Wednesday, 31 January 2018

Quiosque da Praça do Príncipe Real

Os quiosques que embelezam Lisboa a partir da segunda metade do século XIX tiveram a sua época áurea por volta de 1900. No Rossio, no Cais do Sodré, no Largo da Misericórdia, Príncipe Real, Alcântara, por esta Lisboa encontrávamos sempre um quiosque para nos vender uma caixa de fósforos ou tomar um jeropiga. 


Situavam-se em locais escolhidos, mais ou menos com a mesma fábrica arquitectónica. Tivera a iniciativa de implantar os ‹‹Kioscos››, nome com que foi requerida à Câmara Municipal, nesses tempos recuados de 1867, D. Tomás de Mello, espírito generoso, de ideias avançadas, boémio e literário, homem de teatro e até comerciante, justificando a sua proposta com o embelezamento das praças e ruas da cidade, ao mesmo tempo que seriam pequenos estabelecimentos de franca utilidade pública, como aliás já existiam nas grandes cidades da estranja! Foi aprovado o projecto dos ‹‹Kioscos››, designação depois aportuguesada, uma vez que se tornaria mais fácil para o vulgo, retirando-lhe, portanto, a sua origem oriental, lojas para a venda de tabaco e fósforos, água fresca e capilés, café e bagaço, jornais e revistas, determinando a Câmara que se estudasse o modelo e os locais onde deveriam fixar-se. 

Quiosque da Praça do Príncipe Real, nascente  [1908]
Antiga Praça do Rio de Janeiro, topónimo de 1859
Joshua Benoliel, in AML

As causas reais que levaram à demolição de muitos dos Quiosques que existiram em Lisboa são praticamente desconhecidas. Ou porque o seu estado de degradação a isso obrigasse sem que, no entanto, "merecessem" restauração, ou porque a modificação do traçado das ruas e avenidas e os melhoramentos dos passeios o tornasse imprescindível, o certo é que eles lá foram desaparecendo. E foram 45. O Quiosque da Praça do Príncipe Real, canto nascente, apresentava as seguintes características:

Estrutura
Base de madeira. Secção octogonal. Balcão de pedra suportado por pernas trabalhadas em madeira. Corpo alto com janelas a toda a volta. Cúpula metálica em forma de pirâmide com oito gomos, suportada por mísulas em madeira.

Particularidades
Particular. Muito frequentado. Apresentava uma taça em pedra para os utentes deitarem os restos das bebidas.

N.B.  Este quiosque (nascente) já aparece referenciado no Levantamento topográfico de Francisco Goullard em 1890 (vd. planta). No mesmo local foi levantado um outro que pode ser visto aqui.

Planta referente à praça do Príncipe Real [1890]
Inclui o estado da antiga Praça do Rio de Janeiro, em Novembro de 1890, e o quiosque em apreço assinalado a vermelho. 
Levantamento de Francisco Goullard, in AML

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo, 1986.
CAEIRO, Baltasar de Matos, Quiosques de Lisboa, 1951.

Sunday, 28 January 2018

Profissões de antanho: o deita-gatos

Lisboa engraçava com estes modestos profissionais, de boina vasca e tipicamente vestidos de calça e blusa de ganga azul, chamando a atenção com o característico toque de gaita de beiços e lançando ao vento o seu cantante pregão: «Deita gatos em bacias e alguidares, amola tisoiras e navalhas, conserta chapéus de sol...» 


Significado da expresão deita-gatos segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira:
DEITA-GATOS, s. m. Pop. Humilde artífice que conserta, por meio da apostura de gatos de arame, a louça de barro, chapéus de chuva, etc. São os deita-gatos, pelo geral, oriundos da Galiza e exercem a sua arte ambulantemente: «Havia, entre os maltezes, alguns que exerciam um pequeno comércio — os tendeiros — e outros que praticavam uma pequena indústria — os deita-gatos. Todos pediam esmola; mas os  tendeiros formavam, por assim dizer, a aristocracia da classe, e os deita-gatos constituíam urna espécie de burguesia média nessa sociedade mal diferenciada, Brito Camacho, Gente Rústica, p. 140 (1921). Relegado para os meios rurais ou subúrbios das cidades, o deita-gatos acumula, multas vezes, com a sua, a profissão de amolador. Nalgumas regiões do Alentejo (v. g. Portel) anunciam a sua presença por um tilintar de ferrinhos e o povo liga a éste anuncio a superstição de que ele indica que vai chover ou fazer mau tempo.

