Wednesday, 29 November 2017

Avenida Dona Amélia: Asilo de Santo António

O Asilo de Santo António, mais tarde designado por Associação Protectora de Infância Santo António de Lisboa, e presentemente com o nome de Associação Pró-Infância Santo António de Lisboa, foi fundado em 22 de Março de 1891, com 13 associados, por Luís Pinto Moitinho, ourives de profissão, sendo a administração confiada a uma direcção composta por sete elementos efectivos e três suplentes. Inspirados pelos sentimentos do seu fundador, foram elaborados os Estatutos, aprovados segundo Alvará de 3 de Junho de 1890, pelo Governador Civil de Lisboa.

O Asilo foi inaugurado a 1 de Abril de 1892 com 13 educandas. Nessa altura o Asilo localizava-se numa casa do Largo do Conde Pombeiro, que pertencia ao Conde de Azarujinha, e só em 16 de Junho de 1895 foi inaugurado o edifício na Av. Almirante Reis, que na altura se intitulava Av. D. Amélia. Tinha como finalidade acolher raparigas órfãs às quais era ministrada educação industrial e profissional, mais tarde começou a ser-lhes dada uma educação literária e técnica. Durante muito tempo quase manteve o exclusivo da fabricação de estojos.

Asilo de Santo António [1938]
Avenida Almirante Reis, primeiro dos Anjos depois de Dona Amélia; Rua Maria Andrade (dir.)
Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal Lisboa

Em 8 de Abril de 1893, visitou o Asilo de Santo António S. Majestade a Rainha Senhora D. Amélia, acompanhada pelo Príncipe Real D. Luiz Filipe, entendendo a Direcção deste Asilo, dever nomeá-lo Presidente Honorário. Nos livros dos visitantes escreveu Sua Majestade a Rainha:
"Visitando hoje a casa em que se acha estabelecida a Associação Protectora da Infância Santo António de Lisboa, tive o ensejo de avaliar quanto é útil e moralizadora esta Instituição, congratulando-me por vêr meu filho, o Príncipe Real, presidir a uma obra que honra quem a empreendeu pelo bem que faz e prepara as crianças que a frequentam com princípios sãos e aptidões para o trabalho que nobilita."

Asilo de Santo António [ca. 1935]
Avenida Almirante Reis; Rua  Luís Pinto Moitinho (dístico de 1906)
Ao fundo, na Rua  Luís Pinto Moitinho, observa-se a antiga capela e parte do edifício do Asilo de Santo António; em primeiro plano, vê-se a Igreja dos Anjos e as novas motocicletas com side-car da Polícia de Segurança Pública
Ferreira da Cunha, in Arquivo Municipal Lisboa

O Asilo de Santo António, possuía uma capela [vd. 2ª foto] na rua que tem o nome do seu benemérito fundador, Luís Pinto Moitinho, ourives de profissão, que de modesto caixeiro, na loja de seu sogro, fundada na Rua da Prata, em 1790, chegou a prestimoso benemérito pelo seu perseverante trabalho. Foi o fundador do jornal «O Caixeiro» e da Associação de Classe dos Ourives e Artes Anexas, tendo falecido com 71 anos. 
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Bibliografia
NEVES, Eduardo Augusto da Silva, Do sítio do Intendente, in Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1950.
Apisal.pt

Sunday, 26 November 2017

Igreja de Nossa Senhora do Loreto ou dos Italianos

A Igreja é, no seu exterior, e como a observas, interessante, mesmo nobre, fazendo contraste sério na arquitectura geral com a da Encarnação, mais fria. Guarda bastante do primitivo templo anterior ao Terramoto, principalmente arte em pedra.¹


Foi a primeira igreja do Loreto erecta n'uma ermida de St.° Antonio — refere o precioso Portugal Pittoresco e Illustrado — que os confrades da nação italiana ampliárão por concessão do pontifice Leão X, e d'EIRei D. Manoel, pelo anno de 1517, sendo depois annexada ao cabido Lateranense por um breve, que o mesmo cabido passou a 20 d'abril do anno de 1518, confirmado pelo mesmo papa Leão X em 1523, e ultimamente por Benedicto XIII em 6 d'abril de 1726.
No dia 29 de março de 1651 , quarta feira de Lazaro, aconteceo queimar-se esta igreja com a grave perda de mais de 400:000 cruzados, salvando-se comtudo apenas o cofre do Santissimo Sacramento, que foi transferido para a ermida de N. S.a do Alecrim, começando-se no mesmo anno, a 17 d'abril, a desentulhar a igreja para se reedificar, e no fim de 25 annos o templo foi acabado com todo o primor.²

Erigida em 1518 — a pedido da comunidade italiana residente em Portugal — foi recuperada após o Terramoto de 1755, segundo projecto de Joaquim António dos Reis Zuzarte, depois substituído por José da Costa e Silva, trata-se de uma igreja de nave única, revestida com mármores de Itália e decorada com estátuas de pedra dos Evangelistas e dos Apóstolos. A capela-mor, de abóbada de berço e retábulo de mármore polícromo, acolhe a imagem da padroeira e surge ladeada por 12 capelas com pinturas e decoração barroca.

