Friday, 30 March 2018

Avenida Fontes Pereira de Melo: solar Mayer e Palácio Sotto Mayor

A Avenida Fontes Pereira de Melo integra-se no projecto de crescimento da Cidade para Norte, aprovado em 1888, plano intitulado: "Avenida das Picoas ao Campo Grande" da autoria do Engenheiro Ressano Garcia. As terraplanagens nas ruas Fontes Pereira de Melo e António Augusto de Aguiar, iniciam-se cerca de 1897. Em 1900, a canalização de água para esta zona da Cidade, está praticamente concluída. A partir de 1902 começaram a circular os primeiros carros eléctricos — aqui descendo a avenida pela direita. Refira-se que o sentido da circulação em Portugal passou a fazer-se pela direita em 1 de Junho de 1928.

Avenida Fontes Pereira de Melo [entre 1902 e 1905]
Junto ao viaduto sobre a Rua de S. Sebastião da Pedreira/Largo Andaluz. O viaduto da Avenida Fontes Pereira de Melo começou a construir-se em 1898 e concluiu-se em 1900. À direita, o solar oitocentista da família Mayer que ali existia, até c. 1900, altura em que começou a demolir-se, para construção do Palácio Sotto Mayor.
Alberto Carlos Lima, in AML

O topónimo foi atribuído como Rua Fontes, por deliberação camarária de 31/12/1887 e Edital de 10/01/1888. Mais tarde, o Edital municipal de 11/12/1902 mudou-lhe a categoria para Avenida, já como Fontes Pereira de Melo.  Tributo a um dos principais políticos portugueses e várias vezes primeiro-ministro António Maria Fontes Pereira de Melo (1819-1887) — cuja dinâmica de desenvolvimento e políticas públicas ficou conhecida como «Fontismo». — deu um grande impulso à criação de estradas e caminhos de ferro e montou a primeira linha telegráfica do País, tendo criado então pela primeira vez o Ministério das Obras Públicas que ele próprio assumiu.

Avenida Fontes Pereira de Melo [1912]
O edifício, à esquerda, no gaveto com a Avenida António Augusto de Aguiar já não existe, assim como, a moradia do lado nascente da avenida. Os dois prédios de rendimento, ao fundo, na esquina com Rua Martens Ferrão, foram recentemente reabilitados. O que ainda vai conferindo alguma elegância à avenida desenhada pelo eng.º Ressano Garcia, é o
imponente e sumptuoso Palácio Sotto Mayor, edificado em 1902/06, segundo o risco inicial do arq. Ezequiel Bandeira, com a colaboração do arq. Carlos Alberto Correia Monção. Já nem o eléctricoque ali se vê a descer avenida pela mão esquerdalá passa.
Joshua Benoliel, in AML

Wednesday, 28 March 2018

Palácio Sotto Mayor

Esta Avenida Fontes Pereira de Melo — já o tens notadoostenta propriedades de certo sentido aristocrático de arquitectura; lernbro-te [...] o grande Palácio do Dr. Cândido Sotto Mayor, filho, no n.° 14, construido em 1905, que ocupa um quarteirão entre esta Avenida, e as Ruas Martens Ferrão e Sousa Martins, e o Largo do Andaluz.¹


O Palácio Sotto Mayor foi edificado pelo banqueiro Cândido Sotto Mayor para lhe servir de residência nas Avenidas Novas. As obras iniciaram-se em 1900 com a demolição do solar oitocentista da família Mayer, que até então ocupava o local, e a construção de uma muralha de suporte do terreno sobre o Largo de Andaluz

Palácio Sotto Mayor [1966]
Avenida Fontes Pereira de Melo, 16; Largo de Andaluz, 13-13C; Rua Martens Ferrão, 1
Arnaldo Madureira, in AML

 A construção do palácio propriamente dito iniciou-se em 1902 e prolongou-se por quatro anos. Inicialmente projectada pelo arquitecto Ezequiel Bandeira, a obra viria a ser acompanhada pelo capitão de engenharia do exército Rodrigues Nogueira, que contou com a colaboração do arquitecto Correia Monção. Colaboraram ainda na obra vários outros artistas: os arquitectos João António Piloto (concepção da sala de jantar) e Evaristo Gomes (vestíbulo e sala de visitas); os pintores Domingos Pinto, Teixeira Bastos, Ribeiro Júnior e Ordonez; o escultor Jorge Neto e o entalhador António Pucche. 

Palácio Sotto Mayor [c. 1906]
Fachadas viradas ao Largo de Andaluz,
Avenida Fontes Pereira de Melo, 16; Largo de Andaluz, 13-13C; Rua Martens Ferrão, 1
Paulo Guedes, in AML

Em 1967 o edifício ficou devoluto e começou a entrar em ruína. Em 1989 foi adquirido por uma empresa imobiliária que encomendou um projecto de renovação. Passados vários anos de espera, e depois de um incêndio no interior, a Câmara Municipal de Lisboa e o IPPAR autorizaram a execução do projecto. Da autoria do arquitecto Gastão da Cunha Ferreira, o projecto de recuperação, que procurou não descaracterizar o casco exterior do imóvel, visou a sua reutilização como hotel, escritórios e lojas.
O palácio, que incluía anexos (cocheiras, casa de criados, lavadouro), insere-se num parque murado e gradeado onde outrora existia um jardim com um lago, estufa de vidro e gaiolas.²

Palácio Sotto Mayor [1967]
Perspectiva tomada da Rua Luciano Cordeiro
Avenida Fontes Pereira de Melo, 16; Largo de Andaluz, 13-13C; Rua Martens Ferrão, 1
 
Garcia Nunes, in AML

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 81, 1939.
² Almeida e Duarte Belo – Portugal Património: Lisboa, Vol. VII, 2007.

