Friday, 31 August 2018

Farol de Cacilhas

Carreiras entre o Cais do Sodré c Cacilhas de 3 em 3 quartos de hora. Uma só classe. Travessia do Tejo em 12 min. O desembarque faz-se no pontal de Cacilhas, onde se ergue um farol de luz fixa, branca. A saída da ponte há sempre trens de aluguer que permitem fazer as excursões adiante indicadas, sendo também fácil arranjar burros para os pequenos passeios, como ao Alfeite e Cova da Piedade.¹


Esta peça de sinalização funcionou em Cacilhas entre 31 de Dezembro de 1885 e 18 de Maio de 1978, tendo depois sido desmantelado e deslocado para a Ponta do Queimado, na freguesia da Serreta, na ilha Terceira (Açores).
Com a modernização dos sistemas de sinalização marítima, o Farol foi depois definitivamente desmantelado.

Farol de Cacilhas [ca. 1957]
Cais de Cacilhas
António Passaporte, in Arquivo Municipal Lisboa

A pedido da Câmara Municipal de Almada, a Marinha Portuguesa concordou na cedência desta emblemática peça patrimonial ao concelho.
Iniciou-se então o processo de restauro do Farol, composto por uma torre cilíndrica de ferro, com 12m de altura e 1,70m de diâmetro.
As obras foram executadas pelas oficinas da Direcção-geral de Faróis, em Paço de Arcos, e foram suportadas pela Câmara Municipal de Almada, em 40 mil euros, na sequência de um protocolo entre a Marinha e o Município.²

Farol de Cacilhas [ca. 1950]
Cais de Cacilhas
Garcia Nunes, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
¹ PROENÇA, Raul (coord.), Guia de Portugal: v. Generalidades. Lisboa e arredores, vol. I, p. 609.
² cm-almada.pt.

Wednesday, 29 August 2018

Palácio Lavre ou «Lavra»

Do palácio seiscentista original apenas resta a fachada, onde se destaca o portal de cantaria, de gosto tardo-barroco, com volutas que enquadram um pequeno entablamento com um escudo em alto-relevo.


O Palácio primitivo pertenceu no século XVI ao Doutor Damião de Aguiar Ribeiro — recorda-nos o olisipógrafo Norberto de Araújo — , conselheiro de El-Rei e desembargador do Paço, vereador que foi de Lisboa, e que se bandeou com os espanhóis, como tantos. Passou o solar mais tarde, no século XVIII para os descendentes de Manuel Lopes de Lavre ou «Lavra» um dos quais veio a entroncar na Casa dos Morgados de Oliveira, antepassados dos Marqueses de Rio Maior.

Palácio Lavre ou «Lavra» [1933]
Antiga Escola Nacional
Rua de São José, 10; Calçada do Lavra, 1-3
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

A propriedade foi à praça em 1800, sendo reedificada. Nela está instalada, desde 1869, a magnifica Escola Nacional, fundada pelo professor Barros Proença, e que funcionou, nos primeiros meses, no Palácio [Foz] então Castelo Melhor, aos Restauradores.
De Manuel Lopes Lavre, de que falei, resultou para esta rampa, caminho de Sant'Ana, a designação de Calçada do Lavra, que sucedeu à de Calçada de Damião Aguiar, nome do primeiro dono do palácio referido.[vd. 2ª foto]
O Ascensor do Lavra, obra de Raúl Mesnier [Du Ponsard], foi inaugurado em Abril de 1884.¹

Palácio Lavre ou «Lavra» [1960]
Rua de São José, 10; Calçada do Lavra, 1-3
Arnaldo Madureira, in AML

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa,, vol. XIV, pp. 96-97, 1939.

Sunday, 26 August 2018

Palácios do Calhariz: Palácio Sandomil

Já agora deixa-me apontar-te um curioso prédio — diz Norberto de Araújo — , êste defronte do Palácio Palmela, que faz ângulo para a Rua das Chagas, pela qual tem suas entradas. 

Setecentista — é o que por aqui conserva o seu aspecto exterior mais antigo. Já existia quando do Terramoto, e sofreu dano, embora não fôsse tomado por incêndio.


