Tuesday, 7 June 2016

Rua de Santo António à Estrela: demolição de um arco do Aqueduto das Águas Livres

Este arco sito na do Rua de Santo António à Estrela era parte do Aqueduto do Convento da Estrela, ramal subsidiário do Aqueduto das Águas Livres ou Galeria das Necessidades, que conduzia a água para os chafarizes de Campo de Ourique, da Estrela, da Praça de Armas e das Terras. 

Convento do Santíssimo Coração de Jesus e Arco do Aqueduto sobre a Rua de Santo António à Estrela [ant. 1885]
Em 1885, as dependências conventuais são entregues à Fazenda Nacional, para instalação dos Serviços Geodésicos, depois Instituto Geográfico e Cadastral
Fotógrafo não identificado, in AML


Partia do Arco do Carvalhão terminando na Tapada das Necessidades, onde nascia outro ramal à superfície, que atravessava o Vale da Cova da Moura, actualmente a Avenida Infante Santo, até às Janelas Verdes, abastecendo o respectivo chafariz; a abertura da Avenida implicou a sua demolição. 

Rua de Santo António à Estrela: demolição de um arco do Aqueduto [10 de Abril de 1897]
O último prédio alto à esquerda, com portal abobadado, era o edifício utilizado para recolha
dos elevadores Estrela-Camões; à direita, a antiga Cerca do Convento da Estrela
(ou Sagrado Coração de Jesus,hoje pavilhão do Hospital Militar);
ao fundo, a Igreja e Antigo Convento de Nossa Senhora da Estrela (Hospital Militar Principal)

Fotógrafo: não identificado, in AML

Foto, inscrição no original: «Demolição do Arco Grande do Aqueduto, na Rua de Santo António à Estrela, arriado em 10 de Abril de 1897 pelos operários da secção de obras da Exma Câmara Municipal de Lisboa, foram entregues no depósito do Edificio da Estrela em 10 de Agosto do mesmo anno duas torneiras de bronze que pezavam a 1.ª 117,0 Kilos e a 2.ª 115,0 Kilos no total de 232,0 kilos.»

Levantamento topográfico de Francisco Goullard, (1882)]: n.º 163
Planta referente ao estado da rua de Santo António à Estrela, em Outubro de 1890. Localização do Arco Grande do Aqueduto do Convento da Estrela
(Clicar para ampliar)


Recolha dos elevadores Estrela-Camões, demolido em finais de 1941
Praça da Estrela; a esq., a Rua Domingos Sequeira e, à dir., a Rua da Estrela

(Este prédio é aquele que se pode observar do lado esquerdo na 2.ª foto) 
Eduardo Portugal, in AML

Sunday, 5 June 2016

Chafariz da Armada

Este chafariz era o chafariz das Necessidades construído em 1845-46, estando previsto a sua transferência para a Calçada do Livramento, mas acabou por ficar em Alcântara, em frente ao Quartel do Marinheiros. A sua construção, em cantaria de calcário lioz, iniciou-se em Julho de 1845, sendo encanado no canto do muro da Quinta das Necessidades, prosseguindo pela frente do Palácio, descendo até à Praça da Armada.

Chafariz da Armada  ou Chafariz de Alcântara [c. 1950]
Praça da Armada 
A Praça da Armada foi denominada Largo de Alcântara,
Praça de Armas e da Marinha, e vulgarmente Largo dos Marinheiros;
não oficialmente, era conhecido por Praça do Baluarte

António Passaporte, in AML

Crê-se que as carrancas que ostenta pertenciam ao Chafariz do Campo de Sant'Ana. Foi concluído em 28 de Março de 1846 e orçou em 3:115$961 réis. O chafariz tem planta circular, ladeado por dois tanques para o gado e por quatro bacias com as respectivas bicas para o povo no nível superior para o qual se sobe uma escada de três degraus. No topo tem uma estátua de Neptuno que se diz pertencer ao demolido Chafariz do Campo Grande após a sua demolição em 1850.

Chafariz da Armada  ou Chafariz de Alcântara [1968]
Praça da Armada 
A Praça da Armada foi denominada Largo de Alcântara,
Praça de Armas e da Marinha, e vulgarmente Largo dos Marinheiros;
não oficialmente, era conhecido por Praça do Baluarte

Armando Serôdio, in AML

Os apainelados da face frontal possuem, no painel superior, as armas da cidade, surgindo, no inferior, uma inscrição pintada a preto: N.º 10. CAMARA MUNICIPAL 1845. Em 1846 tinha ao serviço 2 companhias de aguadeiros e 66 aguadeiros.