Igreja de Nossa Senhora do Loreto ou dos Italianos [ant. 1895]
Largo do Chiado; Rua da Misericórdia
Francesco Rocchini, in AML

O olisipógrafo Norberto de Araújo chama a especial atenção dos curiosos para a invulgar imagem de Nª Sra. do Loreto, com o Menino: «No nicho alto, sôbre a arquitrave, entre pilastras compósitas, ostenta-se a curiosa imagem da Virgem do Loreto, que oferece a particularidade de se envolver num manto afunilado, cinzelado de jóias, a figura sem braços, a cabeça e o meio corpo do Menino espreitando desta espécie de saco. É esta a iconografia tradicional da Virgem. O portal é decorativo, com suas colunas caneladas que sustentam um entablamento ornamentado, sôbre o qual avulta o conjunto de dois anjos ladeando as armas pontifícias, obra de Borromini, ou de Bernini, segundo alguns informadores, da primeira metade do século XVII, isto é: da primeira construção. Nos nichos laterais, à altura de meio pórtico, observa as imagens, duras de escopro, de S. Pedro e S. Paulo, do estilo italiano de seiscentos, mas atribuídas a um escultor francês.» ¹

Igreja de Nossa Senhora do Loreto ou dos Italianos [Início do Séc. XX]
Largo do Chiado; Rua da Misericórdia
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia

¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 16, 1938. 

² DENIS, Fernando ,Portugal pittoresco; ou, Descripção histórica d'este reino,  p. 53, 1846.

Friday, 24 November 2017

Panorâmica sobre o Vale da Lapa da Moura: Chafariz das Terras

No século XVIrecorda-nos Norberto de Araújoo lado poente do actual bairro [da Lapa], que cai sobre a Pampulha, era de campos matizados de casas e arvoredos, onde aqui e ali afloravam pedreiras. Uma lapa, numa dessas rochas deu origem à «Lapa da Moura», designação oral, e documentada, que precedeu a de «Cova da Moura» ainda existente. A “«lapa» – à Pampulha, sítio mais antigo – subiu para Norte e Nascente até ao Mocambo e, deslocando a designação, firmou a Lapa de setecentos.


Em fundo, paredes meias com a Tapada das as Necessidades, espalmada entre muros, sobe a Calçada do mesmo nome, vendo-se, ao cimo desta, o palacete da Casa de Bragança no gaveto para a Rua do Borja; logo abaixo, entre a Calçada e o ramal do Aqueduto ou Galeria das Necessidades, o Vale da Cova da Mourasímbolos do passado que se foram para dar lugar a novos arruamento, por onde corre actualmente a Avenida Infante Santo, construída na década de 1940 e que implicou a demolição parcial do referido aqueduto; em baixo à esquerda, na Travessa do Chafariz das Terras, junto à «Casa das Iscas» e adossado ao troço do Aqueduto das Águas Livres, vislumbra-se o Chafariz das Terras; do lado direito do ramal, encontramos a Rua do Pau da Bandeira, «dístico antigo e pitoresco»  — diz Norberto de Araújo —, «cuja origem me escapa» e que comunica com a referida Travessa através de um dos arcos do aqueduto contíguo ao chafariz. (vd. 2ª foto).

Panorâmica sobre o Vale da Cova da Moura [s.d.] [prov. início séc. XX]
Travessa do Chafariz das Terras e Chafariz das Terras; Rua do Pau da Bandeira; Calçada das Necessidades
Fotógrafo não identificado, in AML

Localizado na Tv. do Chafariz das Terras, à Cova da Moura, o Chafariz das Terras surge encostado ao Aqueduto das Águas Livres, sendo abastecido pela água proveniente da Galeria das Necessidades. De construção mais tardia, 1867, e por iniciativa camarária, tal como atesta a inscrição patente numa tabela quadrangular, de vértices chanfrados, existente na frontaria do chafariz, traduz uma solução mais simples e funcional em relação aos imponentes modelos de chafarizes abastecidos nos primeiros tempos de funcionamento do Aqueduto. Chafariz de planta rectangular, com um largo espaldar, cujo pano frontal surge delimitado lateralmente por cunhais coroados por pequenos coruchéus em pirâmide. A meio da cimalha ostenta as armas da cidade inscritas numa moldura circular e na base possui 2 tanques de recepção de águas diferenciados assentes sobre degraus. Uma porta lateral dá acesso ao interior da arca de água.