 Deita-gatos/amolador, junto ao Palácio do Marquês de Alegrete [s.d.]
Antiga Rua da Mouraria
Fotógrafo  não identificado, in AML

A este propósito ouçamos o magnífico eco do maior poeta da língua portuguesa e um dos maiores da literatura universal — Fernando Pessoa, em “Ó rapaz que deita gatos”:,

Ó rapaz que deita gatos
Deitas gatos só em pratos,
Só em tachos e tigelas, 
Ou deitas gatos também
Nas almas e no que há nelas
Que as quebra em mal e em bem?

Ah, se, por qualquer magia,
As tuas artes subissem
Àquela melhor mestria
De pôr gatos que se vissem
Nesta alma que se quebrou
No que sonho e no que sou!

Então... Qual então! Que tratos
Dei a um poema que surgiu!
Só consertas, só pões gatos
No inteiro que se partiu.
O que partido nasceu
Nem tu consertas nem eu.
(Fernando Pessoa, 1933)

Um deita-gatos de Lisboa
"Typos das ruas". Edição A.Martins, postal circulado em 1904

Um Deita-gatos de Lisboa [s.d.]
in Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa"
 
Bibliografia
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol 8, p. 499, 1959.

Friday, 26 January 2018

Castelo de S. Jorge: Porta (ou Portão) do Espírito Santo

Queria começar a legenda deste jeito: 

«Era uma vez uma cidade de mouras e valis...». E era. 

Foi assim a Lisboa sarracena que sucedeu à dos godos depois que se afogou no Guadalete a estrela de D. Rodrigo. Lisboa era a Alcáçova, a Kssaba mourisca, ninho de águias que fora romano e godo — o Castelo de hoje.  [...]
E lá passa ainda, esgueirando-se, e bem se vê no seu albornoz alvadio, o derradeiro mouro, talvez o filho do vali, que logrou escapar-se ao primeiro dos cavaleiros cristãos, e há oitocentos anos, todas as noitinhas, espera que o vento lhe traga desde as almenaras africanas — a canção do almuadin.

E... «era uma vez uma cidade de mouras e valis...».


De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo, tem o Castelo de S. Jorge — monumento nacional (séc. X) — sete portas: uma servindo a freguesia civil, outra dando acesso do exterior do bairro do Castelo ao «Passeio», três ligando a freguesia civil ao recinto monumental, e duas abrindo da antiga «Praça Nova» para o «Passeio». [vd. planta esquemática]

Castelo de S. Jorge: Porta ou Portão, do Espírito Santo [1906]
Esta Rua das Cozinhas que nasce junto ao nº 37 da Rua do Espírito Santo é uma artéria que surgiu após o Terramoto e recorda as cozinhas do Paço de Alcáçova medieval
Machado & Souza, in Arquivo Municipal Lisboa

A Porta ou Portão, do Espírito Santo, situa-se no topo da Rua deste nome, já na Rua das Cozinhas, de perfil ogival e arestas chanfradas, rematado o arco por esfera armilar de D. Manuel, e em cujos muros laterais se rasgam, de um lado onze seteiras, e do outro dezassete, vendo-se, embebida no muro exterior, do lado esquerdo, uma pedra de armas reais do tempo de D. Afonso III [a primordial construção é árabe]; esta porta, com portão de ferro, conduz à antiga «Praça Nova», terreiro a Nascente do Castelejo, e está normalmente fechada.

Castelo de S. Jorge: Porta ou Portão, do Espírito Santo [c. 1900]
Ao alto ostenta a esfera armilar de D. Manuel e, a esq., as armas 
portuguesas do tempo de
D. Afonso III
Alberto Carlos Lima, in Arquivo Municipal Lisboa

Nesta plana a parle central, a branco, corresponde a lodo o recinto do Monumento, incluindo as actuais explana­das, a antiga Cidadela ou Alcáçova, o Castelejo, marcado e traço grosso negro, a muralha circundante marcada a traço mais fino, e a zona do «Passeio», assinalado a verde. Siga-se o texto, referenciado por números e por letras e círculos azuis. 

