Friday, 1 March 2019

Lojas de antanho: Armazéns Old England

A minha mãe — a da Alice Vieira, não a minha! — vai à abertura da estação do Old England, na Rua Augusta, como outras pessoas vão à abertura da temporada no São Carlos: enfia um vestido verde que só usa em ocasiões especiais, mitenes e um chapelinho em cima dos bandós.
A Rosa arranja a mesa da casa de jantar, com pratinhos de bolachas Marselhesa e um bule de chá de tília, para ela se sentir mais reconfortada no regresso, não esquecendo a garrafinha de Anisette, porque não há nada como um cálice de licor para uma pessoa ter alma nova.

Armazéns Old England [190-]
Rua Augusta, 109-111 (lado ocidental) esquina com a Rua de São Nicolau, 66-72
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Então, quando a minha mãe regressa das compras, senta-se à mesa, com ar de imensa felicidade, e murmura, como se recitasse:
«Toda a elegância se curva diante do Rei da elegância»
É assim que vem nos anúncios dos jornais, e quando os leio, penso sempre se, no dia em que vier a República, o anúncio passará a ser «Toda a elegância se curva diante do Presidente da elegância»...
E, depois de uns minutos de silêncio, a minha mãe acrescenta:
«A loja merece bem o reclame.»
E ataca as bolachinhas.
E o licor.¹

Publicidade aos Armazéns Old England [1905]
Rua Augusta, 109-111 (lado ocidental) esquina com a Rua de São Nicolau, 66-72
in Serões: revista mensal ilustrada
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Bibliografia
¹ VIEIRA, Alice, Diário de um adolescente na Lisboa de 1910, 2016.

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