Sunday, 25 March 2018

Ermida de Nossa Senhora de Monserrate

Diz-nos alguma coisa de saboroso esta Ermida de Nossa Senhora de Monserrate, nas Amoreiras. Encravada no vão do quinto arco do Aqueduto, logo a nascer na Casa da Água, com o seu corpo saliente do altar-mor caindo sobre a velha «Rua do Rato para Campolide», a Ermida evoca-nos um pedaço da vida setecentista lisboeta, e um qua-drinho animado do século XIX.


Erigiram a Ermida neste sítio, em 1768, os fabricantes da seda, que tiveram o Rei D. José por seu lado. Na gracilidade do seu recheio e decoração, na singularidade da sua forma oitavada, na humildade rural em que se envolve — a Ermida das Amoreiras é uma estampazinha antiga.

Ermida de Nossa Senhora de Monserrate [1938]
Praça e Jardim das Amoreiras (Jardim Marcelino de Mesquita, vd. n.b.)

A arborização do antigo Largo dos Fabricantes, com amoreiras (331 pés) fêz-se em 1771, plantando o próprio Marquês de Pombal a primeira árvore, que dava ainda sombra em 1863.
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Ela viu o Marquês de Pombal, ele próprio, em 1771, plantar a primeira amoreira das trezentas que engrinaldaram a praça; viu subir, em 1767, o primeiro fumo dos fornos da Fábrica da Louça, de Tomás Brunetto e Salvador Inácio; assistiu ao alvoroço popular quando correu água, pela primeira vez, no chafariz do Rato; seguiu, dia a dia, o retalhar de quintas, o abrir de ruas, o crescimento do bairro nascido de um sítio por influência das «reais manufacturas», e viu, numa manhã de Abril de 1851, chegar aqui, vinda dos Prazeres, a Feira das Amoreiras — a avó das feiras de Belém, de Alcântara e de Santos — com o seu arraial, os seus teatrinhos pitorescos, as suas figuras de cera, os «robartos» e os irmãos Dallot.

Ermida de Nossa Senhora de Monserrate. traseiras[1959]
Corpo saliente da Ermida, cachorrada e Cruz de azulejo e uma data: 1768
Rua da Amoreiras; Praça das Amoreiras
Fernando de Jesus Matias, in A.M.L.

E viu acabarem a Real Fábrica das Sedas, a Fábrica da Louça, a Fábrica dos Pentes, irem-se embora as amoreiras todas, ir-se embora a Feira, irem-se embora os frades oratorianos de S. Filipe Néri e as freirinhas endiabradas do convento do «Rato». De tudo, o que a ingénua ermida das Amoreiras mais pena teve foi dos seus fabricantes da seda, devotos da Senhora de Monserrate e dos arraiais da Senhora Santana, aqueles operários de mãos finas que lhe legaram, a ela, o terreno sob o Arco em domínio perpétuo.
Ela ali está, voltada ao jardim pequenino de tílias, robínias e tamarinas, mostrando a quem passa pela Rua das Amoreiras a sua cruz suspensa de azulejos do Rato. O ajardinamento desta Praça é posterior à sua construção; no tempo velho apenas as amoreiras, e depois os ulmeiros alegravam o largo, que fôra dos fabricantes da seda.

Fábrica das Sedas [1961] 
Actual Museu Arpad Szènes-Vieira da Silva
Tv. Fábrica dos Pentes (esq.); Praça das Amoreiras
Arnaldo Madureira, in A.M.L.

Interiormente, a Ermida de Monserrate é simpática, a-pesar-de pequena. É de forma oitavada, cortado o teto a meio pelo côro posterior, que assenta em um arco de volta abatida. A Capela-Mór, além de uma teia, apoia-se sôbre o corpo saliente da Ermida, que ressalta, amparado a uma cachorrada, para a Rua das Amoreiras, e no qual, exteriormente se marca, sob Cruz de azulejo, uma data: 1768

Ermida de Nossa Senhora de Monserrate, altar [1938]
Praça e Jardim das Amoreiras

Na capela-mor, além do altar onde se ostenta a imagem de N. Senhora do Monserrate, há mais dois altares; no corpo da Ermida existem também o de N. Senhora das Dores e o do Coração de Jesus, e ainda uma imagem do Senhor dos Passos. 
Eduardo Portugal, in A.M.L.
 

O corpo do pequeno templo é revestido de silhares de azulejos, muito belos, da Fábrica do Rato, constituindo sete painéis com legendas latinas. Na capela-mór, além doaltar onde se ostenta a imagem de N. Senhora do Monserrate, há mais dois altares; no corpo da Ermida existem também o de N. Senhora das Dores e o do Coração de Jesus, e ainda uma imagem do Senhor dos Passos
No teto em apainelados convergentes está uma pintura de Pedro Alexandrino, que representa o orago; na parte que assenta sôbre o arco da capela-mór vêem-se as armas de D. José. 

Praça das Amoreiras [Início séc. XX]
Círio das Amoreiras saindo da Ermida de Monserrate durante a procissão do Círio de Nossa Senhora da Atalaia.
Paulo Guedes, in A.M.L.

N.B. O nome deste jardim é uma homenagem a Marcelino de Mesquita, dramaturgo, poeta e escritor. Este espaço encontra-se rodeado por habitações setecentistas, que se destinavam na maioria ao alojamento dos fabricantes de seda actual Museu Arpad Szènes-Vieira da Silva.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 110-111.
ibid, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 99-100, 1939.
cm-lisboa.pt.

Friday, 23 March 2018

Rua das Portas de Santo Antão

Mas era à boca de Santo Antão — refere o olisipógrafo Norberto de Araújo — que começava esta movimentada «rua dereyta» de palácios e jardins. conventos e igrejas, pátios e eirados. Neste pedacinho até à Anunciada [largo da] do Convento das dominicanas, erigido sobre a casa dos agostinhos de Santo Antão de 1400 — e eis a razão do nome da rua [...].¹ 


Rua das Portas de Santo Antão [1938]
Largo de S. Domingos; Teatro D. Maria
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Remotamente foi aqui, e por aí fora, «Corredoura» — que é como se dissesse «rua direita» — era então Lisboa, logo adiante do Rossio de Valverde, «terra de arrabalde». A «Corredoura» servia para corridas e s e, assim, logo no século XIV a designação passou a ser de «Carreira de Cavalos». Em 1373-1375 construiu-se a nova Cêrca muralhada de D. Fernando, abrindo-se neste sitio uma das portas. primeiro chamada de «S. Domingos» e logo no principio do século XV «de Santo Antão». [...]

