Wednesday, 6 January 2016

Rua da Atalaia

«Entremos, enfim, na artéria representativa, plebeia e nobre a um tempo, hoje simplesmente popular, do Bairro Alto: a Rua da Atalaia; onde ainda o pitoresco do sítio, no semblante dos edifícios, nos prèdiozinhos côr de rosa, de ressalto e empena de bico, nos velhos palácios adormecidos sem fidalgos, com a sua nota de poesia e côr nos canteiros floridos das sacadas, com o seu tumulto, os seus pregões, e as suas tavernas e botequins.

Rua da Atalaia, 97 [c. 1900]
Fotógrafo não identificado, in AML

Aqui temos na esquina a Travessa de Água de Flor, lado direito, descendo, um dos mais antigos estabelecimentos do bairro: «a casa das Iscas», no número 165. É um triste documento, decrépito até no negócio, pequeno e escuro, mas que teve nomeada: as iscas do Marçal eram procuradas desde longe. Com a morte, há três anos, do velho possuidor da locanda, a casa não desapareceu mas mais lúgubre se tornou. O Prédio, que pertenceu a D. Emília Metrass de Campos, foi também um palácio antigo, de setecentos. 

Rua da Atalaia,  [c. 1900]
Esquina da Tv. dos Fiéis de Deus, antigo Palácio dos Condes de Atalaia 
onde hoje funciona  a loja da estilista Fátima Lopes
Fotógrafo não identificado, in AML

Na esquina da travessa que vai aos Inglesinhos fica o antigo Palácio Relvas, onde habitaram os Condes de Atalaia; o primeiro andar é desde há muitos anos sede de sociedades de recreio. (...) 
Na esquina fronteira, com face lateral para a Travessa da Queimada, esteve o jornal «O Diário» fundado por redactores do [Século] em 1903. (...)

Rua da Atalaia, [c. 1900]
Esquina da Travessa dos Inglesinhos
Fotógrafo não identificado, in AML
  
Dilecto: contempla-me êsse pitoresco prédio popular dos n.°” 73 a 79; dize-me se tem ou não ainda um pouco de poesia bairrista antiga, florido nos seus caixotes, as janelas de grades de setecentos, adornadas de «reixas» nos seus quatro andares. É um dos exemplares mais curiosos, mais ingénuos da construção civil modesta do fim do século XVIII, embora transformado em 1867. E todavia - não se dá por êle.»
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. VI, pp. 46-47)

Rua da Atalaia, 73 a 79 [1939]
Esquina da Travessa do Poço da Cidade
Eduardo Portugal in AML

A Rua da Atalaia aparece com esta denominação já em 1551 e, também em 1554, no «Sumário» de Cristóvão Rodrigues de Oliveira. 
Pastor de Macedo cita sobre este topónimo Gomes de Brito, «Assento pois como certo que ali, no sítio mais elevado do campo [atalaia é uma palavra de origem árabe que significa lugar alto ou sentinela] que é hoje o bairro de S. Roque, e com vista para a cidade, para o lado de Santos, e para o Tejo, se erguia uma atalaia de castelhanos [na época da eleição do Mestre de Avis] e que daí se trocavam sinais e avisos…», para concluir que «nada encontrámos que abonasse aquela opinião ou que nos levasse a admiti-la e que outrossim nada vimos que nos habilitasse a filiarmos a origem do nome da rua noutra circunstância.». 

Rua da Atalaia, 105 [1969]
Actual bar «Portas Largas», antiga taberna, carvoaria e casa de fados
Garcia Nunes, in AML
  
Pastor de Macedo também refere como antigos moradores desta rua Josefina Santos, actriz do Teatro do Ginásio e viúva do maestro Lino (1898) e, os Condes da Atalaia, no Palácio que mais tarde foi sede do jornal desportivo «Record», conseguindo também no prédio fronteiro, onde é a sede do Lisboa Clube Rio Janeiro ter estado o jornal «Diário». Ainda neste arruamento, no antigo Palácio dos Condes de Atalaia onde hoje está a loja da estilista Fátima Lopes foi a redacção do jornal «País» [cm-lisboa.pt]

Rua da Atalaia, [c. 1900]
Esquina da Travessa da Boa-Hora; no lugar do prédio de gaveto encontra-se hoje o Mercado do Bairro Alto
Fotógrafo não identificado, in AML

Tuesday, 5 January 2016

Sapataria da Moda, Rua Augusta, 102-108

Quando foi fundada, em 1892, a Sapataria da Moda era considerada a primeira da sua especialidade em Portugal e uma das mais apreciadas pelo público. No início do século XX, era já detentora de vários prémios em exposições de calçado, tendo granjeado o título da sapataria mais elegante da capital.

