Friday, 9 February 2018

Café Royal: — Agora sim, agora temos bife!

Aqui, no Cais do Sodré, existiu até há bem pouco tempo, o Café Royal, que pelo nome seria um chamariz para a marinhagem estrangeira que frequentava o local. Teve mais poder a banca que o adquiriu, desmantelou-o, e ali instalou a sua agência. E foi pena, porque este curioso café era ainda o símbolo de uma época, com a fachada revestida de belos azulejos, um alpendre envidraçado construído sobre ferrajaria desenhada à arte nova e bons espelhos no interior. 


Ainda conhecemos os empregados que serviam a clientela, vestidos de preto, laço no colarinho e largo avental branco tapando-lhe as pernas, à velha maneira, como ainda se encontram em algumas «terrasses» parisienses. Um destes servidores, bom cavaqueador, contou-nos a seguinte anedota verdadeira...

Café Royal [c. 1912]
Praça Duque da Terceira, vulgo Cais do Sodré, e Rua do Alecrim
Joshua Benoliel,  in A.M.L.

À hora do almoço, o Café enchia-se de fregueses, empregados das agências de navegação existentes na área. Entre os habituais, um trazia debaixo do braço uma molhada de jornais e enquanto lhe preparavam o habitual bife com batatas — que o Café tinha fama em os servir  — foi lendo. Na devida altura o criado colocou sobre a mesa a frigideira rechinando, a meia garrafa do Colares, o apetitoso pãozinho branco, a manteiga, os talheres e o copo. Mas o freguês continuou a ler o jornal. Até que, reparando na mesa, largou as notícias e iniciou o ataque ao bife. Porém, às primeiras dentadas, contra o habitual, verificou que a carne era rija! E reclamou:
Ó, Chico, este bife é intragável!
O criado, pacientemente, devolveu a frigideira ao guiché dizendo para o cozinheiro: — Olha lá isso, ó pá! O freguês diz que essa carne é rija! 
O cozinheiro, que não estaria em dia de boa disposição, disse de sua justiça e, violentamente, acompanhou as frases, ferrando com o bife no chão, espezinhando-o com a serradura. O freguês voltara à leitura dos jornais. Mas a certa altura, gritou: 
— Então, esse bife!?
Tanto o criado como o cozinheiro se haviam esquecido da reclamação, e quando aquele voltou à portinhola a gritar pelo bife — que o freguês estava furioso! — o cozinheiro olhou em volta, embaraçado esquecendo-se do que lhe havia feito! Mas ao olhar o chão, deparou com a carne negra, empapada na serradura. Apanhou-a, sacudiu-a, deu-lhe duas palmadas e ferrou com o bife na frigideira que estaria sempre sobre o fogão, fervendo a mesma gordura que servia a todos. Quando julgou que a coisa estaria em condições, prantou-a no barro limpo que servia à mesa, ajeitou-lhe umas batatas em volta, o ovo da praxe e gritou para o Chico: 
— Pronto, aqui está um esplêndido bife!
O freguês de novo largou o jornal e à primeira garfada, exclamou: 
 — Agora sim, agora temos bife!...

Café Royal [c. 1912]
Praça Duque da Terceira, vulgo Cais do Sodré, e Rua do Alecrim
Joshua Benoliel,  in A.M.L.

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do Meu Tempo (1900-1974), pp. 46.48, 1986.

3 comments:

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