Rua das Portas de Santo Antão [191-]
Igreja de São Luís dos Franceses; ornamentações na antiga rua de Santo Antão
Alberto Carlos Lima, in Arquivo do Jornal O Século

Depois do Terramoto a velha Porta, ou Arco, de Santo Antão sofreu demolição, como quási tôdas as da Cêrca de D. Fernando, pois ficara muito arruinada. O dístico de Rua das Portas de Santo Antão não ia além de S. Luiz [igreja de], e perdurou até Setembro de 1859, entrando depois a artéria a chamar-se simplesmente Rua de Santo Antão até ao Largo da Anunciada. Em 3 de Agôsto de 1911 o nome tradicional modificou-se para o de Rua Eugénio dos Santos [até 1956] (o arquitecto da nova Cidade).²
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 207, 1943.
² ibid., Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 103-104, 1939.

Wednesday, 21 March 2018

Coreto do Alto do Poço (Coreto de Carnide)

No Alto do Poço, aproveitando a própria configuração topográfica, a Rua Direita alarga-se para dar lugar a um espaço irregular alongado, espécie de terreno marginal ou lateral, onde inicialmente se realizou um pequeno mercado de produtos hortícolas e, em 1929, se construiu o coreto (cantaria, hexagonal, cobertura em ferro), dando-lhe uma fisionomia mais urbana.


A partir de fontes arquivísticas e bibliográficas, sabe-se que o topónimo Carnide já era utilizado nos finais do século XII, correspondendo, nessa altura, a uma área de herdades agrícolas, propriedade de particulares abastados e de casas religiosas de Lisboa. Uma verdadeira aldeia só terá surgido em meados do século XIII e há referências que indicam que, nos inícios do século XIV, a povoação de Carnide já tinha uma igreja dedicada a São Lourenço com o seu cemitério, uma fonte, «covas», um «rocio» e, especificamente no lugar conhecido por «Alto do Poço» (vulgo Largo do Coreto), uma Ermida dedicada ao Espírito Santo, outro cemitério, uma leprosaria (que viria a ser desactivada em meados no século XVI com a construção de um hospital na Luz) e (claro) um poço. Para o século XV há notícias de que Carnide se transformara em local de descanso da família real e de outros elementos da Corte (o que indicia a existência de casas nobres).

Coreto do Alto do Poço [1929]
Rua Neves Costa vulgo Largo do Coreto de Carnide
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Trabalhos arqueológicos que decorrem no Largo do Coreto de Carnide, desde os inícios de Março de 2012, no âmbito do Projecto de Requalificação do Largo do Coreto e Ruas Adjacentes, já permitiram recuperar muitos elementos da história dessa zona. Até ao momento já foram detectados:
- um poço em pedra (perto do local do coreto) aparentemente construído em época medieval com cerca de 12 metros de profundidade (estimada), cheio de água (em ano de seca!), talvez aquele que justificava o topónimo «Alto do Poço».

Coreto do Alto do Poço [1961]
Rua Neves Costa vulgo Largo do Coreto de Carnide
Arnaldo Madureira, in AML
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Bibliografia
jf-carnide.pt.

Sunday, 18 March 2018

Palácio Regaleira a S. Domingos

No quarteirão entre as eEscadinhas da Barroca e a Calçada do Garcia, ali tens o prédio, n.º 14 a 15 com sete portas, que foi o Palácio Regaleira, propriedade no meado do século passado [séc. XIX] de D. Ermelinda Monteiro [Allen] d'Almeida, baronesa e viscondessa da Regaleira, título que passou e se mantém nos Morais Palmeiro; êste prédio pertenceu a Francisco de Sousa Cruz, em 1915? passou por compra a Artur Aires, e hoje [1939] é da Companhia dos Tabacos.

Existiu aqui um clube de jôgo e de prazer, imprôpriamente chamado "Clube Regaleira".¹


O registo mais antigo que se encontra sobre este edifício remonta a 28 de Outubro de 1814, no qual a localização do palácio é descrita no Registo de Descrições Prediais. A localização privilegiada do Palácio Regaleira numa zona nobre, central e movimentada da cidade, próximo do Rossio e no mesmo Largo da Igreja de São Domingos fez com que este mantivesse a sua centralidade relativamente ao espaço e vida urbana ao longo dos tempos.
Os dados precisos sobre a autoria e data de construção do edifício são desconhecidos. Vários autores sugerem tratar-se de uma edificação do século XVIII, provavelmente anterior ao terramoto de 1755. Segundo José-Augusto França, em gravuras anteriores a essa data, surge representado no mesmo local um edifício que apresenta grandes semelhanças com o actual: um prédio de três pisos, com a fachada principal virada a sul, de arquitectura sóbria e disposição simétrica de portas e janelas, que ocupam de forma regular grande parte da frontaria. É provável que o edifício tenha entrado na posse da família Allen em período anterior ao de D. Ermelinda Allen Monteiro d’Almeida, a primeira viscondessa da Regaleira, que teria herdado o Palácio dos seus pais e empreendido os trabalhos de remodelação entre 1835 e 1842, conferindo ao edifício a sua traça actual.

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
Mário Novais, in Biblioteca de Arte F.C.G.