Porta de S. Jorge (A) [já falámos dela aqui]
Porta de Santo André (B)
Porta  do  Sul  (C)
Porta ou Portão, do Espírito Santo (D)
Portão de Santa Cruz (E)
 Porta do Norte (F)
 Porta de Martim Moniz (G) [já falámos dela aqui]

Planta esquemática do Castelo de S. Jorge
Porta ou Portão, do Espírito Santo está assinalada a vermelho,
as outras seis portas, a azul, e o «Passeio» a verde
 
Alberto Carlos Lima, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 10-22, 1943.
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, 1944.

Wednesday, 24 January 2018

Rua da Adiça

Quem melhor do que o próprio Norberto de Araújo, para guiar os nossos passos pelo pitoresco de Alfama. Atentemos na descrição que faz desta Rua da Adiça que «vale um poema popular» e que hoje ostenta e imortaliza o seu nome.


Subamos a Adiça. Aí temos um dos mais contemplativos recantos da Alfama. Nunca mais, até chegarmos ao fim da jornada, deixaremos de ver roupas estendidas às janelas, num alarde de pobreza ou de mediania resignada, conforme se trate de um beco ou de uma rua, feita «avenida» de um sítio. Aqui o estendal conjuga-se no fundo velho, ao alto, do casarão do Limoeiro; has-de anotar apontamentos de aguarela ou de água forte por tôda esta Alfama, sem que eu vá precisando de te tocar no braço. [...]
A artéria, larga noqseu princípio, sobe em ladeira, que A artéria, larga noqseu princípio, sobe em ladeira, que agora entra em curva: o rapazio enxameia como zângãos fugidos do cortiço. Olha a alegria dêsses quintais velhos, floridos em muros a cair! [...]
Esta Adiça vale um poema popular.

Rua da Adiça [1946]
No cimo, à esquerda do prédio com o nº 68 [actual Calçada de São João da Praça], sobe a actual Rua Norberto de Araújo; à direita do mesmo, encontramos o Beco das Canas
Fernando Martinez Pozal, in AML

Para alguns historiadores "adiça" significa "mina" que por ali existiu aquando da tomada de Lisboa aos Mouros; outros referem que é vocábulo árabe, "Addica", nome de certa espécie de "junco" comestível para os cavalos e utilizável para a cordoaria.
O topónimo Rua da Adiça foi recuperado pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital datado de 22/06/1956. A Rua da Adiça passara a Calçada de S. João da Praça, por deliberação e edital da C.M.L., respectivamente de 10 e 19/04/1893. Por Edital de 22/06/1956, a Calçada de São João da Praça desde o seu início até aos n.ºs 51 e 68 (inclusive) voltou a denominar-se Rua da Adiça, passando o restante troço até ao Largo das Portas do Sol, a denominar-se Rua Norberto de Araújo.

Rua da Adiça [1945]
Ao cimo, a Calçada de São João da Praça
Fernando Martinez Pozal, in AML

Bibligrafia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, p. 58, 1939.

Sunday, 21 January 2018

Igreja de S. Tiago (Santiago)

Esta Igreja de S. Tiago é dada como muito antiga, e alguns escritores fazem-na remontar ao século XIII (1220); seguramente se sabe que foi erecta, se não reedificada, em tempos de D. Afonso IV. (...) Na Capela-Mór, onde se guarda o Santíssimo, tem, aos cantos do fundo, duas imagens sôbre mísulas: a de S. Tiago Maior e a de S. Martinho, esta oriunda do desaparecido templo, defronte do Limoeiro.