Chafariz da Armada  [entre 1903 e 1908]
Praça da Armada
A Praça da Armada foi denominada Largo de Alcântara,
Praça de Armas e da Marinha, e vulgarmente Largo dos Marinheiros;
não oficialmente, era conhecido por Praça do Baluarte

Charles Chusseau-Flaviens, in GEH
* O local não se encontra identificado pelo fotógrafo

Saturday, 4 June 2016

Os alfacinhas vão a banhos: praia de Algés

Invocando aquilo que consideravam ser a «decência pública», o Estado Novo preconiza o condicionamento dos comportamentos permitidos nas zonas balneares através de uma série de regulamentações que surgiam no Decreto-Lei nº 31.247, de 5 de Maio de 1941, incluindo penalizações pecuniárias entre os trinta escudos (0.15€) e os cinco contos (25€) para os prevaricadores, uma verdadeira fortuna para a época. De acordo com o referido decreto, eram estas as «condições mínimas» a que deviam obedecer os fatos de banho, específicas para homens e mulheres:

Praia de Algés [1912]
 «Um salto custoso!»
Joshua Benoliel, in AML
  
Homens: «Fato inteiro em que o pano anterior se prolonga cobrindo toda a frente do calção, de costura a costura lateral. O calção deve ser justo à perna, de corte direito e terá um comprimento de perna mínimo de dois centímetros. A frente do fato, qualquer que seja a forma do decote, deve cobrir a parte anterior do tronco, tapando os mamilos. As costas podem ser decotadas até à cintura.
(...) Não é permitido o uso de fatos que se tornem imorais pela sua transparência e pela excessiva elasticidade do tecido. (…)

Praia de Algés [1912]
«Agora é que vai!»
Joshua Benoliel, in Ilustração Portuguesa

Mulheres: «O fato de banho para senhoras deve ser inteiro e ter saiote fechado. O calção interior é justo à perna, de corte direito e deve ter o comprimento de perna mínimo de dois centímetros.
O saiote, que pode ser independente do corpo do fato, terá o comprimento necessário para exceder, pelo menos de um centímetro, a extremidade inferior do calção depois de vestido.
A frente do fato deve cobrir a parte anterior do corpo, não podendo o decote ser exagerado, a ponto de descobrir os seios. As costas poderão ser decotadas até dez centímetros acima da cintura, sem prejuízo do corte das cavas que devem ser, quanto possível, cingidas às axilas.»

Praia de Algés [1912]
«Nada como um banho revigorante
Joshua Benoliel, in AML

Friday, 3 June 2016

Rua de Arroios: a Fábrica de Cervejas «Leão» e a Escola Estephania

 « O sítio de Arroios — que já é senhor da categoria de bairro — e do qual nos aproximamos, ainda hoje possue, se bem te avisares ao passeiá-lo, um certo ar de subúrbio urbanizado.
   Do lado direito da Rua, ou seja na linha do nascente, as edificações correspondem na sua grande maioria  ao século actual [o autor escreve em 1938/39].  (...) Dilecto, em menos de oitenta anos esta Rua — que é-apesar-de tudo a a única artéria resistente de toda a área dos Anjos ao Areeiro — muito se tem modificado.

Fábrica de Cervejas Peninsular, Rua de Arroios, 46-48 [1908?]
Neste local existiu a Fábrica de Cerveja Leão
fundada em 1878 por José Varela e Jacinto Franco; ao fundo os prédios da então Av. D. Amélia hoje Av. Almirante Reis; à direita, a antiga Tv. do Forno do Tijolo, hoje Rua Frei Francisco Foreiro, e, onde se vê a placa toponímica identificando o «Regueirão dos Anjos», o muro do Palacete Villa Braz Fernandes onde funcionava.a Escola Estephania.
Machado & Souza, in AML

   Vês este prédio moderno na esquina da Rua Francisco Foreiro (também nova) e da Rua de Arroios onde tem os n.ºs 46 a 48, e que é hoje uma serração de madeiras? Pois foi, até 1916(?), a famosa Fábrica de Cervejas «Leão», que refrescou não apenas nossos pais mas também nossos avós. Tinha então um pátio grande, que ainda hoje se desenha, alterado na fisionomia; eram casas e terrenos dos Condes de S. Miguel.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 79-81)

