Da fábrica (confeitaria) dos Pastéis de Belém à Farmácia Franco (onde nasceu o Sport Lisboa, mais tarde Sport Lisboa e Benfica)
O olisipógrafo Norberto Araújo caracteriza da seguinte forma este arruamento da antiga Lisboa arrabaldina:
«Nesta Rua de Belém [antiga Direita de Belém até 1889] verifica-se o que tantas vezes temos notado: prédios que se encostam, uns sólidos e burgueses, outros pequenos e antigos, em confraria arruada. Nenhum é, porém, dêste século, e, por consequência, a linha
«modernista» não apareceu ainda por aqui, embora já campeie, ofegante
de progresso, pela Boa Hora, Ajuda, e bairro novo do Almargem.
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Rua de Belém [1910]
Fábrica (confeitaria) dos «Pastéis de Belém», 84-86-92 (1º edifício a esq.)
Legenda da foto no arquivo: «Comemorações do centenário de Alexandre Herculano (1810-1877), cortejo a chegar aos Jerónimos»
Joshua Benoliel, in AML |
Ora vejamos êste prédio grandioso [na 2ª foto], para a sua época, desafogado, que é aquêle que se confina entre as Travessas dos Ferreiros e de Marta Pinto, n.° 26. Foi construído entre 1881 e 1884 por Pedro Augusto Franco, Conde do Restelo, que adquiriu uma velhas casas que no local existiam, e que haviam sido, até 1834, as «Mercearias›» de Belém. (...)
Pois o 1.° Conde de Restelo, Pedro Augusto Franco, adquiriu essas Casas e — «demolindo-as
quási inteiramente — «elevou o seu prédio. Ainda hoje num pátio interior,
com serventia pela Farmácia, Franco, sôbre um arco antigo, existe uma lápide que reza: «Mercearias da Rainha D. Catarina, que Deus tem, instituída para 20 cavaleiros de África. Em Maio de 1619». A data é da reconstrução da casa, pois a fundadora morreu em 1578.
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Rua de Belém [1910]
O piso térreo do 2º edifício à esq. era ocupado pela Farmácia Franco
Legenda da foto no arquivo: «Comemorações do centenário de Alexandre Herculano (1810-1877), cortejo a chegar aos Jerónimos»
Joshua Benoliel, in AML |
Quanto à Farmácia Franco é dos mais antigos
estabelecimentos de tôda a Lisboa; foi fundada em 1821 por Inácio José
Franco, pai de Pedro Augusto, o construtor do prédio (a farmácia já
existia no lugar), avô do 2.° Conde, também Inácio José, bisavô de outro Pedro Augusto Franco, actual proprietário do prédio e farmácia.
Já agora, Dilecto, uma curiosidade:
esta Fábrica (confeitaria) dos «Pastéis de Belém», n.° 84 e 86 92, é
centenária; foi fundada por Domingos Rafael Alves, depois pertenceu ao
filho Mário Benjamim Ramos Alves, que em 1920 a trespassou a uma sociedade. Os «pastéis» vieram à casa por compra do segrêdo da receita (outorgada em escritura), compra feita em 1879 a um tal José Vicente da Silva Pinto. A escritura não previa — «os plagiatos» da fórmula. (...) [1]
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Rua de Belém [1916] No piso térreo do 1º edifício à dir. vê-se a Farmácia Franco; ao fundo, o Mosteiro dos Jerónimos
Legenda da foto no arquivo: «Preparativos para o embarque das tropas que vão combater na Primeira Guerra Mundial» Joshua Benoliel, in AML |
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 74-75)