Sapataria da Moda [c. 1908]
Rua de São Nicolau, 61-65 com a Rua Augusta, 102-108
Joshua Benoliel, in AML

Propriedade dos empresários Vitor Gomes & Pedroso, além da loja da Rua Augusta, esta casa tinha ainda uma sucursal na Rua de São Nicolau, 47-49 e uma filial no Porto. Em 1916, possuía uma das maiores oficinas de calçado do país, empregando centenas de operários, sendo considerada um exemplo de dinamismo e uma enorme produtora de riqueza. [1]

Sapataria da Moda [1916]
Rua de São Nicolau, 61-65 com a Rua Augusta, 102-108
Joshua Benoliel, in AML

«E como a felicidade se aproximava, já tinha de olho três pares de botinas que vira na vidraça do Manuel Lourenço! Eram o seu vício, as botinas! Arruinava-se com elas; tinha-as de duraque com ponteiras de verniz; de cordovão com laço; de pelica com pespontos de cor, embrulhadas em papéis de seda, na arca, fechadas — guardadas para os domingos.»
(QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1887)

Sapataria da Moda, aspecto interior [1916]
Rua de São Nicolau, 61-65 com a Rua Augusta, 102-108
Joshua Benoliel, in AML

Sapataria da Moda, aspecto interior [1916]
Rua de São Nicolau, 61-65 com a Rua Augusta, 102-108
Joshua Benoliel, in AML

[1] Ilustração Portuguesa, 1916, 25 de Dezembro

Monday, 4 January 2016

Praça Dom João da Câmara

Foi neste arruamento próximo do Teatro D. Maria I que a edilidade decidiu perpetuar como Praça, o nome do dramaturgo D. João da Câmara, com a legenda «Figura Gloriosa do Teatro Português, 1852–1908», embora o edital de 1924 tenha por lapso mencionado Largo e, durante décadas, se tenha mantido a duplicação de referências, ora como Largo ora como Praça.

Praça Dom João da Câmara [Início do séc. XX]
Antigo
Largo de Camões;

Confluência da Rua 1º de Dezembro, Praça D. Pedro IV e Largo do Regedor.
Estação do Rossio; hotel Avenida Palace
Alexandre Cunha, in AML

Dom João Gonçalves Zarco da Câmara (1852-1908), alfacinha do nascimento à morte, viveu no Palácio Ribeira Grande, à Junqueira, (vide artigo anterior) e embora fosse engenheiro dos caminhos-de-ferro dedicou-se à escrita, sobretudo a de teatro, tendo-se estreado em 1876 no teatro D. Maria com a comédia «Ao Pé do fogão». Como seus êxitos maiores destacam-se as operetas «O burro do Sr. Alcaide» (1891) e «Cocó, reineta e facada» (1893), bem como as peças «Bernarda no Olimpo» (1874), «Meia-Noite» (1890), «D. Afonso VI» (1890), «Alcácer Quibir» (1891), «Os Velhos» (1893), «A Toutinegra Real» (1894), «O Amigo das mulheres» (1896), «Triste Viuvinha» (1897), «Rosa Enjeitada» (1901) e «Ali-babá» (1904). Dom João da Câmara publicou também poemas, romances e contos para além da sua colaboração na revista «O Occidente» e de ensinar Arte de Representar no Conservatório de Lisboa.[cm-lisboa.pt]

Praça Dom João da Câmara [Início do séc. XX] 
Antigo Largo de Camões;
Confluência da Rua 1º de Dezembro, Praça D. Pedro IV e Largo do Regedor
Café Suisso; Teatro D. Maria; Castelo São Jorge; Café da Gare; Praça Dom Pedro IV
Alexandre Cunha, in AML

