hotel de charme...

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