 

Igreja de Santiago [c. 1900]
Rua de Santiago, Igreja; Travessa de Santa Luzia; Largo do Contador-Mor
Fotógrafo não identificado, in Arquivo Municipal Lisboa

Fundada no séc. XII, segundo alguns autores, e objecto de modificações entre os sécs. XVI e XVIII, foi quase totalmente reedificada, a partir de 1773, em virtude de danos causados pelo terramoto, aproveitando alguns elementos construtivos anteriores, nomeadamente o pórtico maneirista de acesso à capela de Nossa Senhora-a-Franca. Classificada como Imóvel de Interesse Público, apresenta fachada orientada a poente, de linhas simples, rasgada por portal emoldurado a cantaria, coroado por frontão triangular, cujo tímpano apresenta um baixo-relevo dos atributos de S. Tiago, orago do templo, e por janelão sobreposto, a qual surge rematada por frontão em arco contracurvado, decorado com aletas. Adossada ao lado direito ergue-se uma torre sineira, coroada por coruchéu.
No interior, de nave única, destacam-se a talha joanina, o património azulejar oitocentista e várias telas.

Igreja de Santiago [entre 1926 e 1936]
Rua de Santiago, Igreja; Travessa de Santa Luzia; Largo do Contador-Mor
António Passaporte, Colecção Loty


A Capela de  Nossa Senhora A Franca, lateral, constituindo como que  uma  nave independente do lado da Epístola, mas fora do  corpo da  nave  da  igreja, e que  ocupa, em  comprimento, um  espaço igual ao desta; e  nela:
O grande altar, fronteiro ao arco da entrada, todo  guarnecido de  rica talha dourada, com exuberante ornamentação de colunas envolvidas de  estilização, nichos, sacrário e  coroação de anjos, tudo  em boa escultura de  madeira, vendo-se em camarim  de  fundo a  imagem de  Nossa Senhora A  Franca ou do  Rosário, e  em  nichos as de  Sant'Ana  e  S. Joaquim; guarnição de silhares de  azulejos representando, em cinco painéis, os  «Mistérios da  Virgem»; o tecto,  com  cúpula central oval, e  dois  tramos  laterais, redondos, em estuque; dois quadros a  óleo, representando cenas da Vida de  Nossa Senhora.

Igreja de Santiago, Capela de Nossa Senhora A Franca [c. 1955]
A capela de Nossa Senhora A Franca, cuja confraria dos Cerieiros remontava a
1576, é a dependência mais antiga do templo, mas não parece ser de construção 
quinhentista. A igreja beneficiou de restauros de conservação em 1838.
Fotógrafo não identificado, in Inventário de Lisboa

Igreja de Santiago, capela de Nossa Senhora A Franca, [s.d.]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa Lux

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, p. 61, 1938.
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, pp. 29-30, 1950.

Friday, 19 January 2018

Rua (do Arco) do Limoeiro

Chamou-se esta artéria em tempos não muito antigos "do Arco" por ter existido mais acima um arco ou passadiço que ligava o Paço de a-par-de S. Martinho à desaparecida paroquial desta invocação [de onde o nome Rua do Arco do Limoeiro, depois, do Limoeiro]; foi demolido precisamente há um século: 1838.


Mais uns passos, na rua. — prossegue Norberto de Araújo — defronte da casa da Guarda da Cadeia. nota essa varanda do prédio n.° 11, que assenta sôbre um singular balcão de pedra e em feitio de concha sem caneluras. É manifesto que êste suporte, de que não há espécime algum em Lisboa, veio de outro sitio para aqui; quem sabe se das derrocadas e trasformações do Paço de a-par-de S. Martinho. 

Rua do Limoeiro [1941]
À esq. vê-se a
varanda do prédio n.° 11, a que mestre Araújo se referee que consta no arquivo da CML como pertencente ao Palácio Tentúgalideia que o olisipógrafo descarta; à dir, a antiga Casa da Guarda da Cadeia do Limoeiro actualmente ocupado pelo Centro de Estudos Judiciários
Eduardo Portugal, in AML

E, já agora, contempla-me esta árvore frondosa, de raízes ao sol, junto à Casa da Guarda do Limoeiro: trata-se de um exemplar, pouco vulgar, de Filotaica Dioica, e que, segundo botânicos qualificados, deve ter mais de duzentos anos. Há algumas espécies iguais no Campo de Sant'Ana, na Ajuda e em Queluz. Tem direito à nossa veneração. Chegámos à bifurcação de S. Tiago e Santa Luzia.¹

Rua do Limoeiro [1941]
Antes do alargamento da via; ao fundo, a árvore centenária
da espécie Phytolacca Dioica e que ainda hoje existe
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 52-60, 1938.

