Wednesday, 11 July 2018

Teatro de S. Carlos

Ora aqui temos, Dilecto, um edifício ligado, de certo modo a tôda a história política e social de Lisboa do século passado e princípios do actual: o Teatro de S. Carlos. 

Presentemente — Setembro de 1939 — beneficiando de obras de reedificação, mais que de restauro, de que bem carecia, êste teatro do Estado não tem ainda destino artistico no seu horizonte. Encerrado há uma dezena de anos- tem perdurado em Lisboa como um museu de recordações com alguma boa arte a ilulstrá-lo.


O Teatro de S. Carlos — prossegue Norberto de Araújo — foi construído [para substituir a Real Casa da Opera (Real Opera do Tejo sita na Ribeira das Naus)] entre 8 de Dezembro de 1792 e 30 de Junho de 1793, dia da inauguração, com a ópera de Cimarosa «La Balerina Arnanter. O risco do Teatro, tomado do de S. Carlos de Nápoles, é do arquitecto José da Costa e Silva [...]
Ao invés do que vulgarmente se supõe, o Teatro não foi de iniciativa nem de fundação do Estado, mas de um grupo de capitalistas, entre os quais Anselmo José da Cruz Sobral, Jacinto Fernandes Bandeira, João Pereira Caldas e o famoso Joaquim Pedro Quintela, depois Barão de Quintela, que cedeu o terreno, com a condição de ficar com um grande camarote privativo para si e para seus descendentes, camarote que D. Fernando comprou em hasta pública em 1880 por vinte e um contos da época, e que mais tarde passou à Condessa d'Edla.
Só em Agôsto de 1854 o Estado adquiriu o Teatro, que se integrou no Património Nacional.

Teatro de S. Carlos [1928]
Rua Serpa Pinto, 9; Largo de S. Carlos, antigo do Directório
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

De D. Mariz I a D. Manuel II e Teatro de S. Carlos foi e teatro da Côrte, grandes solenidades oficiais, dos dramas e das farsas políticas, das exaltações glorificadoras e dos protestos colectivos. Algumas dezenas de emprêsas, de nomes ilustres ou de arrivistas de qualificação social, passaram por S. Carlos, desde Francisco Lodi, o primeiro de todos, passando pelo Conde de Farrobo (1838-40) até José Paccini, no comêço dêste século, e Mimon Anahory, já no actual [XX].
Ficaram célebres os «partidos» das cantoras e bailarinas — cujas narrativas enchem crónicas saborosas de Lisboa oitocentista, através de dinastias de boémios e de fidalgos, de amadores entendidos e de apaixonados das «primas-donas».
Cento e quarenta anos de Lisboa foram cento e quarenta anos de S. Carlos — hoje [1939] sonâmbulo.
Uma nota te quero dar: de comêço, a iluminação era a velas de cera e sebo e a azeite, só entrando o gás em 1850, e a electricidade em 1881.
A-pesar-do primitivismo da iluminação, foram «feéricas» algumas das grandes festas em S. Carlos, nos tempos de D. João VI, de Junot, de D. Maria II. O Teatro foi inaugurado com artistas masculinos cantores, representando os papéis de mulheres, os «supranistas» «castrati» para que a voz não engrossasse de volume... Só em 1799 pisaram o tablado da Ópera de Lisboa «primas-donas» autênticas, como Mariana Albani e Luíza Gerbini. Lisboa não perdeu pela demora, porque depois as cantoras e bailarinas de S. Carlos endoideceram meia cidade. Quem sabia disto bem era Pinto de Carvalho, o «Tinop», falecido em 1937.  

 Theatro de São Carlos, gravura da autoria de Legrand [entre 1839 e 1847]
Incluído no programa inaugural esteve também um elogio cantado, composto por António Leal Moreira, no âmbito das celebrações da gravidez da princesa Carlota Joaquina, a quem foi dedicado o teatro

S. Carlos é um grande e um lindo Teatro, ocupando uma enorme área, num edifício cheio de pavimentos, galerias, salas, casas, dependências — verdadeiro labirinto. Embora nos últimos trinta anos muito perdesse em fausto e sumptuária ainda era de ver-se, ao tempo em. que começaram as obras.
O teto do magnifico Salão de Entrada é de Cirilo Wolkmar Machado, sendo o chão de mármore branco e azul.
O Salão Nobre, ou «Salão das Oratórias», era igualmente formoso, mas muito perdeu do seu primitivo aspecto.
A Sala de Espectáculos, em forma elíptica, de vivos de ouro e de semblante nobre, tem vinte e um metros de comprimento e dezasseis de alto, ostentando cinco ordens de camarotes, entre êles as famosas «torrinhas›; a bôca de cena mede catorze metros. O teto, restaurado, é de Manuel da Costa, c a magnífica «tribuna real», que ocupa três alturas e larguras de camarotes, foi interiormente pintado por G. Appiani.

E eis quanto posso sintetizar dêste Teatro de S. Carlos, cuja fachada, que não tem a importância da do Teatro Nacional, ostenta na sobreporta central do terraço a lápide latina, ligando os nomes de Carlota Joaquina e do Príncipe Regente ao de Pina Manique — que tornou possível o milagre de se erguer um edifício desta ordem em seis meses —, e marcando a data MDCCXCIII (1793).
 
Classificado como imóvel de interesse público em 1928 (8 de Setembro de 1928) e Monumento Nacional em 1996 (6 de Março de 1996).

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 14-15, 1939.

1 comment:

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