Esta artéria era o Largo de Camões, já assim denominado em 1858 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, sob orientação de Filipe Folque, [1858]
Assinalado a vermelho, o largo de Camões, hoje Praça Dom João da Câmara
in AML

Palácio da Quinta da Praia

A Quinta da Praia (onde é hoje o Centro Cultural de Belém), cujo nome recordava o tempo em que o rio chegava ao limite Sul da propriedade, e que representava uma das primeiras manifestações de apropriação de Belém pela nobreza – já que, tendo sido edificada na primeira metade do século XVI, foi uma das primeiras quintas para recreio naquela zona. Pertenceu inicialmente a D. Manuel de Portugal, poeta e amigo de Luís de Camões e filho do 1º conde de Vimioso. 

Palácio da Quinta da Praia [1931]
Rua Bartolomeu Dias

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Esta propriedade teve várias designações, de acordo com a casa que sucessivamente a possuiu; assim, depois da primeira designação de Quinta da Praia passou a Quinta do Conde de São Lourenço, posteriormente a Quinta Real da Praia (na posse de D. João V), depois Quinta Marialva e finalmente Quinta do Marquês de Loulé, até 1929. Após esta data, e até 1939, funcionou no palácio desta quinta o Liceu D. João de Castro e, mais tarde, o Liceu D. Amélia. Em 1941  passou a sede da extinta comissão administrativa das obras da Praça do Império e em 1945 instalou-se nele a comissão administrativa das obras da Universidade de Coimbra. Foi demolido em 1962. [1]

Panorâmica sobre Belém, vê-se o palácio da Quinta da Praia, o mercado e a fábrica de gás de Belém [ant. 1949]
Eduardo Portugal, in AML

[1] (NÉU, João B. M.,  Em Volta da Torre de Belém, Pedrouços e Bom Sucesso, vol. II, 1998)

Sunday, 3 January 2016

Liceu Feminino de Maria Amália Vaz de Carvalho

O Licev Feminino de Maria Amália Vaz de Carvalho foi fundado em 1885 por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa. As primeiras instalações situavam-se num edifício no Largo do Contador-Mor, em Alfama. Inicialmente chamava-se Escola Maria Pia. A Escola tem uma feição eminentemente prática, visando «iniciar no país o ensino de carreiras produtivas que podem e devem pôr a mulher (...) ao abrigo das necessidades, habilitando-a a ganhar honestamente os meios de subsistência», como consta do relatório da Escola Maria Pia relativo ao ano lectivo de 1885-1886. No início, tinha cerca de 45 alunas inscritas, terminando apenas com 26 alunas. Os primeiros cursos ministrados eram lavores, tipografia, telegrafia e escrituração comercial.

Liceu Feminino de Maria Amália Vaz de Carvalho [1958]
Maria Amália Vaz de Carvalho [1847-1921, escritora e poetisa, foi a primeira mulher a ingressar na Academia de Ciências de Lisboa, (eleita em 13-06-1912)
Rua Rodrigo da Fonseca, 115-115B
Salvador de Almeida Fernandes, in AML

Em 1906 a escola passou ao estatuto de liceu feminino, por decreto do rei D. Carlos. Passa a ser o primeiro liceu feminino em Portugal. Em 1911 é transferido para o Palácio Valadares, no Largo do Carmo, no Chiado. O liceu muda novamente de nome, em 1917, para Liceu Central de Almeida Garrett.

Liceu Feminino de Maria Amália Vaz de Carvalho [s.d.]
Maria Amália Vaz de Carvalho [1847-1921, escritora e poetisa, foi a primeira mulher a ingressar na Academia de Ciências de Lisboa, (eleita em 13-06-1912)
Rua Rodrigo da Fonseca, 115-115B com a Rua Sampaio e Pina
Fotógrafo não identificado

O problema das instalações continuava por resolver. Um primeiro projecto, da autoria do arquitecto Ventura Terra, entretanto falecido, acabará por ser substituído por outro (sendo seu continuador o arquitecto António Couto), o actual, embora baseado no anterior, nomeadamente no que se refere ao  átrio e à escadaria central. Por fim, no ano lectivo de 1933-1934, após alguns anos de luta para ver alterada as suas instalações para umas maiores o Liceu abre as suas novas e definitivas dependências na rua Rodrigo da Fonseca, passando a chamar-se de Liceu Feminino Maria Amália Vaz de Carvalho.[1]