Wednesday, 17 January 2018

Palácio dos Condes de Ferreira e de Tentúgal

Digo-te já que nestes sítios — recorda-nos Norberto de Araújo —, em várias épocas dos séculos XVI ao XVIII, esqueceram ou recompuseram seus palácios, com jardins ou pátios, muitos fidalgos e gente de qualidade. (...) Êste palácio, o segundo à esquerda de quem sobe, de portal armoriado, n.° 9 da rua [de Santiago], com um único andar de sacadas nobres, foi dos Condes de Ferreira e de Tentúgal. No seu interior estiveram os interessantíssimos paineis de azulejo, que oferecem o panorama de Lisboa desde Ribamar a Xabregas, hoje no Museu de Arte Antiga às Janelas Verdes. [...]

O Palácio era em 1749 de D. Álvaro de Cadaval filho do 2.° Duque de Bragança de quem foi o depois 1.° Conde de Ferreira e de Tentúgal. Andou na posse dos herdeiros até 1681, e depois correu várias mãos, entre as quais as de Pereira Coutinho, vindo a parar, em 1920 à posse de D. Carolina Vicente Ribeiro e do sr. José Carvalho da Fonseca Júnior, actuais proprietários [em 1938].

Palácio dos Condes de Ferreira e de Tentúgal [ca. 1900]
Rua de Santiago, 9
José Artur Leitão Bárcia, in Arquivo Municipal Lisboa

Interiormente o Palácio Tentúgal [...] pouco oferece de interêsse: tem pouco fundo, e nele um quintal inexpressivo; sobe-se para o pavimento, outrora nobre, por uma escada de pedra, que abre para um corredor ou galeria no qual se nota uma tríplice ordem de arcadas, de pilares simples. Os baixos têm arcos de susten tação, hoje entaipados, mas com a volta redonda à vista.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 62-63, 1938.

Sunday, 14 January 2018

Palacete da Praça Marquês de Pombal, 8

Considera-se que o palacete, correspondente ao nº 8 da Praça do Marquês de Pombal, construído no arranque de Joaquim António de Aguiar era na sua implantação e articulação com os arruamentos, o menos conseguido da Rotunda. Pela sua estrutura classicizante de memória seiscentista e o seu frontão. ou mega ática, em segmento circular, que inscrevia ornatos de volutas barroquizantes, pretendia inequivocamente uma afirmação arquitectónica significativa. O gradeamento e os pilares de suporte acentuavam a sua presença no lugar.

Palacete da Praça do Marquês de Pombal, 8 [1910]
Esquina com a Rua Joaquim António de Aguiar
Aqui esteve instalado o Quartel-General da Região Militar de Lisboa e depois foi sede da Obra das Mães pela Educação Nacional. Desde 1957 existe no seu lugar o Hotel Fénix.
Joshua Benoliel, in AML

Em 1955 surge um projecto para a construção de um prédio de rendimento da responsabilidade dos arquitectos D. De Lima Franco e de Manolo Gonzales Potier (CML,A. O., processo n.º 32.934).
Dois anos depois, os mesmos arquitectos responderam a uma outra encomenda de um novo programa, desta vez um hotel, que se passou a designar Hotel Fénix. Ainda hoje existe no lugar, não sem ter sofrido um processo de beneficiações orientadas pelo arquitecto Miguel Nobre Leitão.

Enquadramento do Palacete na Praça Marquês de Pombal, 8 [1934]
Esquina com a Rua Joaquim António de Aguiar
Pinheiro Correia, in AML

Bibliografia
(TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível)

Friday, 12 January 2018

Lojas de antanho: «Ao Último Figurino»

O Chiado — resiste. Perdeu-se o seu romantismo ainda de ante de ontem, mas o Chiado persiste [...] Resiste... Garrett, flamante de casaca verde e bronze com botões dourados, colete de pique de grandes bandas, cintado e pernoita calça cor de alecrim, peitilho e punhos de canudo, luvas cor de canário, gravata azul ferrete — ainda lá está na parede da esquina da... Rua Garrett. O Maggiolo à esquina da Calçada do Sacramento, casa de café e de brinquedos — foi-se embora. Está lá agora o Último Figurino.¹