Chafariz das Terras [1970]
Travessa do Chafariz das Terras e o arco que liga com as Ruas do Arco do Chafariz das Terras e do Pau da Bandeira
Assim como a Rua do Arco do Chafariz das Terras este é um topónimo fixado na memória da cidade em data que se desconhece mas que será seguramente do final do século XVIII já que a denominação deriva do primitivo Chafariz das Terras, construído em 1791, mais acima daquele em que está hoje; neste sítio tem a data de 1867.
Artur Inácio Bastos, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII-IX.
monumentos.pt; cm-lisboa.pt

Wednesday, 22 November 2017

Cine-Bélgica

O Cine-Bélgica, servindo o bairro do mesmo nome e toda a zona do Rego, abriu as portas a 25 de Julho de 1928, no número 175 da Rua da Beneficência. Com uma lotação estimada de 500 lugares entre plateia e balão, fora projectado pelo construtor civil Domingos Pinto e construído no local de um antigo barracão de arrumações. Conhecido por Bélgica-Cinema a partir de 1931, viria a ser adaptado ao cinema sonoro em 1933, através da instalação de uma aparelhagem R.C.A. Photophone¹. Durou várias décadas, conhecendo um verdadeiro segundo apogeu a partir de 1968, como Cinema Universitário, com programação criteriosa, digna de um cineclube. 

Cine-Bélgica, Bélgica-Cinema[1961]
Rua da Beneficência, 175
Arnaldo Madureira, in Arquivo Municipal Lisboa

Nos anos 70 foi ainda Cinema Universal, explorado pela distribuidora Animatógrafo, sob a direcção do produtor e realizador António da Cunha Telles, antes de encerrar para obras de vulto que o transformariam em novo ponto de encontro dos lisboetas mais jovens: o Rock Rendez-Vous. Foi nas célebres noites do Rendez-Vous que, ao longo da primeira metade dos anos 80, se estrearam várias futuras celebridades do rock português e algumas das melhores bandas de rock anglo-saxónicas. 
Encerrou as portas em 27 de Julho de 1990. 

Cine-Bélgica, Bélgica-Cinema[1968]
Rua da Beneficência, 175
João Goulart, in Arquivo Municipal Lisboa

¹ N.B. O Bélgica-Cinema inaugurou os espectáculos sonoros com o sistema de som R.C.A. Photophone com a exibição do filme A Loucura de Monte Carlo (Le capitain Craddock, no original), musical produzido em França no ano de 1931. 
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Bibliografia
DIAS, Marina Tavares  em Lisboa Desaparecida,vol. VII.

Sunday, 19 November 2017

Hotel Ritz

A construção do hotel Ritz, projectado pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, teve início em 1952 e  foi inaugurado em 1959. Para a distinção do Ritz, ainda hoje uma referência no quadro da hotelaria nacional, muito contribuíram consagrados artistas, entre os quais Almada Negreiros, Sarah Afonso, Barata Feyo ou Carlos Botelho. Por indicação do regime de então, ansioso por ter na capital uma unidade de luxo com todos os requisitos da hotelaria moderna, foi constituída, especialmente para este efeito, uma Sociedade de Investimentos Imobiliários (Sodim), da qual fazia parte, entre outros, o banqueiro Ricardo Espírito Santo. Refira-se que em 1959 — quer modernos quer conservadores — não gostaram do que viram, tendo sido muito criticadas as opções artísticas adoptadas para o hotel. Consta, até, que o próprio Salazar — que só visitou o Ritz uma única vez, numa pré-inauguração exclusiva —, não apreciou nada do que lhe foi dado ver no hotel, tendo permanecido em silêncio durante a visita acabando por sair pela porta de serviço das cozinhas, não tendo mais lá sido visto, nem sequer para inaugurarão oficial, à qual, aliás, se recusou a comparecer.
A publicidade ao Ritz dava-o como «O Grande Hotel de Lisboa». Estava equipado com trezentos quartos, todos com sala de banho privativa revestida de mármore, e anunciava-se ambiente climatizado e ventilação garantida por aparelhagem silenciosa. Um must daquele tempo.