Na outra esquina da Rua Francisco Foreiro, defronte à Fábrica de Cervejas Peninsular (sucessora da «Leão»?), ficava o Palacete Villa Braz Fernandes que albergava a Escola Estephania. Vale a pena a leitura do anúncio publicado no Almanak de "O Mundo" de 1908. Fica aqui um excerto para aguçar o apetite.
«[...] As línguas, no curso commercial são ensinadas praticamente. A alimentação dos alumnos internos e semi-internos é abundante, variada e preparada com generos de primeira qualidade; [...] O actual proprietário encontra-se, a toda a hora do dia ou da noite, no edifício da Escola, salvo caso de força maior; [...]»

Escola Estephania [c. 1908]
Adjacente à fábrica de cervejas ficava o Palacete Villa Braz Fernandes, Regueirão dos Anjos
Perspectiva tirada da Rua de Arroios; à esquerda a antiga Tv. do Forno do Tijolo, hoje Rua Frei Francisco Foreiro

Fotógrafo não identificado, in AML

[Fragmento] Planta Topográfica de Lisboa: 1911, Pinto, Júlio António Vieira da Silva, in AML
Legenda (clicar para ampliar):
Vermelho: Rua de Arroios
Verde: Rua Frei Francisco Foreiro (antiga Tv. do Forno do Tijolo)
Laranja: Regueirão dos Anjos
Amarelo: Fábrica de Cervejas «Leão» (Peninsular)
Azul: Escola Estephania

Tuesday, 31 May 2016

Palácio dos Condes de Redondo (Bairro Camões)

Edificado no 3º quartel do séc. XVII, por iniciativa do 7º ou 8º Conde de Redondo, este palácio, classificado como Imóvel de Interesse Público e traduzindo um exemplar de arquitectura residencial barroca, resistiu ao Terramoto de 1755 sem danos significativos. 

Palácio dos Condes de Redondo [1930]
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal 'O Século'

De planta rectangular composta por quatro alas em torno de um pátio também rectangular, apresenta volumetria paralelepipédica. A extensa fachada principal, desenvolvida em dois pisos, é constituída por sete corpos contíguos delimitados por pilastras toscanas, encontrando-se rasgada a um ritmo regular por duas ordens de 22 janelas, sendo as do andar nobre de sacada com guardas de ferro forjado e encimadas por cornija. O portal, emoldurado a cantaria e coroado por um friso com tríglifos, sobrepujado por frontão triangular interrompido no vértice, dá acesso ao pátio interior, no centro do qual existe uma cisterna seiscentista com guarda de cantaria. 

Palácio dos Condes de Redondo [193-]
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
Eduardo Portugail, in AML

No interior merecem destaque a escadaria desenvolvida a partir do átrio situado ao fundo do pátio, assim como algumas salas com tectos apainelados e estuques pintados. Tendo passado pelas mãos de vários proprietários, está ocupado actualmente pela Universidade Autónoma de Lisboa, que aí funciona desde os anos 80 do séc. XX.

Palácio dos Condes de Redondo, jardins [9 de Junho de 1880]
O Bairro Camões foi inaugurado em 9 de Junho de 1880, (compreendia as Freguesias do Coração de Jesus e de São Jorge de Arroios) por ocasião do 3º centenário da morte de Luís de Camões. Para a ocasião foi armado um coreto pavilhão nos jardins do Palácio dos Condes do Redondo.
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
José Artur Leitão Bárcia, in AML

Sunday, 29 May 2016

Salão Lisboa, o Piolho da Mouraria

Conhecido como Cinema Piolho, é o primeiro recinto especialmente construído para o espectáculo cinematográfico.Situava-se na Rua da Mouraria, entre as Escadinhas da Saúde, o Antigo Beco do Cascalho e a Rua das Fontainhas a S. Lourenço.
Propriedade da Empresa Salão de Lisboa, Lda., de Henrique O’Donnell e Victor Cunha Rosa, abre as suas portas ao público em 1916, com sessões às quintas-feiras, sábados e domingos. O público era essencialmente jovem, o que fazia com que os filmes de acção fossem o essencial da sua programação.