Rua Garrett, 20-26 [1966]
Antiga Rua do Chiado (até 1880); Esquina da Calçada do Sacramento
Montra da casa de modas «Ao Último Figurino», fundada em 1910. mais tarde «Novo Figurino».
Garcia Nunes, in AML

Atravessando para o quarteirão seguinte da Rua Garrett (antiga do Chiado), vamos encontrar uma das casas de melhor gosto e apresentação, a que o seu fundador, António Gonçalves Marques, já falecido, nomeou, com justeza, Ao Último Figurino. A princípio (1910-1911?) abrangeu apenas os números 20 a 24, e, desdobrando-se mais tarde para a loja seguinte, a firma António Gonçalves Marques, Ld.a, acabou por tomar a sobreloja e andares superiores. 

Rua Garrett, 20-26 [191-]
Antiga Rua do Chiado (até 1880); Esquina da Calçada do Sacramento
Montra da casa de modas «Ao Último Figurino», 
fundada em 1910. mais tarde «Novo Figurino».
Alexandre Cunha, in AML

 Recorrendo aos antecedentes, vamos encontrar (ainda no século passado), as lojas números 20 a 24 na posse de Magiolo & Magiolo, que, na parte com entrada pela porta de esquina, se dedicavam ao negócio de mercearias, chás e cafés, casa muito farta e especializada. Nos dois números seguintes (22 e 24), expunham um profuso mostruário de bijutarias e brinquedos, nesse tempo de simples aparência e modestos na composição. Como os adultos, as crianças, então contentavam-se com pouco. Qualquer bugiganga lhes servia. Bastavam aquelas bem conhecidas carrocinhas de madeira, um cavalo de pasta ou uma boneca de trapos, para tornar felizes esses inocentes, limitados nas ambições. Estavam longe o engenhoso «Mecano», os maravilhosos comboios eléctricos (com os quais brincam mais os pais do que os filhos) e as sedutoras bonecas falantes, que também abrem e fecham os olhos.

Rua Garrett, 20-26 [1974]
Antiga Rua do Chiado (até 1880); Esquina da Calçada do Sacramento
Montra da casa de modas «Ao Último Figurino», 
fundada em 1910. mais tarde «Novo Figurino».
Alfredo Cunha, in AML

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 93, 1939.

² COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 265, 1987.

Wednesday, 10 January 2018

As Torres da Estrela

As Torres fazem o encanto místico das cidades que se desentranharam em devoção. Elas, e as chaminés das fábricas, são as espigas altas da seara urbanista. Das chaminés sai fumo; das torres eleva-se o incenso do passado religioso, e, com ele, certa poesia que pelos bairros se dilui. 


As torres da Estrela veem-se de toda a parte. As ruas convergentes à Praça são enfiamentos perspectivais que o acaso desenhou, ao fundo dos quais, sobre a ramaria dos jardins ou sobre a amálgama do casario da Lapa, se destaca em alvura a silhueta do Zimbório, coroado de lanternim, acolitado na cerebração visual pelas duas torres da frontaria, simétricas e finas, diáconos do bom abade, vestido de baroco.  
A Basílica do Coração de Jesus, obra dos arquitectos da escola de Mafra, foi consagrada em 1789, já no Convento se haviam recolhido as freiras carmelitas de Santo Alberto. O Zimbório é o coroamento audacioso desta mole arquitectónica. Em seu redor, por todos os quadrantes, Lisboa desdobra-se em quadros iluminados. Na sua imponência alcandorada a Basílica é o frontal da mais álacre praça de Lisboa.

