Saturday, 19 December 2015

Rua Áurea - Iluminações de Natal

A 5 de Novembro de 1760 foi iniciada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto. Neste diploma D. José estabelece a denominação dos arruamentos localizados entre a Praça do Comércio e o Rossio, bem como regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio no mesmo local. Sobre esta rua ficou decidido:
«Nela se acomodarão os Ourives do Ouro, alojando-se nas acomodações que dele sobejaram os Relojeiros e Volanteiros.» E é assim que a rua passa a ser identificada pelo vulgo como Rua do Ouro.

Rua da Prata, Rua Áurea. iluminações de Natal [195-]
[Casa dos Espartilhos

Judah Benoliel, in AML

Friday, 18 December 2015

O «Galheteiro» do Roccio

«E lá está em cima, a 18 metros de altura [27.5m], no bronze «eterno», D. Pedro IV, em general, cobertos os ombros pelo «régio manto», cabeça coroada de louros.»
«O primeiro projecto de um monumento no Rossio - em louvor da Constituição - data de 1820, havendo sido lançada a pedra fundamental em 15 de Setembro de 1821; não prosseguiu. O segundo, que ainda deu um famoso «Galheteiro» - que algum tempo ocupou lugar - teve a primeira pedra em 8 de Julho de 1852, não andou por deante, e foi demolido em. 1864. Finalmente em 29 de Abril de 1867, a esforços de uma comissão de que fizeram parte o Duque de Palmela, os Marqueses de Sá da Bandeira e de Sousa Holstein, o Conde de Farrcbo, os Viscondes de Benagazil e de Menezes, lançou-se a primeira pedra para o monumento que aqui vês, inaugurado três anos depois, a 29 de Abril de 1870, com extraordinária solenidade
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 67-68)

Praça Dom Pedro IV e o Galheteiro  Ca. 1863

Apesar das várias intenções de erigir um monumento a D. Pedro IV, é apenas em 1867 que é lançada a primeira pedra para a sua construção. Dos oitenta e sete projectos apresentados para o Rossio, espaço privilegiado da história política e social, e em resposta ao concurso internacional foi seleccionado o do escultor Elias Robert e do arquitecto Gabriel Davioud. Sobre um plinto quadrangular, desenvolvem-se no encosto dos seus vértices quatro figuras femininas ilustrativas das qualidades do monarca. A Fortaleza, simbolizada no leão que touca a figura de braços cruzados, descaindo para além dos ombros as patas de uma pele abandonada; a Justiça, representada na figura que repousa o braço direito na verticalidade da espada, defende e castiga com a mesma mão com que segura a balança, julgando; a Moderação, patenteada na ampulheta que divide o tempo em rigor e exactidão; e a Prudência resguardada no manto que a cobre na quase totalidade e no espelho que repousa na sua mão esquerda sobre o colo, ornamentado por uma serpente desenrolada, sinónimo de reflexão. 

O primeiro monumento a D. Pedro IV, apelidado de "o galheteiro" pelos lisboetas [entre 1852-1864]

Praça Dom Pedro IV no dia do casamento do rei Dom Luis, tendo sido colocada ao centro uma coluna evocativa [1870]

O plinto decorado com os escudos de dezasseis cidades, recebe a coluna com caneluras, revestida na sua base por quatro Famas. No topo, sobre o capitel coríntio, ergue-se majestática a estátua de bronze de acordo com o desenho de Miguel Ângelo Lupi que acompanhou, em Paris, a execução da peça. O monarca, coroado de louros e protegido pelo manto da realeza, expõe na sua mão direita a Carta Constitucional. Vitorioso nas lutas liberais perante os absolutistas, projecta na elevada altura da peça a soberania, submetendo ao seu domínio a cidade iluminista que nasceu do poder absoluto e esclarecido, cerca de cem anos antes. O olhar real estende-se para além dos telhados da baixa pombalina, alcançando o horizonte que se interrompe no rio, junto à Praça do Comércio, rivalizando dois monarcas e dois entendimentos políticos. A peça concebida para o Rossio determina, à data, uma nova denominação toponímica, doravante Praça D. Pedro IV. Este espaço urbano arroja no monumento ao monarca, a majestade e a intangibilidade, signo de eloquência entre tempo passado e presente, aglutinador de convivências que se consubstanciam na sobreposição da antiga à nova designação. (cm-lisboa.pt-Maria Bispo)