O Palácio Sandomil, que defronta os velhos palácios — os Calhariz-Palmela e Sobral — conserva melhor a sua definição primitiva: pertencendo, no início, aos Barros Cardoso, passou para a Misericórdia de Lisboa que, antes de 1755, o vendeu ao conde de Sandomil. Depois de 1755, foi possuído pela família Barreto e, depois, por Joaquim Pires, capitalista. É constituído por dois pavimentos com janelas de varanda no andar nobre (onde esteve instalado o «Club dos Cem à Hora»). Possui salas com tectos apainelados «de formoso sentido mitológico», obra provável de Pedro Alexandrino.

Palácio Sandomil (ou das Chagas) [c. 1960]
 Largo do Calhariz, 1-4; Rua das Chagas, 35-47
Estúdio Horácio Novais, in FCG

Revestido de alguns panos de azulejos, e com pormenores interessantíssimos, o velho solar de setecentos pouco castigado de obras desfiguradoras, é um exemplar curioso, embora modesto de aparência exterior, das casas do Loreto do século XVIII — remata o olisipógrafo Norberto de Araújo.
________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p.24, 1938.
RODRIGUES, Maria João Madeira, Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, vol. 5, p. 23, 1975.

Friday, 24 August 2018

Igreja de S. Mamede

E olhemos agora êste templo paroquial de S. Mamede, de tão trivial fachada.
A paroquial de S. Mamede, data de 1312, e não de 1220 — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , como parece provado. O seu primeiro templo foi erigido no sopé do Castelo, sendo totalmente destruído pelo Terramoto, acolhendo-se então a paroquial a S. Cristóvão de onde passou em 1761 para S. Patrício, a-par-de S. Crispim; em 1769 transitou para a Ermida de N. Senhora da Mãi de Deus e dos Homens, a Vale Pereiro, que passou a ser sede paroquial.

Igreja de S. Mamede [1912] 
Largo de São Mamede, 1
Garcia Nunes, in AML

A «nova» Igreja neste lugar, terrenos do Colégio dos Nobres, anteriormente do Noviciado da Companhia de Jesus, começou a edificar-se em 1783, sem que a obra, sempre tocada de infortúnio, prosseguisse regularmente, a tal ponto que, em 1840, quanto se tinha erguido já estava em ruína.
Só em 28 de Agôsto de 1861 a nova Igreja foi inaugurada, sem aliás estar concluída, alguns anos depois ameaçava outra vez ruína recomeçando, em 1880, as obras em verdade até ali nunca rematadas. O templo foi dado, enfim, por pronto, mas na madrugada de 26 de Maio de 1921 a mal fadada Igreja ardeu quási totalmente; por subscrição pública iniciou-se logo a reconstrução da Igreja que temos à vista, inaugurada em 24 de Fevereiro de 1924.¹

Igreja de S. Mamede [195-]
Imagem de Nossa Senhora da Conceição
Largo de São Mamede, 1
Mário de Oliveira , in AML

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 23, 1939.

Wednesday, 22 August 2018

Calçada da Pampulha

[...] eis-nos no sitio da Pampulha — para o qual a Lapa é uma criança — e que remonta ao século XVI. (...) A Calçada da Pampulha — diz Norberto Araújohoje é a continuação da Rua do Presidente Arriaga, nome que depois de 1917 foi dado à Rua de S. Francisco Paula. Em verdade, oficializada, a Pampulha não tem mais que duzentos metros, mas a designação extravasa, possue ressonância bairrista além do limite municipal do dístico.
«Pampulha» porquê? Não o sei eu, nem os mestres que têm. até agora, escrito àcêrca das origens dos nomes das ruas de Lisboa. Julgo, porém, que problema não é insolúvel, e creio até que estará para breve o desvendar dêste mistério toponimico.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 55-56, 1938)

Calçada da Pampulha [ant. 1939]
Cruzamento com a Rua Tenente Valadim; anterior à construção do viaduto sobre a Avenida Infante Santo, em 1949 (vd. 2ª foto)
Eduardo Portugal, in AML

Em relação à etimologia da palavra «Pampulha», José Pedro Machado no seu Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa (1984) avançou a hipótese de a origem estar em «pão da Apúlia» (pan no português arcaico), indicando o local onde era recebido o trigo vindo da Apúlia italiana.
Gomes de Brito refere que «Pampulha» já surge num Assento da Vereação de 1636: «Nas travessas que há do Corpo Santo até á Pampulha». Em 1786, na Relação Universal figura este arruamento ora como Rua Fresca da Pampulha, ora como Rua Direita da Pampulha. E como Calçada da Pampulha aparece primeiro no Itinerário lisbonense de 1818 e no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1857. No entanto, num documento de 1875 ainda é referida a denominação genérica da zona, numa planta da Praia da Pampulha.