Hotel Ritz [1959]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
Obras do metropolitano, vendo-se à esquerda a estátua do Marquês de Pombal e, em baixo, os terrenos do antigo Palácio Sabrosa; ao fundo
vê-se o hotel Ritz
Judah Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

Situado no topo de uma colina no coração de Lisboa, a quinze minutos do aeroporto e a dez minutos da baixa e zona histórica de Lisboa, o hotel reflecte o encanto e história de Portugal na sua arquitectura e interiores espaçosos. Trata-se de uma construção de grande monumentalidade, acentuada pela sua dimensão, pela sua perfeita geometria e pelo revestimento integral das fachadas a mármore. Oferece 284 amplos quartos, com luxuosos quartos de banho em mármore, varandas debruçadas sobre o Parque Eduardo VII, com vistas fabulosas sobre a cidade. O (agora) Four Seasons Ritz Hotel detém mais de 600 obras de arte, desde tapetes e carpetes artesanais, pinturas e esculturas que ornamentam os halls de mármore do hotel. Os seus hóspedes têm ao seu dispor o centro de negócios, 'fitness centre' muito bem equipado, spa e a piscina interior. Do restaurante 'Varanda'' desfruta-se de excelente vista para o Parque Eduardo VII e para os terraços do hotel e oferece o melhor da cozinha portuguesa e internacional. O 'Ritz Bar'' com decoração onde predominam as cores vermelho e preto, tem música ao vivo em piano.

Hotel Ritz [1959]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
António Passaporte, in Arquivo Municipal Lisboa
Hotel Ritz vista tomada do Parque Eduardo VII [ca. 1960]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
António Passaporte, in Colecção Loty

O interior, luxuosamente desenhado, acolhe mobiliário fabricado expressamente nas oficinas da Fundação Ricardo Espírito Santo, assim como obras de arte moderna dos mais consagrados artistas da época, como Almada Negreiros, Querubim Lapa, Martins Correia, Lagoa Henriques, Sara Afonso e Carlos Botelho contribuíram para a decoração com valiosas obras. Carlos Calvet e Lino António criaram motivos para tapeçarias, produzidas na fábrica de Portalegre.
O Hotel, incluindo o seu património integrado, encontra-se classificado como Monumento de Interesse Público.

Hotel Ritz [ca. 1959]
Neste sala estão presentes tres tapeçarias "Centauros" do mestre Almada Negreiros inspiradas na mitologia grega
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
Amadeu Ferrari, in Arquivo Municipal Lisboa
Hotel Ritz, restaurante 'Varanda'' [ca. 1959]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
Amadeu Ferrari, in Arquivo Municipal Lisboa

Também digna de admiração é a principal escadaria de acesso ao Salão Nobre com um mural lacado de Pedro Leitão e madrepérola de António Louro de Almeida e, ao descer, chega-se junto da coluna do mestre ceramista Querubim Lapa, um verdadeiro totem artístico.

Hotel Ritz
Coluna do mestre ceramista Querubim Lapa e mural lacado de Pedro Leitão e madrepérola de António Louro de Almeida
 
N.B. Caso esteja interessado e disponha de 30 minutos, aconselhamos ao prezado leitor  uma visita guiada, pela mão da RTP, a este edifício icónico da cidade de Lisboa. Vale bem a pena, acreditem.

Bibliografia
BRASÃO, Inês, Hotel, os Bastidores, 2017.

Friday, 17 November 2017

Largo das Duas Igrejas: o «Salon Bleu»

Um pormenor do Largo das Duas Igrejas, num tempo em que, utilizado como centro de cavaqueira nocturna, deu pelo nome de «Salon Bleu». Uma nota curiosíssima, a um acontecimento citadino com um epíteto de tendência galante, a que ainda se assistiu na primeira década do século XX no velhinho Largo das Duas Igrejas ou do Loreto.


«Salon Bleu» se lhe chamou. E como era bem contrastante todo o movimento, quer de peões, quer de veículos, em cujo local, todas as noites — no passeio que se alongava entre a esquina do Leitão e os degraus que dão acesso a igreja do Loreto — se reunia um grupo de caturras, aos quais animava o prazer da cavaqueira — inocente ou não, sabe-se lá! — e a que não eram estranhos, segundo constava, os comentários à situação política de então. Estava próxima a ditadura franquista. E por aí se demoravam até alta madrugada, indiferentes às fases do mostrador do relógio que se destacava duma janela do 2.° andar do prédio, em cujas lojas ainda figura o depósito das máquinas «Singer». Era ali o escritório dos agentes em Lisboa da marca Zenith

Largo do Chiado [1911]
Antigo Largo das Duas Igreja ou do Loreto; loja «Singer»; relógio «Zenith»
Joshua Benoliel, in AML

Só pelas três e meia começava a debandada, e, quando o grande cronómetro marcava as quatro horas, não restavam mais do que dois dos inveterados conversadores!
O aceso colóquio, invariavelmente repetido todas as noites, acabou por ser proibido e o grupo dissolveu-se. Formavam cercle, D. José Mesquitela, D. João Vilafranca, Álvaro Simões, Francisco Parreira, Teles Pinto, Rodrigo Medeiros, D. Fernando Angeja, António Raposo, Luciano Monteiro, Camilo Pessanha e outros mais.
Foi por essa altura que o largo sofreu sensível remodelação na geometria dos passeios e na iluminação. Dotaram-no com um novo candeeiro de grande envergadura e projecção iluminante, equipado com uma lâmpada eléctrica de elevada potência.