Praça Dom Pedro IV e o Galheteiro  Ca. 1858.de Amédée Lemaire de Ternante

Avenida Sidónio Pais

O «Bairro Azul» constitui um conjunto arquitectónico que se reveste de uma homogeneidade ímpar, datado da década de 30 do Século XX com prédios dotados de esquerdo-direito ao gosto «Art Déco» e burguês, destinado a servir uma classe média que culminaria a sua ascensão no período salazarista, e que se procurava rodear de algum luxo e dignidade. O ângulo estranho do plano do bairro resultava do desenho de Cristino da Silva para uma vasta urbanização inicial que, cerca de 1930, deveria ter sido o remate do prolongamento da Avenida da Liberdade. Devia apresentar-se com arruamentos em simetria, nos dois lados do Parque Eduardo VII. Contudo, o bairro ficou isolado, pois o restante projecto não se realizou, repetindo-se a vocação lisboeta para os tecidos incompletos e para a justaposição de bairros de origens diversas, característicos do início do Séc. XX. Trata-se, ainda assim, de um projecto e de uma ideia subjacente de Cidade. Apresenta-se com uma hierarquia estabelecida e está dotado de aparatosos pórticos de entrada no Bairro.

Avenida Sidónio Pais [1965]
O prolongamento (e remate) da Avenida Sidónio Pais - entre as ruas Engenheiro Canto Resende e Marquês de Fronteira - só se concluiu no início da década de 1970
Augusto de Jesus Fernandes, in AML

Largo Trindade Coelho

No ano de 1509 grassava em Lisboa uma grande peste, e o rei D. Manuel I mandou erguer junto ao cemitério, que se situava perto do Convento da Trindade, uma ermida a que chamou de São Roque para albergar uma relíquia do santo vinda de Veneza. Por essa altura um proprietário local, de nome Bartolomeu de Andrade, iniciou a construção de um conjunto de casas nas cercanias, a que se chamou Vila Nova de Andrade, ao Alto. Em 1553 os jesuítas tomaram conta de ermida e em 1555 iniciaram a construção de um majestoso templo, a actual Igreja de S. Roque.
E foi assim que a Vila Nova de Andrade, do Alto, que crescia junto ao convento, passou a ser conhecida por Bairro Alto de São Roque, e depois por Bairro Alto. Desta associação nasceu o topónimo Largo de São Roque, que passou a Largo Trindade Coelho por edital de 1913.

Largo Trindade Coelho, antigo Largo de São Roque [entre 1903 e 1908]
Ao fundo, a Calçada do Duque e a Rua Nova de Trindade

[Inscrição no original: «Marchand de dindon», que é como quem diz, vendedor de perus]
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógrafo

José Francisco de Trindade Coelho, destacado jurisconsulto, escritor e jornalista, nasceu em Mogadouro a 18 de Junho de 1861 e faleceu em Lisboa a 19 de Agosto de 1908.
Cursou Direito em Coimbra, cidade onde começou a escrever nos jornais sob o pseudónimo de Belistírio. Aí exerceu advocacia e fundou duas publicações: «Porta Férrea» e «Panorama Contemporâneo», [cm-lisboa.pt]

Thursday, 17 December 2015

Antiga Residência do Governador do Forte do Bom Sucesso / Casa do Arco da Torre

Casa onde viveu Almeida Garrett no Verão de 1852


O Forte do Bom Sucesso foi edificado em 1780, sob a direcção do General Vallerée, entre as praias de Bom Sucesso e Pedrouços, reforçando a linha defensiva de Belém. Na mesma época foi edificada a residência do governador da fortaleza, no perímetro do baluarte, a expensas da coroa.
Possivelmente, a obra foi concluída nos primeiros anos do século XIX, atendendo-se à inscrição colocada sobre uma das portas de entrada, onde se gravou 
«(...) A REAL / CROA PARA PATRIMO / NIO DA FORTALEZA / DO BOM ÇOCEÇO / ANNO DE 1802»
O edifício mantém a estrutura de gosto oitocentista (o IPPAR refere-se a ele como um «palacete seiscentista»)..De planta rectangular, possui fachada principal dividida em três panos, marcados por duas pilastras adossadas, dois registos e águas furtadas.
Ao centro, no piso inferior, abre-se um grande arco, que através de um túnel permitia a passagem para a praia do Bom Sucesso. Do seu lado esquerdo foram rasgadas duas janelas de peito, do direito duas portas.
No piso superior abrem-se seis janelas de sacada, duas em cada pano, com varandim de ferro. Ao nível das águas furtadas, existem seis mezzaninos. A fachada posterior é em tudo semelhante à principal. (DGCP)