Calçada da Pampulha [c. 1949]
Construção do viaduto sobre a Avenida Infante Santo no cruzamento com a Rua Tenente Valadim
Judah Benoliel, in AML
 
Refira-se ainda que a Fábrica de Bolachas da Pampulha, a primeira fábrica de bolachas em Portugal, fundada por Eduardo Costa na década de 1870, referenciava a sua localização entre a Pampulha e a Rua 24 de Julho (hoje Avenida 24 de Julho). [cm-lisboa.pt]

Publicidade da Fábrica de Bolachas da Pampulha em 1907

Sunday, 19 August 2018

Cinema Palatino

Em 1931, a revista «Cinéfilo» — suplemento semanal do jornal «O Século» — dedicava um artigo a uma nova sala de cinema da capital: o «Palatino». Rezava assim:

Inaugurou-se em Lisboa um novo cinema de bairro. o Palatino, sito no gaveto da Rua Filinto Elísio [fachada principal, entrada] com a Rua Gil Vicente, a Santo Amaro.
Foi construido, desde os alicerces, segundo um projecto do[s[ arquitecto[s] [Raul Lino e] sr. Perfeito de Magalhães. As decorações, admiráveis de simplicidade e de bom gôsto, atestam a fina sensibilidade de Raul Lino. Nenhum pormenor foi descurado, para que a nova sala não deixasse de agradar aos seus freqüentadores. Ponderaram-se todas as condições de confôrto e visibilidade, não sendo esquecidas as condições acústicas, que devem plenamente satisfazer todas as exigências. Os projectores são da marca Kalee e os reprodutores de som Klang-Film-Tobis, o que equivale a dizer, em face de provas já prestadas, que se trata de excelente material toto-acústico.
Os moradores do populoso bairro de Santo Amaro devem felicitar-se pelo grande melhoramento. visto que, por preços módicos, podem assistir à apresentação de belos filmes sonoros.

Cinema Palatino [post. 1931]
Filinto Elísio [fachada principal, entrada] com a Rua Gil Vicente
Fotografia anónima

Ao acto inaugural da nova sala — prossegue o articulista — , que comporta cerca de novecentos lugares [notável para um mero cinema de bairro], assistiram empresários, convidados, representantes de imprensa e de algumas firmas distribuidoras de filmes. um dos intervalos, serviu-se um fino ‹copo de água». Nële usou da palavra o sr. T. Guimarães. delegado da Paramount. a firma que distribuiu o programa de abertura do Palatino. e cujo brinde constituiu um louvor para a bela iniciativa levada a cabo pela nova emprêsa exibidora, que também foi vivamente felicitada.==
O Cinema Palatino fechou portas em 1968.

Cinema Palatino, matiné [1935-12-26]
Rua Filinto Elísio
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

N.B. Esta artéria — até 1938 denominada Rua nº 2 do Bairro Rolão — , homenageia o poeta arcádico Francisco Manuel do Nascimento (1734–1819), um sacerdote que usava o pseudónimo de Filinto Elísio, o qual lhe fora dado pela marquesa de Alorna quando lhe ensinou latim e a quem dera primeiro o nome árcade de Alcípe. Fez traduções e compôs odes, epístolas, epigramas e sátiras abrangendo as suas Obras Completas num total de 11 volumes. Refugiou-se em França a partir de 1778 para fugir da Inquisição.

Cartaz do Cinema Paladino [1941]
in Museu do Fado


Bibliografia
CINÉFILO, Vol. 4, Edições 124-149 p.25, 1931.
cm-lisboa.pt.