Cinema Salão Lisboa [1932]
 Rua da Mouraria
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Em finais de 1928, iniciam-se obras de melhoramento no seu interior, como forma de corresponder às exigências do público e ao aparecimento de novas salas. 1932 será o ano em que se introduzem novas alterações, principalmente na fachada.
Até 1972, o Salão Lisboa continua nas mãos da família O’Donnell, altura em que suspende a sua exploração cinematográfica, passando aí a funcionar um armazém de revenda que, no entanto, continuou a manter na frontaria o nome de Salão Lisboa.(cm-lisboa.pt)

Cinema Salão Lisboa [1968]  
Rua da Mouraria
Eduardo Gageiro, in AML

Saturday, 28 May 2016

Alto do Longo (à Rua de O Século)


O olisipógrafo Norberto Araújo recorda-nos a origem para o curioso topónimo deste arruamento do Bairro Alto, com início na Rua O Século e fim na Travessa do Conde de Soure:

«Porque se chama Alto do Longo? Afirma-se que um quarto avô do Alexandre Herculano, homem de grande estatura, alcunhado «O Longo» deu nome ao sitio; o povo nunca chamou «longo» a uma pessoa alta mas sim «comprido». O certo é ter existido por aqui cêrca, na Rua Formosa [actual ,Rua do Século] um homem chamado de seu apelido «Longuo», o que poderia explicar a designação se a passagem do homem pela vida não fôsse tão recuada, segunda metade do século XVII (morreu em 1669). 

Alto do Longo [1943]
Esta rua tem início na Rua O Século [entre os nºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure
Eduardo Portugal, in AML

« O Alto do Longo é, contudo, anterior ao ano do Terramoto. Devia ter principiado por ser na «Cotovia» uma espécie de «bairro pequeno das minhocas» do século XVIII (...) São estas sobreposições de urbanismo, estes vincos dispares na fisionomia dos bairros, que constituem o encanto de Lisboa.»

Alto do Longo [c. 1945]
Esta rua tem início na Rua O Século [entre os nºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de SoureFernando Martinez Pozal, in AML

« Janelas quase rentes ao chão, beirais sem flor à altura de um braço, dois pátios de presépio pobre de cartolina - eis o Alto do Longo. (...) Pois é um presépio de humildade e pobreza, aliás sem imundicie, e sem aspecto de pardieiro, como noutros sítios já vimos. (...)» [1]

Alto do Longo [1943]
Esta rua tem início na Rua O Século [entre os nºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure
Eduardo Portugal, in AML

[1](ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 63-64)

Friday, 27 May 2016

Rua Áurea, 145-149

Lojas de Antanho: Casa de Novidades [onde hoje está a Papelaria Fernandes]


O jornal diário A Capital:-Diário Republicano da Noite, na sua edição de 29 de Junho de 1916, dedicava um longo artigo às mais antigas e tradicionais lojas da Baixa, mais precisamente aquelas situadas na Rua Áurea, vulgo do Ouro. Sobre a história do estabelecimento denominado Casa de Novidades — e respeitando a grafia da época — o texto rezava assim:

« Lembram-se? Na Rua do Ouro, 145 a 149, era ha poucos annos ainda atraz, a loja das Novidades, com alguma coisa de tetrico, com alguma coisa de lugubre até, que lhe vinha d'aquellas corôas e crepes mortuarios, feitas de lindas flores artificiaes. 

Rua Áurea, 145-149 [c. 1910]
Casa das Novidades ornamentada para o IV Congresso Internacional de Turismo
[onde hoje está a Papelaria Fernandes]
Plantas| Flores para chapeos!| Corôas|

Joshua Benoliel, in AML

« Era a casa do Pinho que, esquecendo o seu labor de commerciante e abraçando de cada vez mais obececadamente a politica, veio afinal a arruinar a sua casa commercial, tendo, depois, de procurar no Brazil o pão para a sua velhice cançada e desilludida. Mas todo esse aspecto pouco sympathico da Loja das Novidades desappareceu completamente. Tapumes [o que seria de Lisboa sem eles?] muito discretos cobriram por largos mezes a feia fachaada, até que, por fim, o nosso publico estacionou maravilhado em frente de um dos mais elegantes estabecimentos de alfaiateria que tem hoje Lisboa. (...)»
(A Capital: diário republicano da noite, Guimarães, Manuel, 1868-1938, ed. com., N.º 2106, 26 Jun. 1916)

Rua Áurea, 145-149 [1911-05-12]
Casa das Novidades ornamentada para o IV Congresso Internacional de Turismo
[onde hoje está a Papelaria Fernandes]
Plantas| Flores para chapeos!| Corôas|

Joshua Benoliel, in AML
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