Basílica do Sagrado Coração de Jesus (ou da Estrela) [ant. 1913]
Praça da Estrela
Em primeiro as carruagens do antigo Elevador Estrela.Camões extinto em 1913
Marcel Dieulafoy, in BnF

Cruz Alta erguida sobre o espelho verde-azul do Tejo, a lupa assestada sobre a grinalda dos parques aristocráticos, sobre o tumulto das docas e cais, sobre as humildes distâncias bairristas. 
Ave-Maria do Ocidente, chega-lhe ao alto a respiração cálida da cidade. 
O monumento, tal a Praça e o Jardim da Estrela, deve este nome — tão lindo como o da Graça e o da Alegria — à vizinhança fronteiriça do Hospital Militar, que fôra desde 1571 a 1818 o Convento de Nossa Senhora da Estrela, dos frades de S. Bento, casinha erigida sob uma lomba de olivais. 
A Basílica leva cento e cinquenta anos. A Estrela é quinhentista na designação. 
 Pelo sítio amável deste bairro, hoje dilatado e formoso, passam ainda o capuz de um frade e a sombra do jumentinho que levava os cestos de azeitona dos olivais de S. Bento aos lagares da Horta Navia. 

Basílica do Sagrado Coração de Jesus (ou da Estrela) [ant. 1913]
Praça da Estrela

 Marcel Dieulafoy, in BnF

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, pp. 84-85, 1943.

Sunday, 7 January 2018

A «Torrinha», a Vale de Pereiro

Também a «estampa antiga» do sítio do Parque [Eduardo VII] — recorda.nos o olisipógrafo Norberto de Araújo — foi desfigurada com o desaparecimento da «Torrinha», uma curiosa vivenda octogonal (Quinta da Torrinha, que deu nome à Estrada), situada um pouco acima do actual lago, e demolida em Abril de 1916.¹


Mereceu a Torrinha — com o seu andar «feito à romana», em forma de mirante — larga referência de Matos Sequeira em «Depois do Terramoto» onde o mestre olisipógrafo fixou algumas efemérides da dita casa «seguramente do século XVIII [1764?]», descrevendo-a como «a célebre Torrinha» que, «por tanto tempo, alindou com o seu ar um tanto ou quanto misterioso, aquele local.»
Esculápio no  Século  de 21 de Abril do ano último [1916] — prossegue o mesmo autor —, fez, como extremado amigo da cidade, o seguinte epicédio ao pobre torreão setecentista do dr. José de Sousa Monteiro:
Vetusto monumento  de  fé republicana de outras eras, anda o camartelo municipal a derruí-la, para dar «seguimento ao parque Eduardo  VII,  que já se desenha «esplendoroso ao cimo da Avenida, coroando a rotunda «e o lugar onde, para as calendas gregas, se háde erguer «a tão falada estátua ao Marquês de Pombal. O leitor amante das antiguidades de Lisboa que vá vê-la nos «seus derradeiros momentos, a célebre Torrinha onde se faziam dantes os comícios republicanos e onde os janízaros da municipal se fartaram de espadeirar o «povo e os propagandistas da ideia nova. Faz pena vêr «a Torrinha a cair aos bocados, em holocausto ao pro-«gresso e ao aformoseamento da plástica citadina!

Dão-te a morte; coitadinha,
E tu morres fria e calma
Torrinha que eras  Torrinha,
Do teatro da minha alma.

A Torrinha [1888]
Parque Eduardo VII, antigo Parque da Liberdade, antes Vale de Pereiro
Legenda da foto: «Exposição Pecuária Nacional em 1888»
Augusto Bobone, in BNP

Os lisboetas das gerações mais novas, quando olham para a vasta área ajardinada e arborizada do Parque Eduardo VII, com a sua grande tira de relva ao centro, a Estufa Fria e os trechos arborizados que circundam lagos com cisnes em torno dos quais as crianças brincam sob o olhar das mães ou das nurses, o Pavilhão dos Desportos e ainda a Avenida Sidónio Pais, flanqueada de prédios de luxo, dificilmente podem imaginar o conjunto rústico de quintas e terras de semeadura, olivais e velhos casarões de tipo arrabaldino que se estendiam entre a Rua de Artilharia Um e o caminho de Andaluz até São Sebastião da Pedreira.