Friday, 17 August 2018

Sport Lisboa e Benfica: Estádio das Amoreiras

Em 1923 — recorda-nos Norberto de Araújoa Casa Alferrarede, que se continua da Casa Anadia, vendeu terrenos ao Sport Lisboa e Bemfica, e o gracioso Horto [de Marcolino Teixeira Marques] desapareceu a pouco e pouco, até pela razão de seu proprietário se encontrar velho.


A colectividade desportiva do Sport Lisboa e Bemfica data de 1904, e possuiu, antes dêste campo de jogos, o de Bemfica [Feiteira] e depois o de Palhavã [Sete Rios]. Foi durante uma das direcções do seu sócio fundador e grande animader do Club, Cosme Damião, que foram adquiridos os terrenos para construção de um estádio, que seria um dos melhores de Lisboa, se se houvesse concluído. Fizeram-se o campo de jogo, inaugurado em 13 de Dezembro de 1925, e algumas dependências.

Estádio das Amoreiras [post. 1925]
À esquerda vê-se parte da antiga Estação da Carris com acesso pela Rua das Amoreiras
Fotografia anónima


O Sport Lisboa e Bemfica, que é das mais importantes e populares agremiações desportivas de todo o país, vai sair dêste sítio, pois o seu campo é sacrificado ao plano de urbanização e construção de uma Avenida [Eng.º Duarte Pacheco], que ligará à monumental ponte projectada sobre o vale de Alcântara até à Cruz das Oliveiras

N.B. Além do campo principal o complexo dispunha de dois "courts" de Ténis e um campo de basquetebol Actualmente, nos terrenos onde esteve o campo e instalações desportivas está o Liceu Francês e a Avenida Eng.º Duarte Pacheco. Em finais de 1940, o Benfica abandonou as Amoreiras.
________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 85, 1939.

Wednesday, 15 August 2018

Lisboa vista do Miradouro da Senhora do Monte

Junto à Capela da Senhora do Monte, este balcão privilegiado sobre a cidade, oferece uma ampla e rica panorâmica de Lisboa: o Castelo de São Jorge, o Rio Tejo, a Baixa, a colina de São Roque com as ruínas do Convento Carmo, as zonas antigas e intimistas da Colina do Castelo e da Mouraria, a Lisboa das avenidas largas e dos edifícios de construção mais recente para Norte, os principais jardins, entre outras vistas. 

Panorâmica tomada Miradouro da Senhora do Monte [1959]
Rua da Senhora do Monte; Castelo de São Jorge
Arnaldo Madureira, in A.M.L.

O espaço do Miradouro  da Senhora do Monte«com o Castelo à nossa ilharga» — é pontuado por exemplares como o cipreste, a oliveira e o pinheiro-manso, que proporcionam belas sombras. [cm-lisboa.pt]

Miradouro da Senhora do Monte [1959]
Rua da Senhora do Monte; Chafariz; Nau de São Vicente
Arnaldo Madureira, in A.M.L.

Sunday, 12 August 2018

Hospital de D. Estefânia

Foi êste hospital «sonhado» pela simpática Rainha, mulher de D. Pedro V, em 1858. O Rei mandou pedir para Inglaterra, ao Príncipe Alberto, marido da Rainha Vitória, o projecto de «um hospital moderno», para crianças, qual era o desejo da jovem rainha.

Mas D. Estefânia morreu em 1859 e o Rei pouco lhe sobreviveu. Só em 1877, no 18.º aniversário da infeliz senhora, 17 de Julho, o novo Hospital foi inaugurado pelo Rei D. Luiz e pela Rainha D. Maria Pia.


O Hospital Dona Estefânia, iniciado em 1860 e concluído em 1877, foi mandado construir pela rainha D. Estefânia, mulher de D. Pedro V.
Numa visita ao Hospital São José, impressionada com a promiscuidade com que na mesma enfermaria eram tratadas crianças e adultos, a rainha ofereceu o seu dote de casamento para que aí fosse criada uma enfermaria para aquelas, e manifestou o desejo de construir um hospital para crianças pobres e enfermas.