Antiga Residência do Governador do Forte do Bom Sucesso / Casa do Arco da Torre [c. 1940]
Av. da Índia, 184; Rua da Praia do Bom Sucesso, 43-47; Rua do Arco da Torre, 1-6
Perspectiva da fachada N., tirada da Av. da Índia
Eduardo Portugal, in AML

Foi nesta Casa do Arco que Almeida Garrett (1799-1854) passou um dos seus últimos Verões À semelhança de muita outra gente de posses da capital - que alugava para o Verão as casas disponíveis em Belém - o autor de «Viagens na Minha Terra» deixara-se encantar pelo ar limpo do lugar e pelas praias que o bordejavam. Nesse ano de 1852, a já desaparecida praia do Bom Sucesso, junto à Torre de Belém, ficava-lhe à porta. Ainda sem as fronteiras impostas pela Avenida da índia e pela linha férrea, bastava a Garrett atravessar o túnel abobadado em madeira que havia sido rasgado na casa, precisamente para dar passagem a quem quisesse aceder à beira-rio.

Antiga Residência do Governador do Forte do Bom Sucesso / Casa do Arco da Torre [c. 1959]
Rua do Arco da Torre, 1-6; Rua da Praia do Bom Sucesso, 43-47;  Av. da Índia, 184
Ao fundo, a Torre de Belém
Armando Serôdio, in AML

Era então visconde e acabara de ser forçado a demitir-se do cargo de ministro de Negócios Estrangeiros por causa da assinatura de um acordo de comércio com a França. Foi a 17 de Agosto de 1852. A notícia apanhou de surpresa o escritor e seu confidente Gomes Amorim, que uma semana depois o procurou em Belém, onde passava o resto do Verão e o começo do Outono na «casa do arco da passagem para a torre (...), na porta do meio à direita, indo do Bom Sucesso». Este registo, inscrito nas «Memórias Biographicas» que escreveu de Garrett, esgota, em princípio o que se sabe hoje passagem do escritor pela Casa do Arco.

Antiga Residência do Governador do Forte do Bom Sucesso / Casa do Arco da Torre [c. 1930]
Rua da Praia do Bom Sucesso, 43-47; Rua do Arco da Torre, 1-6; Av. da Índia, 184
Perspectiva da fachada S., tirada da Rua da Praia do Bom Sucesso
Eduardo Portugal, in AML

Wednesday, 16 December 2015

Vendedor de alhos

- Mé-c´á réstia d´ààlhos nóóvos!

«Êste sítio, aliás aprazível em suas redondezas, teve triste sina e era mal afamado. O Largo de Santa Bárbara (de 1911 a 1937 «chamado de 28 de Janeiro»), foi o «Campo da Fôrca», e ainda no século de seiscentos aqui se supliciavam desgraçados.»...
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. IV, p. 75)


Largo de Santa Bárbara [entre 1903 e 1908]
Vendedor de alhos; à esq. no nº 15 do largo, a «Relojoaria Silva» no começo da Rua Jacinta Marto
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógrafo.

Calçada (Escadinhas) da Bica Grande

Quanto às designações de Calçada da Bica Grande e Calçada da Bica Pequena julgo que corresponderiam a Bicas, de serventia particular, ou pública, por aqui existentes, como aquela a que atrás aludi, no Pátio do Brôas. Mas pode suceder que «Bica Grande» e «Bica Pequena» estejam por «Calçada Grande» e «Calçada Pequena», no sitio da Bica, o que se ajusta às largura e extensão das serventias.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 68)

Calçada da Bica Grande [c. 1900]
Note-se no cunhal do prédio que vira para a Rua de S. Paulo, um nicho com baldaquino, de delicada escultura do séc. XVI
 

Fotógrafo não identificado, in AML

Olha-me êsse gracioso nicho, com forma de baldaquino vasio, em lavra Manuelina, no cunhal do prédio da esquina Oriental da Calçada (escadinhas) da Bica Grande.»
(ibid., vol. XIII, p. 65)

Calçada da Bica Grande {c. 1945]
Note-se no cunhal do prédio que vira para a Rua de S. Paulo, um nicho com baldaquino, de delicada escultura do séc. XVI

Fernando Martinez Pozal, in AML

Tuesday, 15 December 2015

Quinta e Palácio de Palhavã

 Palácio Azambuja / Palácio dos «Meninos de Palhavã» / Embaixada de Espanha

Pois, companheiro paciente, aí temos um dos mais formosos especimes palacianos lisboetas, em arquitectura nobre e equilibrada, documento seiscentista puro: o Palácio Azambuja, hoje sede da Embaixada de Espanha. 
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 55)
  «Esta propriedade, ainda não ha muitos annos, era celebre pela espessura de seus bosques, pela grandeza dos jardins e preciosa collecção das suas plantas, pela abundancia de estatuas e vasos de marmore que a decoravam, dentre as quaes algumas sobresaíam por excelencia d'arte, e finalmente pela bondade e frescura de suas aguas. 

