Wednesday, 18 October 2017

Chafariz da Bica do Sapato

No Burgo de Lisboa Oriental — lê-se na excelente Memoria que Velloso d'Andrade publicou em 1851 sobre os chafarizes e fontes da cidade — perto do Convento de Santa Apolónia, está a fonte da bica do Çapato, de cuja agoa ha opinião no povo de que serve para intemperanças quentes, e para curar achaques cutâneos, a que chamão do fígado; e assim também para as queyxas da ourina, dysuria, estranguria; e finalmente para todos os males que procedem de calor. No que nos pareceo dizer: que os que padecerem semelhantes queyxas, e os que forem de temperamento quente, ainda que tenhâo boa saúde, farão muyto bem se beberem desta agoa: não tanto pela particular virtude, que nella considerao, como por que se beberem da agoa do Chafariz da praya, ou d'el-Rey, de que usa a mayor parte destas Cidades, se poderão offender com ellas, por serem sulphureas, e não temperarem com as agoas puras, qual he a da bica do Çapato, a do chafariz de Arroyos, a da Fontainha, e da Pimenteyra, que são agoas puras, e boas, que ha nesta terra, de que devem usar os que padecerem queyxas de calor, acrimonias, e intemperança.

Rua da Bica do Sapato  [s.d.]
Local da antiga fonte da bica do Sapato; chafariz

Eduardo Portugal, in AML

Para a banda da terra —  no dizer do ilustre Júlio de Castilho — era a chamada Bica do Sapato, hoje [em 1893] chafariz n.° 21. Tem por cima das bicas uma esculptura velha representando o navio das armas de Lisboa [vd. gravura], e por baixo, na moldura de pedra, a data de 1674. Fica este chafariz uns 2 metros inferior ao nivel da calçada, resguardado dentro de um rebaixamento com sua cortina de pedra e cal sobre a serventia publica. Foi concertado em 1853 . D’esta fonte, visivelmente reformada no anno de 1674, dizia, uns cincoenta annos antes, o citado poetastro [mau poeta]¹ descriptivo em 1621:
Logo a Bica do Sapato
se segue n’uma horta fresca,
cujas crystallinas aguas
competem co’a Pimenteira.

É logar mui deleitoso,
que muita gente frequenta,
onde em logar aprazível
á vista do mar passeia.
Em 1851, o chafariz n.º 21, tinha duas bicas, duas companhias de aguqdeiros, dois capatazes e cabos, sessenta e seis aguadeiros e um ligeiro

¹N.B. autor da Relação métrica descriptiva da Cidade de Lisboa, 1626. Relação em que se faz uma breve descrição dos arredores mais chegados á Cidade de Lisboa

Chafariz da rua da Bica do Sapato em 1821
Rua da Bica do Sapato
Desenho da autoria de Luís Gonzaga Pereira, in AML

Bibliografia
ANDRADE, José Sérgio Velloso de, Memoria sobre chafarizes, bicas, fontes, e poços públicos de Lisboa, 1851
 CASTILHO, Júlio de, A Ribeira de Lisboa, p. 119, 1893

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