Hospital Dona Estefânia [Início do séc. XX]
Rua Jacinta Marto
Antiga Rua Joaquim Bonifácio, (troço compreendido entre a Rua de Dona Estefânia e o Largo de Santa Bárbara). O topónimo homenageia uma das pastorinhas de FátimaJacinta Marto (1910-1920), nas proximidades do local onde faleceu: Hospital de D. Estefânia
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

Inicialmente chamou-se Hospital da Bemposta — por ter sido erguido em terrenos da «Quinta Velha» da Bemposta  — , mas em homenagem à rainha, que entretanto falecera, passou a designar-se de Hospital D. Estefânia.
A sua construção foi primorosamente planeada. Relacionado com as mais ilustres casas reais da Europa, D. Pedro V solicitou pareceres sobre projectos e plantas hospitalares, elaboradas por técnicos competentes e autorizados sobre o assunto e remetidas dos mais variados locais, nomeadamente Londres, Berlim e Paris.

Hospital Dona Estefânia [c. 1930]
Rua Jacinta Marto
Abre o recinto, guarnecido de gradeamento, por um jardim agradável, e ao fundo se levanta o corpo principal do edifício, com seu pórtico saliente e elegante, sôbre o qual se rasga uma varanda decorativa; o centro da fachada sobrepuja-se das armas reais de D. Pedro V e de D. Estefânia. [Araújo: 1938]
Ferreira da Cunha, in A.M.L.

Em 1969 passou a ter valência Materno Infantil com a construção de um edifício provisório para onde foi transferida de S. José, a Maternidade Magalhães Coutinho inaugurada em 1931.

Hospital Dona Estefânia [194-]
Rua Jacinta Marto
Segue-me por êste pátio interior, com seu claustro de arcadas frias mas elegantes, com seu jardim, e, no centro, com a sua fonte decorativa. Ao fundo está a antiga capela. [Araújo: 1938]
Manuel Tavares, in A.M.L.
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, 1938.

Friday, 10 August 2018

Igreja da Ordem Terceira do Carmo

Já agora, que estamos a discorrer do que não existe, e constituiu um dia o Carmo nobre — diz Norberto de Araújo — , olha êste vulgar prédio onde está instalada, desde 1780, a Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. Foi no século XVII dos Teives, depois dos Fernandes de Elvas, a seguir dos Silvas Coutinhos - pertencia a D. Rui da Silva por ocasião do Terramoto -, e foram êstes que o doaram aos irmãos terceiros do Carmo.


A Ordem Terceira de N. Sr.ª do Monte do Carmo, data de 1629, embora seus Estatutos fôssem estabelecidos em 1665; teve sua capela privativa no Convento do Carmo e fêz erguer seu Hospital entre 1700 e 1706 no sopé do Convento, edifício que se situava no comêço da actual Rua Primeiro de Dezembro, naquele tempo Rua de Valverde. Chegou a reunir 9.000 irmãos. O Terramoto destruiu o Hospital, como destruiu o grandioso Convento fundado por Nuno Álvares, onde os terceiros tinham sua capela, como se fôsse uma igreja. Houve que se construir uma muralha para amparar o combalido edifício conventual; assim não foi mais possivel reconstruir o Hospital. 

Igreja da Ordem Terceira do Carmo  [195-]
Largo do Carmo, 25; Rua da Oliveira do Carmo; Rua da Condessa
António Castelo Branco, in A.M.L.
































 
Chegou a ser doado aos Terceiros do Carmo um terreno para construírem nova Casa, mas até 1780 nada estava feito. Foi então que os Terceiros receberam dos Silva Coutinhos a mercê do prédio onde hoje se encontram, havendo instalado sua Igreja, ou capela, numa sala do primeiro andar. Antes da República era desta Igreja que saia, em Domingo de Ramos, a «Procissão do Triunfo», cujo dia tradicional, porém, tinha sido o da última sexta feira de Quaresma.

Procissão do Triunfo ou dos Santos Nus saindo da igreja da 
Ordem Terceira do Carmo, a Verónica  [1907-03]
Largo do Carmo, 25; Rua da Oliveira do Carmo; Rua da Condessa
Joshua Benoliel, in A.M.L.

