Sunday, 3 June 2018

Palácio dos Azevedos Coutinhos e o Arco do Chanceler

O Palácio dos Azevedos Coutinhos, ocupa uma área contida entre a Rua de Santo Estêvão, o Largo do mesmo nome (escadinhas de curiosa perspectiva), e o Largo do Chanceler, e assenta em parte sobre o Arco do Chanceler.


Não sei em Lisboa de cousa assim — diz-nos o ilustre Norberto de Araújo — como esta Alfama se multiplica de aspectos raros, em mistérios de germe urbanista, de imprevistos e de quadros locais que nunca se assemelham, mas de que nossos olhos se vão fatigando, acabamos, em saturação, por não fixar um apontamento. Fica-se entontecido. Não será assim, Dilecto?
O enquadramento é gracioso, seja qual fôr o conceito que nós possamos ter de beleza nestes quadrinhos bairristas, onde — e é o caso neste sítio — o pitoresco, o religioso, o fidalgo se dão mãos, para que Alfama se represente nos três Estados. 

O Palácio de Santo Estêvão, dos Azevedos Coutinhos é uma fundação seiscentista, de tipo nobre, modesto; envolto num pitoresco de cenário, único em Lisboa, e, a despeito da sua mediania arquitectónica, pode ser considerado um espécime curioso da cidade, como tal, merecedor de relevo nesta nota histórica.

Palácio Azevedo Coutinho [190-] 
Largo (Miradouro) Escadinhas de Santo Estêvão; Arco do Chanceler; Rua de Santo Estêvão
Ângulo do edifício sobre Santo Estêvão, distinguindo-se o terraço primitivo do andar nobre
com paredes ao fundo de azulejos historiados, de delicioso efeito tomado do Largo
Alberto Carlos Lima, in AML

Ainda no século XVII uma grande parte dos terrenos que rodeiam a primitiva igreja de Santo Estêvão era do domínio directo do priorado ou da irmandade da paróquia. No local onde se levantou o solar existiam na primeira metade do seiscentos umas atafonas e depois umas casas — o núcleo primitivo do solar — «por traz da capela-mor sobre o Arco», casas que pertenciam a um Domingos Preto, descendente, talvez filho, de «Simão Gonçalves Preto, chanceler-mor que foi destes reinos», segundo atestava em 1695 o cura de Santo Estêvão, Padre Cristóvão Prestes da Silveira, num documento traslado que lhe foi requerido, e no qual há referência a casas no local em 1647, o que não significa que não as houvesse antes, pois um documento existente no arquivo da Câmara Municipal demonstra que, em 1688, aquelas casas passaram a um Tomé de Mesquita. De admitir é que tivesse sido o chanceler Simão Gonçalves Preto o fundador da casa, e duvida parece já não subsistir de que fosse dele que derivou a denominação do «Arco do Chanceler».

Palácio Azevedo Coutinho [1899]
Largo de Santo Estêvão; Rua de Santo Estêvão
A Fachada, de duas faces do corpo Sul do edifício contíguo
inferiormente ao principal, fazendo esquina para as escadinhas
e Rua de Santo Estêvão, caracterizado por um sólido cunhal de
cantarias sobrepostas, com algumas janelas (de sacada) e portas de habitações
pobres; sobre este corpo assenta um terraço, com cortina de grades seiscentistas

Machado & Souza, in AML

O palácio, propriamente dito, recebeu dano pelo Terramoto, pois se vê que uma parte do edifício é de reconstrução posterior ao núcleo primitivo, este representado pela frontaria, pelo ângulo do terraço e por parte da face sobre a estreita Rua de Santo Estêvão. Data, pois, de 1847 o senhorio dos Azevedos Coutinhos no solar e casas de Santo Estêvão. 
Entre 1847 e 1867, período durante o qual a propriedade foi administrada por João António de Azevedo Coutinho, este fez «Obras reais» na casa, acrescentando-lhe em parte dois andares modestos, conservando o semblante seiscentista da fachada amesquinhada na estreita serventia denominada ali Largo do Santo Estêvão, mas desfigurando as salas, pela cobertura com estuque dos tectos apainelados, e pela supressão de bons panos de azulejo que revestiam as paredes em silhares.
Em 1911 lavrou incêndio na ala Sul do palácio, sobre a Rua de Santo Estêvão; as obras de restauro não lograram repor o interior dessa ala no seu aspecto primitivo.


Palácio dos Azevedo Coutinho [1939]
Arco do Chanceler, vista tomada do Largo de
Santo Estêvão
Eduardo Portugal, in AML


Palácio dos Azevedo Coutinho [195-]
Arco do Chanceler, vista tomada o Largo de
Santo Estêvão
Almeida Fernandes, in AML



O Arco do Chanceler, sob o Palácio ao qual dá passadiço, é de volta abatida. À direita abre-se o portal do velho solar servido por um átrio interior, do qual a escadaria de dois lanços se desenvolve, amparado a um corrimão, em balaustrada de mármore branco, transpirando de tudo um ar discreto, repousado, setecentista, só igualado em espírito no palácio dos Condes dos Arcos
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 90-91, 1939.
id, Inventário de Lisboa, 1955.

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