A vida social de grande ostentação e as festas sumptuosas dadas nesta época pela baronesa e viscondessa da Regaleira no seu palácio lisboeta são-nos descritas por Fialho de Almeida:
«A primeira foi em 4 de Março de 1842, e Paulina de Flaugergues aponta-a como uma das mais belas e animadas da estação. Estiveram cerca de mil convidados, e era notável a porção de mulheres bonitas que se encontrava nos salões. A ornamentação da casa em pouco ou nada fora alterada a mais do que costumava ser nos dias ordinários. O palácio de madame Monteiro d’Almeida era um verdadeiro museu de coisas de arte e de elegância, e arcava em gosto e riqueza com a residência dos Palmelas, dos Fronteiras, dos Atalaias, e dos viscondes de Porto Covo […] No pátio da casa, em que tocavam três bandas de regimento, fora improvisado um jardim com laranjeiras, pritchardias e camélias, sob uma tenda de seda, às riscas multicolores, esticada e, lanças e albardas, que aprumavam de roda, mais de catorze ou quinze estátuas de guerreiros.»²

Em 1901 — após ter saído em definitivo (1898) da posse da família Allen — está instalado no Palácio Regaleira o Teatro Eléctrico Mágico. A partir do ano seguinte, funciona nesse edifício o Liceu de São Domingos, um desdobramento do Liceu do Carmo. Segundo o olisipógrafo Appio Sottomayor, terá aí funcionado, pouco tempo antes da implantação da República, a sala de cinema Rossio Palace, na qual se realizam, para alguns espectadores escolhidos e pagantes, sessões especiais com filmes pornográficos que têm lugar pela noite fora49. Já João Paulo Freire refere nas suas memórias «uma exposição-museu de figuras de cera, com uma secção reservada a doenças venéreas» que teria estado no Palácio Regaleira em 1918, aproximadamente.³

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
No início do séc. XX esteve aqui instalada sala de cinema Rossio Palace
Mário Novais, in Biblioteca de Arte F.C.G.

No mesmo edifício funciona ainda um estabelecimento comercial denominado Vaccaria de S. Domingos e um hotel. A 24 de Março de 1919 o prédio foi vendido à firma Arthur Adriano Ayres, Lda. Este dado, retirado dos Registos Prediais, contradiz a data de transição da propriedade do imóvel que nos é dada por Norberto Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa como se pode ler logo no inicio desta publicação: «em 1915? passou por compra a Artur Aires».

Palácio Regaleira [1910]
Na esquina do Largo de S. Domingos com as Escadinhas da Barroca, observa-se a Vaccaria S. Domingos
António Novais, in AML

























No que respeita ao Regaleira Club — também mencionado por Norberto de Araújo como Clube Regaleira — há notícia do seu funcionamento entre 1920 e 1922. Contudo, este poderá ter aqui funcionado antes da data indicada. Entre Fevereiro e Maio de 1917 estaria, a julgar pelo nome, aí já instalado o Club Palácio da Regaleira, que pagava ao Governo Civil de Lisboa a devida licença para prolongar, todas as noites, as suas diversões para além da meia-noite. Não foi no entanto possível apurar se este seria ou não o mesmo estabelecimento conhecido por Regaleira Club em 1920. O seu encerramento em 1923 parece ser consensual.
Com a sua instalação no Palácio Regaleira e a adopção do nome deste para sua própria denominação, este clube nocturno procurou claramente beneficiar do estatuto alcançado e difundido na época da baronesa e viscondessa da Regaleira, aproveitando do edifício a aura que ainda prevalecia de festas sumptuosas e luxuosas.

«A monumental escada» e «A majestosa sala do “Regaleira Club”»
Efeitos da Guerra», ABC, 7 de Julho de 1921 [fotografias de Serra Ribeiro]

O palácio é vendido à Companhia de Tabacos de Portugal, que compra o imóvel pelo montante de 1.303.000$00 em escritura de 14 de Novembro de 1923.
Os inquilinos multiplicam-se e sucedem-se: um Armazém de Roupas Nogueira Viegas Lda.; a Fotografia Electro Rápida, de Brito Gago Justel; um estabelecimento de instrumentos musicais, de Larcher Castelo Branco, um estabelecimento comercial de artigos de malha, de José Esteves de Almeida; a Empresa Portuguesa de Instalações Eléctricas, Lda.; um estabelecimento de comércio de fruta e um outro de peixe, de Maria Fernandes de Almeida; o Bazar Universal, de Orlando Silva. Por estes anos está também instalada no Palácio Regaleira a Casa das Beiras, instituição de carácter regional que organiza festas e récitas.
No final da década o edifício encontra-se em adiantado estado de degradação: «O palácio estava em mísero estado. Parecia um chavascal. Soalho esburacado, paredes sujas, portas escangalhadas, um pavor.»
Em 1933 a Companhia dos Tabacos arrenda à Ordem dos Advogados o 1.º andar do edifício, que inicia obras de recuperação no palácio. A nova sede da Ordem dos Advogados só é inaugurada em cerimónia solene a 24 de Maio de 1939. Finalmente, a 26 de Janeiro de 1960, a Companhia dos Tabacos de Portugal vende o Palácio Regaleira à Caixa de Previdência da Ordem dos Advogados e Solicitadores pelo preço avultado de 11.000.000$00.
Tudo leva a crer que a traça arquitectónica exterior do edifício se tenha mantido igual desde meados do século XIX, altura em que se realizaram os amplos trabalhos de remodelação. Já o interior do Palácio terá conhecido múltiplas e significativas intervenções, em resultado dos numerosos inquilinos e das diversas actividades que ali tiveram lugar.
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 81, 1939.
² Fialho de Almeida, Vida Errante, pp. 334-335, 1925.
³ João Paulo Freire, Lisboa do meu tempo e do passado, Lisboa, J.P. Freire, 1931-1939, p. 10-11.
Cecília Santos Vaz, Clubes nocturnos modernos em Lisboa: sociabilidade, diversão e transgressão (1917-1927), Palácio Regaleira, pp. 76-81, 2008.