O prédio do Largo do Carmo, no seu interior, não perdeu ainda o ar palaciano, ou burguês, decrépito, com sua escadaria, seus emblemas da Ordem Terceira, sobrepujados de coroa real, tudo vulgar, adaptado, provisório.
A Ordem na sua Igreja e Sacristia, possue muitas imagens, alguns quadros, num conjunto que parece de «bric-à-brac».
Mas é respeitável esta Venerável Ordem dos Terceiros de N. Sr.ª do Monte do Carmo — e muito lisboeta.
Nela se conservam os ossos de D. Nuno Álvares Pereira, objecto de devoção patriótica. [actualmente (desde 1953) na Igreja de São Condestável]

Igreja da Ordem Terceira do Carmo  [1948]
Largo do Carmo, 25; Rua da Oliveira do Carmo; Rua da Condessa
Eduardo Portugal, in A.M.L.

N.B. ARQUITECTO: Manuel Caetano de Sousa (1780). ESCULTOR: José de Almeida (1755). PINTOR: Francisco Borja Gomes (séc. 19). PINTOR de AZULEJOS: Fábrica Viúva Lamego (1992)

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VI, p. 78, 1938.

Wednesday, 8 August 2018

Joalharia Leitão & Irmão — antigos Joalheiros da Coroa

Este Largo do Chiado, aprazível e portentoso, é um alfobre de história. Estivemos encantados a enumerar e analisar algumas das suas melhores estampas, e só agora demos pelo faiscar dos brilhantes que se engastam nas jóias de alto preço — só para ricaço adquirir! — que se mostram expostas nas montras da antiga Joalharia de Leitão & Irmão, fundada em 1877 por José e Narciso Pinto Leitão, cujo acontecimento mereceu nessa data uma crónica especial de Ramalho. 


É o mais rico estabelecimento do burgo, uma autêntica casa-forte, onde se acumulam grandes riquezas, e que fez luxo em ostentar a divisa «Fornecedor da Casa Real». A parte exterior está revestida de mármores negros, o que levou certo gracioso a chamar a essa tão conhecida casa, o «túmulo do Chiado»

Joalharia Leitão & Irmão [pot. 1910]
Largo do Chiado, 21-23 (actualmente no n.º 16); Rua Nova da Trindade
Joshua Benoliel, in A.M.L.

A Joalharia Leitão instalou-se aqui quando aartéria que lhe corre do lado nascente, já se chamava Rua Nova da Trindade, assim classificada em 1836. Antes, era Rua do Secretário da Guerra, um alto funcionário de muita nomeada no século XVIII, de nome João Pereira da Cunha Forjaz, morador e proprietário do prédio que antecedeu o actual, que o Terramoto obrigou a reconstruir. 

Joalharia Leitão & Irmão [1910-10-05]
Largo do Chiado, 21-23 (actualmente no n.º 16); Rua Nova da Trindade
Grupo de civis revolucionários aquando do 5 de Outubro
Alberto Carlos Lima, in A.M.L.

Um dos antecessores da Joalharia Leitão, foi a Fábrica de Marcenaria de José Aniceto Raposo, talvez de 1810 a 1814, pelo menos. No 1.° andar, funcionou o estabelecimento de banhos de Francisco Geneste, que morreu em 1835; e foi Andrilliat, cabeleireiro da Casa Real, quem tomou a casa e a dirigiu, ao mesmo tempo que exercia a sua principal profissão, vendendo aos clientes toda a espécie de adereços, como chinós, meias-cabeleiras metálicas, elásticas e de pressão; marrafas e crescentes, «tudo chegado de Paris». Causaram sensação, «imersões quentes a 320 réis».

Joalharia Leitão & Irmão [1953]
Largo do Chiado, 21-23 (actualmente no n.º 16); obras de pavimentação
Judah Benoliel, in AML

No dia 1 de Dezembro 1877, o Rei D. Luís atribuiu à Joalharia Leitão & Irmão o título de «Joalheiros da Coroa». A Leitão & Irmão continuou a ser a escolha da Casa Real para a criação de presentes a familiares, amigos e personalidades. A rainha D. Maria Pia foi igualmente uma entusiasta e fiel cliente.
As principais oficinas da Casa Leitão foram construídas em finais do século XIX no pátio de um pequeno palacete no Bairro Alto [vd. imagem abaixo]. Aí se instalaram grandes artistas prateiros que até então trabalhavam em oficinas de “vão de escada”, um pouco por toda a Lisboa. Os modernos meios de fabrico e condições de trabalho foram contribuição decisiva para a manufatura de peças de exceção.
Em 1981, as oficinas de joalharia, originalmente localizadas no primeiro andar da loja do Chiado, foram integradas na oficina do Bairro Alto.
A atual loja do Largo do Chiado foi remodelada no ano 2000 pelo artista Pedro Leitão.
 