Largo do Chiado [c. 1901]
Antigo Largo das Duas Igreja ou do Loreto
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 98-99, 1987.

Wednesday, 15 November 2017

Pátio da Pascácia, da Sociedade ou das Laranjeiras

Eis-nos na Rua de Santa Cruz [do Castelo] — na companhia de mestre Norberto de Araújo —, onde podes notar êsse prédio [...] dos três representativos do Castelo; é o n.° 74. Guarda exteriormente um certo aspecto, e tem também um pequeno pátio, «das Laranjeiras», sem nenhuma expressão. A fachada acusa restauro dos fins do século XVIII, e na traseira nota-se uma varanda, muito decorativa, guarnecida de azulejos policromos [vd. 2ª imagem], tal um terceiro pavimento sôlto do edificio.

Casa nobre na Rua de Santa Cruz do Castelo, 74 [1954]
Varanda guarnecida de azulejos policromos
Fernando Martinez Podal, in AML

A escada marca o tipo reedificador do fim do século do Terramoto, com os seus dois arcos, um dos quais abre para a escadaria, de silhares de azulejo. As salas eram belas; têm sido desprovidas do seu encanto ceramista. [...] Foi dêste edificio, sede de um clube local que aqui já não existe, que saíu em 1935 a «Marcha do Castelo», uma das quinze organizações bairristas que animaram as festas de Lisboa por essa época. ¹

Casa nobre na Rua de Santa Cruz do Castelo, 74 [1961]
Varanda guarnecida de azulejos policromos
Armando Serôdio, in AML

Popularmente conhecido por Pátio da Pascácia deve o nome a uma conhecida parteira da freguesia. O seu pátio nobre pertence a uma antiga casa apalaçada do séc. XVII, sofreu alterações após o terramoto, que resultou numa feição pombalina, hoje muito adulterada por mutilações associadas a alteração de usos, tendo mesmo, em tempos, albergado uma padaria. Existem vestígios de traçado maneirista quer na fachada principal quer na posterior; nesta ultima, que dá acesso ao interior, podem observar-se, da época pombalina, painéis de azulejos. Encontra-se ainda uma casa de dois pisos que serve de moradia. ²

Casa nobre Rua de Santa Cruz do Castelo Data(s):    [194-]
Pátio da Pascácia

Amadeu Ferrari, in AML

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 26, 1938. 
² monumentos.pt

Sunday, 12 November 2017

A Rua da Rosa das Partilhas e o Cunhal das Bolas

Dávamos alguma coisa para saber  — questiona-se Norberto Araújo — quem foi ao certo a senhora Rosa das Partilhas. E que partilhas foram aquelas. Só nos chegou que encheu o bairro de demandas bulhentas, e que esta rua, na qual certamente a senhora Rosa morou e morreu de velha, nunca deixou de ser Rua da Rosa, «da Rosa das Partilhas» no final de quinhentos. É a mais comprida artéria do Bairro Alto, única que o corta de ponta a ponta.Seria a «rua dereyta» — se fosse torta e possuísse o pitoresco estendal da sua irmã paralela, a da Atalaia. (...)

Esquina  da Rua da Rosa (das Partilhas) com o Cunhal das Bolas [c. 1960]
Cunhal revestido de meias esferas em relevo
Estúdio Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

O padrão desta rua, tão lisboeta, assenta no Cunhal das Bolas, essa curiosidade bairrista, sem a expressão e o pitoresco arquitectónico da Casa dos Bicos, mas falador à sua maneira. Ele nos diz que o edifício antes de ser Hospital de S. Luís, pertencera aos «Meios do Cunhal das Bolas», e fora erguido por um judeu, tão rico que «no cunhai pretendera figurar pomos de ouro». Um judeu a copiar as ostentações do filho de Afonso de Albuquerque! Histórias, como muitas desta Lisboa por aí fora, onde a cada canto se aninha uma fábula ou se albergou uma tradição.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 138-139

Friday, 10 November 2017

Pâtisserie Bijou

Uma das mais fortes impressões que o touriste leva de Lisboa, além da recordação perfumada dos nossos edís, é a desnacionalisação, o internacionalismo de Lisboa. Assim, depois de exautorado no Golden Palace, de perfumado na Bonheur des Dames (a que alguns chamam Malheur des Maris), de almoçado no Royal Restaurant, o estrangeiro não vê por toda a parte se não taboletas, dísticos, anúncios, réclamos, títulos, placards, em todas as línguas, monos em português. Se lancha é no Rendez-vous des Gourmets ou na Patisserie Bijou, se compra uma camisa é na Maison Blanche; se compra flôres, na La Ville de Paris; se escolhe um fato, no Old England; se se hospéda, é no Avenida Palace, e até se vai ao medico ou toma banho tem o Salon des bains e o Cabinet orthopédique. ¹

