Wednesday, 10 October 2018

Palácio Azurara

Entramos no Largo das Portas do Sol. Passam varinas, padeiros, vendedeiras de azeitona; passa também José Gomes Ferreira que nos diz ser «esta Lisboa a que eu volto sempre, quando quero encher os olhos de Lisboa», «tão entranhadamente vivi a vadiagem por esses sítios que contínuo a considerá-los (...) a Lisboa verdadeira». No Largo, informa-nos Norberto de Araújo, «o Palácio da esquina — enorme casarão que se estende até à Travessa de Santa Luzia, já a tocar o Largo do Contador-Mór — foi pertença dos Viscondes de Azurara.»


O Palácio Azurara, nas Portas do Sol, é uma construção de fundo nitidamente seiscentista ainda que se não possa precisar o ano em que foi erguido, e por quem. Certo é que em 1573 — ano a que lhe faz referência o Tombo — existiam neste sítio três moradias de casas de loja e sobrado, mas não foram elas que deram núcleo fundamental ao palácio. Estavam essas casas apoiadas e encravadas na muralha da Cerca Moura, entre duas torres, uma desaparecida — a que flanqueava pelo Norte a Porta do Sol , e outra, ainda de pé, recentemente reintegrada, havendo sido o fundo do átrio do palácio rasgado em arco na muralha de ligação dessas duas torres. Em relação ao alinhamento seiscentista, a frontaria daquele bloco de três moradias era mais recuada, e reduzia-se a uns escassos aproximados dezassete metros de frente (Portas do Sol), e outros tantos no posterior (encostado à muralha).

Palácio dos Viscondes de Azurara [entre 1930 e 1939]
Largo das Portas do Sol 
Ao fundo vê-se a Igreja de Santa Luzia
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Quanto à torre moura, que faz parte integrante do palácio desde que este existe, é de estabelecer que tivesse sido tomada praticável, com escavação interior nos vários pavimentos para abertura de salas, quando da construção do palácio, pois as salas deste e da torre estão no mesmo nível, e são interdependentes.
No primeiro quartel do século XVIII era este palácio de Bernardo Luís da Câmara Sottomaior, nascido em 1693 na freguesia de S. Sebastião da Pedreira, em Lisboa, filho de Tomás da Silva da Câmara e afilhado do Conde Tarouca. Este Bernardo Luís teria herdado, ou adquirido, o palácio das Portas do Sol, já então ostentoso.
A data em que o palácio veio à posse do Visconde de Azurara, João $alter de Mendonça, não está apurada. João Salter de Mendonça foi feito 1.º Visconde de Azurara em 1819, e morreu em 1825. Os Azuraras promoveram por sua vez, restauros e transformações em várias salas, e teriam mesmo alterado no alto da escadaria a porta de acesso ao salão nobre, fazendo colocar sobre ela a pedra de armas que ainda lá se vê, e cuja leitura neste trabalho pela primeira se faz.

Palácio dos Viscondes de Azurara [ca. 1949]
Fachadas sobre os Largos das Portas do Sol e de Santa Luz ia, distinguindo-se à direita do portal nobre e a torre da Cerca Moura
Fotografia anónima, in
Inventário de Lisboa

Em 1870 a grande casa das Portas do Sol pertencia a Pedro da Cunha. Parece que depois de deixar de pertencer ao último Azurara foi sede de um colégio, com o qual abriu o seu triste destino de inquilinato. De Abril de 1900 a Junho de 1907 ocupou-o o Corpo do Estado Maior do Exército; depois existiu nele um colégio religioso de D. Julia de Brito e Cunha, extinto em 1912; em 1918 foi o velho palácio arrendado a Augusto Alves Diniz & e C.ª, e desse ano até 1933 serviu de hospício de hidrófobos, entrando em lamentável abandono — uma verdadeira «ilha» — acabando por cair no inquilinato pobre, de cousa alguma lhe valendo obras sumaríssimas, e chegando nesse estado a 1940. Nesse ano um dos herdeiros dos Lavres, José da Cunha, sugeriu à Gamara Municipal a aquisição do edifício, mas o Município não se interessou pela operação, tal o estado de decrepitude a que o Palácio Azurara havia chegado. Em 18 de Novembro de 1948 o imóvel foi à praça para partilhas, adquirindo-o Joaquim Baptista Fernandes, que nele se lançou a trabalhos de limpeza e valorização, mas sem um plano definido.
Finalmente em Dezembro de 1947 o palácio que fora de Bernardo da Câmara e dos Salteres de Mendonça foi comprado ao citado Baptista Fernandes pelo dr. Ricardo Espírito Santo Silva, que logo em 24 de Fevereiro do ano seguinte começou nele a promover largo e condigno restauro. As obras radicais e embelezamento e reintegração foram orientadas pelo próprio dr. Ricardo do Espírito Santo, de colaboração com o arquitecto Raul Lino, e bem pode dizer-se que mais complexo do que o trabalho de restauro, em si, foi descoberta do «mistério», das truculentas adaptações impostas ao edifício em todos os pavimentos, desde havia muitos anos.

Palácio dos Viscondes de Azurara [ca. 1949]
Aspecto da torre da Cerca Moura, recentemente revelada,
e que se integra no corpo Nascente do Palácio Azurara
Fotografia anónima, in
Inventário de Lisboa

Foram postas à vista, depois de limpas do branco de óleo, pinturas ornamentais em tectos de masseira; limpos os silhares de azulejo em várias salas e dependências, e colocados outros, advindos das colecções do proprietário; restaurados os «frescos» em tectos e paredes; apeadas muitas divisórias; renovados esconsos, escadas e pequenas câmaras; recomposto com arcarias o pátio interior; alindado o átrio com novas pinturas ornamentais nos tectos de madeira e com a colocação de azulejos, alterando-se o segundo arco de sustentação do fundo, substituído o revestimento de cerâmica industrial dos exteriores por altos silhares de cantaria. Finalmente foi revelada uma das torres da Cerca Moura, cujo lugar se sabia ser aquele, mas que se supunha desaparecida, ficando este monumento à vista na sua austera enxilharia primitiva, antes revestida de azulejos vulgares, e havendo nela sido descoberta, cavada na pedra sobre a sacada do terceiro andar da torre, uma cruz dos templários, do século XII.

Palácio dos Viscondes de Azurara [1961]
O Palácio Azurara, irregular em planta, tem a fachada principal orientada a Sul, com o portão principal, n.º 2, no Largo das Portas do Sol, obliquando para o Largo de Santa Luzia
Armando Serôdio, in A.M.L

O Palácio Azurara ressurgiu rejuvenescido e dignificado. Na altura (Novembro de 1949) em que se escreve esta nota é disposição do actual proprietário fazer doação do edifício ao Estado, para nele ser instalado um Museu de Artes Decorativas.

N.B.  O Museu-Escola de Artes Decorativas Portuguesas desenvolve-se através de várias salas que refletem os diferentes estilos decorativos dos ambientes senhoriais portugueses, do século XVII ao século XIX. Assim, núcleos museológicos de mobiliário, têxteis, ourivesaria, porcelana, vidros, pintura e azulejo unem-se numa recriação de épocas como a de D. José ou de D. Maria I, em que o azulejo, bem sumptuário por excelência até inícios do século XIX, desempenha um papel de quase omnipresença.
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Bibliografia
JANEIRO, Maria João , Lisboa: histórias e memórias, 2006.
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1950.

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