Antigas oficinas da Joalharia Leitão & Irmão [ca. 1900]
Rua da Gáveas com a Travessa da Espera
Machado & Souza, in A.M.L.
_____________
Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987.
leitao-irmao.com.

Sunday, 5 August 2018

O jardim que foi da Patriarcal

[...] balançada pelo trote largo [Luísa] viu passar, calada, as casas apagadas da Rua de S. Roque [actual da Misericórdia], as árvores de S. Pedro de Alcântara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento [Rua D. Pedro V], os jardins adormecidos da Patriarcal [Pç. do Principie Real].

Eça de Queiroz, O Primo Basílio, 1878-


O nome de Patriarcal Queimada deveu-se ao facto de um incêndio ter destruído a Patriarcal em 10 de Maio de 1769 e foi legalizado pelo edital da Câmara Municipal emitido em 8 de Junho de 1889.
O largo, ou terreiro, onde se encontrava a Basílica Patriarcal possuiu, segundo Norberto de Araújo, vários nomes como: Chãos de Ferroa, no século XVI; Alto da Cotovia; Sítio das Casas do Conde de Tarouca, cerca de 1755; Patriarcal Queimada, depois de 1769; Sítio das Obras do Erário Novo, em 1810-1815; Praça do Príncipe Real, em 1855; Praça do Rio de Janeiro depois de 1911; Praça do Príncipe Real actualmente.

Praça Príncipe Real [1927]
Antiga do Rio de Janeiro e antes da Patriarcal
Jardim do Príncipe Real/Jardim França Borges o jornalista fundador de «O Mundo»
 Entre as espécies que compõem o jardim destaca-se o Cedro-do-Buçaço, árvore secular com mais de 20 metros de diâmetro
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

A praça foi traçada em 1853 e nos anos 60 começou o seu alindamento definitivo: primeiro uns bancos em 1861 e, finalmente, em 1869, por iniciativa do vereador Luís de Almeida e Albuquerque, com a plantação de “estilo inglês", obra do jardineiro João Francisco da Silva, estava criado o Jardim do Príncipe Real. Jardim onde o cedro de abas largas contrastando com a esguia araucária colunar [vd. 2ª imagem] mereceu do povo o nome carinhoso de “jardim do bucha e estica".

Praça Príncipe Real[s.d.]
Antiga do Rio de Janeiro e antes da Patriarcal
Jardim do Príncipe Real/Jardim França Borges
À esquerda pode observar-se a Araucária columnaris; Palacte Ribeiro da Cunha
Postal colorido não circulado

Bibliografia
CASTRO, Zília Osório de, Lisboa 1821: a cidade e os políticos, 1996.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, 1938.

Friday, 3 August 2018

Ruas de S. Bento e Poço dos Negros: «Palácio da Flor da Murta»

Seguindo o conselho de Norberto de Araújo, façamos uma curta paragem naquela «serpenteante Rua de S. Bento», pois «vale um poema este palácio de S. Bento: Flor da Murta!


Eram aqui nesta esquina, tal qual hoje, as «casas nobres do Poço dos Negros», integradas no morgadio de Terrugem, dos Fonte Arcada, e que passaram, ainda no século XVII, para os Meneses do ramo Cantanhede, onde ainda se continua. No cunhal do palácio, entre varandas, blasona o escudo esquartelado armoriado dos fidalgos anteriores aos Meneses. Na Flor da Murta sa enxerta uma legenda de Lisboa amorosa, cheia de romances frívolos. 

Ruas de S. Bento e Poço dos Negros [séc. XIX]
«Palácio da Flor da Murta»
Fotógrafo não identificado. in A.M.L.