Liceu Feminino de Maria Amália Vaz de Carvalho,  Átrio e escadaria central [s.d.]
Maria Amália Vaz de Carvalho [1847-1921, escritora e poetisa, foi a primeira mulher a ingressar na 
Academia de Ciências de Lisboa, (eleita em 13-06-1912)
Rua Rodrigo da Fonseca, 115-115B com a Rua Sampaio e Pina
Fotógrafo não identificado

[1]] (BARROS, Teresa Leitão de – Os Nossos Liceus. In MOTTA, A.A. Riley, director; SEQUEIRA, F.J. Martins, subdirector – Liceus de Portugal. Lisboa: Boletim da Acção Educativa do Ensino Liceal. Liceus de Portugal. Nº 2 (Junho), 1940, p.86)

Torre Sineira da Ajuda (Antiga Capela da Ajuda)

Construção dos finais do séc. XVIII, atribuída a Manuel Caetano de Sousa, a Torre Sineira ou Torre do Galo, como também é chamada, é o único elemento que subsiste da primitiva Patriarcal e Capela Real da Ajuda, cuja magnificência se perdeu pela sua difícil conservação, visto ser construída em madeira. 

Torre sineira da Capela Real da Ajuda (Torre do Galo ou Torre da Ajuda) [1939] 
Largo da Torre; Calçada do Mirante à Ajuda, antes Rua do Mirante, situa-se num ponto alto da zona circundante do Palácio da Ajuda
Eduardo Portugal, in AML

A torre era o único elemento em cantaria, destacando-se as faces do primeiro registo com molduras salientes e a janela que surge no topo das mesmas, cuja moldura se liga ao friso superior, que a separa do registo central, cujos mostradores dos relógios são gravados na cantaria e são rematados por cornija alteada e angular, suportada por pingentes. A zona mais exuberante é a que envolve as sineiras, flanqueadas por pilastras toscanas e rematadas por invulgar frontão contracurvado interrompido, com os símbolos da Patriarcal. A cobertura é original, formando duplo bolbo, o inferior rasgado por óculos, sendo coroada por enorme esfera e galo de bronze.

Torre sineira da Capela Real da Ajuda (Torre do Galo ou Torre da Ajuda) [1939] 
Calçada do Mirante à Ajuda, antes Rua do Mirante, situa-se num ponto alto da zona circundante do Palácio da Ajuda
Eduardo Portugal, in AML

Subsistindo à demolição da Capela Real da Ajuda em 1843, a Torre encontra-se integrada na Zona Circundante do Palácio Nacional da Ajuda, que está classificada como Imóvel de Interesse Público.[1] 


Torre sineira da Capela Real da Ajuda (Torre do Galo ou Torre da Ajuda) [entre 1950 e 1959] 
Largo da Torre; Neste Largo viveu grande parte da sua vida o escritor
Alexandre Herculano (1810-1877)

Fotógrafo não identificado, in AML

 [1]  monumentos.pt

Saturday, 2 January 2016

Avenida de Roma, Bairro de Alvalade

Em 1941, o jornal semanário A Acção, saudava uma «Lisboa nova e moderna», «aldeia grande que se transformava em grande e soberba cidade», «adeus à Lisboa provinciana de manjerico à janela».
O Bairro de Alvalade,
risco do arqº municipal Faria da Costa, é consequência do Plano Geral de Urbanização e Expansão de Lisboa (PGUEL) de 1938, que definiu as grandes linhas de desenvolvimento da cidade, das quais se destaca a expansão para norte, nomeadamente para a zona de Alvalade.
 
Avenida de Roma [1947]
Construção do Bairro de Alvalade e do último troço da Av. de Roma até à
Avenida do Brasil conhecida como Avenida Alferes Malheiro até 1948; ao fundo o Hospital Júlio de Matos
Ferreira da Cunha, in AML

Construído inicialmente pela Câmara Municipal de Lisboa, a urbanização do Bairro de Alvalade constitui uma intervenção pioneira criando uma nova parte da cidade edificada quase de raiz. O Município de Lisboa conseguiu conciliar a inovação urbanística, sobretudo no desenho e na gestão, com a utilização em larga escala de novos métodos construtivos, implicando a redução de custos de construção sem prejuízo da qualidade arquitectónica.