Pâtisserie Bijou [1929]
Avenida da Liberdade esquina com a Praça da Alegria
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Já agora lembro-te uma «Pastelaria Bijou» que existiu longos anos aqui na Avenida — recorda o ilustre Norberto de Araújo —, esquina norte do comêço da rampa da Praça da Alegria, n.°s 91 a 103; desapareceu em 1936, e em seu lugar abriu a 3 de Setembro de 1938 o «Café Restaurante Moderno» (...) ²
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Bibliografia
¹ ABC: revista Portuguesa actualidades, 1920.
² ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 28.

Wednesday, 8 November 2017

Mirante da Calçada da Cruz da Pedra

E, Dilecto, chegamos ao sitio das Portas da Cruz da Pedra — escreve Norberto de Araújo —, cujas casas que a flanqueavam ainda se viam há vinte anosn [c. 1920] na singularidade deste prédiozito, afunilado, em prôa de navio voltado à Rua da Cruz da Pedra, e com um alto «deck» de varanda ao alto. ¹


Luiz Pastor de Macedo, ilustre olisipógrafo que integrou a Comissão de Toponímia desde 1943, ano da sua formação, até 1947, desenvolveu na sua obra Lisboa de Lés-a-Lés o historial deste topónimo: «referindo-se ao dístico desta serventia pública diz Gomes de Brito: aliás Cruz de Pedra, memória das muitos cruzeiros que se levantavam por Lisboa, e nela existentes, averiguadamente, desde o século XV. Efectivamente, a mais antiga referência a esta rua, que até agora encontrámos, ao anunciar-nos o falecimento de Diogo Lopes Sequeira, sucedido em 28 de Janeiro de 1593, diz-nos que ele era morador á Cruz de Pedra da Madre de Deus.(…) Em 1647 ainda se dizia que fulano morava em o caminho de Chellas por cima da Cruz de Pedra, mas desde então e até aos nossos dias, a cruz deixou de ser «de pedra» e passou a ser «da pedra». (…) Quanto à sua existência, propriamente como arruamento, não devia ser muito anterior ao citado ano de 1593.» ²

 Calçada da Cruz da Pedra [1966]
Antiga Rua da Cruz da Pedra; neste local situar-se-iam os antigos   Arco e o Forte da

da Cruz da Pedra [vd. 2ª imagem]
Augusto de Jesus Fernandes, in AML

Foi este o caminho de Trânsito para se entrar em Lisboa — acrescenta Norberto de Araújo nas suas Peregrinações o traçado da linha primitiva dos caminhos-de-ferro limitou-se, afinal, a acompanhar esta estrada de conveniência. A muralha desta artéria, sobre o rio, foi construída entre 1769 e 1770, onde ficava o forte da Cruz da Pedra¹

 Calçada da Cruz da Pedra
Fragmento de uma planta do arco e forte da Cruz da Pedra

  No forte da Cruz da Pedra estava instalada em 1853 a oficina de pirotecnia do Arsenal do Exército, mais tarde transformado em armazéns da Companhia de Caminhos de Ferro
Colecção Vieira da Silva, in AML

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. XV, pp. 29-42, 1939.
² cm-lisboa.pt/toponímia

Sunday, 5 November 2017

Campo de Santa Clara

O sítio é privilegiado — afirma Norberto de Araújo —, dos raros de Lisboa destinados ao sonho e às visões retrospectivas. O Arco é, só por si, meia freguesia deste bairro fidalgo e popular, que se fez e cresceu à sombra do velho mosteiro dos cónegos regrantes de Santo Agostinho — a mais contemplativa e arrogante das vivendas conventuais da freirática Lisboa. É certo que o Arco não é antigo; data de 1807. Substitui a velha Porta de S. Vicente da Cerca Nova, de D. Fernando.
Mas o caminho que o Arco dá é tão recuado como a imagem de Nossa Senhora da Enfermaria que — dizem — esteve no arraial de D. Afonso Henriques. [...]

Campo de Santa Clara [1858]
À direita, o Palácio Barbacena; ao fundo, do lado esquerdo o Mosteiro (e Arco) do Convento de S. Vicente de Fora
Amédée de Lemaire-Ternante, in CPF

Para lá do Arco, tomado desde o largo de S. Vicente, fica o Campo de Santa Clara, com a sua largueza e a sua evocação das freiras claristas. Ficam os palácios Barbacena e dos Avintes-Lavradios; [...] ficam o Pátio de S. Vicente, que viu rodar os coches de sete patriarcas, o amor do jardim de Santa Clara, as obras de Santa Engrácia, poema de pedra insultado nas suas estrofes, e, o amor do jardim de Santa Clara, as obras de Santa Engrácia, poema de pedra insultado nas suas estrofes, e, ao cabo e ao longe, o Tejo, largo e azul, onde apenas vogam velas brancas e a lua toma banho entre miríades de estrelas. ¹

Campo de Santa Clara [1931]
Vista de N→S; Mercado de Santa Clara
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 180, 1943.