Friday, 16 March 2018

Liceu Camões ou «Lyceu de Camões»

Notável para a sua época de construção, e ainda hoje [em 1938] estabelecimento publico de primeira ordem, é êste outro edifício escolar, do Liceu Camões. Foi inaugurado em 1909, e pertence ao grupo destas edificações liceais que se deveram ao ilustre estadista João Franco. Possue condições pedagógicas modernas, grandes salas, aulas arejadas, galerias e corredores largos, pátios de recreio, e um admirável ginásio.¹


O Liceu Nacional de Lisboa, actual Escola Secundária de Camões, foi o segundo liceu de Lisboa, criado em 1902 por Carta de Lei, de 24 de Maio.
Inicialmente a funcionar no Palácio da Regaleira, no Largo de São Domingos, partilhava as suas instalações, no rés-do-chão, com uma leitaria e uma loja de mobílias. Dois anos mais tarde com a divisão de Lisboa em três zonas escolares, o Liceu Camões, ou «Lyceu de Camões» adopta a designação de Liceu Central e passa a ser o principal da zona onde fica situado — primeira zona.

Liceu Camões [1914]
Soberano senhor da Praça José Fontana
Fotógrafo não identificado, in AML

Em 1907, o Governo autoriza a aquisição de terreno, construção de um edifício e compra de mobiliário. O local escolhido, Largo do Matadouro Municipal [actual Praça José Fontana] foi alvo de fortes críticas por ser considerado ermo, de difícil acesso e distante para os alunos.
Projectado em 1907 pelo arquitecto Miguel Ventura Terra e edificado entre 1908 e 1909, foi o dos segundo liceu moderno da capital. A sua construção resulta de uma política de fomento do ensino superior, da qual fez parte a conclusão do Liceu Passos Manuel e o projecto do Liceu Pedro Nunes, também do risco de Ventura Terra. O edifício foi objecto de intervenções de ampliação e renovação em 1927, 1931, 1933, 1934, 1935 e 1940.

Liceu Camões [1928]
Praça José Fontana
O corpo central possui, no piso térreo, três arcos de volta perfeita dando um deles acesso ao interior. Em 1972 foi inaugurado à entrada do liceu, por ocasião do IV Centenário da Publicação de "Os Lusíadas", o busto de Camões, encomendado ao escultor Fernando Fernandes, para homenagear o grande poeta português
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
Liceu Camões [1933]
Praça José Fontana
Os alunos do liceu Camões à saída daquele edifício, no dia de abertura de aulas
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Na sua construção recorreu-se aos novos materiais da época: ferro e tijolo. Neste novo edifício já havia uma cantina, papelaria, livraria e estava englobado um conjunto de infra-estruturas associadas à prática do exercício físico dos quais se destacam os espaços para ginástica e banhos. Os espaços destinados ao convívio, às disciplinas científicas e ao exercício físico eram uma novidade nas construções escolares da época.
No início de 1908 — Janeiro — iniciam-se as obras que surpreendentemente terminam vinte e um meses depois.
Em 1909, a 16 de Outubro, inaugura-se o novo Liceu que entretanto, em 9 de Setembro de 1908 muda oficialmente a sua designação para Lyceu de Camões.²

Liceu Camões [1928]Praça José Fontana
Nas enjuntas observarn-se medalhões cerâmicos em relevo com elementos vegetalistas. Antecedem a cornija painéis de cerâmica com motivos zoomórficos e vegetalistas
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

N.B. Pelo Liceu Camões passaram grandes vultos da História e da Cultura do nosso país, quer como alunos quer como professores: Mário de Sá-Carneiro, Vergílio Ferreira, Aquilino Ribeiro entre outros.
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 58, 1938.
² Almeida e Duarte Belo – Portugal Património: Lisboa, Vol. VII, 2007.

Wednesday, 14 March 2018

Praça Marquês de Pombal, 15-18

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constitue o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fêz demorar. [Araújo: 1939]


O palacete [demolido c. 1965] que torneja a Avenida Duque de Loulé (à esq.) inscrevia-se organicamente no desenho da praça e projectava com apreciável monumentalidade o seu corpo cilíndrico através de uma varanda corrida que o acompanhava no piso nobre. Em marcação vertical a cúpula com aberturas amansardadas transmitia uma dinâmica de volume. Poderá denotar dispositivos de linguagem compositiva do arq.º Adães Bermudes (1864-1947). 

Praça Marquês de Pombal, 15-18 [190-]
Quarteirão entre as Avenidas Duque de Loulé e da Liberdade

Paulo Guedes, in AML

 O prédio (ao centro) situado entre o «Palacete Seixas» e o palacete de esquina com a Duque de Loulé era conhecido como prédio da «Federação Portuguesa de Futebol», já que aqui se encontrava sedeada esta instituição a partir de 1954. No seu rés-do-chão direito estava instalado o estúdio fotográfico San Payo que durante décadas foi escolhido para retratos pessoais de grandes figuras. Em 1974 dá-se início ao seu processo de demolição.

Enquadramento dos edifícios na Praça Marquês de Pombal, 15-18 [1934]
Esquina com a Rua Joaquim António de Aguiar
Pinheiro Correia, in AML

Em 1900, estava em adiantada fase de edificação o que vem a ser denominado o «Palacete Seixas» situado num talhão de grande área de terreno na extremidade direita da avenida, a contornar a Praça Marquês de Pombal e com acesso na retaguarda pela Rua Rodrigues de Sampaio. O projecto, de que se desconhece o autor, teve como primeiro responsável Alberto Pedro da Silva e, posteriormente, Guilherme Francisco Baracho. O mirante que lhe rematava a clarabóia central na sua configuração de minarete islâmico é dissonante à estrutura arquitectónica, mas a sua estilização de coreto em miniatura, assentava com aceitável leveza e registo poético no remate geométrico da cobertura. É desde 1997 propriedade do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e alberga o «Instituto Camões». Integra a Zona da Avenida da Liberdade que se encontra Em Vias de Classificação.

Bibliografia
TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível, 2002.

