terça-feira, 21 de junho de 2016

Rua das Farinhas

 Os Corvos de S. Vicente


O olisipógrafo Norberto Araújo recorda-nos um pouco da história desta pitoresca Rua das Farinhas com início no Beco das Farinhas e fim no Largo da Rosa — no território da actual freguesia de Santa Maria Maior e que foi de S. Cristóvão e S. Lourenço — topónimo  que terá sido fixado na Lisboa seiscentista.

«Para o lado Norte (banda do Castelo) abrem as escadinhas — sempre escadas por aqui — que levam à Rua das Farinhas, a avenida do sitio, com é o seu Rossio que é o Largo da Rosa. Subamos.

Rua das Farinhas, 1 [c. 1910]
Junta de Freguesia de São Cristovão e São Lourenço
Joshua Benoliel, in AML

É interessante êste conjunto de três prédios, ao centro da rua, os mais típicos da artéria e do sítio. O que tem os n.°' 22 a 26, com empena de bico, mostra uma pedra com um corvo [nº. 24], em relêvo, e uma legenda «Sam Vecête», vestígio do culto vicentino e da predilecção popular pelos corvos que acompanharam o corpo do Santo a Lisboa desde o Cabo Sacro.

Rua das Farinhas, 24 [c. 1900]
Pedra com um corvo
Fotógrafo: não identificado, in AML

O outro prédio, n.° 28 a 30, mostra-nos um registo de S. Marçal *, dos mais antigos entre as centenas que Lisboa possue. O prédio seguinte, n.°* 32 e 34, é curiosissimo: alto, esguio, «aguarelado» de si próprio, com seus canteiros de flores e a face da sua modéstia.

Rua das Farinhas, 22-32 [c. 1900]
* O registo de S. Marçal encontra-se no n.º 32 e não no  n.° 28 a 30 como refere o autor
Fotógrafo não identificado, in AML

Por quanto tempo viverá isto? Eu não tenho, e tu também não, apêgo a estes versos soltos de redondilha urbanista; confesso porém que se amanhã por aqui passasse e isto já não existisse — tinha pena.» [1]

Rua das Farinhas, 22-32 [c. 1900]
Ao fundo, o Largo da Rosa e o Palácio Rosa
Fotógrafo não identificado, in AML

« Conserva o sítio de S. Cristóvão, no meio do seu encanto de pitoresco alfacinha, uma pedra esculpida que representa um corvo da nau da heráldica olisiponense. Tem este corvo movimento, pisar lesto e olho alerta; sobre a sua silhueta fina lê-se SAM VECÊTE.
Neste muito alfacinha bairro de S. Cristóvão, vizinho da Madalena e da Mouraria, no sopé dos muros do Castelo, com os seus becos das Flores, os seus largos da Achada, de cazitas de andar de ressalto e janelas ogivais, e dos Trigueiros, fantasia do acaso urbanista, com a Rua das Fontaínhas e o Largo da Rosa — a pedra do corvo de S. Vicente do prédio de empena de bico, n.° 22 [n.º 24] da Rua das das Farinhas, é uma preciosidade de pitoresco.
Nada em Lisboa assim. Deve ter sido o prédio foreiro aos cónegos regrantes de Santo Agostinho. O foro passou; o corvo não. » [2]

Rua das Farinhas, 24 [c. 1950]
«Pedra com um corvo, em relêvo, e uma legenda «Sam Vecête»,
vestígio do culto vicentino e da predilecção popular pelos corvos
que acompanharam o corpo do Santo a Lisboa desde o Cabo Sacro»

Eduardo Portugal, in AML

[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 56)
[2] (ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 80-81)

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