Avenida de Roma [195-]
António Passaporte, in AML

Espinha dorsal do Bairro de Alvalade a avenida de Roma é um livro aberto da história da arquitectura e do urbanismo do século XX.  Aqui encontramos imóveis de grande qualidade arquitectónica, assinados por alguns dos melhores arquitectos da época, como Cassiano Branco, Joaquim Bento de Almeida, José de Lima Franco, Licínio Cruz, Formosinho Sanches, Filipe Figueiredo e José Segurado.

Avenida de Roma [195-]
António Passaporte, in AML

Friday, 1 January 2016

Edifício Ramiro Leão

O Chiado teve e tem os seus escritores, artistas e figuras típicas, tal como tem os seus edifícios emblemáticos. O Ramiro Leão é um deles. Distingue-se da diversidade que caracteriza,  anacronicamente,  a unidade deste lugar e do conjunto de armazéns, como o Grandella, o Chiado ou o Eduardo Martins, todos eles com origem anterior ao Ramiro Leão. Durante décadas, esta foi uma das casas comerciais mais cosmopolitas de Lisboa.

Edifício Ramiro Leão,  [séc. XIX]
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3
Fotógrafo não identificado [P.M.], in AML

Na década de 1880, um jovem comerciante de Lisboa, Ramiro Leão, nascido em 1857 na aldeia de Degracias, no concelho de Gavião, avançou para a fundação de uma grande casa comercial num dos locais mais nobres da cidade. Vindo muito novo para Lisboa, Ramiro Leão cedo se dedicou à actividade comercial, desde que abriu com seu irmão António um primeiro estabelecimento na Rua Nova do Almada

Edifício Ramiro Leão,  [c. 1910]
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3;  [Rua Paiva de Andrada]
Joshua Benoliel, in AML

A passagem para o edifício do Chiado processou-se por duas fases: as primeiras instalações não iam para além de uma loja e 1.º andar, mas depressa a fraternal sociedade se assenhoreou de todo o prédio, após a saída do Hotel Borges, que ocupava dois pisos, e dos demais inquilinos das lojas aí existentes. A abertura e expansão desta casa, no Chiado, trouxe fama e riqueza aos seus proprietários, tendo Ramiro Leão chegado a director da Associação Comercial, mantendo-se como tal durante largo tempo.

Edifício Ramiro Leão,  [c. 1910]
Rua Paiva de Andrada [Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3]
Joshua Benoliel, in AML

Na parede que envolve a escada, foram executadas pinturas murais da autoria do pintor João Vaz (1859-1931), figurando o Palácio de Queluz, a Boca do Inferno, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e a Basílica da Estrela e um vitral ao estilo Arte-Nova figurando motivos vegetalistas e animais; contava também com um elevador ao mesmo estilo e com pinturas a óleo no tecto realizadas por alunos da Escola Afonso Domingues com base em cartões de João Vaz. Em 2001, estas pinturas foram retiradas e doadas ao Museu da Cidade em Lisboa

Edifício Ramiro Leão, incêndio  [1927]
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3;  [Rua Paiva de Andrada]
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Em 1927, após o incêndio que vitimou parcialmente o imóvel, foi realizado um projecto de recuperação pelo arqº Norte Júnior, que também trabalhou noutras obras nesta área. A intervenção do arqº no Ramiro Leão consistiu essencialmente na construção de uma mansarda em substituição do sótão que ardeu. Numa altura em que estas decorriam, foi proposta a construção do torreão de gaveto, ainda durante o ano de 1927. Este torreão foi concebido totalmente em cimento armado, sendo a parte superior montada directamente sobre o cunhal.  Em 2001, instalou-se no prédio a «Loja United Colors of Benetton».
(Cadernos do Arquivo Municipal, Nº4, 2000, Arquitecturas de esquina em Lisboa, Jorge Mangorrinha)

Edifício Ramiro Leão,  [c. 1950]
 Torreão NO. construido em 1927 sob a orientação do arqº Norte Júnior
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3
Judah Benoliel, in AML


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