Sunday, 11 March 2018

Arco triunfal das Amoreiras

Já agora, vejamosna Rua das Amoreiras — o Arco triunfal, que celebra a entrada das águas do Aqueduto na cidade em 1748. É um monumento comemorativo imponente, no seu todo arquitectónico, de ordem dórica, digno da obra de Manuel da Maia e de Custódio Vieira.¹


O Arco das Amoreiras [o centésimo dos 109 que constituem o Aqueduto],  de perfil monumental, com elementos decorativos de ordem dórica, no qual, ao alto, se vêem duas inscrições laudatórias (uma por cada lado), em português, colocadas ali depois de 1783 para substituírem as primitivas inscrições latinas, as quais consagram a memória de D. João V, e assinalam o ano de 1748 como o do ingresso das águas na Cidade, «ven­cida a própria natureza», ao cabo de de­zanove anos de trabalhos, «com o menor possível dispêndio de cabedais públicos», dando assim o ano de 1729 como o comêço dos trabalhos, mas sendo certo que aquele ano corresponde, simplesmente, ao da apro­vação dos impostos para custear o monumento.²

Arco triunfal das Amoreiras [1908]
Rua das Amoreiras,nas inscrições do lado Norte exalta-se o Rei D. João V, que pôs a Paz na Lusitânia com valor e glória, e que «vencida a própria natureza», fêz conduzir as «águas perenes» a Lisboa no «breve espaço de 19 anos.»¹
Machado & Souza, in A.M.L.

N.B. As inscrições actuais foram ali colocadas durante o reinado de D. José substituindo as primitivas (em latim) e rezam assim: Lado Norte: « discórdias de opinião, tiveram as Águas Livres o seu ingresso triunfal na cidade» Lado Sul: «No ano de 1748, reinando o Piedoso, Feliz e Magnânimo D. João V, o Senado e o Povo Lisbonense, à custa do mesmo povo, e comum satisfação dele, introduziu na cidade as Águas Livres, desejadas pelo espaço de dois séculos, e isto por meio de um trabalho, durante vinte anos, em arrasar, desfazer e furar os outeiros nas redondezas de nove mil passos».³

Arco triunfal das Amoreiras [Inicio séc. XX]
Rua das Amoreiras, nas incrições do lado Sul (Rato) atesta-se que os «aquedutos solidíssimos» hão de «durar eternamente»; classifica-se as águas de «salubérrimas» e diz-se que a obra foi feita com «tolerável despesa pública e sincero aplauso de todos»¹
José Artur Leitão Bárcia, in A.M.L.

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 102, 1939.
² idem, Inventário de Lisboa, Fasc. 1, 1944.
³
ALMEIDA. Afonso Duarte de, Enciclopédia histórica de Portugal, Vol. 1, p. 104, 1938.

Friday, 9 March 2018

Rua das Amoreiras antiga «Rua do Rato para Campolide»

Pois, Dilecto, a Rua das Amoreiras, larga nesta artéria até ao estrangulamento do antigo Palácio Anadia [vd. 2ª e 3ª imagens], é muito antiga, como caminho ao menos, e foi — já o disse — de S. João dos Bemcasados, antes de existir a outra, hoje Rua Silva Carvalho. A designação «das Amoreiras» — projecção da Praça e Jardim acima do Rato — data de 1874. Também foi «Rua do Rato para Campolide», chamada simultâneamente «das Águas Livres».


Dentro de poucos anos, Dilecto, — prossegue Mestre Araújo — esta Rua das Amoreiras, queestará desfigurada no seu traçado; as transformações das cidades, riscadas em plantas, quando chega a hora das realizações fazem sempre vítimas: alguns prédios desta artéria, de um lado e outro, desaparecerão.¹

Rua das Amoreiras N→S [1944]
Esquina da Rua Silva Carvalho junto ao Palácio Anadia
Eduardo Portugal, in A.M.L.

No prédio n.° 42-44 da R. das Amoreiras, passado o Arco, um belo registo de azulejos [vd. 3ª imagem], composto de três painéis de moldura polícroma, representando os dois que ficam superiormente a Epifania e a Fuga para o Egipto, e o inferior St.° António e S. Pedro. Continuando a subir esta rua, encontra-se à esq. a rua de Silva Carvalho, antiga de S. João dos Bem-casados, na esquina da qual se eleva o palácio dos duques do Cadaval, depois dos condes da Anadia. Os carros da carreira da Estrela seguem pela R. de Silva Carvalho, em direcção ao Campo de Ourique, enquanto os de Campolide continuam a percorrer a R. das Amoreiras, entre arvoredos e jardins, até ao ponto em que, inflectindo à dir., metem pela R. de Campolide..²

Rua das Amoreiras S←N [1944]
Esquina da Rua Silva Carvalho junto ao Palácio Anadia (esq.)
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Rua das Amoreiras N→S [1932]
Junto ao Palácio Anadia (dir.)
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

O topónimo Rua das Amoreiras foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, através de Edital do Governo Civil de 03/02/1874, e posterior Deliberação Camarária de 18/05/1889 e respectivo Edital de 08/06/1889, ao «arruamento que surgiu da junção das Ruas do Arco das Águas Livres, de São João dos Bem Casados e dos Arcos das Águas Livres que principiam no Largo do Rato e terminam nas Portas da Cidade».³

Rua das Amoreiras, 44 [1969]
Registo de Santos [demolido]
Garcia Nunes, in A.M.L.

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 80-81. 1939.
² Guia de Portugal: Generalidades. Lisboa e arredores, vol 1º, p. 320, 1924.
³ cm-lisboa.pt.

Wednesday, 7 March 2018

Igreja de S. Sebastião da Pedreira

Chegamos ao Largo de S. Sebastião da Pedreira — diz Norberto de Araújo —, em cujo tôpo já estivemos [vd. artigos anteriores] num dos passos anteriores da Peregrinação de hoje. Temos deante de nossos olhos a paroquial. 