D. Luísa Clara de Portugal, dos Castelo Melhor, casou com um D. Jorge de Meneses, da Casa da Flor da Murta, e deste varão houve filhos. Era linda, D. Luísa, e dela se enamorou D. João V, esquecido da honra de fidalgo, que a dona, um feitiço volúvel de formosura, por igual vilipendiou. Dos amores nasceu uma menina, D. Maria Rita de Portugal, que foi monja em Santos-o-Novo. Mas a «Flor da Murta», mais nova do que o Rei catorze anos (isto passou-se por 1730) vingou, a seu modo, o marido nos brios do próprio amante real: entregou-se a um jovem ardente e menos orgulhoso, D. Pedro de Bragança, Duque de Lafões, sobrinho do monarca, e destes novos amores nasceu outra menina, que foi D. Ana de Bragança.
E aí está como neste palácio de S. Bento, hoje retalhado e morto de fidalguias, casarão de muitas memórias ilustres, passa ainda o vulto gentil de Luísa Clara — que o quadro a óleo, existente no palácio, mostra em toda a irradiação da sua beleza.

D. Luísa Clara de Portugal (1702-1779)
« A Flor da Murta»

Dizem os romances que foi com uma flor de poesia popular que o «Magnânimo» conquistou o coração de Luísa Clara. É ainda fantasia em redondilha. O nome florido existia já antes, e a Rua de S. Bento, neste troço, chamou-se mesmo da Flor da Murta, que era divisa da Casa antes de ser o motete da mulher. Mas não importa. Cantemos com D. João V:
Flor da Murta,
raminho de freixo,
deixar de amar-te
é que eu não deixo.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 74-75, 1943.

Wednesday, 1 August 2018

Santo Elói (Lóios)

Enfim: chegámos devagarinho aos Lóios — diz-nos Norberto de Araújo. Êste Largo, que não passa, afinal, de uma ‘rua larga", é hoje mais ordenado e desafogado do que o era em 1755. Nesta época já existia defronte do Convento um pequeno largo que datava de 1677, ano em que fora regulado pela Câmara a pedido dos frades. O famoso Convento de Santo Elói, com a sua Igreja, assentou aqui onde hoje se ergue o Quartel, de guarnições altas de ameias decorativas.


Largo dos Lóios, visto do poente para nascente  [c. 1940]
O prédio alto em segundo plano é o corpo do comando e habitação de oficiais da 5ª Companhia da Guarda Republicana, construido no local onde existiu a igreja do antigo Convento de Santo Elói (ou dos Lóios
Eduardo Portugal, in A.M.L.

O Convento foi um dos de mais história nos fastos religiosos e realengos de Lisboa, foi fundado por D. Domingos Jardo, décimo Bispo de Lisboa, em 1286, converteu-se, mais tarde (1442), em Casa Secular dos Cónegos de S. João Evangelista, S. Clemente e Santo Elói, vindos de S. Salvador de Vilar de Frades, os famosos frades Lóios que deram, afinal, o nome ao sítio, com as suas capas de azul-arroxeado soltas ao vento das ruas de quinhentos, ou enfileirados nas procissões esplendorosas da Lisboa piedosa.

Panorâmica de Lisboa destacando-se a Basílica Patriarcal e o Convento de Santo Elói (ou dos Lóios) «ostentando duas tôrres que se viam de quási tôda a cidade» [ant. 1755]
Gravura, in A.M.L.

A igreja era riquissima; ostentava duas tôrres que se viam de quási tôda a cidade [vd. gravura]; o Terramoto deitou tudo abaixo, destroçou, incendiou, quási pulverizou. Tratou de reedificar-se a casa conventual, mas de tal modo lentamente que em 1834, quando foram extintas as Ordens, Santo Elói não estava concluído.
Logo no ano seguinte instalou-se no edifício a 5ª Companhia de Infantaria da Guarda Municipal: onde havia celas passou a haver casernas, refeitório, e salas de oficiais, anexos foram instalados em divisões de acentuado traço de arquitectura conventual.
As indispensáveis obras de adaptação do edifício a aquartelamento, e as ampliações e beneficiações levadas a efeito em cem anos — tiraram ao actual Quartel, também de uma 5ª Companhia, da Guarda Republicana, qualquer aspecto, interior ou exterior, que de longe ou de perto, recorde  — Santo Elói.

Largo dos Lóios, visto do poente para nascente  [1968 ]
Convento de Santo Elói (ou dos Lóios); ao fundo, a Rua do Milagre de Santo António
Armando Serôdio, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 64-65, 1938.
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