Friday, 3 November 2017

Palácio Ulrich ou Veva de Lima no sítio dos Bemcasados

E de S. João dos Bemcasados — porquê? Claro — estás tu a pensar, e bem — porque existiria neste arrabaldino sítio uma Ermida com aquela invocação.

 Existiu, de-facto, erguida no ano de 1581, era isto um sítio campesino, de bons ares, para curas de repouso e estadia de enfermiços. O que não está apurado ao certo é se a Ermida recebeu o nome do sítio, ou se, pelo contrário, êste dela se aproveitou. Vamos por esta última hipótese. ¹


A Casa Veva de Lima ou Palácio Ulrich deve o seu nome ao Embaixador Rui Ennes Ulrich e sua mulher Genoveva de Lima Mayer, cujo nome literário era Veva de Lima. O palacete foi construído em 1894 por Joaquim Augusto Ponces de Carvalho, primeiro e único Conde de Vilar Seco. Posteriormente passaria, por herança, para a posse da casa de Anadia. É a esta família que, em 1920, o Dr. Rui Ulrich arrenda o palácio, procedendo à sua recuperação, com grande fausto e embelezamento interior. A casa acolheu o último salão lisboeta, na tradição romântica de centros de reunião de figuras relevantes dos meios literários artísticos e políticos. É também um dos poucos exemplares subsistentes de arquitetura erudita anterior ao século XX, que mantém, ao nível do vestíbulo e primeiro andar, toda a decoração e recheio originais. 

Palácio Ulrich  ou Casa Veva de Lima [1908]
Rua Silva Carvalho, 238-242, antiga do São João dos Bemcasados; ao fundo vê-se o Palácio Anadia,

do qual já aqui falámos
Machado & Sousa, in AML

A personalidade e gosto da carismática escritora e socialite, Veva de Lima, estão bem marcadas no interior, sendo visível o seu símbolo (uma borboleta ladeada por dois cisnes) em várias partes da casa. As festas e reuniões de ilustres entre os anos 1920 e 1940 foram seguidas de um período mais tranquilo sob a orientação de Maria Ulrich, filha de Veva de Lima, empenhada em actividades educativas e na Ação Católica. A esta senhora se deveu a iniciativa da venda da flor [vd. 2ª imagem] a favor das vítimas da 1º Grande Guerra (1914-1918), onde e sobretudo na zona da baixa lisboeta, senhoras elegantes vendiam e colocavam flores artificiais na lapela dos casacos de senhores.
Em 1980, o palacete é adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa e é criada a Associação Casa Veva de Lima, de acordo com os desejos de Maria Ulrich, para manter a tradições de encontros culturais e de espírito humanista iniciados pelos pais. 
À data da sua construção, o palacete desfrutava de uma magnífica vista, incluindo todo o Tejo, do nascente até à barra, bem diferente do aperto em que o colocaram as construções modernas. ²

Venda da Flor, iniciativa da escritora Genoveva da Lima Mayer Ulrich, ao centro) a favor das vítimas da I Grande Guerra [1917]
Rua Áurea com a Rua do Comércio
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
¹ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 72.
² in agendalx.pt/Tomás Collares Pereira.

Wednesday, 1 November 2017

Dia dos Fiéis Defuntos, dos Finados, dos Mortos ou das Almas

A  igreja catoliciza celebra nos dois primeiros dias de Novembro do as festas principais. A primeira em honra de todos os Santos, e a segunda em comemoração dos defuntos. A origem da festa de Todos os Santos remonta ao principio do século VII — No ano de 607 o papa Bonifácio IV, havendo obtido do imperador Phocas o celebre templo chamado o Pantheon, o purificou e dedicou à Virgem e aos mártires. Ora como o nome de Pantheon significa templo de todos os deuses, e que efectivamente naquele soberbo edifício se viam os simulacros de todos os falsos nomes do paganismo, que foram substituídos por outras tantas imagens de diversos santos, o povo conservando a memória do antigo titulo, lhe ficou sempre chamando o templo de todos os santos. Ora como não era possível festejar separadamente todos os santos, cujas imagens ali se veneravam, o papa lembrou--se de instituir uma festa só para todos os santos, que desde então se ficou celebrando em Roma, porém, foi somente nos primeiros anos do século IX (835 d.C.) que o papa Gregório IV. mandou que esta festa fosse recebida em toda a cristandade, e celebrada no 1.º de Novembro.
A comemoração dos defuntos foi pela primeira vez celebrada, no décimo século, por Santo Odillon, abade de Cluny (998 d.C.), e brevemente se espalhou por toda a França, mas foi mais de um século depois que a igreja universal a adoptou [foi, porém, no século XIII que esse dia ganhou uma data definitiva: 2 de Novembro]. ¹