Neste sitio seiscentista existiu uma pequena Ermida de uma confraria de carpinteiros (caixeiros ou caixoteiros?) da Rua das Arcas, antiga Baixa; foi junto dela que em 1652 se construiu o templo de S. Sebastião da Pedreira, como paroquial, inaugurado em 1654.
Levava êste templo um século quando sobreveio o Terramoto, que o poupou. Beneficiou de restauros várias vezes, uma das quais já neste século, mas sem que a sua estrutura primitiva fôsse sensivelmente alterada.

Igreja de São Sebastião da Pedreira [c. 1900]
Largo de São Sebastião da Pedreira; Rua Tomás Ribeiro
Panorâmica sobre os sítios da Pedreira e das Picoas; vê-se à esq. a Igreja de S. Sebastião da Pedreira e, em segundo plano, a antiga Estrada das Picoas — que partia do Rego e entroncava na Cruz do Tabuado (hoje Pç. José Fontana, à dir.)
Fotógrafo não identificado, in AML

Classificada como Imóvel de Interesse Público, traduz uma linguagem severa «estilo chão», cuja fachada, servida por escadaria dupla, lateral, para vencer o desnível do adro, surge rasgada por um portal emoldurado a cantaria, rematado por tímpano interrompido por um medalhão em baixo relevo com o emblema do santo padroeiro. Ladeada por duas torres sineiras [a torre sineira que se eleva à esquerda é mais recente [1976?], definidas por pilastras e cunhais de cantaria, é coroada por duplo frontão triangular.

Igreja de São Sebastião da Pedreira [1964]
Largo de São Sebastião da Pedreira; Rua Tomás Ribeiro
Ao findo, no quarteirão que esquina com a Avenida Luiz Bivar (já dêste século) eleva-se  palacete do Dr. Egas Moniz. É em estilo português, do tipo do século XVIII.
Armando Maia Serôdio, in AML

O interior, de nave única, revela uma decoração barroca dos sécs. XVII e XVIII, integrada no conceito da «arte total», destacando-se: as obras de talha branca e dourada; o património azulejar, nomeadamente o do início de Setecentos, alusivo a S. Sebastião; as telas pintadas, em 1740, com a iconografia do referido santo; a pintura em estuque do tecto da nave, datada do fim do séc. XIX, alusiva ao orago; e um retábulo da «Ceia» assinado por Cirilo Volkmar Machado, exposto na capela do Santíssimo Sacramento.

Igreja de São Sebastião da Pedreira [post. 1941]
Largo de São Sebastião da Pedreira; Rua Tomás Ribeiro
Vista do coro tirada da Capela-mor
Mário de Oliveira, in AML

N.B. Na igreja existem algumas imagens assinaláveis, tais a de Nossa Senhora da. Saúde, quinhentista, de roca, só exposta no dia da sua festa e que pertencia à primitiva ermida, e uma de Santa Rita de. Cassia (na antiga capela do Santíssimo) que fez parte do recheio do hospício desta invocação, pertencente aos frades agostinhos, e que existiu na rua de S. Sebastião da Pedreira. No chão da capela-mor, em sepultura rasa, existe o túmulo de D. João. Bermudes, patriarca da Etiópia, e que es teve primeiro depositado na primitiva ermida, da qual o prelado foi protector (morreu em 1570).

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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 82, 1939.
idem, Inventario de Lisboa, Fasc. 11, 1956.
monumentos.pt.

Sunday, 4 March 2018

Largo de São Sebastião da Pedreira

A razão do dístico Largo do Provedor dos Armazéns — recorda-nos  Norberto de Araújo — estava em que no seu tôpo — hoje [em 1939] Palácio dos herdeiros de José Maria Eugénio de Almeida {Palácio Vilalva] — se erguia o palácio de Fernando de Larre Garcez Lôbo Palha e Almeida, Provedor dos Armazéns, cargo que desde 1708 andava na sua família; o cargo foi extinto em 1793 na pessoa do próprio Fernando Larre.

Largo de São Sebastião da Pedreira [1968]
Topónimo que advém do padroeiro do local, S. Sebastião; denominado Largo do Provedor dos Armazéns, no século XVIII; à esq., o conjunto de edifícios de gaveto, construido após 1800
Armando Serôdio, in AML

Existem ainda por aqui — prossegue o olisipógrafo — edificações do comêço do século passado [XIX], de humilde semblante, em contraste com as edificações de há vinte anos; olha essas casas sôbre desnível, além da cortina de ferro, contíguas à Igreja.¹

Classificado como Imóvel de Interesse Municipal, este conjunto de edifícios, construido após 1800, de planta quadrangular formando gaveto [do lado esq. na 1ª foto], foi concebido inicialmente para habitação operária. Desenvolvendo-se em 3 pisos rematados por cornija, apresenta fachadas rasgadas por entradas no piso térreo e janelas de sacada no 1º e 2º pisos com moldura simples, em cantaria, e, ainda, ao nível do 1º piso, varandas de planta rectangular com gradeamento em ferro forjado. Conjunto de traça oitocentista caracterizado por uma certa simplicidade e austeridade devido à ausência de elementos decorativos na fachada.²

Largo de São Sebastião da Pedreira [1965]
Topónimo que advém do padroeiro do local, S. Sebastião; denominado Largo do Provedor dos Armazéns, no século XVIII; à dir., o conjunto de edifícios, construido após 1800; ao fundo vê-se o Palácio Vilalva
Armando Serôdio, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 53, 1939.
cm-lisboa.pt.

Friday, 2 March 2018

Palácio e Parque José Maria Eugénio

O antigo Palácio José Maria Eugénio situa-se entre o Largo de S. Sebastião da Pe­dreira, o começo da Estrada Palhavã [actual Rua Dr. Nicolau Bettencourt], a Rua Marquês de Sá da Bandeira e a Avenida Duque de Ávila, sobre a qual se estende o recente muro do jardim, com seus portões e guaritas soerguidas. As fachadas mantêm-se como em 1860, época da reedificação.


