Friday, 27 October 2017

Cinema Tivoli

Pois — enfim! — retomemos a linha da Avenida.
Fazendo esquina para a Rua de Manuel de Jesus Coelho ergue-se o Tivoli, um dos melhores cinemas de Lisboa, inaugurado em 1924. (Arquitecto Raúl Lino, construtor F. Touzet).  
Antes do Tivoli ser construído funcionou na parte do edifício, hoje [1939] ocupado pelo Salão do Cinema, um «Teatro Novo», tentativa de renovação modernista da literatura teatral, e cujo êxito foi nulo — uma aventura da escola nova. ¹

Cinema Tivoli  [1928]
Avenida da Liberdade, 182-188; Rua Manuel de Jesus Coelho, 5-13
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do jornal O Século

A inauguração — em 30 Novembro de 1924 — foi marcada pelo «super-film» de opereta «As Violetas Imperiais» com a famosa Rachel Meller — e, em 1927, um inquérito d'«O Século›» recolhia a opinião quase unânime dos leitores a favor da nova e luxuosa sala.Quando o Cinema Tivoli, situado a meio da Avenida da Liberdade, foi inaugurado, a comunidade cinematográfica lisboeta temeu o pior. Como poderia vingar um cinema de estreia tão grande e tão moderno, mas situado tão longe do centro da cidade e da vizinhança das outras salas de estreia, concentradas desde os anos 10 entre a Baixa e o Chiado? Os receios de inviabilidade económica eram tão grandes que as três distribuidoras então existentes resolveram durante algum tempo partilhar entre si os custos do aluguer de filmes ao Tivoli porque estavam certas do fracasso de uma sala situada tão longe do centro.

Cinema Tivoli  [1935]
Em cartaz, As pupilas do Sr. Reitor
in Arquivo do jornal O Século

(clicar para ampliar)
Mas passados alguns meses de excelente programação feita pelo próprio arquitecto do edifício, Raul Lino, o Tivoli destronava todos os outros cinemas e era consagrado pela crítica e pelo público como a sala mais cómoda e mais elegante de Lisboa e aquela onde passavam os melhores filmes europeus e americanos (ali estrearam «Os Nibelungos» de Fritz Lang, «O Último dos Homens» e «Aurora de Murnau», «A Sinfonia de uma Capital» de Ruttmann, «Nanook«de Flaherty, «A Quimera do Ouro» de Chaplin e muitos outros filmes de Wiene, Stiller, Sjöstrom, Dreyer, Lubitsch, de Mille, Feyder, L’Herbier, Epstein e von Stroheim).

No início dos anos 30, porém, os cinemas suscitaram o interesse de alguns arquitectos e alguns edifícios surgiram então como mais um terreno de experimentação modernista com fachadas cegas de betão e elementos decorativos «art-déco» em ferro e vidro, como o cinema Capitólio, obra fundadora do efémero modernismo arquitectónico português.

Pessoal do Cinema Tivoli [1933]
in Arquivo do jornal O Século
(clicar para ampliar)
Em Lisboa, o primeiro grande exemplo deste novo tipo de edifícios foi justamente o Tivoli, traçado por um reputado arquitecto e cujas dimensões, lotação e planta em gaveto à Avenida da Liberdade, lhe deram uma relevância urbanística até ali inédita naquele tipo de equipamento e percepcionada como tal, já à época, pelo menos na imprensa especializada. ²

«Planeada a sua construção em moldes genuinamente americanos e ingleses, o Tivoli, não sendo luxuoso, porque tais luxos são sempre supérfluos, abunda em fórmulas práticas. Conforto e decência. A sala é ampla, como amplos são os lugares, os corredores e escadarias. Para encurtar palavras diremos que nenhuma capital do mundo desdenharia de ter um cinema como o Tivoli, conquanto os haja de maiores dimensões, mas não mais confortáveis nem mais atraentes, pela sua impressionante sobriedade. Está-se bem no Tivoli, e estamos certos que todos concordam com a nossa opinião». ³

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Bibliografia
¹  ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 38-39, 1939.
² RIBEIRO, M. Félix , Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa, 1896-1939, pp.141-146-.
³ «Tivoli», s.a., Porto Cinematográfico, ano VI, n.º 5, Dezembro de 1924, p.27.

3 comments:

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