A Torrinha, poente [1888]
Parque Eduardo VII, antigo Parque da Liberdade, antes Vale de Pereiro
Legenda da foto: «Exposição Pecuária Nacional em 1888»
Augusto Bobone, in BNP

Dentre essas casas edificadas nas várias quintarolas chamava as atenções a «Torrinha» não por grandiosa ou de magnificente porte ou estilo, mas pela particularidade de ter, como parte destacada, a flanco dumas casitas modestas uma torre octogonal, rasgada de janelas em dois pisos acima do rés-do-chão, coberta por um telhado em forma de pirâmide também octogonal e toda ela pintada de cor-de-rosa, constituindo um traço fisionómico muito característico de paisagem olisiponense.²

A Torrinha [entre 1885 e 1916]
Parque Eduardo VII, antigo Parque da Liberdade, antes Vale de Pereiro
Ao fundo à esq. vê-se a Cadeia Penitenciária de Lisboa
Fotógrafo não identificado, in Photographias de Lisboa, Marina Tavares Dias

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 48, 1939.
² Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa.", Volumes 21-23. 1958.

Friday, 5 January 2018

Pavilhão de Exposições da Tapada da Ajuda

Integrado no conjunto da Tapada da Ajuda, que está classificado como Imóvel de Interesse Público, este edifício foi construído, para a 3ª Exposição Agrícola, inaugurada em 4 de Maio de 1884, segundo projecto do arq. Luís Caetano Pedro de Ávila, inspirado no desaparecido Palácio do Trocadero, em Paris. Primeira obra de referência da arquitectura do ferro e vidro, é composto por três pavilhões de cúpulas hemisféricas, ligadas por duas galerias curvilíneas. Restaurado por altura do seu centenário, em 1984, o Pavilhão de Exposições foi restituído ao património da cidade, sendo actualmente espaço para a realização de eventos sociais e culturais. [cm-lisboa.pt] 

Pavilhão de Exposições da Tapada da Ajuda [1947]
Calçada da Tapada
Eduardo Portugal, in AML

Wednesday, 3 January 2018

Ermida de N. S. da Conceição da Carreira (ou Carreinha)

A Ermidinha situa-se na Rua Gomes Freire antiga Carreira dos Cavalos —, zona dedicada às corridas de cavalos e foi edificada em 1738, pelo Infante D. Francisco, irmão do rei D. João V e senhor da Casa do Infantado que havia cedido aos Religiosos Capuchos da Província da Beira uns terrenos para aí se fundar um hospício. Atribui-se a autoria do edifício a Manuel da Costa Negreiros arquitecto da Casa do Infantado, que pela mesma altura trabalhou nas obras da capela real do vizinho Paço da Bemposta. Comparando os dois monumentos existem algumas semelhanças entre as duas, no traçado sóbrio e na aplicação do arco contracurvado. 

Ermida de N. S. da Conceição da Carreira [1932]
Rua Gomes Freire (antes do alargamento e rectificaçao da via que ocorreu na década de 140

À esq., a Ermida da Carreira (ou Carreinha); à dir., a Rua da Cruz da Carreira; ao fundo, o Campo dos Mártires da Pátria
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Seculo
 
A Ermida da Carreira, de fachada simples, apresenta o brasão de armas do Infante mecenas e possui duas pilastras com capitéis ornados em tríglifo. No interior, o altar-mor está ladeado pelas imagens de São Francisco e de Santo António, respectivamente, em homenagem ao Infante e ao santo patrono do hospício. O coro sobre a porta da entrada foi sucessivamente alterado para que os frades pudessem assistir às liturgias e não fossem vistos. Actualmente, e nas dependências anexas funciona o pré-seminário do Patriarcado.¹

Ermida de N. S. da Conceição da Carreira (ou Carreinha) [1945]
Rua Gomes Freire
A fachada apresenta o brasão de armas do Infante D. Francisco
Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal Lisboa
 
Esta rua que desde 18 de Agosto de 1879 ostenta o nome de Gomes Freire homenageia Gomes Freire de Andrade (1757-1817), o filho de um diplomata que seguiu a carreira militar e foi considerado como um dos mais ilustres e mais atrozmente perseguidos mártires da liberdade em Portugal. Como militar, Gomes Freire de Andrade combateu em Argel (1784), na Rússia (1788), na Guerra do Rossilhão (1790) e já como marechal-de-campo, na Guerra das Laranjas (1801).² 
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Bibliografia
¹ (SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo (dir.), Dicionário da História de Lisboa,
Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, 1975, pp.142-143)

² cm-lisboa.pt
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