No primeiro quartel do século XVIII este sitio de S. Sebastião da Pedreira, onde viria a ser edificado o palácio ainda hoje denominado «de José Maria Eugénio» — tradição oral mais pró­xima — era quase completamente rústico, com uma ou outra casa a animar as imediações da igreja de S. João da Pedreira. Fazia-se por aqui caminho para Palhavã, onde já se erguia desde há muito o Palácio dos Condes de Sarzedas. O arquitecto francês Fernando Larre, que servira D. João V, cobiçou o local e fez nele erguer, cerca de 1780, um palácio, sólido e amplo, que não sofreu grande dano pelo Terramoto. Do primeiro Larre passou a propriedade, que desfrutava de uma larga área arborizada, para um filho, e deste para o neto do fundador, Fernando Larre Garcez Lobo Palha e Almeida, que foi Provedor dos Armazéns, cargo que andava na sua família, e extinto em 1798 (o actual Largo de S. Sebastião da Pedreira chamava-se então «do Provedor dos Armazéns»). Morreu o terceiro Larre em 1797, e o palácio continuou na posse de seus descendentes, no mesmo aspecto primitivo, mas interiormente muito, beneficiado. Haviam trabalhado nas decorações o famoso estucador João Grossi, o continuador, deste, Félix Salla, e os ornamentistas Biel e Gomassa

Panorâmica sobre S. Sebatião da Pedreira [c. 1900]
Fotógrafo não identificado, in AML
Legenda:

1 - Palácio e Parque José Maria Eugénio [ou Palácio Vilalva]; 2 - Largo de S. Sebastião da Pe­dreira; 3 - Palácio Sá da Bandeira; 4 - Praça de Touros do Campo Pequeno

Em 1860 a propriedade veio às mãos de José Maria Eugénio de Almeida, opulento capitalista, um dos sócios do «real contrato do tabaco, sabão e pólvora» e foi este homem quem promoveu a reedificação e ampliação do palácio, no estado em que hoje sensivelmente se encontra, obra levada a efeito pelo arquitecto decorador Cinatti. Com o aproveitamento da área arborizada construiu-se o Parque José Maria Eugénio [ou de Santa Gertrudes], então mais dilatado, fronteiro aos jardins posteriores do palácio, os quais se estendiam até ao eixo da Avenida Duque de Ávila do nosso século [séc. XX] então estrada estreita com sua porta da circunvalação. O escultor Calmeis trabalhou nas emoldurações exteriores da frontaria. 
O Parque [de Santa Gertrudes], rodeado inteiramente de muros ameados, tornou-se uma das curiosidades de Lisboa, e nele esteve instalado o Jardim Zoológico de 1890 a 1909 [vd. 2ª imagem].

Planta do Jardim Zoológico D’Acclimação de Lisboa [1883]
Entre 1883-1895 instalou-se no Parque de Santa Gertrudes o Jardim Zoológico e d’ Acclimação de Lisboa, in FCG

O Palácio dos Larres [vd. carta abaixo à esq.] perdeu o aspecto setecentista e tornou-se um belo edifício, mais burguês do que nobre, embora se houvessem aproveitado as ricas decorações interiores, à base de estuque em preciosos relevos. O filho e sucessor de José Maria Eugénio, Carlos Maria Eugénio de Almeida, pre­tendeu valorizar a propriedade iniciando a construção de uns anexos, em tipo inglês de castelo, destinados a cocheiras e aposentadorias, os quais não se concluíram e ainda hoje se mostram em pitoresco aspecto sobre a Estrada de Palhavã
Carlos Maria Eugénio casara com D. Maria do Patrocínio de Barros Lima, e do casal os únicos dois filhos, Condes de Vilalva e de Arge, não sobreviveram a sua mãe, falecendo, respec­tivamente, em 1987 e 1989. Por morte, em 1940, da viúva de Carlos Maria Eugénio, sucedeu no senhorio da propriedade, já então reduzida na parte do Parque, por expropriações municipais, o engenheiro agrónomo, Vasco Maria Eugénio de Almeida, 2.° Conde de Vilalva, filho do primeiro do titulo. 

Parque José Maria Eugénio [1909]
[Santa Gertrudes]
Planta Topográfica de Lisboa, de Silva Pinto

in AML

Quinta do Provedor dos Armazéns [1801]
Carta Topographica de Lisboa de José D. Fava
in FCG















Em começo de 1946 o Estado adquiriu àquele bisneto do reedificador, para o Ministério da Guerra, o palácio que fora dos Larres, provedores dos armazéns, e de José Maria Eugénio de Almeida, nome este que perdura. Realizaram-se então no edifício largas obras de beneficiação, adaptação e de nova distribuição de salas, com construção dos anexos, dentro do grande jardim posterior, e de um muro sobre a Avenida Duque de Ávila, com ângulos adorna.dos de elegantes guaritas de vigia. Estes transformações foram dirigidas pelos arquitecto António Quinina e engenheiros João de Deus Pimentel e Filipe Ribeiro

Panorâmica sobre  Parque José Maria Eugénio  [c. 1900]
No ano de 1868 inicia-se a construção das cocheiras (ao centro) do Palácio Vilalva, segundo um projeto de Cinnati
Fotógrafo não identificado, in AML

O edifício foi destinado a Quartel General do Governo Militar de Lisboa, havendo sido inau­gurado em 28 de Agosto de 1948, mas já dias antes militarizado, depois de, em 28 de Maio desse. ano, no salão nobre se haver efectuado uma grande reumião de oficiais superiores do Exército. 
Quanto ao que resta do formoso Parque José Maria Eugénio — onde nos últimos anos se tem realizado a «Feira Popular» — ele é ainda propriedade do Conde de Vilalva. 

N.B. Pode o estimado leitor ver mais imagens e pormenores deste Palácio e Parque José Maria Eugénio na nossa página de Facebook.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, fasc. VIII. 1950.
Gulbenkian.pt.
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