Tomando emprestado ao texto do clássico Diccionario  da  Lingua  Portugueza de António de Morais Silva — a mais importante referência na história da lexicografia portuguesa dos últimos 200 anos — a definição para o termo morto encontramos o seguinte:
§, Morto, Defuncto, Finado, empregão-se estes tres vocabulos para significar o homem, que cessou de  viver: esta é a sua synonymia: mas cada um delles exprime por diferente modo a mesma idéa. Morto é o termo proprio, com que significamos precisamente o estado de um ser, que deixou de ter vida; e por isso se diz genericamente não só do homem, mas tambem dos animaes, e ainda de outros seres em que consideramos vida: assim dizemos homem morto, animal morto, planta morta, fogo morto, etc. Defuncto e finado são termos figurados, que empregamos, por eufemismo, em lugar de morto, mas sómente fallando do homem. V. Synonymos por D. Fr. Francisco de S. Luiz, t. 2. pag. 127.] ²


Praça Dom Pedro IV, funeral [etre 1903 e 1908]
Rossio, lado poente; a seguir à loja com o toldo, começa a Calçada do Carmo

Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House
(*) local não identificado no arquivo

Para aligeirar o tema lançamos mão de um antigo conto — Os Mortos na Crendice Popular por Adelino Reis de Sousa — cuja história reza assim:

Amanhã, tia Micaela, é dia dos Fieis Defuntos. Os sinos: tlin... tlão... tlin... tlão... enchem-me a alma de tristeza.
— E a mim, também, tia Brígida; mas que lhe havemos de fazer? Dizem que neste dia, os mortos se levantam dás sepulturas e vêm, à hora da meia-noite, visitar a família.
— O ano passado, tia Micaela, pareceu-me ouvir uns passos na cozinha.
— Talvez fosse o seu defunto homem. — Se fosse, ele, vinha ter comigo e contava-me se a sua alminha está em bom ou mau lugar. Amanhã, tenciono ir ao cemitério pôr-lhe um ramo de flores na campa. Vou de dia, porque o ar da noite é muito perigoso.
— A tia Zefa do Cantinho morreu, há três anos, com um ar que lhe deu, ao passar à meia-noite, pelo cemitério. Tinha ido, já bastante tarde, ao moinho das Pedras Brancas, buscar uma saca de farinha para cozer o pão, no dia seguinte, de madrugada. No moinho demorou-se muito a tagarelar com a mulher do moleiro. Quando voltava, para casa, passou junto do adro da igreja, que dá para o cemitério. Vinha fatigada, porque a saca era de dois alqueires. Pousou-a no chão, para descansar um pouco. No relógio da Torre dava meia-noite. De repente, olhou para o adro e viu, uma grande procissão: muitos homens vestidos de branco, com uma tocha acesa. — «Ora, esta! cochichou, consigo, a tia Zefa; — uma procissão, a estas horas da noite?!» — Lembrou-se, então, que era dia dos  Fiéis Defuntos. — «E se eu pedisse, a algum deles, que me ajudasse a levantar a saca?» Dito e feito. Aproximou- .se, e disse para um: — «Ó tiosinho, ajuda-me a pôr esta saca à cabeça ? — «Não posso, respondeu o defunto; estou muito fraco, morri de maleitas.» A tia Zefa reconheceu, entre os defuntos, um compadre, que tinha morrido havia três anos. Dirigiu-se a ele: — «Ó compadre, ajuda-me a pôr a saca à cabeça?» O compadre saiu da procissão e foi ajudar a comadre a erguer a saca, e disse-lhe:
— «Ó comadre, não lhe torne a suceder outra. Vocemecê não sabe que é um grande perigo passar pelo cemitério, a estas horas, e principalmente, na noite d'hoje? Adeus, não me posso demorar. As sepulturas ainda estão abertas, mas vão fechar-se. Dê muitas recomendações a minha mulher, e diga-lhe que a minha alminha está em bom lugar.»
— «Adeus, compadre, e obrigadinho.:.».³

Rua Alexandre Herculano, carro funerário [etre 1903 e 1908]
]Casa Ventura Terra
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House
(*) local não identificado no arquivo

Bibliografia
¹ Archivo Popular, Vol. 2, p. 376, 1838  
² Diccionario  da  Lingua  Portugueza de António de Morais Silv, t. II, 183
³ REIS de SOUSA, Adelino, Contos prosápias e facécias, p. 12, 1960
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