Palácio de Palhavã [c. 1900]
Avenida António Augusto de Aguiar, 39
Antiga estrada da Palhavã

Fotógrafo não identificado, in AML
  
   Esta quinta e palacio foram fundados na segunda metade do seculo XVII por D. Luiz Lobo da Silveira, segundo conde de Sarzedas. Seu filho, D. Rodrigo da Silveira, terceiro conde do mesmo título, fez-lhe muitos augmentos, entre outros o grande portão da entrada principal, onde avultam as armas desta antiga e illustre família, que vindo a extinguir-se no seculo passado, reverteram os seus bens para os condes da Ericeira, creados posteriormente marquezes de Louriçal; e pela extincção desta casa succederam nos seus morgados os srs. condes de Lumiares. 

Palácio de Palhavã, portão brasonado [c. 1900]
Avenida António Augusto de Aguiar, 39
Fotógrafo não identificado, in AML

   No palacio de Palhavã morreu em 7 de dezembro de 1663 a rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboya, filha do duque de Nemours, e mulher d'el-rei D. Pedro II, tendo ido para alli convalescer. Serviu tambem aquelle palacio de residencia aos principes D. Antonio, D. Gaspar, e D. José, filhos naturaes mas reconhecidos del-rei D. João V, (o segundo veiu a ser arcebispo de Braga, e o terceiro inquisidor geral de Lisboa), aos quaes o povo appellidava Meninos de Palhavã, epitheto que lhes conservou ainda mesmo na velhice. 

Palácio de Palhavã, pátio [c. 1900]
Avenida António Augusto de Aguiar, 39
No centro do pátio, uma escultura com a representação figurativa de Hércules e 4 estátuas de temática alegorico-mitológica, da autoria do escultor genovês Bernardo Schiaffino

Beatriz Chaves Bobone, in AML

   Durante a longa residencia destes principes em Palhavã chegou a quinta ao seu maior esplendor, e mais esmerada cultura. Adornavam-se os seus jardins com a mais rica e bella collecção de plantas exoticas que então havia na capital. Depois da morte dos principes começou a decadencia da quinta, que aughentou posteriormente á invasão franceza de 1808. Porém a grande ruina desta propriedade foi causada pelas luctas durante o cerco de Lisboa de 1833, na guerra da restauração da liberdade. 

Palácio de Palhavã, pátio [c. 1900]
Avenida António Augusto de Aguiar, 39
No centro do pátio, uma escultura com a representação figurativa de Hércules e 4 estátuas de temática alegorico-mitológica, da autoria do escultor genovês Bernardo Schiaffino

Beatriz Chaves Bobone, in AML

   Foi theatro de um mortifero combate na tarde e noite de 5 de setembro d'aquele anno. Palacio e quinta tudo foi assolado. Desde então progrediu a devastação até ao ponto de reduzirem a terras de trigo os seus bosques, pomares, e jardins. Passado tempo alguns dos seus vasos e as figuras de marmore mais pequenas vieram ornar a varanda do jardim que se prolonga com o palacio do sr. conde de Lumiares, ao Passeio Publico. 

Palácio de Palhavã, portão brasonado [c. 195-]
Avenida António Augusto de Aguiar, 39
No centro do pátio, uma escultura com a representação figurativa de Hércules e 4 estátuas de temática alegorico-mitológica, da autoria do escultor genovês Bernardo Schiaffino

António Passaporte, in AML
  
   Porém ainda lá se conservam algumas estatuas colossaes, erguendo-se em meio de cearas, e lagos ornados de figuras, tudo feito em Italia, havendo entre estas obras de arte algumas producções do celebre esculptor Bernini. Felizmente esta propriedade foi comprada ha pouco pelos srs. condes de Azambuja, que se propõem a restaurar o palacio e quinta, conservando ao primeiro todas as suas feições primitivas.
(Archivo pittoresco, Vol. VI, pp. 81-82, 1863)

Palácio de Palhavã, pátio [c. 1973]
Avenida António Augusto de Aguiar, 39, Praça de Espanha 

Artur Pastor, in AML
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